Punhalzino... (3)
(Continuação)
O GRANDE JANTAR
O Barão John Food ofereceu um lauto jantar a todos os seus amigos de nobreza, nacionalidade e credo filosófico, em homenagem a Francesco Tavola, pai de seu grande amigo, o Padre Giordano Tavola, seu confessor e confidente. Presentes todos os convidados, abriu a cerimônia com muita seriedade:
– Este será o maior jantar já dado na face da terra, maior do que o da multiplicação dos pães. Não em quantidade de convivas ou de pratos, mas em seu significado. Aqui vamos comer, simbolicamente, todos os evolucionistas, todos os naturalistas, todos os hereges, todos os descobridores, todos os inventores. Todos os revolucionários, enfim. Jantaremos apenas carne. Somos carnívoros. Jantaremos um bode, como se fosse Pierre Bodée, representante de todos os nossos inimigos, desde Demócrito até Darwin. Um bode expiatório.
– E quem era esse francês? – intrometeu-se um príncipe russo.
– Um expert em doutrinas revolucionárias – respondeu o Barão. E, dirigindo-se a Giordano: – Correta a conceituação, Reverendo? – Como se dissesse: Fale agora, padre, que eu não sei dizer mais nada.
– Corretíssima, ilustre Barão. Basta dizer que ontem, quando conversávamos a respeito da chacina praticada pelos índios contra meu saudoso pai e seus companheiros de expedição, ele teve a petulância de dizer que os selvagens são seres humanos e não seres inferiores. Para ele, estes bichos são homens, apenas inferiorizados materialmente a nós, eis que suas sociedades simplesmente se encontram num estágio mais atrasado do processo histórico, não significando isso inferioridade biológica ou racial. Citou até os nomes de tribos já destruídas a bem da Civilização, como uns tais incas, aztecas e maias, as quais seriam muito superiores às sociedades de certos povos, como os orientais da Europa.
Ao ouvir isso, o príncipe russo balançou as orelhas, irritado.
– Essa víbora a serviço do mal – continuou o padre – teve a ousadia de negar diante de nós que os índios sejam simplesmente animais mamíferos e bípedes da ordem dos primatas, embora superiores aos macacos, como os bárbaros e os negros, porém de uma ferocidade felina.
Como o discurso não terminasse, um conde romano cochichou ao ouvido de uma princesa alemão, confundindo-a com o orador:
– Brevi esto et placebis.
Não sendo o religioso a princesa, continuou no mesmo ritmo:
– A discussão teve início quando cheguei e anunciei meu desejo de manifestar publicamente nosso repúdio às medidas nefastas que vêm tomando os governos europeus, ao enviarem, para as regiões desconhecidas da civilização, para as selvas habitadas por feras de todas as espécies, inclusive esses tais índios, ao enviarem nossos filhos, imolando-os à sanha feroz dos animais irracionais, preocupados que andam apenas com encontrar ouro e prata, auri sacra fames, quando devem, em primeiro lugar, enviar expedições que exterminem, manu militari, essas feras, limpando o caminho para os exploradores. E, para fazermos essa campanha gigantesca, faz-se necessário uma invulgar divulgação do massacre da expedição dirigida por meu saudoso pai. Ad perpetuam rei memoriam.
Enquanto o padre falava, e parecia que se encontrava em púlpito, os convivas devoravam o malsinado bode.
– Monsier, passez-moi le omelette de testicules de bouc. Grand merci – solicitava um exaltado general francês.
– Mas lembre-se, Reverendo – interveio o barão – de que eu não concordo inteiramente com suas opiniões a respeito dos índios. Acho ainda que eles são seres humanos, apenas inferiores a nós, estando, desta forma, predispostos a servirem como escravos nossos, podendo serem domesticados, porque, na verdade, não são feras.
– E por que então eles fizeram aquela comilança, aquela orgia demoníaca, bárbara, animalesca, selvagem?
– Ora, isso é um caso a ser estudado. Creio que seja esse justamente um dos aspectos da inferioridade deles.
– Não venha me dizer que aquilo tenha sido mero resultado de uma guerra entre nossa expedição e eles, da qual tenhamos saído perdedores por uma questão numérica, resultando numa matança geral, como disse aquele francês. Anatema sit.
O general, ainda a deglutir testículos de bode, quase se engasgou.
– E onde está o francês? – voltou-se o príncipe russo, interessado também no fim do inimigo comum e em socorro de seu franco amigo.
Nisso, bateram à porta com estardalhaço. Os convivas se assustaram, empurraram seus pratos para o centro da mesa, ergueram-se de suas cadeiras a um só tempo, entrechocaram-se, como se se perguntassem: “Será o francês?”, e se voltaram para a porta, à espera do desenrolar dos acontecimentos.
Abriu-se a porta e eis que, deus ex machina, um estranho e robusto jovem, com trajes de guerreiro, de um salto, trepou à mesa, pisou os pratos sem preocupação e, ab irato, com ímpetos de orador, pôs-se a discursar:
– Meu filho, voltei. Vim participar do grande jantar e contar o que se passou comigo e com meus companheiros de expedição.
