vastoabismo

Menu

Links

Icq Status

Visitas

Punhalzinho Cravado de Ódio- 1

(Edição da Secretaria da Cultura do Ceará, 1986)

Nilto Maciel


Índice

Contos Picarescos e Alegóricos (Dimas Macedo)
A Arca
A Desilusão de Jonathan Swift
A Lenda de Um Reizinho – Capítulo Exótico
Apocalipse
Assim Seja
Esses Abraçadores da Morte
Gesta do Jaburu
Insensatez
Mimo
Moisés e o Mundo
O Desafio de Facundo
O Fogo e a Luz
O Grande Jantar
O Manuscrito de Yellah
O Oráculo
O Pecado Genial do Dr. Ípsilon
O Problema Fundamental da Existência
O Sonho do Meliante Guimarães
Punhalzinho Cravado de Ódio
Quimera
Rede de Cobras
Santo Yan
Tadeu e a Mariposa
Teoria da Desfiadura


CONTOS PICARESCOS E ALEGÓRICOS

Dimas Macedo

Quem desejar conhecer a história recente da literatura cearense, terá fatalmente que conviver com a expressividade que no seu universo projeta a ficção de Nilto Maciel. Participante ativo da maioria dos movimentos literários que eclodiram no Ceará durante a aventura dos anos setenta e que tiveram como pontos culminantes a edição da revista “O Saco" e a criação do Grupo Siriará de Literatura, Nilto Maciel desde o início da sua militância revelou-se um intelectual comprometido com a transformação da palavra e com a problemática que se foi instaurando no contexto do seu discurso ficcional.
Estreou como contista, em 1974, com um pequeno volume de estórias que batizou de Itinerário, mas as suas inegáveis aptidões literárias ele somente manifestaria sete anos depois, quando, em 1981, já residente em Brasília, fez publicar, pela Secretaria de Cultura e Desporto do Ceará, o seu livro de contos intitulado Tempos de Mula Preta, inventário com o qual consolidaria definitivamente a sua posição de escritor, firmando-se como um dos mais expressivos ficcionistas da sua geração.
Em 1982, com a publicação de A Guerra da Donzela, Nilto Maciel revelaria suas tendências para o cultivo da longa ficção, legando-nos uma novela carregada de densa atmosfera criativa e no mais provando-nos que um ficcionista de talento forja-se não somente pela capacidade de improvisação e de apreensão do universo que busca literariamente problematizar, mas pela competência com que encaminha o fluxo da narrativa e pela habilidade com que consegue atravessar toda a elaboração de um percurso criativo alimentando um excelente nível de linguagem e um enredo sempre em processo de ascensão e gradativamente capaz de prender a atenção do leitor.
Agora, retornando ao exercício da curta ficção, Nilto Maciel nos entrega Punhalzinho Cravado de Ódio, um livro onde reúne uma série de contos, escritos, segundo revela, em diferentes épocas. São contos, assegura, “das mais variadas correntes: rurais, alegóricos, psicológicos, de atmosfera, de costumes e sócio-documentais".
Contudo, a advertência acima serve unicamente para antecipar que Punhalzinho Cravado de Ódio é um livro sem unidade temática, o que, aliás, não resulta em desproveito da apreciável qualidade dos contos que exibe. Pelo contrário, prova a versatilidade de Nilto Maciel em trabalhar assuntos aparentemente tão díspares, mas que no fundo convergem para a unificação de uma temática que se vem cristalizando como pano de fundo na elaboração da sua atividade ficcional, que é a capacidade de fundir a carnavalização do picaresco com a atmosfera do alegórico. Dentro dessa conceituação é que se enquadra, no meu entender, a maioria dos trabalhos de ficção de Nilto Maciel. Veja-se, por exemplo, a novela A Guerra da Donzela, toda ela uma obstinada tentativa de objetivar essa conceituação, bem como grande parte dos contos enfeixados em Tempos de Mula Preta.
Mas é claro que esta não é a única perspectiva de assimilação dos contos de Nilto Maciel, da mesma forma que a classificação por ele mesmo proposta não esgota o enquadramento dos universos faccionais abordados. O conto intitulado “Insensatez”, por exemplo, podia muito bem ser classificado como um conto de configuração urbana, assim como existem os contos que o autor reconhece como de procedência rural.
Esta variedade de temas e, principalmente, de técnicas narrativas, pelo que se pode depreender de uma paciente leitura do conjunto de contos reunidos em Punhalzinho Cravado de Ódio, emerge da inconformação do autor de não mais aceitar as seduções da estética literária tradicional, bem como da consciência de que é preciso reinventar a carpintaria da ficção, sob pena do processo de criação converter-se em técnica de reportagem.
Em Punhalzinho Cravado de Ódio existem contos de excelente concepção, como é o caso de “A Arca”, “O Desafio de Facundo”, “O Fogo e a Luz”, “Quimera”, “Rede de Cobras” e “Teoria da Desfiadura”, isto sem falar na estória que dá título ao volume, bem como no interessantíssimo “Tadeu e a Mariposa”, este último um conto de permanente interesse para o leitor, quer pela originalidade do enredo que ostenta, quer pela aura de criatividade que o reveste.
Punhalzinho Cravado de Ódio é um livro que ao leitor reserva agradáveis surpresas. A rigor, não existe uma ordem de leitura que realmente corresponda à seqüência dos contos. No entanto, tenho para mim que a melhor opção de leitura seria aquela que começasse pelo último texto do livro. Assim, o leitor seria mais facilmente arrastado por todo o percurso do volume e, de início, evitaria a difícil travessia que começa com a descoberta de “A Lenda de um Reizinho - Capítulo Exótico” e termina com o último parágrafo do conto “Esses Abraçadores da Morte”.
No entanto, apesar dessa recomendação, é preciso igualmente que se mencione que a estória que abre o volume é uma página de refinada sensibilidade, assim como belíssimo é o conto intitulado “A Desilusão de Jonathan Swift”, o segundo que ali aparece.
Por fim, registre-se que com Punhalzinho Cravado de Ódio Nilto Maciel reencontra-se com o melhor da sua produção, quer pela comprovação de que é realmente mestre na arte de contar estórias inesperadamente fabulosas, quer pela sua obstinação de permanecer fiel a uma temática e a uma técnica literária particularíssimas. No mais, diga-se do proveito que pode auferir o leitor com a assimilação da sua atmosfera criativa, bem como com o conhecimento da sua aventura picaresca e do seu discurso transparentemente alegórico e incontestavelmente elucidativo.



