Punhalzinho... (4)
(Continuação)
PUNHALZINHO CRAVADO DE ÓDIO
Caminha Ana pelo beco esburacado, perninhas de embuá, doida para alcançar a esquina. Saltita, feito catita, de ilha em ilha, com medo de se afogar nas poças de lama. Cachorros sonolentos abrem os olhos para sua figura miúda e se espreguiçam e expõem as indecências encarnadas de entre as pernas. Voltam a sonhar, sérios, acanhados, magros.
– Cambada de vagabundos!
O sol assa a areia, os pesinhos gordos da anã, racha a taipa dos casebres, os lábios da mulher, reluz nos cacos de vidro expostos no meio da rua, nos olhos da caminhante.
– Arre égua!
Abertas as portas da bodega de Bodinho, anunciada por placas de Coca-Cola. Dentro, moscas fartas, catinga de cachaça, salpicada de escarros, sortida de mil mantimentos para gentes e bichos.
Venta para todas las bandas e tudo se mexe, remexe, rebola, remoinha. Os vira-latas acordam raivosos, voa poeira entre as casas, papéis de embrulho viram arraias bicós e o bodegueiro pragueja.
E vão embora gritos, pules de jogo do bicho, esperanças, tudo em fuga pelos becos. Do lado de dentro do balcão, Bodinho arruma jornais de ontem e inventa pragas contra o diabo da ventania. Sunga as calças e a pança balança, fofa, mole, cheia. Zunem moscas alvoroçadas. Pousam nos braços curtos da freguesa, pegajosas. Fazem cócegas na pele grossa de Ana.
– Desgruda, desgraçada!
Pela porta atrás da anã entra Pêu, arreganha os dentes podres. Estica as pernas, pula para um caixão de sabão, quase a roçar nos cabelos de Ana. Atrás do balcão, Bodinho assobia e ri.
Solta na buraqueira desde os tempos de chupeta, Anazinha meteu-se cedo nos becos da molecagem. Anãzinha praqui, Aninha pracá, conheceu um a um os moleques do Pirambu. Com Pêu experimentou as primeiras dores.
– Casar? Nunquinha.
Também nunca pegou barriga de nenhum cabra safado, muito menos de Pêu.
– Ainda bem.
E não teve a sorte de conhecer um de seu tamanho, de feitio anão, do jeito de seu agrado.
Mãosinhas postas sobre o cocô das moscas, pede a anã o milho de suas galinhas. Depressa, enquanto o cão esfregasse o olho.
Todo santo dia, quer chovesse, quer fizesse sol, ia Ana comprar a janta de suas criações. Bodinho nem precisava perguntar o que queria ela. Precisasse de querosene para as lamparinas, voltava noutra hora ou dormia no escuro. Carecesse de alimento para si, passava fome ou dava outra viagem, embora os cachorros da rua vivessem a espiá-la do rés do chão.
– Cambada de vagabundos!
Como não se vissem frente a frente desde os tempos das sacanagens, Pêu coçou o queixo, lambeu os bigodes sujos, futricou os ovos e não pediu cachaça: se Aninha comia milho.
Toda a raça do Pirambu sabia de sua predileção por galinhas. Na bodega de Bodinho só ela comprava milho. Todo dia, tarde cedo. Criava as bichinhas com fartura e amor, sem sovinice de nada. Muitas. E só não possuía o maior galinheiro do mundo porque precisava vender sempre uma para dar de comer às outras. A preço de banana, mais baratas do que bolo em fim de festa. Não, nunca comeu sequer o pé de uma.
– Deus me livre!
Ri Pêu da sabedoria da anã e pede uma talagada. Desapeia do caixão e encosta-se à antiga companheira de sacanagens detrás dos morros de areia. O bodegueiro demora-se a ver os olhos reluzentes de Ana, aquele fogo a queimar seus jornais velhos, aquela pua a furar o outro freguês.
Já ida pela casa dos trinta, a anã não rompia as fronteiras do metro, mas a cada dia se alargava, feito um saco de algodão. Sua boca armazenava todos os ódios do Pirambu e, quando não suportava mais contê-los, não escolhia as caras e cuspia insultos até contra os vira-latas.
– Perdeu alguém parecido comigo, baitola?
Entrega Bodinho o embrulho de milho, apanha a garrafa, sem despregar da anã os olhos, derrama veneno no copo e levanta a taça de vencedor.