– Ecce homo! - gritou o padre.
– É este o francês? – perguntaram os convivas, descrentes das palavras do impetuoso intruso.
– Não, é meu pai – respondeu Giordano.
Pegos de surpresa, os glutões quase derrubaram a mesa, do susto que tomaram, e por um nada não levaram ao chão o pai do padre.
– Cave ne cadas – gritou o reverendo.
– Qualis pater, tales filius – disse o barão, a imitar seu confessor.
– Um dia – continuou Francesco – não sei por que cargas dágua nossa nau naufragou nas costas do Brasil. Ora, aquela era a minha terceira viagem ao Mundo Novo e, como comandante de expedições, sempre fui bem sucedido, embora ocorressem frequentes naufrágios. Mais da metade do pessoal da tripulação morreu afogada e devorada pelos peixes. Os que se salvaram das águas e dos bichos marinhos, ao chegarem à terra firme, foram calorosamente recebidos pelos selvagens, que outra coisa não fizeram senão comê-los. E eu entre eles, eu que sempre enfrentei índios e venci, eu que sempre petrifiquei índios com um simples olhar, um grito, uma bugiganga.
Meus concidadãos...
– Je suis russe – gritou o plenipotenciário do Czar.
– ... não resta a menor dúvida: homo hominis lupus, como disse Plautus. O homem se autodevora não individualmente, mas como espécie. Vejam as guerras, as revoluções, as tiranias. A antropofagia será resultante da fome ou da vingança histórica de um povo contra outro ou de uma raça contra outra? Não sei. Ora, os índios têm animais para caçar e comer e peixes para pescar e comer. Assim, como não pensarmos no racismo? Sim, o racismo engatinhante. Estamos na sua fase menos cruel. Dias piores virão. Teremos então guetos, campos de concentração, fornos crematórios. Ou estarei enganado e a antropofagia será resultante do sadismo humano ou dos costumes milenares de um homem comer outro?
Ainda sinto o meu esquartejamento. Aquelas bocas gulosas e dentuscas, mas nada sensuais, a me comerem. Ainda ouço os gritos de alegria histérica, o rufar dos tambores comemorando a conquista fácil. Ainda vejo as danças macabras ao nosso redor. Aqueles índios pela primeira vez devoravam brancos. Como satisfação final, gritamos, em uníssono, para eles: hodie mihi, cras tibi. Inúteis palavras. Ora, se índio falasse latim, o papa seria pajé.
E o banquete continuou.
A partir daquele dia a tribo não mais esqueceu o grande jantar de carne de branco. Desde então os índios passaram a viver na expectativa de um novo naufrágio, no aguardo de um outro fato como aquele, que se tornou a grande esperança deles, como se fosse a sua redenção, a sua salvação. Sonhavam todo dia com uma grande nau repleta de varões barrigudos, de nobres roliças e de crianças muito alvas e nutridas.
Os convivas se arrepiaram dos pés às cabeças, como se línguas grossas e dentes afiados e grandes lambessem seus corpos e mordessem suas carnes.
– Sonhavam – prosseguiu Francesco Tavola – que essa nau naufragava no quebrar das ondas na praia mais próxima de sua aldeia. E se puseram a construir uma espécie de mirante que lhes servisse de espreita dos mares. Neste trabalho empregaram milhares de homens, mulheres e crianças. E todos trabalhavam com dedicação e amor, como se estivessem construindo suas próprias casas. Ocorreu deixarem de lado suas ocupações habituais e fundamentais, a caça, a pesca, a extração de raízes e frutos, a fiação. Já não se importavam com a tintura do corpo. A vaidade ficou para trás como coisa do passado ou de brancos. As próprias ocas se deterioravam e não se importavam com consertá-las e construírem outras, apesar do aparecimento de novos índios. Os meninos já não pensavam em nadar, brincar no mato, crescer para se tornarem guerreiros fortes e destros no uso da zarabatana, casar-se com a índia mais bonita. Substituíram as velhas palavras por neologismos: naufrágio, nau, jantar, barão, conde, príncipe, nobre, e viviam a sonhar com um prato de carne de branco.
Estupefatos, os ouvintes não sabiam se deliravam, se sonhavam ou se ouviam de fato a voz do morto. Esqueceram os pratos já frios e sem o aroma das primeiras palavras do barão.
– Os rituais mágico-religiosos – prosseguiu o ex-explorador – mudaram de forma e de objetivo: encenavam naufrágios, destroços de naus, esquartejamento de brancos, etc.
Algum tempo depois, já mortos alguns dos participantes do jantar de nossos corpos, já nascidos indiozinhos que nunca viram sequer um branco, o naufrágio não passava de um fato histórico. As crianças perquiriam os mais velhos sobre a célebre data, o grande jantar. Desenvolveu-se uma arte de desenhar naus, homens brancos, naufrágios. Com o correr do tempo, já nem se lembravam mais dos detalhes, das formas e passaram a pintar uma nau como se fosse uma baleia, um homem branco como se fosse um monstro marinho pré-histórico. Não podiam mais dizer: a carne branca tem o sabor disso ou daquilo. Criaram pratos novos para relembrar o prato de carne de branco. Tudo fizeram para lembrar o banquete. Um indiozinho, por exemplo, descobriu um antigo desenho numa rocha, uma figura de branco, e sentiu tamanha sensação que não tardou a morder a indiazinha de sua adoração. De mordida em mordida, terminaram em pleno ato sexual. Acta est fabula.