A ARCA

De longe, avistei a aglomeração, e a curiosidade me arrastou para ela. Talvez algum mágico estivesse a encantar a pequena multidão. Podia tratar-se de comício, também. Avancei mais curioso, atento aos aplausos e modos daquela gente. Não, ninguém engabelava ninguém, e todos vestiam trapos sujos. Um cheiro de lixo mandou-me dar meia volta e volver. Porém meus olhos queriam inventar o mágico ou o político, e me grudaram às costas do último molambudo.
– Morreu galego?
O bruto fez ouvidos de mercador. Refiz a pergunta, de trás para frente, a rir de mim mesmo. Você me respondeu? Nem ele. Como podia estar muito distraído, toquei-lhe o braço, com ira. Não se virou, mas desfiou um metro de porcarias. Só depois virou a cabeça para trás e me fitou demoradamente. Dei um passo para a esquerda e postei-me às costas de um que bodejava e erguia os braços. Que diabo! Um terceiro, cheio de rugas e cãs, não parava de rir. Mais outro olhou-me. De seus olhos vermelhos escorria muita água. Aquilo já me assustava e perturbava. Não, não me amedrontava. Ora, nenhum daqueles coitados parecia ofensivo. E menos eu compreendia onde me achava. Claro, diante de uma casa em formato de arca, metido no meio de um magote de mazelentos. E no interior da tal arca? Saí a pedir licença a um e outro, a abrir alas, até alcançar a porta. O porteiro sorriu-me e convidou-me a entrar. Que alívio! Pacatos e inteligentes frequentadores de exposições fumavam e parolavam, requintadas senhoras furoavam intrigas entre si, bisonhos críticos parodiavam-se, risonhos e educados todos, bem vestidos e corados, alvos e adornados.
Dirigi-me a um gorducho de cara e jeito de sabido e indaguei o significado daquela multidão lá fora. Ele não me soube dar resposta, encenou uma exposição de motivos sobre o que acontecia do lado onde se achava. Ouvi por três vezes a palavra tranquilidade. Como eu lhe virasse o rosto, indicou-me um respeitável senhor sentado a um birô. Parti no rumo do venerando homem e repeti a pergunta. Para quê? Ele se enfureceu. Porém, antes de me agredir, levantou-se, como se despertasse de um sonho bom, e se disse sentir-se obrigado a ir chamar a polícia. E pôs-se a andar de um lado para outro. “Ora, são os mazelentos de segunda, terceira e quarta categorias que desejavam ser expostos. Impossível! Não adianta esse protesto absurdo. A exposição é de mazelas de primeira ordem, conforme o senhor pode ver.” E apontou para as quatro paredes. Só então percebi as peças expostas. A arca havia sido construída especialmente para a exposição. Relacionou os nomes das mazelas principais, representadas ali por figuras humanas. Agradeci as informações e juntei-me aos demais frequentadores. Remirei-os. Diante das peças expostas, trocavam opiniões. Uma lustrosa senhora, diante de um homem vestido de chagas, suspirava: “Maravilhoso! Maravilhoso! Maravilhoso!” Tentei ser polido e voltei-me para a exposição em si. Pernetas, manetas, coxos, cegos, leprosos, anões, gigantes, deformados compunham a galeria de mazelentos. Não seriam estátuas, manequins de gesso, plástico, bronze? Só então relacionei os protestos da multidão do lado de fora à explicação do diretor da Exposição. Sim, o chagado se retorcia. Logo, a amostra se constituía de seres vivos. Cheguei a deixar transparecer minha emoção. “Ah! estão vivos?” Um prestimoso senhor tratou de me ensinar que “logicamente, pois é a Primeira Exposição de Mazelas. De nada valeriam elas, se não fossem em seres humanos.” Procurei atenuar minha ignorância. Aqueles pedestais, as poses, a rigidez das figuras, tudo dava a impressão de estarmos diante de imagens, como as de museus, igrejas, jardins. O homem deixou-me a falar só, e eu terminei fugindo dos olhos do outro – o exposto.
Adiante, outro mazelento sorria para uma criança, que o admirava. Ria e fazia trejeitos, caretas, mungangos. O rico menino encabulou-se e dirigiu-se ao pai: “Olhe, ele está rindo para mim.” Ao que o pai respondeu, asperamente: “É um mentecapto. Não se preocupe.” Noutro estande, um hermafrodita servia de motivo à briga de dois intelectuais a discutirem deuses e deusas. Para meu espanto, falavam ora em latim, ora em grego. E se maculavam disso e daquilo, entre risinhos e citações épicas, piscadelas e expressões vulgares: cachorro da moléstia, filho de uma égua, cabra da peste.
Eu, mal entendedor, tratei de pular fora daquilo, antes do dilúvio.