Nenhuma palavra sobe do porão de Ana, que agarra sua ração, agacha-se e a deposita ao pé do balcão. Pêu despeja goela a dentro toda sua vida e solta um grito de terror.
Em sua virilha, um punhalzinho enferrujado e cheio de ódio acabava de se cravar.
QUIMERA
Visse o retrato dele por ela pintado
– Você tinha um aninho.
Destacou de entre os dedos o indicador e sorriu. Um riso de brilhosos olhos e rosadas faces, a se expandir por todo o seu corpo. E, tão depressa ele cresceu, na mesma proporção desapareceu. Murchou o dedo, caíram as pálpebras, esconderam-se os dentes empós os lábios.
(Diante dela, o seu menino posava todo alegria. Ficasse assim, bem natural. Risse, se quisesse, mas não se mexesse. Para a pintura sair perfeita. Uma formosura. E mirava ela o seu modelo, atenta aos pincéis, mãos de madona. Inventava o mais mimoso dos infantes.)
– Aprendi essa arte antes de conhecer seu pai.
Seu menino dela duvidou. Não das memórias, antes da identidade entre a figura e ele.
Não fosse dizer não saber ela desenhar ou não ter sabido. Talvez já tivesse mesmo perdido as noções de pintura aprendidas na infância. Fazia muito tempo, sim, mas ainda acreditava no seu bom aprendizado.
– Este é você e você é este.
Brincou com as mãos de um lado para outro, quase a cair em gargalhadas.
– Lindo!
E abraçou e beijou o seu menino, até fartar-se e novamente perder o ânimo da fala, dos movimentos, da vida.
– Seu pai está para voltar.
Calou-se, olhos fixos no chão, semblante entristecido. E o quadro a mirá-la amoroso e abandonado.
Súbito assustou-se.
– O que foi, meu filho?
Desculpasse a mamãe, andava tão distraída. Pensava no paisinho. E forçou de tal modo o sorriso, até confundir em seu rosto um tanto de dor, uma porção de alegria, que mais pareceu uma santa. Não perguntasse o destino do pai. Havia partido em longa viagem.
– Para além de cinco anos isso vai. E em nosso esperar, quão triste miragem!
Não, não se tornasse tristinho assim. O dia de se conhecerem vinha.
– Ele vai voltar muito em breve, sim.
Porque prometido, jurado tinha. Não inquirisse a razão daquela partida, porque responder doía. Apesar de toda dor, respondia.
– Foi circular a terra, conhecê-la, para provar que o mundo é redondo. Ninguém nele acredita, no entanto.
E pouco a pouco se foi ela pondo mais lacrimosa e se fazendo em pranto.
– Por aqui ele partiu – e apontou a porta da frente escancarada – por ali há de voltar – e mostrou a porta do quintal destravancada.
À parede, junto à fotografia do marido, correu a suspender a pintura do menino, antes que a inundasse de seu choro.
E bateram à porta. A mulher perdeu o controle, largou o quadro e se voltou apressadamente. Não tivesse medo seu filhinho.
– Deve ser seu pai.
Ameigou mais a voz e caminhou na direção da porta. Seu amor havia voltado. Só podia ser ele. Tocou a maçaneta e por longo minuto pôs-se a rodá-la.
Tremia. Com que forças abrir aquela pesada porta? Mas fez-se dona de sua vontade e puxou a folha. Um dedinho só.
– Minha senhora, abra logo.
– Você!? Bem que eu pensei.
Toda a porta girou para dentro, e a mulher, a rir e chorar, saltou aos braços do homem, que, de só querer meter-se em casa, arrastou-a pendurada ao seu pescoço.
Desejava esconder-se. Só por um dia. Ajudasse-o. Sim, pelo resto da vida, entrasse, ficasse. Quantas saudades! Perseguiam-no, precisava de socorro.
Em seguida, ela o conduziu até onde dormitava seu menino.
– É o nosso filho. Veja como é lindo. A sua cara.
O homem sossegou, caiu sobre a cadeira, suado, olhos a saltar das órbitas.
– Você acordou, meu filho?
Abrisse bem os olhos, conhecesse o pai.
– Ele partiu antes de você nascer.
Abraçasse-o, com força. E não o deixasse mais sumir.
– Onde está o menino, minha senhora?
