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Os Guerreiros de Monte-mor (1)

NILTO MACIEL

(Editora Contexto, São Paulo, SP, 1988)
Romance


SONHOS ESTRAMBÓLICOS


Criado ao embalo das conversas espalhafatosas e dos sonhos estrambólicos do pai, João da Silva Cardoso aprendeu muito cedo a enxergar o Japão pelos buracos que cavava na terra. Antes mesmo de vestir a primeira roupa, já escavacava o terreiro, a chafurdar se, como seus amigos cabeças baixas, à cata de minhocas. No dizer do pai, o menino procurava restos de facas e facões, predestinado que havia nascido para guerras e descobertas.
– Puxou a mim.
Micaela se zangava por ver o filho sempre emporcalhado. Aquilo não era brincadeira de cristão, só podia ser obra dos conselhos de Antônio. Terminava fazendo uma arte.
Já taludinho, João voltava de suas chafurdices armado de facas amoladas, pronto a experimentá las na barriga dos bichos. Volta e meia, aparecia um porco a arrastar as banhas pelo terreiro.
Não brincava, o dia todo a cavar buracos, feito peba, a procurar o ferro que os antepassados nunca viram, apegado às coisas da terra, às pedras mais brutas da serra, metais preciosos aos olhos de Antônio.
Grudada ao tear, Micaela tecia panos para redes, batendo o facão nos fios de caroá.
– Olha aí esse menino, Antônio.
O pai alertava, assustado, aos gritos da mulher, largava o facão que amolava constantemente e punha se a discorrer sobre a importância do ferro e do aço. Sim, cavasse o filho aquele chão rico, rasgasse aquela terra de futuro, não seguisse o exemplo dos tios e primos, uns comedores de peixe. E saía pelos caminhos, a demorar-se em longas conversas sem pé nem cabeça, com quem quer que fosse, a anunciar as maravilhosas descobertas e inacreditáveis invenções de Joãozinho: grutas cheinhas de metais, sinos tonitruantes, capazes de acordar os sertões mais afastados para as missas e novenas, instrumentos que atraíam chuvas e até armas para a guerra sertaneja que se avizinhava.
Enquanto o pai imaginava guerras próximas e relembrava as do passado, João coscuvilhava tudo, cutucava o terreiro com cacumbus trazidos nas enxurradas, à cata de metais. Cresceu assim, extravagante, cheio de manias, até se tornar na velhice tal qual Antônio: um fazedor de guerras nunca desencadeadas.
Até no jeito fácil de seduzir as pessoas, João se parecia com o pai, que tirava do nada uma escopeta, falava como príncipe e não tinha medo nem de assombração. Sabia onde dormiam os ossos dos antepassados e conhecia, ponto por ponto, a história da vila de Monte-Mor.
Alguns levavam muito a sério a lengalenga de Antônio e, por isso, o respeitavam e acreditavam estar diante de um homem mais do que sabido, leitor dos Doze Pares de França, do Lunário Perpétuo e de aventuras em terras de reis, mágicos e monstros.
Criado assim, a cada pôr do sol mais João se fazia cheio de novidades. Até acreditar se herdeiro da guerra de seus antepassados indígenas e príncipe de um reino desfeito.


CABEÇA COBERTA DE BORBOLETAS

Antônio se admirava da sabedoria precoce de João e o via em façanhas mais espetaculares do que as por ele mesmo imaginadas. Aquele menino ia virar o mundo de pernas para o ar.
Micaela, sobressaltada com tanto despropósito, não sabia a qual dos dois culpar por barrer as galinhas e enxotar as bananeiras.
– Mulher, esse menino vai ser um príncipe.
Ao redor do tijupá, uma praga de frangotas para três ou quatro galos reinantes, cristas da cor de urucu, esporões de espetar cururu, penas bonitas que nem o arco da velha. Para todos os lados, pencas e pencas de banana, pendendo sobre os chifres dos bodes, jacas apodrecendo aos pés dos bacorinhos cansados de carregar tão pesada gordura. Tanta coisa por fazer e Antônio aéreo, a mandriar feito um moleque, a levar Joãozinho para o inferno de suas guerras, e enfiar histórias na cabeça do pobrezinho.
Sua voz zunia como abelha nas oiças de Micaela, doida para meter a tramela no meio, acabar com aquele tormento. O bichinho terminava perdendo o juízo de tanto ouvir aquelas falas complicadas. Antônio, no entanto, não ligava para os temores da mulher. Não ia deixar o filho na ignorância, sem saber do massacre de seus bisavôs, aprendendo só reza e sim senhor. Nem era uma vez uma vaca chamada Vitória.
Satisfeito com as danações do filho, Antônio saía para trabalhar com assobio nos lábios e a cabeça coberta de borboletas. O homem mais feliz do mundo, marido de mulher parideira, pai de um menino danado de sabido. Por onde andava, anunciava prodígios, invenções, traquinadas de Joãozinho. Quando crescesse, só podia ser um inventor.
– De armas, compadre.
E perdia o resto do dia a falar de guerras nativistas, exércitos de índios, armas de todo tipo e do nunca morto país dos jenipapos, a ser restaurado brevemente.
A vila, desta não ia restar sequer uma palha. Tudo devia ser queimado, destruído pela raiz. Morte a todos os invasores, a começar pelos padres.
– E onde a gente vai viver?
Quem fosse jenipapo ficava na serra mesmo, os canindés voltavam às suas terras, assim como os quixelôs e os outros índios. Cada tribo no seu lugar de origem. Nada de mistura. Amizade, sim, união durante a guerra e quando fosse necessário.
Micaela se aborrecia com o falatório do marido, sua mania de achar graça em tudo o que partia do filho, suas louvações exageradas. Antônio, porém, não dava ouvidos às reclamações dela, antes procurava acalmá la com abraços e beijos. Gostava daquela filha do velho Domingos Carneiro, cabocla bonita, primeira e única paixão de sua vida. Nunca se entusiasmou por donzela branca, de olhos azuis e cabelos de milho. Agradavam lhe as cabrochas e índias. Gente de sua cor, de seu feitio. Misturar seu sangue com o daquela gente orgulhosa? Isso nunca, nem que tivesse de viver o resto da vida só.
– Deus me livre desse castigo.
Mulher de fibra, a sua. Trabalhadeira, limpa, honesta. E os filhos? Cheios de saúde, espertos, como Joãozinho. Vissem, mal andava e já procurava trabalho.
– Cave, meu filho, cave esse chão.
E o menino cavava, o tempo todo a meter as unhas na terra, a disputar aquele prazer a porcos e galinhas.
Micaela aparecia à janela, resmungava, espiava com ódio para o marido e com pena do filho. Deixasse o menino ir dormir, aquilo não eram histórias para crianças.
Noite alta, no escuro da casa, só se ouviam grilos e cururus, mas a boca de Antônio continuava rezingando gestos de rebeldia e o peito de Joãozinho inchava de não poder também falar do passado.
No outro dia, o terreiro amanhecia cheio de buracos, onde as galinhas se enterravam e os porcos metiam os focinhos. Ao primeiro canto do galo, Antônio abraçava o matolão e carregava para o mato as ferramentas de sua vida: as histórias que nunca acabavam e os metais que o filho procurava.