Dito isto, Francesco desapareceu como éter. O padre, perplexo, perguntou:
– Domine, quo vadis?
– À eternidade – respondeu o barão pelo fugitivo.
– Sit tibi terra levis – aventurou o príncipe russo, já plenamente latinizado.
– E o francês? – quiseram saber novamente os convivas.
– Vocês o comeram – ripostou o anfitrião.
Mal o barão fechou a boca, o padre fez uma careta, encolheu-se sobre a barriga farta e vomitou na cara de John Food a boca de Pierre Bodée.
Lançados de volta à vida, os lábios do indigesto francês, antes da última garfada, ainda bradaram, num latim vomitado e fedorento, aprendido no estômago latino do Padre Giordano Tavola:
– O tempora! O mores!
O MANUSCRITO DE YELLAH
Por que o manuscrito de Yellah continua inédito? Não me refiro ao meu livro, mas ao documento deixado pelo astrônomo. Não ando à cata de glórias literárias, que certamente o livro me darão, nem sou um explorador do fantástico. Ora, o manuscrito se contém em umas trinta laudas apenas. Eu o teria publicado em jornais e revistas, sem uma só palavra a mais, não fossem as recusas dos editores. Foi esta minha primeira intenção, foi este meu primeiro ímpeto.
A princípio acreditei que as recusas de publicação do estranho escrito se devessem ao desinteresse da imprensa pelo assunto. Dias depois, porém, rememorando os fatos, lembrei-me do entusiasmo do primeiro editor ao ler o texto yellahiano, a emoção com que me agradeceu o fornecer-lhe matéria tão interessante. Prometeu-me boa recompensa, a tiragem do jornal sairia dobrada, podíamos preparar outros textos, explorar o filão. Eu topava a parada? Sim, logicamente. Apareça mais tarde para uma entrevista. E bico calado, nada de procurar outros jornais. Deixasse logo cópia do manuscrito com ele.
Mais tarde, já munido de outras informações para a entrevista do século, custei a acreditar estivesse diante do mesmo editor. Desculpasse, mas o assalto ao banco, no fim da tarde, fato inesperado, não estava sabendo? Havia tomado o último espaço da edição. Ficava para outra oportunidade, ou, então, procurasse fulano, amigão do peito, do jornal tal.
De déu em déu, acabei por desconfiar de outras razões para tantas evasivas tão semelhantes entre si. Ora, mal eu me apresentava, já o sujeito, sem sequer ler o manuscrito, pedia desculpas e me deixava a ver navios.
Na minha ingenuidade, imaginei o mais lógico motivo para o veto dos jornais à publicação do documento: o público não iria entender neres de neres do texto, se publicado sem uma nota explicativa, uma advertência, um preâmbulo esclarecedor. E pus-me a rabiscar um perfil de Yellah, noções elementares de Astronomia, rápidos passeios pela História, sínteses das teorias dos sonhos, e cada vez me perdia mais nos corredores da informação e da suposição. Súbito havia escrito um longo texto sobre o manuscrito. Que é meu livro recusado pelas editoras.
Minha luta pela sua publicação pode ser tida como a reedição da que travei pela divulgação do escrito de Yellah. Assim, deixei o primeiro editor cheio de esperanças. Ora, eu lhe fiz uma síntese do livro e o assunto lhe pareceu fadado a grande sucesso de público. Falou-me numa primeira edição de cinquenta mil exemplares. Não autorizava logo a publicação para não fugir à política da casa. Referia-se à leitura dos originais pelo conselho editorial. De qualquer forma, voltasse dali a três dias, para a assinatura do contrato. E deu-me palmadinhas às costas, ofereceu-me café, abraçou-me.
No dia aprazado, lá estava eu de novo diante do velhinho. Não o levasse a mal, compreendesse sua posição, não podia ser contra a opinião do conselho. E voltei às correrias e aos desenganos.
Para uns, todo o meu livro, inclusive o texto de Yellah nele inserido, é pura ficção e, por só publicarem obras científicas ou de informações, se me editassem, estariam enganando o público. Para as editoras de obras de ficção, O Manuscrito de Yellah não passa de um amontoado de pseudo-informações. Existem aquelas, porém, que publicam de tudo. E estas têm também suas razões: não investem em autores desconhecidos, andam às voltas com crises financeiras, seus cronogramas editoriais já estão elaborados para os próximos cinco anos.
Decepcionado com a nossa indústria editorial, fiz das tripas coração e fui bater às portas de editores estrangeiros. E até lá minha má fama já chegou. Ou não se trata disso?
O tal manuscrito que ninguém ousa publicar e mais um telescópio foram encontrados por um camponês de Solenhofen junto às cinzas de Yellah. Adquiri-os por uma ninharia.