Na rua, sirenas alarmavam a quimera da pobre mulher.
REDE DE COBRAS
O nome de Pedro Campos aparecia duas vezes na notícia das “atrocidades cometidas pelos fazendeiros contra os índios”. O jornal só podia ser dos comunistas.
– Até rima com jornalista.
Os homens da fazenda olhavam para o chão, parados, feito marmotas. Nem tossiam.
– Cambada de putos!
Pedro Campos avançou para o jornal, plantou-lhe as garras, estraçalhou-o.
– Como se eu fosse um bandido.
Ninguém arredava o pé do alpendre, todos caladinhos, miudinhos.
O sol engatinhava nas fronteiras da fazenda.
***
Trouxeram o bode, que berrava e esperneava, e o amarraram ao pé da estaca.
– Venham ver para aprender.
Pedro Campos esfaqueou o tempo e o sol. Uma luz medonha queimou os olhos dos homens. O animal deu um berro sem fim, a faca plantada nas costelas. A segunda facada amputou-lhe uma perna. O terceiro golpe, profundo, correu-lhe a barriga de lado a lado. O sangue saltava longe e ninguém ria. Tripas penduradas, olhos esbugalhados, e os ais quase sumidos.
Cansado, coberto de suor, o fazendeiro rilhava os dentes, praguejava.
– Morre, diabo.
Os homens pisavam o chão com força, pregados. As bocas – sacos costurados a agulha fina.
– Estão vendo? É assim que vou fazer com eles.
O sol já brincava com as nuvens.
***
Pedro Campos fincou as esporas no cavalo, gritou, chicoteou o vento e desembestou no rumo da venta. Os homens também montaram e picaram os animais. Meteram-se em altas cavalarias, fazenda adentro. Os bichinhos do mato corriam da estripulia, escondiam-se detrás dos pés de pau. E as vinte patas de átila engoliam palmos e comiam léguas. A poeira do espanto levantava-se e morria. Vagarosamente.
***
Nos confins do mundo, o cavalo de Pedro Campos levantou as patas.
– Volto daqui. Vocês seguem.
Um relincho adiante viviam os índios. Os homens fossem espiar, de longe.
– Vejam se ainda estão lá.
O animal do fazendeiro se aquietou, comeu capim, mijou.
– E se já enterraram os outros?
Os quatro homens olhavam para a boca suja de Pedro Campos, em cima de seus cavalos, quietinhos, a comerem capim e mijarem.
– E só me levem boas notícias.
***
O dono da fazenda espichou-se na rede, pesadão, e os armadores rangeram. Rede nova, grande, presente dos índios. Cheinha de desenhos engraçados. De cobrinhas amarelas, encarnadas, verdes, azuis, pretas. Muito bonita mesmo.
Seus olhos fecharam-se, abriram-se. Fecharam-se, abriram-se. Fecharam-se. Escancarou a boca, e fiapos de carne de bode intrometiam-se entre os dentes. O peito subia e descia, subia e descia. Moscas passeavam sobre sua gordura, beliscavam-lhe as bochechas, cagavam-lhe a testa, varriam-lhe as ventas, brincavam de morrer na caverna de sua imensa boca.
Pedro Campos remexia-se, coçava-se, impacientava-se. Só faltava pular dentro da rede. Coçava os braços, as costas, a bunda. Picavam-no os demônios da sujeira? Pulou, zonzo, cambaleou, de pé. Não podia tirar um cochilo. A rede só podia estar muito suja. Maldizia-se, aos berros.
Todas as mulheres correram para a varanda, alarmadas. A sua, as filhas, as criadinhas.
– Que merda!
O sol descia a ladeira do oeste, morno.
As mulheres abraçaram e cheiravam a rede. Lambiam-na, apalpavam-na, miravam-na com os olhos da cor do medo.
– Está limpinha, patrão.
Pedro Campos foi se acalmando, conformado, sem coceiras. Só queria arrotar e dar uns peidos.
– Vão, vão, vão.
***
O sol se meteu debaixo da fazenda, os cururus não pararam mais de coaxar, nem o cricri dos grilos tinha fim.
– Vou esperar os homens lá fora.
A rede armada piscava os olhos para Pedro Campos. Todas as mulheres se trancaram nos quartos, solitárias, sem sono. E os homens não traziam as boas notícias.
