Punhalzinho... (2)
(Continuação)
GESTA DO JABURU
De longe, todo cristão crismava de tapera aquela cabana, não fosse ela coito de capangas desses coronéis de meia pataca – fortim pelas armas em que se sustentava e pelos cabras que abrigava. E pra invadir tão bem arrumada arapuca, nada como a manha de um velho caçador de cangaceiros, neto de bandeirantes. Primeiro a obediência muda, porque palpite é coisa boa de dar, feito cascavel dentro de balaio. Fosse acreditar no que a vista enxerga, não tinha passado dos cueiros. Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém, a não ser a quem não os toma.
Coronel Pedro Ramos rabiscava no grande chão a estratégia que não traçou aos pés – um pra cá, rifle em ponto de bala: Cafinfim; pelos fundos corresse Jão Birro; se postasse pra esquerda Zé Moreno; opostamente, Chico Preto; mais atrás perto ficasse Zé Luís. E Caetano? Arrodeasse a mira aos papocos, mas só na hora do sinal.
Cercava-se a casinha de Manéu Calixto.
***
Terreiro limpo, batido de pé de galinha, focinho de porco, samba de sanfona. Ao derredor, gravetos velhos, empatando ver a mataria, pai e mãe. Romão e Tinha corriam bichos, cavalo atrás do boi, línguas de fora, espinhos que não tocavam gibão nem couro de rês. E nem viam os sete cavaleiros do outro mundo tomando conta das cercanias – relincho besta acabou com a brincadeira.
O boi parou o cavalo-vaqueiro, tudo virou verde, a mata estremeceu. Visage, sinha Tinha. Grito não saiu de nenhuma boca e o ensaio terminou pros assistentes.
O bando sem louvar nem rabicho nem tungão nem aboiador rodeou Romão e Tinha. O coronel perguntou pelo dono do tijupá. Engoliram a língua, os moleques.
Nada se mexia no mundo: cabana fincada no meio do terreiro salpicado de bichos e povo, terreiro cercado de mato feito roçado, galinha, cabra, pato aqui e acolá, Romão pé ante pé, mão grudada na da irmã, coronel bigodudo, durão, em cima do cavalo, Cafinfim à moda de capataz, Jão Birro mais atrás, Zé Moreno na aba esquerda, Chico Preto na direita, Zé Luís assim meio com medo, Caetano caía não caía em riba do animal rodopiando.
Romão correu puxando Tinha pros fundos da casa e, na confusão, alvoroçados, sapateavam e relinchavam os cavalos de verdade. Não sei quantas veredas se abriram detrás dos cavaleiros, que uniram as ancas dos animais, formando um setestrelo. Em upas e upas, fizeram um montão de capim descomido no meio do aglomerado, soterrando um galo escanchado numa galinha.
Os olhos do mato queimavam as ventas dos cavalos. Da fogueira recendia a tarde cedo. Correr atrás daqueles dois pestinhas. O coronel sofreou o capitão Cafinfim, homem corajoso como o diabo. No vai não vai, desgrudou-se a estrela de sete cabeças e o mundo virou uma barafunda. As de Jão Birro espantaram as galinhas, soltando nomes feios pelas fuças. A janelinha de espiar histórias de trancoso convidava Zé Moreno e seu fogoso animal pra uma fugida. Entrar por aquela brecha aos emboléus. Melhor do que janela era o telhado de palha pro Chico Preto atear fogo. E Zé Luís saiu trotando, tremendo o chão, cercando o tempo de olhos. Caetano desapeou, correu pra um canto, acocorou-se e acendeu um cigarro. Não ia haver nada, não, seu povo!
***
O cavalinho e o boizinho esticaram pra de junto do pai. Que diacho era aquilo, seu Deus do céu? Manéu cruzou uma perna noutra e escorou as costelas no cabo da enxada. Cobrinhas correram com medo da estrepolia. Iam era pro mato. Quem espera por tempo bom é vazante.
Não havia cuspe que melasse aquelas línguas de papagaio, nem cantador no mundo que ensinasse palavra àqueles capetas. E Manéu querendo saber tintim por tintim uma história bem de verdade contada por aqueles olhos de quem viu assombração. Sacolejava o cabrinha e a cabrinha e só via choro e latido do Paturi.
***
Atubibados pelo não sabiam quê, o coronel e seus cabras basculharam as cercanias da terra. Existiram ou não houveram um menino e uma menina? Um garantia que caipora podia até ser. E pediram fumo? E só quem tinha uma lasca era o Caetano, aquele peste, em tempo de desgraçar a vida deles. Mandasse o coronel o metido pros infernos, antes que cometesse outra desavença. Fugir de lá enquanto fosse tempo. O coronel até riu do despropósito – fugir com medo de assombração, só se não tivesse nascido daquele jeito. Ou havia debaixo daqueles tungões quem não fosse macho? Mostrassem os ovos. Ou queriam vestir saia? Cabra seu tinha que ser homem indo e voltando.