A DESILUSÃO DE JONATHAN SWIFT

O menino espirrou para a vida e sua mãe sorriu. O pessoal da maternidade também não se conteve e desatou a rir. Num instante, os sorrisos se transformaram em risos incontroláveis. Mais um minutinho e todos gargalhavam.
O pai do bebê, absurdamente, encheu-se de cólera e chorava, amaldiçoava-se, arrancava os cabelos. Incompreensivelmente ainda, impediu que sua mulher atirasse o menino ao chão e expulsou da sala de partos os médicos e as enfermeiras. Não, não admitia que se cometesse um crime daqueles.
– É meu filho e vou criá-lo – berrava.
– Mas isso não é gente, meu senhor.
– Um pingo de gente, marido.
No cartório não encontrou dificuldades para registrar o nascimento do filho.
– Que nome terá?
– Sansão.
– Deve ser um tourinho, hem?
Nenhuma igreja, no entanto, aceitou batizar o filhinho de Raimundo Toledo. Padres olhavam, olhavam para os braços do cansado pai e o enxotavam.
– Herege!
Pastores e ministros das mais esquisitas seitas só faltaram chamar a polícia.
– Nem por muito dinheiro, seu embusteiro.
Uma desgraça criar filho pagão, lamentava-se Raimundo.
– Eu fiz de tudo, mulher, eu juro.
– Não, não e não.
– Você então ainda quer matar o bichinho?
– Não tenho coração para essas malvadezas. Você me conhece, sou incapaz de matar uma pulga detrás da orelha.
A conversa rolou pelos mais insensatos becos da inteligência e nada de decidirem o destino do filho. Das pulgas passaram aos leões, destes ao cristianismo, subiram aos céus, desceram aos infernos, reviraram a terra, viraram e mexeram e descobriram a salvação.
– Isso mesmo, mulher, lançá-lo ao rio.
– O Amazonas?
– Qualquer um, contanto que não seja um desses riachinhos vagabundos.
– O coitadinho ia morrer de sede.
– Não, não é isso. Ia encalhar aos nossos olhos.
– Alguém de bom coração irá recolhê-lo e criá-lo.
Arranjaram uma canoinha e desceu Sansão no rumo do mar. Um pescador qualquer o salvou das cachoeiras, et cetera e tal. Amamentado por uma cadela, cedo fugiu de casa. E procurou a companhia de outros bichos. Ao primeiro que encontrou, arrancou as penas, ao segundo mordeu, ao terceiro matou. Sua má fama espalhou-se da noite para o dia. Perseguido, foi dar à casa dos seus.
– Ele voltou, Raimundo.
Atirou areia aos olhos do pai, enfiou um alfinete na bunda da mãe.
Armou-se de canivetes, cacos de vidro, pregos, mil armas e saiu às ruas. Surrado pelos mais vis moleques, chutado e pisoteado pela meninada dos becos, fez as pazes com os pais e debruçou-se sobre os livros.
Seus primeiros discursos encabularam os pais.
– Quem diabo é Cíclope, Raimundo?
Os seguintes irritaram a todos.
Atrevido! Maluco! Subversivo!
Preso, condenaram-no à pena de morte por esticamento do corpo.
Apesar de todos os esforços dos carrascos, nem depois de morto Sansão alcançou os 15,24 centímetros exigidos por Jonathan Swift para declará-lo personagem.