PRIMEIRAS ARMAS

Desde menino, especializou se Antônio no manejo do facão rabo de galo e da lacambeche. Mal podendo com o armamento, metia se no mato, para fugir à tirania do pai. Não aceitava ser instruído para soldado de padres e portugueses. Havia de ser ainda um guerreiro. Na sua cabeça vagava o sonho de expulsar padres, sesmeiros, soldados, todos os estrangeiros. Voltar à vida livre da mata, ser índio como os antigos, perdido no meio daquela serra verde.
Chegada a ordem de na aldeia só poderem falar em português, revoltou se mais ainda. Burlava a lei: às escondidas, conversava na língua dos jenipapos, para espanto do pai e dos outros. Os amigos fugiam de sua companhia, temerosos de castigos. Metia se, então, nas brenhas e conversava horas a fio com bichos e plantas, a lembrar os tempos de outras fugas. Sim, antes fugia aos olhares do pai, para não exercitar a língua, mas os músculos. E os tornava duros de tanto ferir e torar pés de pau. Partia ao meio mulungus e mungubas, como se rachasse gigantescos inimigos, brabo feito uma canguçu, molhado de suor, a rilhar os dentes, cansado.
Passada a fúria, largava o facão, sentava se sobre os troncos derrubados e os alisava, arrependido de não haver abatido um só guerreiro.
Doutras vezes, munia se da arma de fogo do pai e saía à caça de bichos. Perdia se no meio da serra, como um selvagem, escondia se detrás de sambaíbas e samaúnas, espingarda pronta para matar. Aparecia um maracajá, envesgava os olhos e atirava. O animal caía a retorcer se. Mas como carregar um baita daqueles para casa? Deixava o então para os urubus e corria em perseguição de outra fera. Avistava o vermelho do lombo de um garapu, preparava o tiro e disparava bem no meio dos chifres.
Satisfeito, punha se a passear entre as caças, atoleimado, esquecido do tempo. Cuidava, era tardinha, e cadê o rumo de volta? Ia e vinha e nada de encontrar o caminho da aldeia.


BIGODE, BARBA E PAIXÃO

Alcançada a fase de bigode e barba, sempre ralas, apaixonou-se Antônio pela cabocla Micaela. Casado, aceitou a oferta do padrinho dela: vigiar a sesmaria com o dedo no pinguelo e plantar um roçadinho ao redor do tijupá que levantasse. Coisa melhor não podia arranjar. Ora, Domingos Carneiro possuía terras e escravos e – diziam – era o pai de Micaela. Escolheu bem o lugar onde ia erguer as paredes de taipa e arregaçou as mangas.
– Adeus, aldeia.
Não precisava da proteção de ninguém, nem do pai nem do padre. Se havia de trabalhar para estrangeiros, trabalhava sem intermediário, certo da atitude que tomava, sem conversa fiada. Além do mais, um dia podia tomar todas aquelas terras e devolvê las ao seu povo. Bastava uma facada. Ou nem isso: uma picada de cobra no calcanhar do sesmeiro, e herdava tudo, como quase genro.
O pai aprovou lhe o casamento: sim, se apegasse a quem tinha posses. E vivesse no seu cantinho, sem amizade com aquela caboclada sem eira nem beira, fuxiqueira e desordeira. Plantasse, criasse e fizesse muitos filhos. Valentia não dava vida a ninguém. Não viviam mais na era das bombardas, não senhor. Havia conhecido tios, primos, irmãos e outros parentes impetuosos, danados, que saíram de casa para incendiar fazendas, matar bois e portugueses e nunca voltaram. Ficaram nas encruzilhadas, nas beiras dos caminhos, nas grotas e viraram carniça para os urubus. E os últimos, quando compreenderam que lutavam contra inimigos mais armados e numerosos, se inquietaram com as próprias sombras e se perderam nas matas, desgarrados uns dos outros, assustados feito onças caçadas. Depois, na época da Missão, viu outros se iludirem com o passado, com o canto dos pássaros, com a voz dos bichos, com o chiar das águas, e repetirem o erro dos massacrados. Como ele, Antônio, um doido, com aquela mania de andar armado, desafiar o rei, os padres e sesmeiros. Ainda bem que havia mudado. Continuasse assim.
Apesar da aparente transformação, Antônio não concordava com o pai. Para ele, o aldeamento, antes de garantir a sobrevivência dos índios, apenas facilitou a invasão das terras pelos brancos. E fora delas não existia vida. Visse: quantos jenipapos ainda viviam? Mais alguns anos e não restava mais nem um.


NASCIMENTO DE JOÃO

Mais do que cuidar do roçado, Antônio gostava mesmo era de correr os campos montado na mula dada como dote pelo padrinho de Micaela. Cumprir a obrigação de vigiar as terras do patrão, impedir abusos dos vizinhos, dos cabras dos outros sesmeiros. Andava para cima e para baixo, facão pendurado à cintura, espingarda à mão.
Quando Micaela ficou buchuda pela primeira vez, tomou umas talagadas e relembrou as presepadas da meninice. Correu no rumo das pacoveiras, tirou cachos verdes, gritou heresias.
– Isso é tudo meu.
Espantada, Micaela chorou e pediu a proteção da Virgem Maria. O homem parecia estar com o diabo nos couros. Só se ouvia o gemido do mato caindo aos seus pés, num estrupício de dar medo. Depois, como se sentisse covarde de brigar com quem não podia largou o facão, apanhou a espingarda e investiu contra as galinhas que ciscavam no terreiro. Prometia à mulher muitos caldos para o seu resguardo.
Chegadas as derradeiras dores, ela se queixou da vida, derreteu-se em lágrimas, apelou para a mãe de Deus.
– Não passa de hoje, Antônio.
Ao quebrar da barra, ele saiu. Tarde cedo, nem sinal de voltar. Aperreada, ela via a hora de parturir sozinha, desamparada. Lembrou se da finada mãe, acocorou se e Joãozinho saltou para a vida.
Pôr do sol, Antônio assomou à soleira da porta, feito visagem. Xambregado, trocava as pernas, falava à toa. Gritou pela patroa e se deixou engolir pela choupana, devagar, escorregadio, suado. Regressava de seu mundo sem tamanho, cheio de monstros e inimigos traiçoeiros, em busca do descanso das trevas.
Sentada na rede, Micaela dava de mamar ao curuminzinho, aquele pedaço de gente de olhos de passarinho e jeito de peixe.
Na parede, uma vela de cera alumiava mal a camarinha.
– E são dois?