Nem caipora nem caipira. Todo mundo no seu posto: fulano aqui, sicrano ali, beltrano acolá, olho na tapera. Enquanto um olhasse pra frente outro visse pra trás, se não desse pra cada um enxergar pros dois lados ao mesmo tempo. Ou despregar um olho da testa e grudar na nuca. Zé Luís pestanejou: aquelas malfeitorias no organismo costumavam cegar os viventes. Mas o coronel não queria ouvir bom-dia a cavalo. A postos, porque deviam chegar homens armados de tolas las bandas. E, pensando bem, melhor era fazer como os cavalos e se ajuntarem de bunda. Dava na vista e pegava mal. Bando de bestas, aquilo não devia ser soletrado ao pé da letra. Conheciam os parangolés da Bíblia? Que Deus o perdoasse se dizia heresia. Entrassem de arriê pra dentro da cabana e cada um assumisse um ponto estratégico: ele mesmo subia pra cumeeira; Cafinfim vigiasse a porta da frente (levava a primeira bordoada, se os tocaiados resolvessem entrar sem um “ôi de casa”); Jão Birro se postasse à janela da frente, feito moça donzela esperando prinspo encantado; Zé Moreno ficasse de tocaia na porta da cozinha; Chico Preto se recostasse na janela do oitão da banda do sol; Zé Luís feito égua na mira da janela da outra parte; Caetano no meio do caminho, mascando fumo pra caipora.
***
Na beira do rio, Cordulina esfregava roupa nas pedras, pernas de fora, cachimbo fumegando e de longe escutou a gritaria de Manéu. E a récua de gente, de cabeça baixa, feito cassacos, se chegando. Inda mais aquela! Coisa mais parecida com desgraça! Fosse ver, era conversa de menino!
Cheia de espuma nas mãos (mãe vinha de mão branca), Cordulina pegava parelha com o rio. Na outra direção, os quatro gesticulavam e engoliam vento: cabras armados, do Coronel Chico Bento, com o diabo nos couros. Não podia entender patavina do que diziam aquelas matracas e papagaios na areia quente. Ciscavam a ribanceira. Mas não havia tempo a perder – ficassem rezando por sua alma que ele Manéu ia sozinho espiar que rebuliço era aquele. Não fosse só, não senhor, chorava a mulher, esperneavam os filhos, latia Paturi.
O Jaburu cabriolava dourado no meio da tarde.
***
Surgido da mata, um bicho avançou sobre o bando do coronel, pronto a tudo esfolar. Dedos ensebados nos pinguelos, a artilharia preparou-se pra pipocar o sertão. A terra tremia na sezão da hora.
Um galo perseguia uma galinha feito um barbatão. Pêi.
***
Manéu apareceu na última curva do caminho, coragem apontada na mira dos pés, gato na hora de enfiar as unhas nas asas do passarinho. Miau, cabra safado. Pisava nos gravetos, feito sabiá enrabichado por cobra. Crau, crau. Fosse, seu bichinho, bicar a ponta do olho aceso da perdição.
Caetano pitava de olhos fechados, montado na carabina de derrubar sanhaçu. Manéu sofreou o passo, puxou a brida dos pés, em tempo de engolir o cano da pica-pau cachimbenta. Boas-tardes, dona cobra. Sondava o estranho, que Paturi acuava. Calmasse lá, caçador de preá. Ia pra onde aquele cabra topetudo? Fazia o quê armado no seu caminho aquele papangu? Vira e mexe, o solzão esquentou os pés de Manéu e a carabina de Caetano. Largasse aquela porcaria e amarrassem as pontas das camisas. Como eram mesmo as graças de um e outro?, ia indo, fosse com Deus.
Manéu deu um passo e mais outro e nem um espere aí. No seu lugar pitava e mais pitava aquele cururu de goteira.
Antes que uma bala plantasse sua cruz na beira da estrada, Manéu inventou de arriar as calças e entupigaitou no mato. Olhou de viés pra trás: Caetano chupava o fumo e resmungava. Que diabo andava querendo aquele cabeça de bater sola? Espiou pra um lado e pra outro, enfiou a carabina no sovaco e abriu a braguilha.
Cordulina, meninos e cachorro avistaram aquilo de longe. Não tinha jeito de Manéu. Fazia parte do bando, jurava Romão. Invenção mais besta! Cristão ariado, necessitando de orientação.
***
Manéu avistou a casa queta, no lugarzinho de antigamente. Mas que bicho era aquele em riba da cumeeira? Devia ser agouro. Ora, mais essa, é um mama-na-égua escanchado na janela, olhando o tempo.
Escondeu-se detrás de um jatobá. Bem capaz de ser verdade a história dos meninos. Zé Luís apontou a arma na sua direção e chamou pelo coronel. Os cabras do Jaburu estavam cercando o sítio.
Alarmados, os capangas largaram seus postos e, no vai e vem, esbarraram um no outro, entre a sala e a camarinha. Ia sair bala à toa, quando o coronel despencou do telhado, feito um saco de farinha, e quase achatava o magote de cabras.