***
Lá pelo primeiro canto dos galos, a mão submissa da mulher do fazendeiro apalpou o lençol. No telhado nenhuma estrela brilhava. A cama media cem léguas. O quarto não tinha tamanho. Seu coração cavalgava feito uma égua. Fechou as pernas e saltou para o desespero. Caminhou as infinitas passadas da noite. Os galos entoaram a marcha pavorosa. Alcançou a varanda. A rede ia e vinha, a ninar Pedro Campos. Extravagâncias de homem. Riu a fazendeira e encheu-se de dengues. Pisava com pés de lã o chão das novas núpcias. Os galos cantaram nova sinfonia. Abeirou-se do leito a mulher. E nenhum desenho de serpente mais havia no tecido. Como se o tivessem lavado seguidamente.
Tatuado de pequeninas cobras, porém, o imenso corpo de Pedro Campos jazia de frio.
SANTO YAN
Zadik Perez odiava Sancho Peretz, desde muitos anos. Ódio mudo, fermentado entre quatro paredes, espumoso, envelhecido a rolha.
Num dia de sol quente, ouviram-se os primeiros resmungos, rangeres de dentes, curtos insultos. E as faíscas dos quatro olhos queimaram alguns curiosos. Nem anoiteceu e toda redondeza dos odientos sabia do pretérito e do presente deles, e até o futuro contava.
Daí por diante a lenda virou odisséia e mil e uma histórias se enlearam. Os pais de Perez e Peretz se haviam estraçalhado em briga de foice, seus avós comandaram exércitos que se destruíram, seus bisavós arregimentaram bandos, seus mais antigos ancestrais se envolveram em saques, tocaias, covardias, brutos moradores de cavernas, mandíbulas de ferro, garras de gavião, patas cabeludas, grunhidos ferozes, parentes de macacos.
A fama de Zadik e Sancho alcançou longínquas regiões, terras de pastores de feras, caçadores de ovelhas, nunca sequer faladas naquele tão perdido mundo.
Até um tal Yan, de distantes plagas, ouviu a qual novela. Dono de uma cadeia internacional de campos-santos e, nas horas de filantropia, mediador de guerras e intrigas, desceu dos céus, com seu pássaro de prata, na fronteira dos países de Perez e Peretz.
Cuidou antes de instituir no novo mundo o hábito de se enterrarem os mortos em cemitério, em vez de no próprio lugar onde as almas largavam os corpos. Fez a todos renegarem a antiga lei, chamando-os de bárbaros, em sua língua. Os mortos não podiam viver com os vivos; as águas se contaminavam; a vida cheirava a podre. Predicou e insultou, feito um missionário em danação. E o aplaudiram, reverenciaram, idolatraram. Chamaram-no de Santo Yan, beijaram-lhe os pés, sacrificaram-lhe animais.
A discórdia entre Zadik Perez e Sancho Peretz não devia prosperar. Chamou à sua tenda primeiro Perez e se nomeou juiz de um duelo. Aqui seu visitante, ali o rival deste. Discursou sobre a arte de duelar, historiou o duelo, exaltou o romantismo da disputa.
Apesar disso, Zadik não se fez áspero, nem inchou o peito nem fechou a mão. E pela primeira vez disse não ao reformador. Preferia não arriscar. Muito mais seguro seria dar morte certa a Sancho. Por trinta sacos de ouro.
Santo Yan negou-se assassino e não recusou nem aceitou a proposta de seu discípulo. Na saída, benzeu-o ternamente. E mandou chamar Sancho.
Renomeou-se juiz de um duelo, fez discurso, contou história, entusiasmou-se. E nem assim o outro largou a brandura e a covardia. Em troca da morte segura de Zadik, ofereceu trinta hectares de terra fértil.
De pronto, o reformador disse sim. Não pelas terras, que terras não lhe faltavam, mas por ver em Peretz o justo, o bom, o pacato, e em Perez o brigão, o mau, o injusto.
Abraçaram-se, e Yan saiu em busca de Zadik Perez.
Os trinta sacos de ouro reluziram aos pés do Santo, que sorriu e deu por cumprida sua parte no pacto firmado com Sancho Peretz.