GUERRA NATIVISTA

No fim da vida, Antônio esqueceu de vez a enxada e, quando olhava para aquele pedaço de pau enfiado num gume, fazia perguntas bestas sobre a utilidade daquilo. Não tinham mais o que inventar. Parecia um pé amolado, arma de cortar canela. Sim, pensava em melhorar aquilo. Em caso de necessidade, melhor do que baladeira. Micaela, entretida sobre a almofada, duvidava dos próprios ouvidos. Sabia lá de que falava o marido! Fosse com suas caduquices para o diabo.
Se mencionavam o nome do padrinho de sua mulher, Antônio ora o cobria de mil apelidos, de ribaldo para lá, ora negava tivesse algum dia servido a tal senhor.
– Por acaso já fui negro cativo?
Muito menos de um infeliz de igual nome. Fosse para a baixa da égua.
Do filho do antigo sesmeiro, nem queria saber da existência, como se vivesse em terras de ninguém. Se existia, estava morto. Vivos só ele, Micaela, filhos, netos, outros.
Há muito o mundo era de guerras a serem desencadeadas e a ele competia detonar uma delas – a mais esperada e prolongada.
Inventava armas, facas destinadas aos lombos brancos e roliços das reses da terra, balas doidas dirigidas atrás das almas danadas dos tinhosos que infernizavam a vida dos cristãos sem sorte. E fazia tenção de arregimentar não sabia quantos terços de caboclos, cafuçus, sararás. Quem quisesse inchar nas apragatas e tocar fogo no reino.
Primeiro pisava no cangote do filho de Domingos Carneiro, tão temido pelo povo, para todo mundo ver e criar esforço. Se o bicho estrebuchasse, enfiava o cotruco nos peitos lá dele. Deixava o caminho limpo e mandava a parentada do coisinha boa dar de marcha. Depois, ajuntava os regimentos e descia a serra no rumo daquela tiborna de vila. Cabra ardido, ia na cabeça, arrastando a tropa, como seu finado avô no tempo das guerras do sertão. Tudo igualzinho a antigamente. Não ia negar a tradição, o sangue, custasse o que custasse. Esse negócio de ficar dando ordens de longe, com medo de bater a bota, ficava para covarde. Queria guerrear de mesmo e mostrar àqueles mequetrefes que os jenipapos estavam vivinhos da silva. Se pensavam terem vencido a guerra, acabado com os moradores daquelas matas, se enganavam. A luta ia recomeçar, com o mesmo espírito dos antigos, para vingar os mortos à traição, retomar as terras e expulsar os lordaças.
Cercavam a porcaria da vila, ninguém escapava pelos fundos. Se não queriam seribolo, para que meteram o focinho onde não foram chamados? Quem não é de briga, não abre encrenca. As autoridades que se paramentassem para a morte e não fossem bancar os espertos, mandando só as ordenanças para o campo de batalha. Exigia a presença do capitão mor na linha de frente, de preferência fardado da farda mais bonita e armado de tudo quanto fosse arma. Aparecesse também o resto do naipe: vereadores, juízes, almotacés, alcaide, tabelião, carcereiro, procurador. Nenhum podia alegar dor de barriga, reumatismo, falta de ar, qualquer doença. Em tempo de guerra, até aleijado tem de correr.
Terminada a batalha, que podia durar até tarde da noite ou mesmo se estender pelo outro dia, dependendo da resistência dos inimigos, dissolvia oficialmente a câmara, se apossava das armas dos defuntos, derrubava uma a uma as casas, acabava com Monte-Mor. Quem quisesse passar para o seu lado, renegasse o próprio sangue e se alistasse no Regimento Cardoso.
A guerra devia ser prolongada, porque a província estava infestada de vilas e aldeias. Para onde se virassem e caminhassem, iam dar num amontoado de casas. E aí é que estava o problema: seguir no rumo do mar ou do sertão? Por onde começar a segunda etapa da guerra libertadora? Não lhe dessem palpites, ninguém viesse com sabedoria pro seu lado, que chefe só havia um: Capitão Antônio da Silva Cardoso.
Tinha mais: não se ia deixar matar de emboscada. Vivia de orelha em pé, desconfiado até da própria sombra. Quisesse ela aguarrá-lo pelo pescoço, dava um sopapo e cobria o sol com o facão de torar maçaranduba. Estava preparado para o que desse e viesse. Também ainda era durão, podia dar cambalhotas feito um curumim.
Sabia o que estava fazendo, tudo bem planejado. Ia ser como antigamente, no tempo em que não havia ainda o diabo daquela vila, nem bandoleiros de tocaia nos caminhos. Vigiasse lá de cima o avô e o orientasse. Porém ia fazer tudo sem aliança com ninguém.
– Sei lá como anda o espírito dessa gente do sertão!
Capaz de estarem rendidos, beijando as botas dos fazendeiros. Ele, não, preferia morrer a bajular marinheiro. Não ia se meter na catinga à cata de quem não conhecia. Só contava com os parentes e aderentes, gente de seu sangue.
Decidia: sem contar com aliança com nenhum outro povo, só ele e os guerreiros da Serra de Baturité, tomavam o caminho do sertão e arrasavam todas as vilas. Tomada a capitania, coroava se rei.


PROFECIAS E ANUNCIAÇÕES

Herdeiro de tão maravilhosas idéias, João Cardoso se sentia uma espécie de pai espiritual de seu povo em extinção. Antes de conhecer Monte-Mor, antes mesmo de transpor a cerca das terras de Domingos Carneiro, visitou ele todos os reinos do estrangeiro. Nessas visitas, conviveu com lobisomens, mouras encantadas, malazartes, bruxas, cabra cabriolas, gigantes, príncipes, o diabo a quatro. Cresceu, assim, ganjento, cheio de si, dizendo se superior a todos os matutos da serra, sabedor de tudo, do passado e do futuro. De fato, sabia de cor e salteado para lá de mil histórias em verso e prosa. Referia se aos antepassados, como se já tivesse vivido quinhentos anos, e anunciava a revolução nativista que, juntamente com um neto de nome José e um velho índio da extinta tribo dos xocós, devia realizar dali a meio século. Falava da miragem de um exército invencível, o exército do futuro país dos tapuios imaginado por seu pai, o Regimento Cardoso, o libertador dos povos nativos do Ceará, armado das mais poderosas e estranhas armas – uma infantaria voadora de morcegos. Prenunciava também o aparecimento na Serra de enormes bichos de cacunda, mistura de touro e girafa.
Da revolução ninguém tinha medo e até os meninos riam quando João desenhava no chão os orelhudos. Dos gigantes gibosos, porém, todo mundo fugia. Só podia ser sinal do fim dos tempos.
– E quando vai acontecer isso?
Dos ouvintes de João, alguns desejavam morrer antes da desgraça, outros preferiam viver até lá, para poderem enfrentar as feras, matá las e assim livrar seus filhos e netos de mais aquele tormento.
Duas ou três mulheres, no entanto, acreditavam que a mão de Deus não ia deixar os inocentes entregues à brutalidade dos animais – socando os de morte no primeiro minuto.
Muitos dos contemporâneos de João não tiveram o direito de ver os tais bichos de cacunda – assim como ele mesmo, que morreu antes da chegada dos dromedários.
Por todo o seu saber, João teve os apelidos mais invejados por cegos, cantadores e loroteiros. E até seu pai se embasbacava diante de sua sabedoria, embora também se dissesse sábio e revolucionário. Acreditava se Antônio Cardoso o culpado não apenas da existência do filho enquanto criatura de carne e osso, mas sobretudo das alarmantes anunciações saídas de sua boca singular.
– Esse menino adivinha as coisas, Micaela.
Às escondidas, porém, chorava por saber que não ia alcançar jamais o tempo das grandes novidades anunciadas pelo filho inigualável.