Na zoadeira, toda a mata despertou, e Caetano, sem mais querer saber de conversa com Cordulina, correu no rumo da casa. Manéu ainda quis impedir que a família se metesse no salseiro, mas a mulher encambitou atrás do capanga, arrastando filhos e cachorro, e não ia ele ficar plantado detrás do jatobá, esperando o mundo pegar fogo.
No meio das palhas que arrastou na queda, o coronel limpava os olhos e a barba, atordoado. Jão Birro oferecia o lenço ao patrão, Zé Moreno perguntava se podia matar um cachorro que vinha latindo no rumo deles, Zé Luís escondia-se detrás do coronel e Cafinfim assumia o comando provisório da tocaia. Todos a postos: entrava no fortim, arrastando a arma, Caetano, seguido de Cordulina chorosa, Romão de pedra na mão e Tinha de olhos esbugalhados.
Refeito e raivoso, o coronel voltou a arma pros estranhos. Parassem na soleira da porta e dali voltassem, se não quisessem fazer a última viagem. Manéu, que chegava, se viu cercado de carabinas e gritos. Onde andavam os outros cabras? E o cachorro do patrão? Fossem logo arriando as armas, para evitar carniça. Manéu perdeu a fala, amarelou, e Chico Preto encostou o cano em seus peitos. Ficasse pra um canto até que o patrão dele aparecesse. A mulher e os meninos batessem perna, que aquilo não era briga de marido e mulher, não. Agarrados à saia da mãe, Romão e Tinha não queriam deixar o pai sozinho. Manéu recuperou a fala e chamou o coronel de patrão. Calasse o bico e respeitasse: Coronel Pedro Ramos não acoitava cabra frouxo. A fala escorregava pelos cantos da boca do dono da casa, mas esbarrava no pedregulho das carabinas: não desse um pio e escapulisse, se não quisesse ir parar nos infernos. Ao menos arrumar a trouxa, carregar alguns cafiotes. Sim, mas aviasse e nada de manha. Conhecia muito bem aquela raça de bezerro desmamado. Quando menos se espera, o choro vira valentia.
O velho morador do Jaburu retirou-se, arrastando mulher e filhos. O coronel, desconfiado, mandou Cafinfim e os outros vasculhar a região, à cata de capangas do dono daquela tiborna de sítio. Queria logo se apossar de mais um pedaço de terra. E gargalhava e permitia que os cabras se esgoelassem de rir.
***
Rompendo as fronteiras do Jaburu, Manéu arranjava explicações para o gesto do patrão: só se já caducava e não conhecia mais seus agregados, ou então andou escutando intriga de invejoso, ou, quem sabia, ficou doido de uma hora para outra e deu pra tomar as terras dele mesmo. Ou estava com o diabo nos couros?
INSENSATEZ
Enquanto despejava o resto da terceira cerveja nos copos, Airton pigarreou e olhou para mim.
– Esse meu irmão é o gênio da publicidade.
Os três, ao mesmo tempo, agarramos os copos e, no engolir a bebida, perdi as iniciais palavras de Fernando.
– Jornalista frustrado, rabiscador de frases de encomenda, assessor da burguesia.
O primeiro soluço morreu nos corredores mal-assombrados do esôfago, tal o meu susto. Ora, para mim Fernando só podia estar feliz, por voltar ao trabalho e ao exercício da comunicação. Além do mais, pagavam-no relativamente bem.
– Não seja ingrato.
Pela calçada, os primeiros habitantes da noite engatinhavam, ainda farsantes, medrosos, macios.
– Olha que pernas!
Fernando não deu ouvidos ao irmão, nem desviou os olhos dos meus. Também neles não havia nenhuma cólera. Porém me fulminaram suas palavras de agradecimento por ter-lhe tirado a barriga da miséria, tê-lo livrado da futura companhia dos mendigos e devolvido ao convívio dos comunicadores.
– Nunca vou me esquecer disso, nem de você.
Airton continuava a farejar o rabo da noite, venta metida no copo, e eu pedia a Deus que a língua dele inventasse obscenidades e fizesse Fernando olhar e cheirar e desejar tudo, menos relembrar o passado.
– Apesar disso, eu quero mesmo é voltar ao jornal.
A quarta cerveja chegou menina pelas mãos do garçom e se dividiu puta para nós três. Nem ela, porém, fez menos amargo Fernando.
– Você não pode nem pensar nisso. Eles são capazes de acabar com a imprensa para impedir uma coisa dessas.
Do outro lado da calçada, letras vermelhas pintavam no muro palavras que os carros não me deixavam ler. E eu olhava por cima dos ombros de Fernando, como se suas orelhas me interessassem. Ele as alisava de vez em quando, irredutível em suas opiniões.
– Lá eu me sentia bem, coerente comigo mesmo, apesar das porradas.
As luzes dos bares e lupanares atraíam as mariposas para o festim de todas as noites. E Airton se debatia dentro do copo, incapaz de voar.