Em fins de 1945, muitos camponeses morreram fuzilados na Alemanha. Apesar da rendição dos governos fascistas, atrocidades como estas davam prosseguimento à matança iniciada nos anos anteriores. Famílias inteiras desapareciam ao fogo do desespero nazista. Só por extremos atos de heroísmo, um ou outro conseguia escapar à morte. Como Elizabeth Stengel. Grávida de oito meses, correu quilômetros da fúria de seus compatriotas ensandecidos. Para trás deixou os cadáveres do marido e dos filhos. E alcançou a França, onde deu à luz um menino, que batizou com o nome de Yellah. Por que não de Peter, Thomas, Karl? Ou de Pierre, Charles, Paul? Nem alemão nem francês.
Não durou muito Elizabeth e a criança terminou num asilo para menores abandonados.
Em 1960 o jovem Yellah sonhou com a própria morte. No sonho, estávamos em 1970 e milhares de monstros alados saltavam de um cometa para a Terra e massacravam a humanidade.
Daí por diante, passou a interessar-se por astronomia e fenomenologia. Descobriu as inexplicáveis coincidências existentes entre Halley e ele mesmo. Seu nome, escrito de trás para a frente, era o do astrônomo inglês. Sua mãe havia nascido em 1910, ano da aparição do cometa de Halley. Ela, sim, poderia ter se chamado Yellah.
Em 1682, aos 26 anos de idade, Edmund Halley viu o cometa que recebeu o seu nome. Em 1970, ano da passagem do cometa de seu sonho, Yellah estaria também com 26 anos de vida.
O cometa de Halley reapareceu em 1758, ou seja, 16 anos após sua morte. Em 1986 reaparecerá o cometa, ou seja, 16 anos após a morte de Yellah.
Segundo o inquieto filho de Elizabeth Stengel, no dia 30 de janeiro de 1970, milhões de seres humanos sonharam com a invasão da Terra pelos superarqueoptérix. Estes monstros alados habitavam o cometa de seu sonho apocalíptico há milênios, quando fugiram da Terra. De volta ao berço natal, devoravam os homens, tomando-lhes o lugar de reis da criação.
Para Yellah, o sonho coletivo de 1970 se concretizará em 1986.
Quem se lembrará de um sonho comum dos anos 1970? Nos apontamentos dos psicanalistas talvez se encontrem versões destes sonhos. Ou todos eles preferiram queimar seus cadernos, a terem de depor como inquisidores?
Na opinião do prodigioso alemãozinho, o sonho está para a realidade como a ficção está para o leitor. Um romance, consoante ele, é um ser de palavras. Cada leitor, no entanto, o lê à sua maneira, de acordo com sua capacidade. Uma realidade em si mesma é imutável, embora os homens a vejam em sonho à maneira de cada um. E vai mais longe: o sonho é sempre mais grandioso do que a realidade, da mesma forma que um romance se enriquece à medida que é lido.
Pela teoria de Yellah, para ele verdade irrefutável, enquanto os homens sonhavam, os superarqueoptérix rondavam a Terra.
Para se defender das acusações de charlatanice filosófica ou científica, o pequeno sábio fundamenta sua afirmação assim: os milhões de seres humanos que não dormiam e, portanto, não sonhavam no momento da passagem do cometa, foram ocasionalmente hipnotizados. E também sonharam. Em hipnose ou sono natural, a humanidade estaria desarmada para qualquer resistência.
O tempo de duração da hipnose coletiva estava previsto para algumas horas, suficientes para o ataque a todos os rincões do planeta. De fato, porém, não passou de segundos. Desentendimento entre os invasores? Arrependimento? Decisão de última hora de adiamento do golpe? Na verdade, segundos após a aspersão do narcotizante sobre a Terra, os estranhos nos bombardearam com outra substância de efeito neutralizante.
Yellah teria sido o único ser humano a ver o cometa pelo telescópio e ao mesmo tempo em estado de hipnose ou sonambulismo. Escrevia a parte final e mais importante de sua pequena obra – justamente a narração do aparecimento do cometa e do ataque dos monstros – quando o raio da morte o fulminou.
Ao texto de Yellah não cabe a mim nem a ninguém chamar de ficção. E se for, por que esse medo deles? Ao manuscrito não compete a ninguém indicar seu autor. Se eu, sou quem? Se Yellah, ele existiu?
O ORÁCULO
Guilhermartins orgulhava-se de sua sem par biblioteca, que de vez em quando aparecia na imprensa. Dizia o colunista social: O intelectual Guilhermartins, dono da mais rica coleção de alfarrábios, jantava ontem ao lado da bela Antonieta Brochado. O repórter vulgava: Chega-se a duvidar da existência do Tratado do Amor do Diabo, de Abulcámim Abdelhákem, tal a sua raridade.
Ao lado das fileiras de franceses, brasileiros, javaneses, acumulavam-se pilhas de revistas e jornais: O Chauffeur Moderno, Revista do Foot-Ball, O Positivista Mineiro, Diário da América, Gazeta do País, Revue des Cinq Mondes, Il Fanfulla, La Hacienda, The Marine Engineer e outros.