AMPARO E OS ROMANCES

Quando rapaz, desfrutava João de uma reputação sem limites junto ao povo, que o ouvia embasbacado, olhos fulgurantes de medo, mudo de tanto escutar sua prosa mirabolante. Para ouvi lo, ia ao sítio dos Carneiro gente de todas as redondezas, crente de estar diante de um enviado da sabedoria de Deus, um adivinho, um camões.
As moças saíam às escondidas de suas casas e corriam aos pés do João, ciosas de ouvirem novas e arrepiantes histórias de amor e heroísmo: era uma vez um mercador da cidade de Túnis, que comprou uma bela donzela, filha de espanhóis, muito católica, chamada Teodora...
Dentre as fascinadas ouvintes de João, havia uma de nome Maria do Amparo, que toda noite chorava enquanto ele contava seus romances.
Durante o dia, quando não se entretinha a meter as mãos em buracos, à cata de metais, mania que nunca perdeu, lia ou catava casos nas bocas desdentadas de parentes e aderentes. Boquinha da noite, desenrolava a língua para quantos ouvintes houvesse, até perder a noção das palavras e saltar dos romances às histórias para fazer boi dormir, inventadas à medida que perdia o fio da meada dos primeiros.
Em certa fase de sua vida, andou inquieto, descontente de tudo, descrente das profecias do pai, impaciente. Ora sentia ímpetos de buscar outras terras, para voltar famoso; ora descobria a pequenez de viver contando romances. Mas, como não soubesse fazer outra coisa, senão falar bonito, depois de ter escavacado todo o terreiro da meninice, não lhe despertava a coragem de enfrentar o mundo, e o máximo que conseguia era passear das terras de Domingos Carneiro à vila. E, quanto mais andava, mais cheio de falas ficava. Porém de outras falas, cheias de fatos e nomes novos. Aprendeu a falar mal do rei e da corte, feito padre ou estudante.
– Libertas quae sera tamen.
Ninguém conseguia mais entender suas histórias, então já sem amor nem donzela. Até Maria do Amparo havia parado de chorar e apenas o mirava com olhos inquietos.


INCONFIDÊNCIA E LOBISOMEM

Para os parentes, João só podia ser um maluco. Não passava de um frangote quando andou metendo na cabeça do povo aquelas notícias e idéias estranhas, vindas de muito longe. As primeiras soavam mais irreais aos bons ouvidos de seus amigos do que a Princesa Magalona e mais assustadoras às eficientes escutas das autoridades da vila do que a Revolução Francesa. As idéias, de tão deturpadas, mais pareciam alucinações de escavador de buracos.
Não tardou, se viu João cercado de ajudantes e bordoadas. Sexta-feira, noite de lobisomem, Micaela pôs se a chorar e fez o marido acordar toda a redondeza. Caçassem o filho desaparecido, antes que fosse tarde.
Estrada a fora saiu um exército bem armado, capitaneado por Antônio, que declarou guerra a todos os lobisomens da Serra de Baturité. Na primeira curva do caminho, encontraram o rapaz todo moído, ensangüentado e quase sem fala. Onde havia se metido o bicho? O ataque tinha se dado há muito tempo?
– Você conseguiu tirar sangue dele?
Desse dia em diante, João nunca mais abriu o bico para falar em mineiros. E voltou aos condes, sultões e donzelas. O que não desagradava Antônio. Porém tão decepcionado ficou o velho que durante o resto da vida jamais voltou a gabar o filho. Quando se referia a João, se não o chamava de cabra frouxo, pamonha ou mucufa, não lhe pronunciava o nome.
– Siga o meu exemplo.
Qual nada, queria lá saber de índios e revoluções! Ficasse o pai com suas caduquices.
Micaela zangava se com um e com outro. O marido devia esquecer de vez os sonhos da mocidade. Não havia mais índios, todo mundo era súdito do rei. E João respeitasse o pai.
– Seu pai ia fazer uma guerra, meu filho.
De noite, João inventava novas histórias de amor e guerra, para alegria de seus ouvintes. De Amparo, principalmente, que soluçava e enchia d’água os olhos, eternamente fitos naquele príncipe moreno.


CONSTRUTOR DE IGREJAS

João levava muito a sério a questão da raça, apesar de em suas veias correr sangue português. Sua mãe havia nascido de uma relação entre o sesmeiro Domingos Carneiro e uma índia jenipapo. Compreendia, no entanto, a impossibilidade de uma nova guerra, como desde menino ouvia seu pai pregar, e cedo se apaixonou pelos ideais dos inconfidentes mineiros, sentimento que lhe valeu bordoadas da guarda imperial.
Mal curou se dos ferimentos, desceu a serra e, sem dar um pio, foi direto à matriz, onde orou, ajoelhado diante da imagem de Nossa Senhora da Palma, durante um dia inteiro. Ao retirar se, o povo, doido para ver de perto o filho de Antônio Cardoso, enchia a praça, tal como no dia da inauguração da vila.
Antes mesmo da viração da tarde, já uma pequena multidão se postava à frente da igreja, curiosa, bisbilhoteira, zombadora.
– É o inconfidente.
Pelo pender do sol, havia subido a serra o primeiro pregoeiro a anunciar novidades em Monte-Mor: João da Silva Cardoso, o contador de lorotas, preparava se para subir aos céus. Com pouco, a praça virava feira: o cruzeiro enchia se de pencas de banana; no obelisco, penduradas em paus, cacarejavam dezenas de galinhas.
Finda a prolongada reza, João escapuliu pela sacristia e, tomando o rumo do mato, apressado e tonto, deixou a multidão apalermada.
– Ele voou para o céu.
Os mais incrédulos acreditavam ter ele se escondido dentro do sacrário. Mas, antes de o sol se pôr, dava João boas noites ao pai de Maria do Amparo. Mal recebido de início, pouco a pouco amansou o velho. Ia se dedicar a trabalho rendoso – o de construtor. Quis blasonar, mordeu a língua, cutucado pela voz do pai dentro das oiças.
Conversa vai, conversa vem, entraram no assunto principal – a mão da donzela. O dono da casa fez promessas, João dizia sim senhor. Não tocaram no caso da surra, nem em negócios de metal. Só no finzinho do entendimento, o rapaz fez resumo de um romance que falava da conversão de um príncipe à Santa Madre Igreja. E se despediram como velhos compadres.
Daí em diante, João virou freqüentador de igrejas e da casa do futuro sogro. Não dizia para ninguém, mas conduzia sempre um terço pendurado ao pescoço e, quando não conversava lorotas, rezava feito um penitente. Jurava a si mesmo que ia ser santo e ter altar só seu na matriz.
Virou e mexeu, noivou. Deixou os romances de lado e vivia ora na casa do sogro, ora aos pés dos santos.
Na primeira conversa mantida com o padre, falou da necessidade de mais igrejas e capelas na vila. O apóstolo concordou com suas opiniões e aproveitou-se delas para relatar o estado de pobreza da freguesia. A matriz precisava de reformas, vinho e hóstia. Aparecessem pedreiros e pintores, bem que Deus agradecia.
Ao beijar a mão do padre, João reafirmou sua fé e boa vontade. Podia o outro arranjar os trabalhadores e o material, e deixasse o resto com ele.
– Vou mostrar como se remodela uma igreja pai-d’égua como essa.
O reverendo levou o crucifixo aos lábios e olhou para o céu, sem palavras.