A LENDA DE UM REIZINHO – Capítulo Exótico

Fui o primeiro deles. Assim, posso falar a respeito de nós, inclusive dos mortos. Eu me sabia superior aos homens em todos os sentidos. Depois de mim veio aquela onda de dar aos bebês humanos o meu nome. Talvez assim esses futuros cidadãos se parecessem comigo. Além disso, o controle da natalidade deixou de interessar aos casais. Todo mundo queria procriar. Para ter filhos como eu. Logicamente que o fenômeno não se deu da noite para o dia. Antes de um ano de idade, meus cinco primeiros homônimos moravam no mesmo prédio onde eu vivia. Fora daí ninguém mais sabia de mim. Porque meu pai fez chantagem com os pais desses pobres meninos. Se revelassem o segredo de minha excelência genética, ai deles. Doenças terríveis, demência, vinditas extraterrenas.
Esses cinco homens abençoados tiveram a graça de nos visitar por acaso. Souberam do nascimento de uma criança num dos apartamentos do prédio e acharam aquilo digno de curiosidade ou zelo. A mãe seria uma garota de uns dez anos de idade. No mesmo dia nasci. Moravam meus pais vizinhos à infeliz menina. Bateram os cinco curiosos à nossa porta, sob ameaças. Falaram de crime, barbaridade, desrespeito às crianças e coisas assim. Arrombariam a porta, se não lhes dessem passagem pacífica. Eu mesmo a abri, com a ajuda de uma cadeira. E conversamos até mesmo sobre a hediondez praticada na mãe de dez aninhos.
Difícil é falar do espanto dos visitantes. Nenhuma palavra humana será disso capaz. Um me chamou de boneco, outro de bruxo, um terceiro de diabo. Meu pai me socorreu a tempo. Explicou tudo pacientemente, apesar da ira, do medo, do desespero, da impotência daqueles cinco zeladores. Negavam tudo, minha presença, minha palavra, meu gesto, minha existência, minha possibilidade, e arregalavam os olhos, gritavam, se esmurravam – quase loucos. Até que ouviram a primeira versão da chantagem. E de repente fecharam os olhos, calaram-se, aquietaram-se – mansos e crentes de tudo.
Esses meus homônimos entram na nossa crônica de forma esdrúxula, porque nada os assemelhava a mim e a meus semelhantes. Nunca passaram de meninos comuns. De qualquer forma, tiveram sua importância um dia, quando foi decretada a eliminação de todas as crianças de nome igual ao meu.
Coitados desses meninos humanos! Numa só noite milhares deles desapareceram. Dos nossos, porém, apenas quatro ou cinco não escaparam ao ferro. Os salvos, também quatro ou cinco, refugiaram-se debaixo d’água.
Para os assassinos sua tarefa se cumpriu integralmente, enquanto nasciam outros semelhantes meus.
Sempre fomos minoria, apesar de em determinado tempo existirem vários milhares de homônimos meus, muito depois da chacina oficial.
Nasce-se como eu ou o comum dos homens. E isso não conseguiram entender nem os pais de crianças normais nem os assassinos.
Passada a época da repressão, virei professor. Ora, apesar de ser uma questão de nascença o ser como eu, aprender é preciso. Aprendi muito com os homens, inteligentes e idiotas, pobres e ricos, orientais e ocidentais, selvagens e civilizados. Assim, resolvi passar aos meus semelhantes os meus conhecimentos. Nada de meninos comuns. Esses não me compreendem. Fiz disso minha profissão durante alguns anos, até formar meus substitutos. Aposentei-me. E veio a decadência.
Alguns de meus alunos foram de imediato comprados a peso de ouro ou alugados aos nobres europeus e orientais, gângsteres americanos e tiranos da América e África.
Antes disso, porém, já compravam, a baixo preço, de pais pobres que não podiam enviá-los à escola e criá-los à nossa maneira. De meus oitocentos alunos nem todos estudavam às custas dos pais, mas de seus compradores ou alugadores.
Depois da escola, dediquei-me simplesmente a pesquisas. O tempo passava e já existiam milhares de semelhantes meus, umas centenas maduros e alguns poucos quase velhos. Os compradores preferiam os adolescentes, de quem faziam preceptores de seus filhos. Com isso queriam fazer destes excelentes homens, para mais tarde vendê-los.
Os velhos também tinham boa cotação, em razão da experiência e dos conhecimentos adquiridos. Geralmente, porém, já viviam a serviço de filhos de nobres, burgueses e estadistas. Alugá-los, no entanto, era mais rendoso, porque o envelhecimento ou a morte repentina representavam prejuízos enormes. A menos que estivessem com saúde.
Durou algum tempo esse tipo de comércio. Depois as coisas mudaram de figura: só se comprava um semelhante meu para revendê-lo e não mais para criá-lo e fazer dele preceptor. A vez dos especuladores, intermediários.
As notícias de lucros fáceis, ao chegarem aos meus ouvidos, tocaram fundo minha fome de poder. Decidi comerciar também. E saí pelo mundo com o intuito de comprar meus melhores ex-discípulos. Estive no Oriente Médio. Os árabes não cediam suas mercadorias nem por mil barris de petróleo. Na Índia não as cediam nem por toneladas de filosofia. Na China não as trocavam nem por duas Formosas. Na URSS os burocratas não as trocavam por nenhuma regalia.
Numa Feira Internacional encontrei um eslavo velho, quase de minha idade. Seu preço, um absurdo. Noutro stand deparei um africano negro, na casa dos quarenta anos. Ser jovem compensava sua má qualidade ou origem. Um argentino, de meio século de vida e peronista, revelou então minha identidade, e adeus sossego. Apareceram os comerciantes, e eu acabei comprado. No leilão, fui vendedor de mim mesmo. Vendi-me a um reizinho de uma ilha dos confins do mundo.