Perguntado em que cousas gastara seu tempo enquanto vivera, disse que lera desde A Aarônica Aba Ababá, novela mentirosa sobre os costumes dos índios ababás, escrita pelo cearense José de Alenquer, até Zwinglio Zuruó, biografia moleque de autoria do soviético Alexey Chirikov.
Perguntado quanto tempo havia que era leitor, disse que havera oitenta ou setenta e nove.
Estas e outras perguntas e respostas encontram-se publicadas nos jornais, assim como as segundas, um tanto modificadas, como afirmações de outras pessoas, em periódicos mais antigos. Por exemplo, é da edição de 27 de novembro de 1937 do Diário da América o seguinte trecho do pesquisador Salomão Souto: “A Aarônica Aba Ababá, novela fantástica sobre os costumes dos índios ababás, foi escrita por José de Alenquer.”
A primeira refeição de Guilhermartins consistia de café com manchetes. Um gole aqui, um golpe ali, um sorvo agora, um corpo morto no canto da página, uma sorvedura apressada, uma ditadura derrubada. Dos títulos passava às matérias e o golpe se enchia de sangue, estrelas, tanques nas ruas, pronunciamentos, prisões, decretos, viva o general.
Esse hábito de não comer pão nem mamão, leite ou azeite após o sono se constituiu ao longo de décadas de falta de tempo para fazer uma refeição mais rica, porque apetite não lhe faltava, nem sua fazenda parecia pequena.
Vivendo assim, não podia sonhar senão realidades, quer dizer, realidades futuras, fatos vindouros, porém logicamente relacionados aos do passado dia. Assim, se antes de pegar no sono lia sobre o nascimento do filho da princesa, no sonho lhe aparecia a relação dos prováveis nomes reais do infante às mãos do príncipe. Pulava da cama, agarrava os jornais e ria de mais um crime da imprensa – todos copiavam seus sonhos.
Entre suas previsões mais assombrosas citam-se o lançamento do Sputnik, a destruição de Israel, a publicação de A Cachoeira das Eras, de Carlos Emílio Corrêa Lima, e a morte de Stalin.
Um crítico, de sua amizade, chegou a chamar-lhe de o oráculo da era atômica. Guilhermartins riu e explicou: a História é uma novela; o novelista, um gênio anônimo. Os teístas o insultaram. O gênio tinha nome, sim senhor: Deus. Os ateístas defenderam-se: não existia esse tal gênio.
Disse mais Guilhermartins: considerava-se apenas o mais atento e inteligente espectador, daí poder ler o próximo capítulo antes de publicado. E recusou convites para polemizar. Faltava-lhe tempo para falar. Mandava um pequeno texto sobre a questão. Discutissem-no à vontade.
De fato, estafetas e jornaleiros não paravam de bater à sua porta, sobraçando pacotes das mais variadas procedências. Jornais da Jordânia, revistas revanchistas alemãs, boletins de laboratórios farmacêuticos, informativos panteístas, publicações de guerrilheiros e terroristas, relatórios acadêmicos e divulgações de seitas novas.
Não se esquecia de si mesmo Guilhermartins. Colecionava tudo o que a imprensa publicava sobre sua pessoa. Na primeira folha do álbum, a notícia de seu nascimento. A partir daí, entrevistas, artigos, crônicas, reportagens.
Uma dessas crônicas, do poeta Carlos André, começa assim: “Há quarenta anos conheço e pratico esse raro Guilhermartins, e ainda não me arrependi de o ter achado. Pois o achei, posto que o procurasse sem o conhecer. Valeu como achar a edição príncipe de O Grande Pânico, de Airton Monte."
Tomam três ou cinco folhas as reportagens sensacionalistas sobre seu divórcio. Num deles, sua mulher o chama de maníaco, leitor inveterado, comedor de traças, intelectual onisciente, o diabo.
Um dos artigos mais pomposos sobre sua pessoa intitula-se “O Mago Guilhermartins” e o equipara a Wronski, o inventor da máquina de predizer.
Apesar da enorme quantidade de publicações que diariamente recebia, Guilhermartins sabia de cor os nomes de todas elas e até os dias em que deveria recebê-las. Deu-se então de um dia o estafeta esquecer-se de levar-lhe o Informativo Cabalístico. O assinante vomitou insultos: irresponsável, inimigo da informação, mulherengo, nazista. E o entregador de jornais perdeu a paciência: maníaco, judeu, alienado, filho de satã. E saiu aos brados.
Fulminado por tão duras palavras, Guilhermartins sentou-se sobre os pacotes, abatido, triste, decepcionado.
– Eu, maníaco? Sim, por que não? De que me serve o conhecimento ? Para que passo a vida a ler, a me informar de tudo? Tenho vivido aqui, cercado de livros, revistas, jornais, envelhecido diante de tudo isso. Que fiz afinal da vida? Ou ainda é tempo de mudar, de fugir dessa caverna, de sair do ovo, de pular para o mundo?
E saltou para a rua, a gritar que sabia de tudo, conhecia tudo, o passado e o presente e até um pouco do futuro. Cercaram-no curiosos e ele subiu a uma janela. Pôs-se a falar de guerras e pazes, enchentes e secas, golpes e revoluções, tudo sem nenhum sentido, misturado, confuso.