MILAGRE EM CANINDÉ

Andava o povo já esquecido de seus reinos perdidos, quando João anunciou a mais terrível notícia que podia dar ao pai: tinha em mente construir mais três ou quatro igrejas em Monte-Mor. Antônio enfureceu se, não podia acreditar nas palavras do filho, melhor vê-lo morto, estraçalhado por cem onças. Então gerava um macho para vê lo destruir todos os seus sonhos, todo o seu passado, uma vida inteira dedicada à luta contra os invasores estrangeiros? Isso, nunca! E durante todo o dia não parou de esbravejar. Ia e vinha pela casa, facão à mão, açoitando as bananeiras, chutando porcos e galinhas, sem comer nem beber, vermelho, trêmulo, cheio de ódio.
Não conseguiu dormir e, madrugadinha, levantou-se, remexeu nas ferramentas e plantou-se ao pé da jaqueira, para tentar fabricar a primeira espingarda com força de tiro de sua vida.
Às vésperas de seu casamento, João procurou o padre com uma planta às mãos. Tratava-se do projeto de uma enorme igreja, três vezes maior e mais alta do que a matriz, a ser erigida no lugar onde havia a Casa da Câmara.
Além da planta, carregava, mas na cabeça, para cima e para baixo, um manual de reorganização civil na vila, escrito ao longo de suas caminhadas. Em lugar do alcaide, um padre; em vez das ordenanças, beatos; igrejas e capelas em substituição aos prédios da administração. Monte-Mor passava a vila religiosa, capital do futuro país dos índios.
Ao tomar conhecimento dos planos de João, o pastor nem riu nem se exasperou – apenas indagou da ovelha se pretendia levar outra surra ou ser esquartejado.
Apesar disso, o filho de Antônio não desistiu de rezar, feito beato, nem de um dia construir uma igreja como jamais se tinha visto por aquelas bandas.
No dia do casamento com Maria do Amparo, ainda puxou conversa com o padre a respeito da igreja de seus sonhos. E, mal deixou a matriz, abençoado para sempre, partiu com sua cara metade para o sertão, sem dar satisfação a ninguém. Micaela chorou de indignação, mas Antônio consolou-a.
– É homem e vai longe.
Ao darem pela falta do casal, os pais de Amparo correram à casa de Antônio, nervosos, indagadores, preocupados. Queriam saber do paradeiro da donzela.
– Será que ele roubou nossa filha?
Na confusão, as duas mulheres, desesperadas e perguntadoras; o pai da moça, a exigir explicações; Antônio, a inventar histórias, entendeu cada um que uma voz poderosa indagava o destino do jovem casal. Calaram se, de repente, trêmulos, aflitos, ouças abertas para outros espaços.
– Foram chamados por São Francisco.
Encerrada a discussão, decidiram os quatro sair à procura dos filhos. Podiam ter se perdido no mato, estar feridos ou mesmo mortos. E se meteram na noite, candeeiros às cabeças, apressados e mudos.
Seguiam no rumo da vila e, no meio do caminho, Antônio, que ia à frente, parou, pôs se a gaguejar, tremer e arregalar os olhos. Apreensivos, os outros o cercaram de perguntas. Aos poucos, readquiriu a fala e jurou ter acabado de ver seu pai cruzar a estrada montado num caititu, nu, magro e banhado em prantos. E interpretava a visão: apareceu para amedrontá-lo, vingar se das dores de cabeça sofridas por sua causa.
– Valha me, Deus!
Micaela benzia se, rezava, implorava à Virgem Maria para afastar o capiroto das costas do marido. Sim, só podia ser isso, Antônio tinha pauta com o Tinhoso.
Alarmados com a revelação, os pais de Amparo voltaram às carreiras para casa, abandonando Antônio e Micaela à mercê dos capetas.
Enquanto seus pais se ocupavam de visagens, João e Amparo se pasmavam diante da capela de Canindé, em construção. Sobretudo ele, já definitivamente convencido da impossibilidade de erigir sozinho tamanha obra. E, hipnotizados, mal tiveram tempo de procurar uma pousada onde pudessem desfrutar a primeira noite.
Manhã cedo, ainda estarrecidos, João arranjou modo de trabalhar como ajudante de pedreiro, na obra da capela. Escalou os andaimes tortuosos, tremendo de emoção. No alto, conheceu o pedreiro Antônio, de quem se fez logo amigo e confidente. Contou histórias do arco da velha, expôs seus planos mirabolantes, enquanto fazia massa.
À noite, arranchado com a mulher nas proximidades da construção, copiava no chão o desenho que se esboçava no céu. Amparo o interrompia para conversas de casal, cheia de dengues.
Deitavam se cedo e, em vez de conhecer a mulher, João se entretinha a passar o dedo nos desenhos da rede. Fazia o quê com aquela unha suja de barro?
Madrugadinha, saltava da fianga, ficava por ali, esperando que Amparo fizesse o fogo. Mirava a barra do dia, engolia o café escoteiro e saía para a labuta, para a prosa sem fim com o pedreiro, para a realização parcial de seu sonho.
Deu se então de, num dia de muita poesia, o companheiro perder o equilíbrio, desprender se das tábuas e voar. Mas, antes que se esborrachasse feito melancia, João olhou para o sol, fez o pelo sinal e gritou o nome de São Francisco. Fechou os olhos, ouviu o amigo repetir o nome do santo e olhou para baixo. Lá estava o pedreiro, preso pela camisa a uma tábua próxima à janela do sino.
Depois disso, João como que perdeu a crença em quase tudo. Menos em si mesmo. O que imaginava, achava que podia fazer. Até uma revolução.