– Onde está a incoerência da publicidade?
Fiz um último esforço para ler o mural que a noite apagava. Um automóvel engoliu-o, antes de se meter nos labirintos do ouvido de Fernando.
– Cuidado!!!
Os irmãos se assustaram e rimos.
– Eu queria acordar o Airton.
O garçom trouxe outra cerveja, ofereceu tira-gosto, insistiu até perder a paciência.
– O publicitário é um propagandista do supérfluo, um camelô do capital. Quer dizer, o leal conselheiro do rei, filósofo-bobo da corte, espécie vulgar de maquiavel.
Pedi outra cerveja e a opinião de Airton, embora nenhuma das duas pudesse fazer Fernando se acalmar. Pelo contrário, quanto mais bêbado, mais se tornava amargo, e quanto mais enaltecido, mais se auto-criticava.
Airton voltou a chamá-lo de inteligente, a ponto de pensar pelos burgueses. Talvez ironizasse, talvez só falasse besteiras.
Fernando sorriu. Sim, era mais um dos fílósofos da burguesia. Apenas não escrevia ensaios.
Irritei-me, e de nada serviu minha irritação. Acusou-se de crápula. Aliás, não sabia a diferença entre ser e estar sendo. Tão sutil a diferença que outros podiam apenas estar sendo, enquanto ele podia ser o próprio.
Não, nem ele era nem estava sendo crápula. Éramos apenas empregados da burguesia.
Feriu-me. Eu ia terminar advogado de torturadores. Não entendi de imediato a frase. Explicou-me: sendo o publicitário e o torturador ambos meros trabalhadores, não são responsáveis por seus atos, porque mandados. E não podem se recusar a cumprir suas tarefas, sob pena de demissão.
Chamei-o de simplista. O torturador era um criminoso pago pelo Estado ou por grupos do Poder, enquanto o publicitário um intelectual pago por agências de publicidade.
Concordou comigo. Apenas não abria mão de chamá-los de assessores do Poder. Ou instrumentos.
Fernando fazia questão de se torturar, de se proclamar um lacaio do capitalismo. Tive vontade de mandá-lo plantar batata ou virar guerrilheiro. Mas seria encerrar o assunto e eu queria ajudá-lo. E meti o jornalista no meio. O profissional que se sujeitava a trabalhar na imprensa burguesa. Sem falar, é claro, do que comunga com as idéias do dono do jornal. Era ou não um assessor do Poder?
Atingi-lhe o calcanhar. Perguntou se suas reportagens serviam ao Poder. Claro que não. Do contrário, não teria sido mandado para a rua. Logo, tornava-se impossível a coerência do jornalista consigo mesmo na imprensa burguesa.
Não havia salvação.
O assunto se esgotou aí e logo mais nos despedimos.
Encontramo-nos de novo, passado quase um mês. Parecia outro. Abraçou-me com euforia, mostrava-se alegre, otimista, satisfeito com o trabalho. Andava às voltas com a criação da melhor campanha de sua vida. Coisa de deixar qualquer gênio da propaganda com inveja.
De início, mantive-me reservado, embora procurasse retribuir a euforia. Supus estivesse me provocando. Não se tratava disso, porém. Nem uma só palavra sua soou falsa. Falava de dentro mesmo.
Interessei-me pelo título da campanha, pelos textos, por tudo, e ele me encheu de informações. Tratava-se de uma campanha patrocinada pelo Sindicato dos Produtores de Massas. A população ia trocar a carne, o arroz, o feijão, o leite pelo macarrão. Eu ia ver o povo gordo.
Não toquei na discussão passada, atento às suas palavras, feliz com sua felicidade, olhos mirados nele, quase sempre, ou nas muitas folhas de papel que carregava. Nelas trazia anotadas frases, textos, poemas, tudo relacionado ao novo trabalho.
Convidou-me a acompanhá-lo, sem dizer para onde ia, e fomos. Apenas a caminhar pelas ruas, feito dois vagabundos. E falava sem parar, como se toda a fala do mundo desaguasse de sua boca. Até aí, porém, nada de imaginar isso ou aquilo. Se me ocorreu alguma idéia foi a de sempre – que cérebro aquele!
Ao avistar um conhecido, chamou-o. O rapaz assustou-se, escondeu-se e só não se perdeu de vista devido o faro de Fernando. Talvez não fossem tão íntimos para uma cena daquelas. Além do mais, meu amigo havia se tornado mais conhecido por sua prisão, embora assinasse reportagens polêmicas. Estranhei a cara de espanto do outro e mais ainda os modos de Fernando. Pois, sem qualquer preâmbulo, pôs-se a repetir aos brados os motivos de sua alegria, a reler os manuscritos da campanha do macarrão. Para livrar o sujeito do embaraço, apresentei-me, dizendo-me amigo “desse grande Fernando Darque”. O malandro se aquietou. Logo, porém, alegou estar com pressa e se retirou.