– É o sábio Guilhermartins.
– Um doido varrido.
– O diabo em pessoa.
Pouco a pouco, todos se afastaram e ele se calou. Coçou a cabeça, arregalou os olhos, sorriu. E correu aos jornais e emissoras. Noticiassem: Guilhermartins convocava a população para uma conferência sobre o conhecimento humano. Na maior praça de esportes da cidade. Entrada franca. A partir do fim da tarde. Sem horário previsto para o encerramento. Podiam decretar greve geral. Assim, todos estariam livres para comparecer ao espetáculo.
Não falaram de greve, porém milhares de pessoas se atropelaram desde o começo da noite diante do estádio. A cavalaria não sossegou de pisotear a multidão.
O PECADO GENIAL DO DR. ÍPSILON
Apressou o passo, impelida pela fome e pela vontade de fugir daqueles olhos maliciosos. Abriu, barulhentamente, o portão, voltou-se para a rua e viu na calçada apenas crianças a brincar de roda. Distraída, arrancou uma malmequer e a jogou ao meio do jardim. Todo dia sua mãe lhe dizia: deixe dessa mania de arrancar as flores. Um dia ainda você vai se estrepar. Sentia-se morta de fome. Que seria a janta? Lavou as mãos na pia e sentou-se à mesa. Os velhos esfriavam suas sopas, calados. Meteu a colher no fundo do prato e espalhou as tiras de verdura e os fiapos de macarrão. A fumaça subiu mais rápido e mais espessa. Soprou fufufu, mas não resistia mais, jurava, ia beber a sopa quente mesmo. A primeira colherada queimou-lhe os lábios e a ponta da língua. Vomitou no prato. Deixe de ser mal educada. Voltou a soprar fufufu e a mexer a sopa com a colher. Mexeu soprou mexeu soprou mexeu soprou. Não está tão quente assim, Bruna. Tome logo, antes que esfrie. Ela obedeceu, porém não meteu toda a colher na boca. Beijou-a e sorveu um golinho somente. A seguir, pôs-se a beber a sopa com avidez. De repente o prato levantou as patas traseiras. O resto da sopa, já entre morna e fria, derramou-se sobre a borda da mesa e em seu vestido. Os velhos se espantaram e desviaram os olhos para o prato, ainda de patas erguidas. Tiras de verdura e fiapos de macarrão se espalhavam lentamente sobre a borda da mesa e desta para o vestido de Bruna. Todos de olhos arregalados. Que foi? perguntaram os pais em voz alta. Ainda não aprendeu a tomar sopa? É sempre assim, essa sujeira. Bruna não compreendeu nada. A primeira e última vez que derramara sopa fazia uns três anos, lembrou-se, num átimo. Não tivera culpa. Nem sequer tocara a mão no prato. Encostou então a colher, disse o pai. Fez força e o prato perdeu o equilíbrio, completou a mãe. Não, não fizera força. Jurava. Não? E quem foi então? Bruna afastou a cadeira com estardalhaço, levantou-se, lépida, e correu ao banheiro. Mude esse vestido, gritou sua mãe, nervosa. Lavou mãos e pernas e dirigiu-se ao quarto. Despiu-se apressadamente. Quando se viu no espelho, nua, sentiu um ligeiro arrepio percorrer-lhe o corpo, como se mãos medonhas deslizassem sobre ele. Como se uma língua viscosa lambesse sua alva pele macia. Como se uns olhos de fogo penetrassem sua nudez. Olhou em volta e só viu a cama, o guarda-roupa e a penteadeira. Sossegou, escolheu outra calcinha e a vestiu, deitada, erguendo as pernas. Olhou-se e sentiu novamente as mesmas sensações de um minuto atrás. Vestiu um vestido velho, caseiro e curto. Precisava fugir daquele quarto. Daqueles olhos maliciosos. Apressou o passo e transpôs o umbral da porta. Lá fora a meninada brincava de roda. Do jarro sobre a mesa arrancou uma bem-me-quer e ...
O PROBLEMA FUNDAMENTAL DA EXISTÊNCIA
Os cinco despertaram ao mesmo tempo. Parecia-lhes que ressuscitavam. Em volta, só escombros, podridão, desolação. Olharam-se, curiosos, o pavor grudado nas caras, quais máscaras mal pintadas. Calados, puseram-se a mexer dedo após dedo. A seguir, toda a mão, desconfiados do milagre da sobrevivência. Pouco a pouco, foram se erguendo, feito lázaros de um imenso cemitério. E caminharam entre os mortos. Gemiam, surdos. Olharam-se, gemebundos. Iam, semimortos. Ais e mais ais. Lamentosos.
Súbito um deles correu. E todos o seguiram, a berrar e gargalhar.
Não, não podiam correr sempre. Urgia parar, pensar.
O mais idoso, marido da gorda e pai dos outros, pediu silêncio.
– Vim de pensar sobre nós, o nosso problema fundamental. E cheguei a uma conclusão: estou velho, não tenho mais futuro. E vocês, meus filhos? O que será de vocês?