APOCALIPSE

Nós presenciamos sua mansa e serena morte, causa desta nossa imensurável tristeza. E mais melancólicos nos fizemos quando cavamos a sepultura e nela o depositamos. Ele está aqui, bem debaixo desta cruz de madeira, morto. Por acaso necessitamos da mentira para falar e continuar a viver? Por acaso não temos olhos de ver e ouvidos de ouvir? Evidentemente as entranhas da mãe-terra o engoliram, tementes de outras tantas vilanias. Pois atendemos ao seu pedido: “enterrem meu cadáver no mais profundo do chão, de forma a tornar impossível a exumação, quer para violentarem-no, quer para mumificarem-no, pois morro para não mais conviver com os meus inimigos.” Reunimo-nos todos, chorosos ainda, e, com ferramentas e forças, cavamos o mais fundo dos fossos e nele depusemos seu corpo. E aí ele está – morto, debaixo deste chão pisado pelo ódio de vossos tacões infames e maculado pela fúria de vossas picaretas, ó recavadores de buracos, caçadores de ossos. Porém aqui permaneceremos nós, dispostos a impedir escavações indevidas e violações de sepulcros. Se necessário, combateremos sobre este monte santo e ao redor desta cruz de madeira, armados de nenhuma arma embora, contra vossas profanas armas e vossas pesadas botas. E vós ficareis hipnotizados por nossas palavras. Pois diremos ter ele vivido dias e noites entre nós e nestes dias houve muito sol e nestas noites muito sono. Ensinou-nos ele escorrer do alto de nossas cabeças e do detrás de nossas nucas e do defronte de nossos olhos muita luz para iluminar e aquecer o mundo; bem dentro de nós habita a sabedoria, guardada em arca-da-aliança, razão só nossa – e nunca, por isso, a ensinaremos a vós, nem a ninguém, enquanto reinardes, ó escavadores de túmulos e inquisidores de sábios. De mais a mais, prometeu-nos ele o futuro, cujo princípio se dará com a vossa morte. E se já ousardes acometer-nos, prevenimos: a cada investida vossa corresponderá um grito nosso; a cada grito nosso, uma dor vossa, a começar nos tímpanos e se espraiar por todas vossas cabeças, as quais estourarão apodrecidas. E nunca terminareis vossa obra destruidora, e morrereis raquíticos e perdidos em meio ao pó que se alevantará, ora por obra de vossas brutidões, ora de nossos gritos. E nós, após a vossa certa morte, desobrigados de guardar este túmulo, penetraremos as grutas e reencontraremos nas entranhas da terra a verdade que se escondeu debaixo de nossos pés desde o maldito primeiro dia do controle da superfície assumido por vós. E voltaremos aos espaços ora habitados pelas serpentes e pelos dragões. E faremos da loucura a regra única e inviolável da natureza, ab-rogadas já as vossas obras, ó ineptos inventores de leis. Mergulharemos como os peixes, voaremos como as aves, arrastar-nos-emos como os répteis, andaremos como as pernaltas. Redescobriremos as estrelas, as visíveis e as invisíveis, onde habitam nossos ex-irmãos, e lá reconstruiremos nossas civilizações destruídas pelo egoísmo. Tudo isto faremos tão logo ocorra a nossa ou a vossa morte, posto que, mortos, reviveremos e, mortos vós, faremos da vida presente apenas o livro das fantasias. Como, todavia, não temos poderes sobre as vossas armas, apenas dizemos ser vedado a vós tocar em nossos corpos e neste chão debaixo do qual ele sumiu. Do contrário, faremos tão grande alvoroço que vós sereis tragados pelas voragens da terra, para serdes devorados pelos dragões da vossa abominação. E se, apesar de nossos gritos, conseguirdes matar-nos primeiro, por não alcançarmos fugir a tempo aos golpes de vossas picaretas e ao peso de vossas botas, ou por terdes sequazes nos quatro cantos da terra, ainda assim nos encontraremos com ele e, de onde estivermos, quer como luz, quer como energia, quer como gás, quer como odor, quer como voz, enviaremos nossos recados, através de outros ouvidos, outros olhos, outros narizes, outros corpos, dos quais faremos nossos semelhantes por todo o sempre, até não restar na terra e no espaço sequer um tacão ou uma picareta sujos de sangue. Pois a verdade a nós ensinada está no sangue, no suor, nas veias, nos ossos e nas carnes também por vós carregadas, porém com esse tédio e esse egoísmo vossos, néscios que sois. E quanto mais nos enterrardes na terra maior comoção ela sofrerá, a ponto de acreditardes tratarem-se de sismos e deles vos assustardes e, por momentos, temerdes o nosso poder, mortalmente angustiados. E, quando tiverdes massacrado a todos nós e só vós viverdes sobre a calcinada terra, esta de mais nada servirá, nem sequer de despensa para tacões e picaretas, pois nela não nascerão mais frutos, os rios secarão e os animais, famintos e sedentos, se lançarão aos mares sem fundo e aos abismos insondáveis. E vós, pobres donos do mundo, não mais tereis condições de viver e morrereis como bonecos, faltos de um sopro ou de qualquer outro alento. Então, livres, viveremos debaixo da terra, nos mares e labirintos, com os chamados monstros, e visitaremos a crosta como vitoriosos, quando faremos chegar até nós, ou nós até elas, as estrelas que nos iluminam e iluminamos, e reiniciaremos por outra vez uma nova era, nós, figuras deste universo tão desconhecido e temido de vós – nós, partes integrantes disto que tanto abominais.