NASCIMENTO DE PEDRO

Decepcionado com a previsão do término da obra, com o companheiro, um mal agradecido que nem sequer lhe agradeceu a invocação do nome de São Francisco, com o falatório do povo, com tudo, enfezou se e arribou de volta à Serra. Aquilo terminava no chão, não podia durar muito em pé. Não rogava praga, não desejava mal a ninguém, muito menos à religião, mas apostava no desmoronamento da construção. Partia para não ver a desgraça e também para não falarem de mau olhado. No mais, outros planos, muito mais fabulosos do que o de construir capelas, fervilhavam em seu quengo. Como o de fabricar um engenho que substituísse o espinho de mandacaru e o cordão para a costura de roupas. Coisa de deixar com água na boca toda mulher. Porém isso ficava para depois. Não valia a pena se dedicar a invenção tão besta. Porque pressentia um acontecimento extraordinário em via de se dar em sua terra. E mais: sem ele, tudo podia acontecer, porém jamais revestido de importância. Como explicar? Essa novidade esperava por ele. Nem podia imaginar se se tratava de uma desgraça. Uma revolução, um vulcão, a vinda do cão? Não, não, não. Andava com uma mosca na orelha, só isso. A fala de Amparo?
Antes de pisar de novo o chão da vila, buscou a casa paterna. Tomou bênçãos, pediu perdões, escutou choradeiras e repreensões, entrou pela noite a contar aventuras. De manhãzinha, plantou estacas a dois passos da casa de Antônio. A choça onde queria morar. E a zoada ainda no pé do ouvido. Procurou seguidas vezes o pai para contar o segredo. Sondava o com os olhos, sem coragem de abrir o peito, obrigado a ouvir longas conversas. Com pouco, já gostava de estar diante do velho, interessava se pelos seus planos.
Antônio desenhava no ar as formas de uma escopeta, explicava a feitura e o manejo da arma, o tempo todo a mexer e remexer nos velhos facões. Micaela distraía se nos punhos das redes, doida para não ouvir nada do que dizia o marido, resmungona, cantarolante. Quando menos esperava, um papoco de assustar até as galinhas explodia no terreiro, na sala, na camarinha, na cozinha, no mundo. Que diabo era aquilo? Antônio imitava, com a boca, tiros de escopeta.
Durante os primeiros dias, agüentou João as conversas do pai, mas logo se impacientou com a mosca a zunir nas suas oiças. Não sabia por onde recomeçar a vida. Imaginava tudo – e nada de avistar o fio da meada. Acreditava numa estrada longa e larga e em si mesmo a caminhar sempre e sempre. Nessa crença, um dia deixou Antônio a falar só e desapareceu.
Preocupadas, Micaela e Amparo paravam os caminhantes para saber notícias dele. Filho ingrato, homem irresponsável!
Aos poucos, os primeiros indícios de seu paradeiro: comprava e vendia animais nas feiras. Onde? Longe, nos sertões, nos confins do mundo.
– Vai enricar, comprar fazendas e gado.
As segundas notícias falavam de encrencas, metido com bandoleiros, arruaceiros, bebedores de cachaça, matadores por qualquer bom dia mal dado.
Porém João não se assustava diante do novo mundo, antes abria mais os olhos para ver de perto todos os acontecimentos de seu redor. Registrava na memória invasões de feiras pelas forças-de-linha, à cata de cabras que, com as fraldas das camisas fora das calças, ostentavam facas e cacetes. A ordem era desarmar todo mundo e, quando o volante obrigava os cabras a passar o pano, se abria o maior cu de boi.
Não presenciou João apenas a um caso de morte. Muitas vezes se viu no meio de brigas formidáveis, facadas, cacetadas, tripas no chão, sangue a inundar as praças.
Com pouco, afeiçoou se mais a facas e animais e inventou de cortar carne. O sangue já não lhe parecia estranho. Mas, como não tivesse jeito para o comércio, perdeu todo o dinheiro ganho nas feiras e saiu de vila em vila, em busca de outros meios de vida. Cuidou, pisava de novo as ruas de Monte-Mor. E lembrou se da mulher deixada sob a guarda de Antônio e Micaela.
– Estou prenhe.
Alegrou se, matou o bicho e fez versos. Contou o visto e o não visto, cheio de rimas e métricas. Porém precisava voltar. Ficasse Amparo a fazer redes, adjutorando a mãe.
Tomou o rumo da primeira longa viagem, das feiras, para cantar o nascimento do futuro Rei Pedro.
Três meses depois nasceu Pedro Cardoso.


POESIA E SALITRE

Contou João o destino de seu primogênito – rei do venturo país dos jenipapos – antes mesmo de Pedro nascer. Alimentava o de aventuras, enquanto Amparo esfriava papas ou cantava cantigas de ninar.
Nas suas cantorias, dava João ao filho estatura de gigante, poderes de herói, idade de monarca. E os portugueses que o escutavam batiam palmas, crentes de ouvirem louvores ao pequeno filho de D. João VI.
Enquanto João perambulava pelo sertão, Antônio varava as terras de Domingos Carneiro a falar do filho mirabolante, a contar lorotas, e Micaela ensinava à nora a arte de fazer redes.
– Pegue o fuso.
De vez em quando, ela mesma se distraía, ficava parada, olho grudado na espetadeira.
– Preste atenção, menina.
Quando menos esperavam, regressou João definitivamente e a perguntar por Pedro. O moleque não o conheceu e quase morreu de chorar com os carinhos desastrados do pai.

Nos dias seguintes, não fez outra coisa senão versos, onde cantava suas próprias imaginadas façanhas.
– Esfolei um cabra a faca
numa feira em Barbalha
só porque comeu da jaca
que eu levava na cangalha.

