ESTACA ZERO (3)
(Continuação)
Terão hoje pesadelos, sofrerão a visita de fantasmas, ouvirão gritos nos sombrios corredores das suas consciências? Não os vejo nunca nem eles me contariam as suas dores. Eu, ao contrário, quero é publicar o meu tormento, sem esquecer um só timbre das falas gritadas dos meus torturadores. E compreender o surrealismo das minhas visões. Por que aquela gente favelada me chamava de português e me atirava flechas? Onde fui arranjar essa metamorfose de costumes? Não importa, porque toda tortura é da carne viva. E as setas se cravavam em meu corpo e eu tentava arrancá-las para só tirar pedaços de mim, até me ver todo retalhos espetados no chão. Coitado de mim! Esquartejado, via-os saírem pela rua, horríveis, agarrados a pedaços crus da minha carne, como se mordessem espetos. Eu gritava, suplicava-lhes que não fizessem aquilo, reunissem as flechas, ajuntassem meus pedaços, não se apartassem um do outro para não me sentir tão partido. E eles prometiam não me comer porque eu não era corajoso, não valia nada, iam me entregar aos bichos e talvez até os urubus recusassem a minha carniça.
Nisso meu pai aparecia pendurado num fio elétrico da rua e zombava de mim. Não me incomodasse com a brincadeira dos meninos, fosse macho, agüentasse firme, desse socos e pezadas para me livrar dos canalhas, aprendesse a me defender sozinho, e ria muito. Eu lhe pedia ajuda, porque não se tratava de brincadeira.
Nessa lengalenga, sofríamos ambos, eu a minha própria repartição, ele a suspensão, feito um enforcado. Para meu alívio, chegava o major com os soldados e soltavam os cachorros em cima da molecada. Libertava-me, porém os cães vinham me farejar e eu me cagava de medo, ficava encolhidinho no meio da rua, a respiração presa, fingindo-me de morto, e então os soldados me cutucavam com as baionetas e me pisavam. Se continuassem a fingir, acabaria realmente defunto. Abri os olhos e me preparei para fugir. Dei um salto e saí em desabalada carreira. Soldados e cachorros saíam atrás de mim, me chamando de ladrão, e eu conseguia pular dentro de um cacimbão cheio de água, em tempo de morrer afogado. Do fundo do poço eu os via, voláteis, etéreos, vaporosos, até desaparecerem. E eu, já morto, sentia a presença de outras pessoas à beira da cacimba. Tentavam me desafogar, meu cadáver roxo e inchado. Levavam-me para casa e minha mãe e meus irmãos choravam.
Abro aqui um parágrafo para falar da minha mãe, ultimamente tão esquecida por mim. Nem mesmo em sonhos tenho conseguido revê-la. E como vai longe a sua morte. Meu pai nem sequer havia plantado a primeira estaca no terreno. Morávamos nesta mesma casa, toda a família ainda unida. Augusto só morreria mais tarde, embora já estivesse doente. Lucrécia preparava-se para noivar. Agamenon, apesar das suas esquisitices, prezava até em demasia a vida doméstica. Josefina não largava a saia da nossa mãe, devotada, sempre no amparo dela. E eu, caçula e mimado, só queria saber de estudos e livros. Da escola para casa, desta para aquela. Tão alheio ao resto, que no dia da agonia da mamãe lia O Guarani. Dias antes havia lido o famoso capítulo da “Prece” numa antologia escolar, por imposição do professor, ponto de partida para a leitura dos romances de Alencar. E naquele dia vivia as emoções do amor de Peri por Ceci, enquanto minha mãe despedia-se da vida.
A sua morte, aliás, é um marco na vida da nossa família e da minha em particular. Porque papai mudou muito ao ficar viúvo. Trocou a vida doméstica por outras atividades. Como a construção de casas. Assim, mal enterrou a sua mulher, fincou a estaca que daria nome à vila. Antes, nem sequer falava no terreno, abandonado, coberto de mato.
Ora, aquilo já vai perdido no tempo. Quero agora é falar dos meus fantasmas presentes. E eu contava a cena da minha queda no poço, quando, já salvo do afogamento, meu pai berrava: “Quem mandou você brincar perto do poço? Eu avisei.” Eu pedia perdão. Jurava obedecer-lhe, não me surrasse. Ele tirava o cinturão e me batia até tirar sangue do meu corpo. Eu tentava me livrar das mãos pesadas dele e correr. Minha mãe implorava: não me matasse, e mais ele batia, cheio de raiva, chamando-me de filho da puta. Ele passava a bater também em minha mãe, sua puta, sem-vergonha, rapariga de soldado. Eu queria salvá-la, mas desistia e ia chorar no quarto.