ASSIM SEJA

Mal pulava da cama, já os joelhos de Hélio se acomodavam ao frio do chão. A mulher, Selenita, dormida, resmungava advertências. Aquilo não havia de fazer bem. Pneumonia pegava um cristão pelo pé e só largava com reza de padre velho. As imprecações do tipo “me deixem em paz” ou “éguas paridas” saíam como ave-marias cheias de graças, dedos ligeiros ao redor das contas do terço. Os olhos do devoto, grudados de sono, miravam o Eterno pregado.
À mesa, para o café com pão, bolacha e não, persignava-se três vezes, em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo. E enchia a boca de fumaça e massa, faíscas a saltarem-lhe das pálpebras inchadas.
No banheiro, na sala, na rua, se ouvia o nome Deus, louvava a vida e bumbava o coração. Na semana não havia domingo sem missa nem preguiça. Dormia feito um porco, a pança a roncar debaixo do lençol, a santa baba da paz a escorrer-lhe pela papada.
Antes da difícil e lamentosa cópula das noites sem sono, mordia a língua de pedir perdão, enfiava nos dedos as contas do rosário, tempos e tempos em penitência.
Nisso iam eras. A da bunda suja na antiga sesmaria. A das putarias com cabras e jumentas. A da ligação com Dona Selenita. A das noitadas nos cabarés. Ora, o pai deu ao solar dos Figueiras ares de igreja, a mãe morreu beata. Dos filhos destes só o Hermano Gentil deu para herege. Um se fez padre, outra madre.
Enterrados os velhos Figueiras, herdou o varão Hélio a boa herdade e seus hábitos de séculos: a cama de dormir e parturir, a alcova de sonhar e copular, a morada de viver e mandar, o rosário da obrigação e o rifle da devoção.
Chegada a era da praga, os mil gafanhotos do Egito se apossaram da plantação feito lavradores do cão. Pediu Selenita a proteção dos santos em comunhão. Ordenou nove novenas o dono do chão, da planta e da praga. Para cada semente, uma torrente de oração. Nem assim o tormento acabou.
Se nem Deus dava jeito na maldição, só o veneno podia salvar a situação. E mandou Hélio Figueira despejar inseticida no campo. Fulminados, os gafanhotos da perdição voaram para o inferno. Porém, desprevenidos, dois filhos do manda-chuva pararam de respirar.
Nos dias seguintes, os joelhos do devoto Figueira continuaram dobrados, os dedos ligeiros, os olhos bondosos, a boca balofa, a pança cheia de esperança. Amém.