TADEU E A MARIPOSA
Agora ele deve andar metido nalgum quarto de pensão a implorar à mulher com quem se deitou a se deixar fotografar lá mesmo na cama, nua e suja como estiver. Contaram-me que vive dia e noite nas zonas, desesperadamente cantando mulheres, máquina pendurada ao ombro: “Vamos tirar umas fotos, garota?” E todas lhe fogem como o diabo foge da cruz, receosas de se tornarem mais públicas, de comprometimentos com a polícia, os bons costumes. Sua má fama já se espalhou por todos os meretrícios. Não vai para trepar e muito menos para fazer outras sacanagens. Seu fraco é fotografia erótica, coisa nojenta. De certo não abre o jogo e se faz de apaixonado: “Quero te ver de novo, sempre; deixa eu te fotografar”. Ou mente e diz que é repórter de revista de nu. “Você vai criar fama, virar manequim, estrela e ganhar muito dinheiro sem precisar abrir as pernas durante toda a noite em troca de uns cruzeirinhos”. Mas a coisa ficou preta pro seu lado, nem a mais rabugenta puta aceita sua companhia, sabedora de que é um explorador como outro qualquer, falso e mentiroso. Dizem que vive constantemente embriagado, liso, sujo, remendado, a peruar de bordel em bordel, de ruela em ruela, doido por uma cliente que não lhe saiba o nome.
Maluco na certa está, mas não é de hoje. Na verdade, no começo de nosso namoro não desconfiei de nada. Quando me visitava nos fins de semana, lembro-me que, vez por outra, abria a carteira e me mostrava retratos e mais retratos. Eram da mãe, das irmãs, das ex-namoradas. Tudo muito sério, familiar. “Me apresente sua mãe”, eu dizia, e ele mudava de assunto, fazia que não ouvia ou tirava doutro bolso mais fotos. Pelo visto, era campeão em namoros e casos. Os nomes se acumulavam e se baralhavam magistralmente: Ana, Ana Lúcia, Lúcia, Luzia, Anícia, Anízia. Uma interminável galeria de moças bonitas, feias, brancas, morenas, adolescentes, coroas. Eu tinha ciúmes e ao mesmo tempo orgulho. Afinal, ele, que conquistara tantas mulheres, era meu. Eu significava o presente e talvez o futuro, enquanto todas elas se perdiam no passado, viravam álbum de recordações. “Onde mora essa Ana Lúcia?”, eu queria saber. “Foi embora para Brasília”, conformava-me. E ria, gargalhava, chamava-me de tolinha. “E então por que guarda essa porcaria de retrato?”, eu insistia. “Besteira minha”, encerrava o assunto.
Depois de certo tempo, concluí que gostava mais de fotografia do que de dinheiro. A carteira vivia recheada, mas não de cédulas. Mania como outra qualquer. Podia ser por futebol, selo, livro. Não levei a sério a extravagância. E o ciúme foi pro beleléu. Eu me trocar por um pedaço de papel? E eram tantas e ele não demonstrava preferência por nenhuma.
Um dia apareceu com a máquina a tiracolo, risonho, carinhoso, falador, e me pediu para posar. “Foi você quem bateu todos aqueles retratos?”, lembrei-me de perguntar. Não gaguejou e disse sim. Daí em diante não teve sábado nem domingo em que não aparecesse com a câmara e eu fizesse poses no jardim, na calçada, no meio da rua, na praça.
Desde que o conheci, Tadeu trabalhava no comércio, mas eu acreditava que fosse fotógrafo. Talvez porque o vi pela primeira vez mostrando retratos a colegas num bar. Dias depois, ao entrar no mesmo bar, o vi de novo, mas desta vez em fotografia, ao lado de rapazes da vizinhança. Mais para diante, nos vidros do armário do bar, três ou quatro fotos mostravam Tadeu abraçado a amigos, copo à mão, rindo largamente, cara de boêmio. Mas não me mentia: “Sou vendedor, sim senhora.” E ria e eu ficava na dúvida.
Alugada a casa, resolvemos nos casar. “É o jeito”, dizia papai. “Quem mandou cair na conversa de vagabundo?”, concluía. E Tadeu encheu a casa de móveis comprados a prestação. Ao fim do primeiro mês, lamentou-se e chorou. Cadê dinheiro para saldar as dívidas? Eu cozinhava, lavava, varria e queria dar ajuda. Compre uma máquina de costura, suplicava. Comprou, mas a situação piorava cada vez mais.