O rapaz voltou a se entristecer. Dirigiu-se ao pai e o abraçou.
– Pai, meu único amparo é você. Me compreenda, me ajude, me salve do desespero.
A velha, irritada, levantou o braço, como para discursar:
– Eu também não tenho futuro, sou uma defunta, como estes aí jogados ao chão. Mas quero viver por vocês, meus filhos, e principalmente por você – e, chorando, abraçou-se à garotinha.
A moça parecia sonhar. Olhava para o céu, como se esperasse um salvador, o príncipe encantado da adolescência recém-finda. A menina vasculhava o chão, à cata de brinquedos soterrados.
O velho coçou a cabeça, franziu a testa e exigiu o fim das lamentações. Era preciso pensar rápido, tomar decisões urgentes. Do contrário, viveria seus últimos dias a lamentar a catástrofe.
– Vamos, estão esperando por quem? Não há mais ninguém, podem crer. Somos só nós neste mundão. E é necessário pensar na perpetuação da espécie. Ou vocês são tão egoístas assim? Além do mais, afora eu e a velha, vocês não viveram quase nada ainda.
Calou-se, à espera da reação da família. Queria opiniões, atitudes positivas. E, como todos permanecessem mudos e cabisbaixos, chamou a filha moça, beijou-a na face e sentou-a junto a si.
– O que é isso, velho safado? – atalhou a velha.
– Compreenda, você já passou da menopausa. Não podemos deixar que a espécie se extinga.
E beijou novamente a filha, como se tivesse resolvido o problema.
– Mas não pode ser assim. Você é o pai dela e isso é pecado, crime. Ou degenerou de vez?
Puseram-se a discutir os dois velhos, ele se dizendo preocupado com o destino da espécie, ela apegada à moral, à religião, à lei.
– Nada disso existe mais, a partir de agora e até que a família se torne tribo ou nação. Ou você pensa que vai surgir um Deus e nos trazer uma Eva ou um Adão?
O rapaz pôs-se a choramingar. Deixassem de discussões, chegassem a um acordo.
– E o que vai ser de minha filhinha no meio dessa imoralidade toda? – gritou a velha, enlaçando a menina.
– Tenho pena dela – disse o rapaz. – Se houvesse mais dois meninos, pelo menos?
A moça desvencilhou-se do pai, que a beijava e apalpava-lhe os seios.
– Não quero, não quero. Prefiro morrer só.
– E seu irmão e sua irmãzinha? Você não pensa neles? Deixe de ser tão egoísta – irritou-se o velho.
– Ora, meu irmão não...
– Como me faz falta um amiguinho – defendeu-se o rapaz.
– Além do mais, a menina precisará de um companheiro, embora muito mais novo do que ela – argumentou o pai.
– Velho tarado? Primeiro quer a filha moça, depois que a menina vá pecar com o irmão por nascer. Não acha isso demais?
– Então vamos morrer todos solitários, masturbando-se e enlouquecendo? Você não – e apontou para a mulher – que já não pensa em nada.
– Papai tem razão – dizia o rapaz.
De repente a moça parou de chorar. Aceitava o pai como marido, contanto que deixassem em paz a irmãzinha, enquanto criança.
O velho bateu palmas e, aos risos e gritos, correu para abraçar a filha.
– Esperem aí – bradou o rapaz – só aceito isso se ele me quiser também. Caso contrário, sou capaz de tomar uma atitude violenta.
– Contra quem? – quis saber o velho.
– Você.
– Pior para você, meu jovem.
A velha pedia calma, abraçada ao filho. Não se precipitasse. Não cometesse um crime maior, matando o próprio pai.
– Você era tão católico, tão pacífico, tão direito!
– Realmente, seria um crime horroroso. Mas não vou morrer sozinho.
– Que quer dizer você?
– Que prefiro matar minha irmã.
A moça pôs-se a gritar, como se estivesse sendo torturada, e refugiou-se nos braços do pai, pálida e trêmula, derretendo-se em lágrimas.
– Calma, minha filha, ele não fará nada com você. Prometo satisfazer todos os desejos dele.
A velha irritou-se com o desfecho da controvérsia, amaldiçoou os três e abraçou a filha menor.
Ao largo, o velho e os dois jovens se puseram a confabular.
– Você deve se sentir orgulhosa de seu papel – dizia. – Veja, você é a única pessoa no mundo capaz de fazer continuar a obra de todos os nossos antepassados. Ficará na História mais do que como um mito e um símbolo. Você será a mulher que salvou a espécie humana da extinção.
Mais tarde, embora a velha não parasse de amaldiçoá-los, os três trataram de escolher o local que serviria de abrigo para a futura tribo e convocaram a menina para uma reunião especial. Iriam comunicar-lhe o nascer do novo mundo, da nova ordem, da nova moral, da nova lei.
– Se não for assim, você será a única a sofrer. Ficará só no mundo, até a morte – explicou-lhe o pai.
Brevemente nasceria um menino, seu irmão e sobrinho, com quem ela haveria de se casar um dia.
– E se só nascerem meninas? – quis saber a garota.