ESSES ABRAÇADORES DA MORTE

Ao cimentar o último pedacinho de chão do quintal, o pai do inocente Joãozinho teve a primeira grande raiva de seu prodigioso filho.
– Por que você fez isso?
– Para acabar com os formigueiros, ora essa. Assim, elas (elas, quem?), as formigas nunca mais vão encher meu saco.
– Pois eu gostava muito delas.
O homem fechou a cara, datou seu trabalho, assinou, mandou o menino calar a boca e sumir.
A resmungar, guardou a colher, deu mais uma espiada para o antigo quintal e correu a lavar-se.
– Pai, quando eu crescer quero ser zoólogo.
O dono da casa só faltou correr nu pela casa. Não ia criar gente para estudar bicho. Mudasse de idéia imediatamente, se não quisesse apanhar.
A criança tremia de medo, chorava, agarrava-se à saia da mãe.
– Deixe de brutalidades, homem. Parece até que o coitado disse alguma heresia.
E não parou mais de falar. Quem sabe, o menino ia revolucionar a Ciência, descobrir a origem do homem.
Seu primeiro livrinho dos animais, Joãozinho devorou num instante. Queria outros, mais difíceis.
– Esse nem de formiga fala. Ou formiga não é animal?
Vieram as enciclopédias, e o futuro zoólogo aprendeu mais. Desejavam que falasse sobre tamanduás? Teve vontade de conhecer todas as espécies de tamanduás e necessitava de enciclopédias especializadas. Adquiriu-as seu pai.
Desconfiado dos ensinamentos enciclopédicos modernos, reclamou as obras antigas, raras, clássicas da zoologia. Relacionou-as: Maravilhas da Criação, de Posser; História Natural do Brasil, de Marcgrav; História Natural dos Três Reinos da Natureza, de Lourloup e Duval; Climats, Geologie, Faune et Geographie Botanique du Brèsil ”, de E. Liais. Redescobriu autores há muito esquecidos: Walppoeus, Martius, J. Luccook.
Passados uns trinta anos, sua mãe já morta, seu pai caduco, ainda lia sem parar, ainda gastava tudo com livros de zoologia. Desde há alguns anos se havia voltado para o estudo específico dos tamanduás. Gavetas, pastas, estantes, malas cheias de apontamentos. Prometia dar a lume o mais completo estudo sobre os tamanduás. Não uma enciclopédia, mas um ensaio revolucionário que solucionasse para sempre a polêmica: seu alimento natural, instintivo eram formigas ou cupins?
Não chegou a escrever o ensaio, porém um esboço dele publicou-o num jornal.
“Este animal, cujo nome é de origem tupi (tamãdu’á), é de natural admiração: é um mamífero desdentado, aliás o único desdentado verdadeiro, da família dos mirmecofagídeos (Myrmecophaga tridactyle L.), segundo alguns especialistas (e aqui reside toda a minha dúvida, como vou expor mais adiante, ou a parte mais importante de minha tese, posto que mirmecófago quer dizer “que se alimenta de formigas”, e outros estudiosos afirmam alimentar-se ele de cupins). O tamanduá é do tamanho de um grande cão, mais redondo que comprido, de acordo com vários zoólogos, ou de corpo alongado, conforme outros, e o rabo será de dois comprimentos do corpo, além de preênsil, e cheio de tantas sedas, ou seja, pilosa, que pela calma, e chuva, frio e ventos, se agasalha todo debaixo dele sem lhe aparecer nada. Outra característica sua está em que a cabeça é pequena, o focinho delgado ou longo e tubuliforme, nem tem maior boca que de uma almotulia, redonda, e não rasgada, e a língua protrátil, delgada, comprida e cilíndrica será de grandes três