Num meio-dia de sábado, chegou bêbado, mas alegre. Trazia um filme e disse que ia me fotografar. “A coisa preta como está e você gastando dinheiro à-toa”, foi minha primeira reação. Não me deu ouvidos, sorriu, brincou, beijou-me e fomos para a cama. Nunca o sentira tão danado, uma fúria de assustar a mais experimentada prostituta. Horas e horas naquela safadeza. De repente deixou-me e correu para a sala. Nu ainda, voltou com a câmara na cara, enquanto eu me enrolava na colcha. “Tire isso de cima de você, meu bem”, pediu. Cheia de vergonha, eu perguntava para quê? “Deixe de besteira e fique quieta.” E ia dando ordens: estire-se, encolha-se, abra as pernas, vire-se, levante os braços. Eu obedecia, resmungando, com medo. Será que ficou doido? Lembrava-me dos tempos de namoro, dos retratos das namoradas e perdia o medo. “Vou deixar, isso é cachaça. Depois destruo o filme e pronto. No final, não tive coragem de conversar. Fui tomar banho e, ao sair do banheiro, ele já estava roncando em cima da cama. Vasculhei em vão toda a casa à procura da máquina. À hora de dormir, ele despertou. Banhou-se, jantou e saiu. Fui deitar-me, mais preocupada do que nunca e adormeci. De manhã, ao acordar, assustei-me: Tadeu dormia profundamente. E assim foi todo o resto do dia. Só durante o almoço da segunda-feira pude perguntar-lhe por que me fotografara daquele jeito. Não deu resposta, trêmulo, nervoso, encabulado. “Agora não dá para conversar, estou atrasado”. E saiu às carreiras. À noite, novamente embriagado, não tocou no assunto. E, durante uma semana, esqueci até de que um dia tivesse sido fotografada.
Essa cicatriz talvez não ficasse em mim (e hoje mal passa de uma quase apagada mancha), se eu não tivesse sabido que todas aquelas fotos ele as vendeu. No princípio, não acreditei no que ele dizia e até brinquei: “Estão aí na sua carteira no lugar daquelas mocinhas”. Depois fiquei furiosa. Então eu era puta para andar nua nas mãos e nos olhos dos machos? Ele não tinha vergonha de entregar a própria mulher aos outros, fazer papel de gigolô, proxeneta? Estava novamente cheio de cana e colocava outro filme na máquina. Explicou que era a única maneira de ganharmos dinheiro. “É um trabalho honesto, como vender tecidos e costurar. Apenas mais lucrativo e mais penoso.” Lamuriou-se, passava o dia andando, conversando, adulando. Tudo para o nosso bem, nosso conforto. Em breve saldaríamos todas as dívidas e ainda teríamos dinheiro para passear, comprar roupas, comer bem. Chorei o tempo todo, enquanto ele falava. Se eu estava chorando era por poder ser confundida com rapariga, sossegasse que ele era fotógrafo fino e marido zeloso. Não ia deixar que sua mulher, logo sua mulher, se prestasse a um papel daqueles. Tomara todos os cuidados, ninguém iria saber jamais que a mulher fotografada se chamava Rosana. “Mas sou eu que estou aí feito uma rameira qualquer”, eu bradava. E para isso ele tinha também uma desculpa: em nenhum momento mirou meu rosto. “Estão aqui os negativos, veja”. Com mais cinco minutos de conversa, cedi. Vendera cada foto a cinquenta cruzeiros, comprara mais um filme e pagara a prestação da televisão. “Agora precisamos de mais dinheiro para a cama, o fogão, a geladeira, o conjunto de sala.” E foi relacionando os móveis. “Vamos ao segundo filme, minha santa”, encerrou a questão. E fui despir-me e retorcer-me em cima da cama.
Aos poucos me acostumei ao trabalho e já não sentia mais vergonha de me escangalhar diante do flash, mariposa atraída pela luz. Abria as pernas, arrebitava a bunda, dançava, pulava na cama, no chão, com o cachorro, o gato, de cócoras, como se mijasse, cagasse, me masturbasse com dedo, vela, garrafa, banana. No final, superexcitado, ele saltava sobre mim, estranho, malvado.
Chegado o tempo do sonho, porém, eu acordava suada, chorando, gritando socorro, para fugir das multidões de tarados que me cercavam em ruelas escuras, em cubículos estreitos, num mundo de fúria e dor.