Micaela e Amparo ouviam e gargalhavam, alegres de terem em casa um cantador tão cheio de novidades. Antônio não se cansava de bater perna pelos sítios, a boca entupida de guerras maravilhosas e armas desconhecidas.
Enfastiado da pequena platéia, vez por outra João corria à vila, para cantar seus versos. Numa dessas viagens, deu de cara com o famigerado naturalista Feijó, o português que procurava metais no Ceará.
E novamente sua vida mudou. Afinal, conseguiu espantar a mosca de detrás da orelha. Bem que o pai tinha dito: teu destino está no chão, nos buracos da terra.
Não pôde acreditar nos próprios olhos, queria apalpá los, mas temia perder a oportunidade de ver o homem dos metais em carne, osso e sangue. Fez força para não pestanejar e ganhou a batalha contra a dúvida. A princípio, nenhuma palavra conseguiu jogar fora da boca. Apenas sorriu, sorriu, sorriu. Feijó franziu a testa e pôs se a andar.
– Agora posso eu dizer e jurar e apostar que estou na terra da sandice.
Ainda a sorrir, João seguiu atrás do naturalista, enquanto falava de escavações, do terreiro esburacado, de metais nunca encontrados e de uma coisa a ferver dentro de cachola.
Catava palavras, doido para se fazer entender, resumir sua vida, ganhar a confiança e a amizade do português.
Lembrou se do trunfo e jogou o aos ouvidos de Feijó: a coincidência de seus nomes.
– João da Silva.
Não se decepcionou com a mudez do estranho. Despediu se, deu meia volta e, aos pulos, ria, chorava, gritava no meio da rua.
– Perdeu a bola, João?
Bebeu cachaça e não parou de falar enquanto não perdeu o total controle sobre o corpo. Antes, se pabulou, se disse gênio. Ia trabalhar com o naturalista Feijó e descobrir salitre na serra.
Baixado o fogo, arranjou um mocó, onde pudesse botar as pedras preciosas que achasse, e pagou mais cachaça para os conhecidos.
– Vou afinar o cabelo.
Procurou de novo Feijó e foi admitido como escavador. E nada de muita conversa.
Descoberta uma mina no meio da serra, determinou Feijó a abertura de um caminho que a ligasse à vila. Trinta léguas a serem desmatadas. Trabalho para muitos dias e quantos homens houvesse.
– Esse João maluco deve ser bom de picareta.
Apesar da função e das ordens recebidas, não esqueceu a alegria. Coberto de sorrisos, cavava a terra, para que o naturalista a examinasse. Suava, cansava se, encostava a ferramenta e puxava prosa.
– Ferro, só mais adiante.
Aborrecido com os palpites de João, o português perdia a paciência e afastava se do local das escavações.
Passados três anos, o naturalista deu por concluídas as pesquisas e zarpou, sem sequer se despedir de João. E o filho de Antônio voltou para casa no ora veja, sem um grão de metal na algibeira com que pudesse atestar sua genialidade.
Aporrinhado pelo pai, pelos conhecidos, pelo povo, perdeu o gosto pelos metais, largou de mão os trabalhos pesados e voltou a ler e contar romances.


CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR

Vivia nessa vidinha vadia, para cima e para baixo, quando lhe chegaram notícias da Confederação do Equador. Indagou ao pai sobre a tal revolução e escutou os costumeiros sermões, enquanto prestava atenção aos seus afazeres. Uma faca, um machado, uma enxada?
– Uma escofaca.
Acionada, de seu cano saíam agulhas, pequenas facas, em vez de balas. Tencionava fabricá la em série, durante uns dez anos de ininterruptos trabalhos. Com elas, podia armar o maior exército da Terra.
– E vou armar.
A partir daquela conversa, João se transformou. Jogou ao baú os versos, armou se da velha e enferrujada espada de Antônio e, de venta inchada, ganhou o mundo, a falar alto em revolução e república. A mãe lhe pedia calma, pensasse em Amparo e nos filhos, deixasse de bobagens. Fosse cuidar do roçado.
– Vou me juntar aos revolucionários.
Antônio aprovou sua decisão de se fazer revolucionário, mas com ressalvas. João quis saber o que não merecia os louvores do pai. O velho pigarreou, tirou rapé do corrimboque, deu dois passos no terreiro e anunciou: queria o para coronel de sua futura milícia. Antes fosse aprender a arte bélica nos sertões e voltasse bem amestrado para a sua revolução, a última, a que ia criar a República Nativista dos Jenipapos.
Tomou as bênçãos do pai e da mãe, correu a despedir se da mulher e dos filhos e meteu se no mato, em busca dos últimos jenipapos e dos caboclos dos sítios. A todos anunciava a revolução que ia expulsar da Serra de Baturité os portugueses.
Enquanto falou para as paredes e os bichos do terreiro, Amparo se manteve despreocupada. Mas a partir do instante em que passou a querer arrastar Pedro para suas pregações, a mulher alvoroçou-se. Não queria o filho metido em doidices. Além do mais, não deviam largar o roçado para se meter em guerras.
– Basta o sogro que tenho.
João, no entanto, não deu ouvidos à impertinência de Amparo, nem às desculpas de Pedro. Abandonasse aquele serviço besta de roçar mato, marchasse para a luta. E ameaçou: se não quisesse ser homem, ia deixá lo de lado e preparar os filhos mais novos para a revolução. Ou mesmo as meninas. Olhou para Joana, a mais velha, e gritou:
– Vem cá, minha filha.
Abraçou a e pôs se a falar lhe, por um bom tempo, da república tão sonhada.
Amparo se desesperou, puxou a pelo braço e correu para os fundos da casa, como se a livrasse do capeta ou da morte.