Por um instante pensei em perguntar a Fernando se não achava ridículo chamar alguém aos gritos no meio da rua e, sobretudo, ler aquilo.
Nem bem arranjava palavras para a sabatina e lá apareceu outro conhecido. O mesmo vexame, a mesma lengalenga, macarrão aqui, macarrão ali, e o sujeito a se aborrecer, pedir licença para se retirar.
A essas alturas, não me restava nenhuma dúvida mais sobre o destino de Fernando. E, para fortalecer minha convicção, convidou-me a comer macarronada, embora tivéssemos almoçado fazia coisa de uma hora e fôssemos ambos avessos a massas. Procurei-lhe no rosto qualquer sinal de brincadeira e só alcancei a insistência para o convite. Se eu recusasse, não contasse mais com sua companhia e muito menos com sua amizade. E procuramos um restaurante e o encontramos e fiz das tripas coração para nem sonhar com uma indigestão.
Mal começou a comer, chamou o garçom, gabou-o, quis saber do nome do mestre-cuca, dos cozinheiros, deixou a mesa e correu à cozinha a enaltecer os empregados. Saí em seu auxílio, temeroso de mal-entendidos e, a piscar o olho para o pessoal, conduzi-o de volta ao salão. Nisso, o proprietário se apresentou. Para quê? Fernando se encheu de mais falas, fez o elogio da casa, da comida italiana, das massas alimentícias, do trigo, das fábricas de macarrão, sob os olhares espantados dos clientes famintos e do gordo dono do restaurante.
Só me restava pedir a conta, pagá-la, acrescida de boa gorjeta, inventar um compromisso urgente e conduzi-lo à rua.
Nunca deixei de me preocupar com Fernando, apesar de não o ter visto mais com vida. Andei ainda a procurá-lo na agência onde trabalhava, nos jornais, por toda a cidade. A correria do dia-a-dia, porém, logo ocupou meu espírito de outras preocupações. Quando parei, já não me restava fazer nada, a não ser lamentar a desgraça. E talvez não o salvasse, por mais que o seguisse, guiasse, guardasse. A loucura já o dominava. Pois não está louco quem armazena macarrão, por temor de sua escassez no mercado? E mil vezes insensato quem se joga a um panelão cheio de água fervente e deixa o bilhete: “Sirvam-se, que estou bem cozido”?
MIMO
Moisés se enfeitou de bigodes e gestos para impressionar as multidões que o aguardavam ciosas feito fêmeas. Calçou as grandes botas de ferro e ordenou aos pajens se ajoelhassem para o polimento. Tirassem a ferrugem toda. Como para adorar as sombrias pernas do Chefe, curvaram-se todos apressadamente, fazendo estrondar o chão. Alguns ainda se lembravam do ritual. Outros, de tão velhos ou de tão jovens, amassaram as magras e caludas mãos no espelho do piso e fizeram sangrar as línguas ressequidas. Os muitos anos de sossego no Armário dos Calçados deixaram envelhecidas as botas. Quase irreconhecíveis. A memória dos antigos pajens, porém, acordou de súbito e as rejuvenescidas botinas caminharam pesadas debaixo do Chefe. O óxido se lhes havia acumulado feito lixo.
Primeiro as mãos se pintaram da cor de barro e cresceram, como se inchassem. Depois os lábios e as línguas se transformaram em caretas sujas. Por último as escovas e flanelas fizeram rodopiar pelo salão uma poeira de indefinida cor. Nas botas o brilho se fez logo, logo, como se de ouro fossem. E, quando a luz deitou-se sobre elas, os reflexos se espatifaram pelas salas do Palácio, como se anunciassem um Novo Dia. Os mais jovens se assustaram e caíram desfalecidos. Porém Moisés permaneceu impassível às reações da pajeada. Cabeça e pés enfeitados, vestiu a batina parda e de helicóptero se dirigiu à Praça das Proclamações.
Conduzido em liteira, por sessenta e quatro negros reluzentes, o Chefe subiu ao púlpito-palanque. A orquestra, a cem metros do chão, fez troar hinos alarmantes. Invisíveis objetos partiram na direção da Lua, a levar acordes misteriosos.
Coberto de galões, Moisés parecia um todo-poderoso Marechal.
Clamores subiram aos céus como vociferações infernais. Escureceu, e o pisca-pisca das lâmpadas incandescentes arrancou dos peitos e gargantas urros de histeria. E teve começo a pregação. Que a utopia jamais renascesse sobre a face da Terra, nem no interior das cavernas, grutas e labirintos, nem além das fronteiras de nossa visão. Esmagada para sempre, como serpente secular. Ele, o Arcanjo São Moisés, a tinha esmagado.
O povo se petrificou por um minuto. Moisés gesticulou mais, como se ensaiasse um concerto, mudo, e a multidão voltou a urrar. E a pedir mais vociferações contra os fantasmas. Mais, mais, mais. O chão molhou-se do suor do embrutecimento.