Todos riram de sua inteligência. E, mais do que rir, o velho esfregou as mãos, cheio de contentamento.
O SONHO DO MELIANTE GUIMARÃES
Acordo sempre suado, o coração fogoso, gritando pela mulher, como se ela pudesse me acudir e evitar minha queda. Ela se revira, me chama de danado, foge de minhas mãos trêmulas, pula da cama, acende a luz, chora e berra. É sempre madrugada, tem chovido fininho e faz um frio bom para se dormir.
– Como foi o sonho? Você sonhou comigo, Guimarães?
Perco o medo, sento-me, olho para aquela mulher comum e enjoada, e conto tintim por tintim o sonho.
Da primeira vez fiz um barulho medonho. Gritei feito um doido e ela só começou a entender o desastre depois que me viu estatelado no chão.
– Caiu da cama?
Nunca fui besta para dormir junto ao penico. E por que caí? Ela era burra, uma pedra. Ainda tive coragem de medir as frases, escolher as palavras, essa mania de querer ser mais inteligente do que ela, humilhá-la, deixá-la de queixo caído, fazendo perguntas.
Muito alto, quase os píncaros do céu. Meus cabelos se confundiam com as nuvens e as fumaças das fábricas. De repente anoiteceu e meus olhos brilharam como estrelas e em minha boca despontou uma lua negra e do fundo da goela saltou uma labareda, que só faltava queimar o caixão onde você dormia desgrenhada, os seios para cima, para não os amassar. Besteira sua, pois a subida era íngreme e por pouco a cama não despencou lá de cima com você e tudo, apesar de minhas patas peludas se agarrarem aos buraquinhos da parede. Embaixo, multidões berravam e erguiam os braços, à moda muçulmana, como querendo nos aparar. Eu não entendia tanto delírio e ora chamava aquela malta de fascistas, ora me apiedava deles, crente de que nos invejavam, impossibilitados de deixar o chão.
Não sei mais direito a ideologia da história, mas posso ainda engendrá-la à custa de uns apontamentos feitos horas após o sonho. Além disso, no momento em que o narrava à mulher, perdi o fio da meada e, para não demonstrar incapacidade, inventei outros enredos. Eu era uma enorme aranha que carregava às costas um caixão e dentro dele a mulher nua e dormida, fugia de uma catástrofe, os prédios ruíam, o povo arribava para as montanhas e, ao ver a aranha abalando no rumo dos cimos gelados, além de onde voavam as espaçonaves, punha-se a jogar grandes anzóis para o alto, picaretas que feriam o calcário, na tentativa de salvação. No entanto a pedra poucas vezes agarrava a isca, e a maioria daquele povo desesperado deixava de lançar seus instrumentos, embora continuasse a olhar na direção do inseto, a erguer os braços e a blasfemar, rogando a Deus que escorregássemos e caíssemos em seus tentáculos. Queriam meu sacrifício, para depois me sepultar aos pés da parede.
Na segunda noite o sonho se encheu de detalhes e simbologias. Eu via a aranha escalando o muro e ao mesmo tempo eu era o bicho.
– Homem-aranha – arengou a mulher.
– Muito horrível, você entende?
Ela não entendia. Apenas me achava para lá de doente, mais feio, preto e cabeludo.
– Essa sua barba suja de baba vai me emporcalhar toda.
Eu pedia: traga o médico, e ela me falava de dificuldades. Onde iria procurá-lo? Melhor irmos os dois aos hospitais, às clínicas, aos apartamentos, aos clubes, aos estádios, às ruas. Impossível achá-lo por acaso. Ao me verem naquele estado, os moleques iriam me atirar pedras, laranjas podres, ovos de galinha. No tumulto, a polícia terminaria me levando preso, me espancando, talvez me assassinando.
Passava os dias enfurnado em casa, procurando aranhas pelos quatro cantos, para matá-las e queimá-las com cigarro aceso.
Agravava-se meu estado e terminei procurando o psiquiatra. Toquei com as pontas dos dedos peludos a maciez do divã e me arrepiei. Melhor ficar de pé.
– Aranha não se senta em divã, doutor.
Fez-me contar um a um os sonhos. Queria tudo detalhado, límpido. E tomava notas com a mãozinha vermelha. Ao final, achou-me perfeitamente são, normal, pronto para voltar ao trabalho e ao convívio social.
– Eu mesmo sonho sempre fazendo amor com uma egípcia, no alto da Torre Eiffel.
Procurei um padre. Só não suportava ouvir histórias bíblicas. Ele sorriu, benzeu-se e quis me tocar. Tive medo e me afastei.
– Qual é o seu pecado, filho?
Fez-me perguntas e mais perguntas. O que eu sonhava, se eram imoralidades, se com outra mulher ou algum homem. Perdoava-me, se reconhecesse que o muro alcançava a Casa Eterna.
Não sei quem deu início ao processo. A prisão será o pior, porque estarei sonhando perpetuamente. Melhor a pena de morte. Assim, não mais sonharei, nem chegarei ao fim da escalada.
– Punição para o meliante Guimarães – estão gritando.
(Continua)