palmos de comprimento e com ela lambe as formigas ou os cupins de que somente se sustenta: por isso mesmo, é diligente em buscar os formigueiros ou cupinzeiros, e com as unhas, fortes, embutidas nas patas, que são do comprimento dos dedos da mão de um homem o desmancha, tal qual um gato sobre uma ninhada de ratos, e deitando a língua fora, uma língua finíssima, daí também o terem chamado os tupis de cumbiri, pegam-se nela as formigas, ou os cupins, feito moscas no mel, e assim a sorve, gulosamente, porque não tem boca para mais que quanto lhe cabe a língua cheia delas; ou deles. O tamanduá, além disso, é de grande ferocidade, se atacado, e acomete muito a gente e animais. As onças lhe hão medo e ele também devota horror a esses felinos, tanto que, ao avistar tais carniceiros, deita-se de costas e abre os braços. A fera salta-lhe ao pescoço, crente de poder estrangulá-lo facilmente, e ele dá-lhe um apertado e furioso abraço, desesperado, e ou morrem ambos ou ela não escapa. É o chamado abraço de tamanduá. Têm-lhe medo, por isso, tais feras e os cães sobremaneira e qualquer coisa que tomam com suas unhas espedaçam; aos tamanduás, porém, não se comem, e ai de quem os comer, nem prestam para mais que para desençar os formigueiros ou cupinzeiros, e são eles, uns e outros, tantos na terra, que nunca estes animais os desbaratarão de todo. A menos que se tomem providências para a sua infinita multiplicação.
Pretendo brevemente resolver a questão do alimento básico, natural e instintivo dos tamanduás, a partir de alguns apontamentos. Se eu optar pelos cupins, o poeta Porto Alegre e seu poema “Colombo” estarão definitivamente destruídos. Pois todos hão de conhecer pelo menos estes versinhos:
“Hirsuto tamanduá saltando a língua
à formiga, flagelo da cultura.”
Escreverei então o “Novo Colombo”, quando arranjarei versos como os seguintes:
“Peludo tamanduá saltando a língua
aos cupins, os horrores das alturas.”
De uma forma ou de outra, terei cumprido minha missão e todos poderão me chamar de o criador da tamandualogia, o primeiro tamanduálogo ou tamandualogista.”
A publicação deste artigo, transcrito aqui em parte, foi o estopim da desgraça de João Formiga Filho. No dia seguinte, seu próprio pai o conduziu à força a uma clínica psiquiátrica. O Doutor Gentil diagnosticou: havia enlouquecido o promissor estudioso dos tamanduás.
Na imprensa, nas revistas especializadas em zoologia, na Associação dos Zoólogos estourou a polêmica. Um ferrenho defensor da tese de que os tamanduás se alimentam basicamente de cupins culpou os formiguistas (designação pejorativa dada aos seus opositores) e as próprias formigas pela demência de João. Um dos difamados, em defesa de seus pares, chamou os cupinistas de gênios do mal, destruidores de talentos, inimigos da Ciência e da sanidade. E aos cupins de depredadores da natureza vegetal e humana, praga inominável da vida. Um terceiro grupo, formado por estudiosos de formigas, cupins e outros insetos, desculpava formiguistas e cupinistas e acusava não a homens nem a insetos, mas tão-somente aos tamanduás, esses abraçadores da morte. E explicavam: foram eles, esses monstros desdentados, que levaram o cientista João Formiga Filho à loucura. Sua pobre mente humana não suportou tantos amplexos de traição e padeceu sufocada. E por que isso?

(Continua)