DOM PEDRO NO CAFEZAL

Durante sete anos João cutucou a paciência de Pedro, dia e noite a convidá lo para a aventura de uma revolução cujas idéias conhecia de longe. A cada não, um sermão. Não e não, então cão. Com medo da maldição, Pedro brigou com o patrão.
Quando chegou aos ouvidos de João a notícia de que os revolucionários se achavam na vila, enfeitou se de todas as cores, armou se de um facão e chamou o filho.
– Vamos, monte sua mulinha.
Fujona, a mula de João, já bufava no terreiro, engalanada como o dono. Num minuto, galopavam no rumo da vila.
Ao chegarem, depararam com a matriz tomada pelos revolucionários, cercada de sentinelas, a vila em pé de guerra, entupida de barris de pólvora, chumbo, carros de granadeiros, a revolução na boca das armas. João decidiu separarem se. Pedro procurasse outro rumo. Mais tarde se reuniam de novo.
– Todo cuidado é pouco, ouviu?
Atraído pelo zunzunzum, João parou diante do Quartel General dos Confederados. Queria só apreciar, já que não tiveram a idéia de convocá lo para o movimento. Podia dar um adjutório, desenhar mapas, emprestar uns cabras da serra, fornecer lacambeches. Os sentinelas, irritados, quiseram dar lhe uns tiros. Devia ser um espião imperialista. Ficou tiririca. Imperialista era a mãe.
Montado na Fujona, armado de facão, deu umas voltas ao redor da igreja, até ficar tonto. Parou, cai não cai, e se viu amparado por Pedro.
– Viva a Revolução!
– Viva Tristão Gonçalves!
Equilibrou se, reconheceu a voz do filho e marcharam pelas ruas a proclamar a República. Nas proximidades da cadeia, sempre a dar vivas, surgiram os primeiros adeptos. Na Rua do Comércio, o bando engrossou e a gritaria alarmou a vila. A tropa seguiu no rumo do Potiú, onde se atocaiou. Viessem monarquistas de Fortaleza e a estrada estava barrada. Não passava nem mosquito ensebado.
E João e Pedro a dar ordens, cavar trincheiras, autodenominados Coronel João e Capitão Pedro.
– Morte aos imperialistas!
Tal ânimo durou pouco, porém. Logo na primeira noite, um desertor. Na seguinte, outro. Uma semana depois, até as mulas haviam desaparecido e pai e filho trocaram as trincheiras por andanças.
Estropiados de tanto bater pernas, deitaram se à sombra de um mulungu e pegaram no sono. Acordados por um cabrito que berrava entre um e outro, saíram ao léu e foram dar num arraial desconhecido deles. Queriam notícias dos revolucionários.
– Nós somos republicanos.
Informados do fracasso da revolução, desembestaram no rumo de casa, alarmados.
Da Fujona nem notícia. No entanto, o animal se divertia pela vila e só reapareceu uma semana depois, alegre como nunca.
– Essa safada, em vez de chorar, faz é rir.
A mula de Pedro, porém, não mandou nem recado. Para sempre abandonou seu amo. E com toda razão.
– Ora, você nem nome deu à bichinha.
Ao contrário do pai, Pedro nunca se afeiçoou a animais. E, para maior zanga de João, antes das revoluções vinham o roçado e Francisca, sua mulher.
Ao se levantarem em Icó os inimigos do imperador, quis João enviá-lo como emissário, embaixador, representante dos revolucionários da Serra de Baturité. Para surpresa sua, no entanto, o rapaz recusou o mandado. Além do mais, seu patrão negou autorização para a viagem. Acabavam de chegar mudas de café moca, trazidas do Jardim das Plantas de Paris, coisa especial, a maior novidade agrícola do mundo, e não ia permitir que um de seus vassalos abandonasse o trabalho, muito menos para se juntar a bagunceiros.
Em represália, João proclamou um segundo governo temporário. Se dificultavam a sua união aos revolucionários, se atavam os pés ao seu delegado, se tramavam o fracasso do movimento, então abria outra frente de luta justamente onde os inimigos da república mais se mostravam empedernidos.
O ato se revestiu de todas as formalidades, a começar pelo sungamento das calças, constantemente a cair, e por um estrondoso grito, para espanto dos bodes e das galinhas, dos porcos e dos capotes adredemente convocados para a proclamação: Abaixo Pedro Primeiro português! Viva Dom Pedro Primeiro jenipapo!
Maria do Amparo, acostumada às doidices do marido, só pediu que ele não espantasse daquele jeito os bichos.
– Daqui a pouco vou ter de ir ao fim do mundo buscar minhas galinhas.
Falasse mais baixo, aquilo podia chegar aos ouvidos do imperador. Precisava levar umas franguinhas para a feira, porque o negócio das redes andava fraco.
Pedro não levou a sério a decisão do pai e preferiu ficar para ver o primeiro pé de café de sua vida e sua mulher engordar do primogênito.
Diante da almofada, ela trocava bilros e cantava cantigas do mato. Queria panos bem bonitos para receber o príncipe José, como já havia João batizado o neto por nascer.
O cafezal da serra já se estendia pelos montes e ainda Pedro ria quando João o chamava de rei. E João se enfezava de ter um filho tão covarde.


DOM JOÃO NA LAMA

Ao abdicar Pedro o trono, João instituiu uma junta, formada apenas por ele mesmo, uma vez inaceita pelos filhos e pela mulher a participação no governo provisório de Monte-Mor.
O dia mais agitado de sua vida aquele. Primeiro a proclamação do governo, depois a coroação de Pedro. Como o filho trocasse a coroa real por mudas de café, decidiu criar a junta para governar no lugar do rei.
Passeava pela casa, pelo terreiro, aplaudido pelos bichos domésticos, aos berros. Amparo e os filhos tentaram amarrá-lo ao pé da jaqueira, para que sossegasse.
– Está assim porque não pára um minuto.
Fogoso e indomável, resistiu à traição dos parentes e colegas políticos. Acusou a mulher de comandar a deslealdade e os filhos de se deixarem levar pelas águas da vileza. Não ia puni-los, porém. Tarefas mais importantes tinha pela frente. E, num átimo, pegou da lacambeche, azeitou a, encilhou a Fujona, enfeitou se de balangandãs, se emperiquitou todo – vestiu-se de rei.
– Sou Dom João.
E depôs dois imperadores de um só grito: o do Brasil e o de Monte-Mor.
Decidiu marchar sobre a capital, mas uma chuva inesperada retardou sua partida. Afobado, ia e vinha dentro de casa, dava ordens aos seus vassalos. Tomassem providências no sentido de acabar com aquele aguaceiro, mandassem limpar a estrada, afastar os sapos da beira do caminho. Fazia perguntas reais: se a carruagem puxada a oito cavalos se encontrava em bom estado, até quando estava prevista a duração da chuva, se para os lados do mar chovia?
Impedido de sair de casa, pôs se a beber goles de mocororó numa cuia que chamava de taça. Com pouco, arrotava coragem e, enquanto a rainha, os príncipes e as princesas enchiam os potes com água das bicas, escanchou se na mula, esporeou a e saíram aos sopapos, mato adentro.
Pedro e os irmãos, ao ouvirem os relinchos do animal correram ao terreiro enlameado. Na curva do caminho, o velho desaparecia feito um capeta. E, como não existisse outra montaria, meteram os pés na tempestade.
Tudo enevoado, logo perderam de vista o pai. O vento frio açoitava seus corpos quase nus, relâmpagos alumiavam a mata escurecida, trovões assustavam os bichos.
– Que raios levaram el rei?
Vasculharam as redondezas, juntos, preocupados com o destino do inofensivo João. A chuva passava, os riachos engrossavam, galhos retorcidos haviam destruído as veredas, a serra derretia se.
Um relincho sofrido alegrou os. Sim, a mula. Mas só, desmontada, a tremer de frio, atolada num bueiro.
– Quede teu dono, Fujona?
Não foi preciso resposta: a três passos, caído de borco, encharcado, jazia o muleiro.
Levado para casa, só acordou no outro dia, sol alto. Todo quebrado, não conseguia levantar-se, mexer-se sequer, a não ser por força da tosse e dos delírios.
Chorosa, Amparo mandou Joana alcançar umas folhas de jaborandi para preparar um chá.
– Um santo remédio.
Custou João a ficar bom, apesar dos cuidados da mulher. Passada uma semana, parecia novo em folha. Bendita doença, porém. Pois o filho mais velho, só de vê-lo na rede, transformou se noutro homem. Decidiu abandonar a lavoura e abraçar as idéias nacionalistas, disposto a se enfileirar nas milícias revolucionárias e esquecido de Francisca e dos filhos.
Durante dois anos, andou e desandou e nada de encontrar a revolução. Até saber da reunião na matriz. Seu derradeiro ato de revolucionário. A seguir, buscou as terras de um rico serrano, julgando se perseguido pelas tropas imperiais, e voltou a plantar café.
Acusado de traidor e covarde pelo pai, alegava, em defesa, ser incapaz de qualquer grande ação o grupo comandado por João. A idéia de utilizar morcegos numa guerra lhe parecia por demais avançada para a época. E previa o aparecimento na terra de grandes morcegos de aço a cuspir fogo pelas ventas. A grande invenção do homem.

(Continua)