Com certo tempo, Tadeu deixou o emprego na loja e se dedicou exclusivamente à fotografia. Nos últimos tempos, diariamente me fotografava e contratou dois rapazes para o trabalho de vender os retratos. Vivia esbanjando dinheiro, dizendo-se rico. Voltava para casa, tarde da noite, queixando-se de cansaço. Perdera a fúria dos primeiros tempos e eu me entregava aos monstros que me visitavam pela madrugada. O que me dava não era talvez o valor de uma foto vendida. “Tome para as compras”, dizia-me, atirando uma cédula de cem. Passávamos bem, é certo, mas pus-me a fazer contas e a acreditar-me explorada. “Onde você está botando tanto dinheiro, Tadeu?” eu queria saber. Enfurecia-se, mostrava os carnês em dia, as roupas que vestia, apontava para as panelas. “Mas não sobra nada para um passeio, um filme, um jantar fora, uma viagem?” A desculpa vinha inteligente: apesar de nunca me fotografar o rosto, seria perigoso sair comigo. Poderiam me reconhecer, pelo corpo, pela cor, pelo jeito, por andar com ele.
Não convencida, insisti, dia após dia, na vontade e necessidade de passear, divertir-me, sair da toca. Não aguentava mais aquela vidinha de esposa-modelo fotográfico. A resposta veio rápida: queixou-se, dizendo-se sem dinheiro, ninguém queria mais comprar as fotos, os fregueses exigiam agora o rosto da mulher.
Nos primeiros tempos, passamos bem, comida farta, roupa e calçados novos, televisão colorida e até carrinho, no qual eu nunca tive o prazer de sair. Tadeu vivia na rua, acordava cedo, quando não voltava bêbado e tarde para casa, almoçava em restaurante, qualquer que fosse o dia da semana. Tinha sempre na ponta da língua uma desculpa: “Vou me encontrar com um freguês, mandar revelar o filme, apanhar umas fotos.” Se eu reclamava porque ele vivia fedendo a álcool, justificava-se: para ter coragem de conversar, abordar os futuros clientes, tinha que beber. Eu chegava a me penalizar dele, sugeria que procurasse emprego, deixasse aquele negócio de lado. Então me dava dinheiro e eu comprava roupas bonitas, jóias, perfumes.
Com o passar do tempo, dinheiro que era bom eu quase nem via mais. Alegava que o mercado estava ruim, muitos concorrentes, falta de dinheiro, muita revista erótica aparecendo na praça. Se era assim, por que continuar a produzir tantas fotos? Informava que o preço baixara demasiadamente. Para quanto, não me dizia. Desconfiada, dei para segui-lo. De longe, escondida, eu o via conversando com homens, geralmente velhos, nas portas das lojas, nos bares, nas filas. Fui adquirindo o hábito de viver na rua, sozinha, andando à-toa, gastando o dinheiro que ele me dava, me pagava.
Curiosa, passei a frequentar estúdios fotográficos, pagando para ser fotografada. Claro que bem vestida, maquilada, bonita. Foi então que conheci Edmilsom. Logo estávamos conversando sobre fotografia e ele me fez a pergunta que serviu de laço para nos unir: por que eu tirava tanto retrato? Gaguejei, ele insistiu e eu fui falando de mim e de Tadeu. Quando cuidei, contava detalhes de nossa vida. Daí para a frente, tudo mudou para mim. Perdi o medo de sair de casa, de exigir explicações de Tadeu. Criei até coragem de dizer não a Tadeu quando ele me chamou para posar. Aborreceu-se porque simplesmente eu disse não, sem nenhum esclarecimento. Fiquei vendo televisão, calada, enquanto ele enchia a cara de cerveja. À certa altura, aproximou-se de mim, beijando-me, alisando-me, chamando-me de amor, benzinho, me tirando a roupa. Recusei-o e permaneci firme na decisão: não queria mais saber de fotografia. Aborreceu-se e passamos a trocar insultos. Chamou-me de cadela, mariposa, puta, o diabo. Dei o troco: Gigolô, proxeneta, veado, corno. Foi o fim. Ele saiu para comprar mais bebida e deve ter voltado e se embriagado. Ou dormido ou saído à minha procura. Nunca mais o vi, mas sempre me dizem que anda por aí, bêbado, maltrapilho, sujo, amalucado, convidando as mais decaídas prostitutas para uma pose erótica.