A prédica terminou abruptamente. Cataclismo a abalar os alicerces do mundo. Moisés desapareceu de vista, como se eclipsado. Simples encenação?
Porém nem mais tarde nem no outro dia nem nunca ninguém soube que mágica se deu naquele momento. Nenhum do povo, no entanto, ousou fazer ao seu vizinho, ao seu mais próximo, ao seu par, a pergunta criminosa, maldosa, ignominiosa. Nem em sonho. Talvez os jornais explicassem. E seria preciso ler e pensar. Quem sabe, a televisão! Bastava ver e ouvir.
As multidões se dispersaram, como de costume. Seguiram miúdas por entre as colunas de mármore da gigantesca cidade. Rijas, retilíneas, mudas. Longe, no espaço, pássaros de aço varavam as imensidões, conduzidos por pilotos perdidos, em busca do Além.
Nos museus, extintos animais pastavam o passado. O povo os saudava. Moisés assassinado? Um absurdo! Mas os absurdos não mais existiam. Morto de velhice? E por que não o disseram? Seu coração de plástico emurchecido? Lamentável.
A História nada revelou. Moisés, utopia de alguns pensadores. Personagem de farsa. E para que acreditar fossem renascer as utopias, se soterradas por séculos e ditas mortas para sempre? Ora, a ressurreição, essa outra utopia, também jazia impressa no Livro dos Mitos.
MOISÉS E O MUNDO
Antes do trovão, aquele ronco medonho dos deuses, faíscas gigantescas incendiaram, num átimo, o céu e a terra. O mundo pegava fogo, feito coivara.
Portas e janelas do castelo se abriam e fechavam, empurradas pela ventania e pelo medo. Gritos de assombro e socorro ensurdeciam Moisés. O bom rei seu pai dava ordens aos servos, a severa rainha não se controlava; e o alvoroço foi mui grande na corte. E, por esta razom, a filha del rei, que havia nome Sofia, veendo o grande mal e destruiçom que viinha aa terra, jogou-se aos peitos de seu irmão, derretida em lágrimas e lamentos.
E, abraçados, como se se unissem na desgraça, correram ao mais subterrâneo dos pavimentos, em busca de refúgio.
Sofia, ao perceber as más intenções de Moisés, tentou fugir, gritou, porém o mundo se acabava e de nada adiantava resistir. E rendeu-se.
– Fiinha, rogo-te que aquilo que nunca antre mim e ti passou, que passe agora.
E retirou Moisés uma a uma as vestes de sua bela irmã. E entom britou o cadeado que guardava a boceta de Sofia com sua mão, ca nom houve i nem uu outro que o ousasse britar. E pôs-se a farejar aquelas carnes puras, feito o cão da fome, a abrir em duas bandas a maçã proibida.
– Nom queira Deus que todo seja verdade quanto os velhos disserom! E como cuidades vós que esto nom era julgado per mim? E, des hoje mais, nom havemos por que nos queixar, pois já é feito, ca nom pode seer que já nom seja esto que é.
Nisto, o jovem Moisés sacudiu o lençol, para tanger as primeiras moscas e os fantasmas, e arregalou os olhos, em busca do dia que de fato principiava.
– Porra!
De entre suas coxas, um imenso canhão apontava para o teto. Apalpou-o. Uma gosma fedorenta tingia o lençol aqui e ali.
– Culpa dela.
Pôs-se de joelhos em cima da cama. Deus, qui per ressurrectionem Filli tui Domini nostri Jesu Christi, mundum laetificare dignatus es; Praesta, quaesumus, ut per ejus Genitricem Virginem Mariam perpetuae capiamus gaudia vitae. Per eumdem Christum Dominum nostrum. Amen. Do lençol maculado modelou, à sua imagem e semelhança, uma alva mulher enrugada e torta. E, sem machucá-la, como se deveras a adorasse, levou as ardentes mãos ao rijo membro e, de tanto brandi-lo, fê-lo vomitar as amarelas babas do gozo sobre a inanimada figura de pano. E caiu de bruços, a lambuzar-se na lama de sua carne.
No rádio da sala, o locutor anunciou um tiro no ouvido do Presidente. No mesmo instante, bateram à porta do quarto de Moisés.
– O que é, mamãe?
– Acorde, homem.
O DESAFIO DE FACUNDO
Vicente ria, porque me via apreensivo, toda vez que o bebedor de coca-cola se aproximava de mim.
– Você está com medo desse doido?
Eu realmente demonstrava inquietação, bastasse ver o maluco da rua.
Meu interesse em conversar com loucos é puramente literário. Prefiro observá-los de longe, descobrir suas manias a luneta.
Com o bebedor de coca-cola afoitei-me.
– Por que você bebe tanto isso?
Sua resposta me deixou tonto, perplexo e, ao mesmo tempo, penalizado dele: É para me lavar por dentro. Ando sujo, como todo mundo. Não bebo cachaça, com medo de perder o juízo.