Corri ao estúdio de Edmilson e lá posei de todo jeito durante bom tempo. Fui além do que me ensinara Tadeu. Só faltei me partir em duas. E em seguida trepamos no chão, como um casal de doidos.
E agora vai ser aqui nesta casa que Edmilson alugou para mim. Vou me deixar lamber pelos flashs, pela luz que sai da máquina, ficar tonta, cega, doida, como a mariposa diante da lâmpada acesa. Quero ser milhões de vezes fotografada, nua, toda nua, só sexo, e ser adorada depois por todos os tarados do mundo. Nem que todos se chamem Tadeu.
TEORIA DA DESFIADURA
Eles vão chegar, mais hora, menos hora. Ofegantes, embravecidos, cientes de me poderem pegar e matar. Porém não me pegarão nem me matarão. E voltarão decepcionados, porque eu sei o que sou e fui.
Um dia, eu tinha doze anos e o tempo não passava nunca, aquela pintura desbotada diante de mim. Na lama, afundavam-se meus pés, feito bichos medrosos. Ao meu redor tudo se expandia e eu nem olhava com pena de minha pequenez. Todo dia esse sempre estar só, muito triste. Acocorava-me ao pé da bananeira pensa, a olhar, distraído, para as minhocas que se contorciam no charco do quintal. Minha mãe não chorava, mas espantava as galinhas, os urubus e o sol para não se lembrar dos gritos de meu pai. E aguava o chão de manhã e de tarde, com medo da seca.
Nesse perseguir, com os olhos, as minhocas, eu tive uma idéia.
Eu era a meada de lã do sapatinho inconcluso. Novelo colorido no colo de minha mãe. Se puxasse a ponta do fio, me desenrolava todo, me desfiava. Mamãe me chamava aos gritos, afobada, vasculhava o quintal. Fugiu, o capeta. Trepou no muro, feriu-se nos cacos de vidro, foi-se embora. Louca e muda, me encontrava estirado ao longo do chão, enrolado nas bananeiras apodrecidas, sujo de lama, feito um porco, confundido com as minhocas.
Puxei a pequenina ponta, forcei, primeiro com as pontas dos dedos, depois com a mão fechada, senti que conseguia, a ponta crescia, eu me desfiava, tudo escurecia e eu me perdia num quintal esquisito, sombrio, e o medo me agarrava pelas canelas e me arrastava para os pés de Nosso Senhor.
Cresci. A idéia se enroscou em mim, feito cobra. Por que não desfazer a meada, com dor, sacrifício, intensidade? Acreditei ser necessário difundi-la, por mais absurda que parecesse a muitos. A vez de descobrir meus semelhantes, fazê-los aprendizes, doutriná-los. Alguns poucos ouviram e abaixaram as cabeças. Falei e falei. Discutimos e elaboramos novas idéias, um programa de lutas e objetivos. Criava-se o embrião do grupo.
Três anos após, registramos o partido e concorremos às eleições. Lutamos nos palanques apedrejados e incendiados pelas turbas. Gritamos nas mesas dos bares. Hasteamos bandeiras que causavam risos fabulosos. Propusemos a criação de entidades públicas de defesa dos direitos de nossos adeptos e apresentamos projetos de lei que reformulassem todo o sistema educacional, dando aos estudantes uma noção exata do direito de desfiar o novelo.
É minha a frase que se tornou célebre e serviu de estopim para a guerra contra nós desencadeada: “Enquanto somos capazes de dar a vida pelos nossos ideais, vocês são capazes de tirar a vida dos outros pelos vossos.” No mesmo dia nosso partido foi posto na ilegalidade e uma grande onda de perseguição se abateu sobre nós. Os que não conseguiram fugir para o exterior se viram imediatamente presos e executados.
Agora eles virão me buscar, ávidos de sangue em suas mãos assassinas, ofegantes e embravecidos, cientes de me poderem pegar e matar. Porém eu não serei jamais capturado e morto, eu o prometo em memória de meus companheiros massacrados pela intolerância, em fidelidade à minha primeira idéia, lá no quintal de minha velha casa, às meadas e minhocas que me ensinaram lições inesquecíveis. Eu juro: não me deixarei matarem. Serei realmente, como sempre fui, um suicida. Agora, agora mesmo.
(Final)