Antes de se embriagar e se tornar triste, revoltado, pessimista, Vicente passava por duas fases: na primeira, parecia alegre, contava seu mais recente passado, o dia findo, a semana, no máximo; na segunda, se achegava ao mais presente do presente e até arriscava prever os próximos minutos.
– Eu quero é cegar da gota-serena se o Helvécio não estiver falando mal de mim. Quer apostar?
Numa dessas olhadas para o seu derredor, quis saber minha opinião a respeito do dono do bar.
– Um tipo quase pitoresco, como aquele doido que bebe coca-cola como se bebesse cerveja.
Gostou do pitoresco e do resto da frase, mas não podia esperar uma resposta como aquela. Porque existem tipos interessantes em demasia. Eu mesmo podia ser tido como um deles. E se perdeu num labirinto de considerações e descrições, esquecido já do próprio Helvécio.
Antes de abrir a boca, eu havia estruturado outra frase: um judeu dos primeiros tempos do capitalismo. A figura do maluco me surgiu ao imaginar um judeu europeu dos séculos passados e resolvi não pronunciar as palavras inicialmente escolhidas, apenas para evitar que Vicente passasse a discursar em voz alta: a merda desse capitalismo...
Não sei se antes ou depois disso, Helvécio denegria alguns de nossos conhecidos, entre eles Vicente.
– Um bebarrão ignorante. Fala mal de todo mundo e não repara nem as dívidas que faz.
Não me pediu opinião. Apenas parou de esbravejar e se pôs a olhar para mim, como se me inquirisse: É ou não é?
– Eu não compro fiado, mas também meto o pau no governo.
Achei por bem não me referir diretamente a Vicente, nem tocar em bebida, apesar de as palavras engolidas terem sido: “Bebarrão, não, porque, se for assim, seus filhos são bebarrões também.” “Não insulte meus filhos, veja como se expressa.”
– É, mas você não fala à toa, sabe distinguir o certo do errado.
Aquela minha audaz indagação feita ao doido, arranjei-a e aprimorei-a durante mais de um mês. A primeira versão dizia: você gosta dessa porcaria? Talvez ele não a entendesse e até ficasse calado. Podia imaginar que eu me referisse à sua vida. Ou mesmo à cidade, ao bairro, à rua onde morávamos. Modifiquei-a, a seguir, para: você gosta de beber essa porcaria? Se ele bebia, era porque gostava de coca-cola ou porque gostava de bebê-la. Poderia me responder simplesmente: Gosto. E eu não saberia de que gostava.
Fui reconstruindo a pergunta: por que você gosta de beber essa porcaria?, por que você gosta tanto de beber essa porcaria?, por que você bebe tanto essa porcaria?
O não mencionar o nome da bebida grudou-se-me feito nódoa na camisa. Bastava ver o pobre doido para me sentir alvo de sua loucura. Poderia me rachar a cabeça com uma garrafada. E Vicente fez a pergunta como se me acusasse de um crime. Não olhava para meus olhos ou minha boca, mas fitava meu peito, como se ali estivesse o segredo, a solução. E ria sempre, como se suas palavras ecoassem: medo medo medo.
Ri também e me controlei. Organizei a resposta: a loucura só dá medo ao sistema.
Tencionava discorrer sobre a relação entre poder e anarquia, ordem legal e desordem social. Um discurso violento e radical. E calaria a boca dele. Nenhuma ordem temia o discurso anárquico de qual quer bebedor de cerveja. O álcool dos rebeldes não incomoda a lucidez dos poderosos.
– Andei mexendo com ele.
– Tirou coca-cola da boca do coitado?
– Não sou perverso. Seria o mesmo que tomar mamadeira da boquinha de nenen.
Muito mais tarde, compreendi a vulgaridade dessas duas frases e imaginei um diálogo inteligente, a partir da segunda indagação de Vicente, se houvesse respondido assim: o tratamento dado por um homem rico a um pobre, estudado a um rude, de alta estatura a um de baixa, etc., é comumente maléfico, por mais humildes que sejam os primeiros. Há sempre perversidade nessa relação, por mais humanistas que sejam o burguês, o diplomado, o gigante. Porque analisar, estudar, perquirir, tentar conhecer outrem é, em essência, um ato bárbaro, egoísta, desumano.
– Então, o que você fez?
Se outro o rumo dado por mim à conversa, qual a importância da especificidade de minha ação? O egoísmo existe na mãe ou na babá que corta ao meio o prazer bucal da criança; no burguês que dá uma esmola; no escritor que se compadece da personagem, sua ou de outro, que nunca bebeu champanha; no homem que alisa os cabelos do menino.
Esperei eras pelo momento de ver no bar do Helvécio o Vicente e o doido. Minha intenção: embriagá-los e fazê-los abraçarem-se, ao som de um baião. O cenário: fotos do Padre Cícero, da Seleção Brasileira e aquele imenso cartaz da Coca-Cola. Não seria apenas a encenação. Eu fotografaria o instante para capa de um romance: O Reino do Verbo.
Ao vê-los, não paguei nenhuma bebida. Desafiei-os para uma partida de bilhar. Eu contra os três.
O FOGO E A LUZ
Porque suas palavras vieram voando no brilho dos olhos, correndo nas batidas do coração, deslizando no suor da pele, cantando na carícia de todo o corpo dele, eu me fiz nuvem e desfiei-me ao seu chegar, aceitei-me chão e espichei-me ao seu retorno, constituí-me árvore e me deixei lamber pela sua maciez, assumi-me natureza e atentei para a sua melodia.
Contou-me tudo, todo aquele passado, aquele tempo curto em que se deixou enfeitiçar pela beleza solta que passeava pelas ruas. E conversamos longas horas, amargurados de sermos tão vulneráveis, maravilhados de podermos renascer das cinzas. Compreendeu e compreendi que paixão é morbidez, fogo de artifício, às vezes fogo fátuo. Não vai além do vôo mais alto, não suporta gotícula de luz. Rosana era um fantasma de braços estendidos ao tempo. Não se manteria ao menor terral, ruiria como a marmota do arrozal.
A sedução de uns olhos de serpente pode encantar qualquer passarinho perdido, mas não ata nenhum pássaro de vôo mais arrojado. Rosana era essa beleza insuportável que laça qualquer cristão solitário.
A quem atribuir a culpa pela queda dele, se não somos o primeiro casal? Ao contrário, mais um nesse enxame do século XX.
Coitada de mim que não sabia o fogo que ardia no peito dele e nos queimava aos três como a bruxas de repente arrodeadas de batinas. E vão dizer que mulher é bicho astuto, possuidor de não sei qual outro sentido, encarnação do diabo. Ele, sim, foi mais inteligente do que eu e me pôde esconder sua loucura até que seu próprio desengano o fez revelar-me todo o seu transe. Não por compaixão de mim ou por remorso, mas porque anteviu a fragilidade daquele amor nascido do sonho.
Ele queria a mulher imaculada, bela e terna, eternamente jovem e infinitamente amorável. E construiu sua quimera a partir do primeiro corpo belo que encontrou adiante.
No começo veio o acaso de ver diante de si, risonha, calorosa e esvoaçante, aquela fêmea a um tempo comum e singular. Depois foram os risos, as conversinhas fúteis, cigarrinho praqui, cafezinho prali, caronas, chopes e o fogo corroendo as entranhas dele, devassador e tirano. Cuidou, bebia para recriar a imagem dela na retina acesa, dormia pouco para mais pensá-la, sonhava muito para mais senti-la dele. E me chamava de Rosana no meu ouvido com a língua ardente e eu entendia “querida”. E me olhava estranho da cabeça aos pés e eu suspeitava o remoçar da paixão antiga. E me abraçava tentacular e poderoso e eu pressentia um filho em seu desejo de monstro. E me beijava louco e eu desmaiava de ternura. E nunca compreendi amor tão desleal, tanta astúcia ou tanta necessidade de enganar-se.
Ele era todo um espoucar de fogos, intensa claridão a sobrevoar-me a vida, constelação em constante pisca-pisca. Esperava tudo dela, o que não fui, o que não sou. A dos bosques, fada verde, deusa rebrilhante. Misto de mito grego e americano. Amor que nunca se esvai, taça inquebrável, voz de veludo.
Ele era só a luz que banha a terra, claridade que me circundava a fronte, incêndio queimando os campos. Tudo o que nunca foi, tudo o que não é. Porque somos mulher e homem, somos daqui desta cidade de esgotos e ratos, de assassinatos e fome, de mansões e choupanas, de cachaças e champanhes, sangue e ossos que se buscam, caminhantes incertos dos becos escuros, o copo que se quebra na cozinha, o grito que salta dos dentes na hora necessária.
Talvez eu seja mesmo astuta e disso não saiba. Quem sabe, eu sabia de tudo e não dizia nada para não fazê-lo explodir no alto e esborrachar-se feito sapoti que cai do galho ou apagar-se em sua escuridão? Porque não me revoltei quando tive que ouvir aquela ficção de amor tão bem bordada. Simplesmente ouvi e analisei com ele o transe daquela paixão tão majestosa. Não havia nada a lamentar nem a vingar. E ele não teve vergonha de escancarar a alma nem eu de encostar meus ouvidos no seu peito roto. Ia eu brigar numa guerra acabada? Aceitei a derrota dele como lição. Não como castigo, que ele não me desamou. Nem Rosana era a inimiga minha ou dele. Era objeto, palha que se joga ao fogo que nos incendeia. Conheci-a e vi-lhe a candura incrustada no bonito de seus olhos. Somos quase amigas porque sei das águas que ela lançou sobre o peito dele, amargurada de ser tão dupla assim – palha e água. Se culpa tem, é de ser ninfa até aos olhos meus. E se a culpa é dele, é por ser louco e apaixonado pela vida.
Mas é dia e o fogo é morto nos meus campos.
(Continua)