Deitava-me e dormia horas ou dias seguidos. Sonhava compridos e complicados sonhos, como se eu não fosse eu mesmo, tão diverso me sentia. Despertava assustado aos gritos de meu pai, que sacudia a rede agarrado aos punhos: “Acorde, Cesário, saia dessa rede, deixe de tanta preguiça. Ou quer viver a vida toda dormindo?” E me mandava cuidar do terreno, das casas, da herança. Ou queria que tomasse tudo de mim e passasse para o nome de Josefina? Eu não tinha jeito mesmo. Desde menino essa moleza. Parecia até uma fêmea doente. “Seja macho como seu pai, arregace as mangas e cobre o que é seu. Senão os outros vêm e tomam tudo.” Olhasse que o mundo é dos mais espertos. E isso vinha me dizendo há muito tempo. Desde quando eu sujava os cueiros. Conselho de morto não podia ser desprezado. Porque os mortos sabem de tudo, do passado e do futuro. Sabem da vida de todo mundo, o que se passa aqui e acolá ao mesmo tempo. E explicava mais: o morto está em cima do mundo e tem visão para tudo. Enxerga de uma só vez o Brasil e a China. E distingue tintim por tintim, como se estivesse perto do mundo ou como se olhasse através de binóculo. Parecia confuso e dizia que nada da morte pode ser explicada com as coisas da vida: o morto não precisa de instrumento algum para ver, simplesmente porque vê. Já o vivo não vê nada nem mesmo os objetos mais próximos de si. Como eu, que não enxergava um palmo diante do nariz. Um cego. Cego de guia. Pois haviam roubado toda a nossa fortuna, o terreno com as casas, e eu nem percebia. “Entregou tudo de mão beijada. E, pior, queimou depois o dinheiro, a esmola dada pelos ladrões. Com besteira, ainda mais. Agora estão os dois aí na miséria!”
Meu pai tinha toda a razão. Fui roubado, ludibriado. Aquela terra valia muito mais. E me rendia alguns trocados. Hoje, nem mel nem cumbuca. Entretanto não é hora de lamentação. Estou noutra esfera – a das visões. Só esta me fascina. Os gritos, as falas, as palavras dos fantasmas que me rondam.
Eu desconfiava desde cedo de que este quarto não é o de minha casa. Achava-o menor ou me sentia engrandecido. Terminei aceitando a segunda hipótese, apesar de não ter estado deitado. Porque só me ocorre isso quando estou estirado na cama. Braços, mãos, pernas, pés, cabeça, tudo se agiganta. Sobretudo se fecho os olhos e permaneço quieto.
Tudo é obra de Josefina, a falsa, fingida, hipócrita. Fez transportarem-me para este cubículo, junto com os meus móveis e utensílios, para que me iludisse. Cometeram erro grave, no entanto, ao arrumarem os móveis justamente no sentido oposto ao em que se encontravam. Porque partiram de premissa falsa. A cabeceira da cama continua à direita da janela, assim como a mesinha. O guarda-roupa está também à esquerda. Até aqui tudo nos seus devidos lugares. Entretanto deixaram-se enganar pela geometria das ruas, da cidade, do mundo. Porque a janela da minha casa fica para o nascente, enquanto esta dá para o poente. Logo, não estou no meu quarto.
A partir dessa dedução, pego o gato pelo rabo. O doutor José Monte não esteve em minha casa horas atrás. Não condescendeu em me atender em domicílio. Pelo contrário, fez-me vir até ele, conduzindo-me à casa de saúde.
Se Josefina e o médico fossem mais astutos, poderiam ter montado o cenário com mais arte. Assim, no lugar daquele coqueiro deveria estar uma bananeira. Em vez daquela árvore estranha, por que não plantaram uma mangueira? E o muro não precisava ser tão alto.
Aqui dentro, porém, o cenário é quase perfeito: meus velhos livros amontoados e empoeirados em cima do guarda-roupa, casas de aranha nos cantos das paredes, a pintura desbotada à direita da janela, roupas e lençóis amarrotados sobre a cama, meu pente no chão, um livro debaixo da cama, outro detrás da mesa, tudo em desordem, como no meu quarto.
De tanto querer ser lógico, terminei perdendo o fio da meada. Eu sei que relembrava a cena da rua, os favelados metamorfoseados em índios. Deve ter sido só aquilo mesmo. Não recordo outros pequenos fatos. Agora é a vez de outro encontro, de outra visão. Apareceu-me a figura de Esmeraldo. Recebi-o cordialmente e chegamos a iniciar conversa fiada, sobre o tempo, a falta de chuva, essas coisas. De repente ele mudou o tom da voz, as feições, enfiou os olhos nos meus e se apossou da palavra, sempre a me chamar por cachaceiro.
Vinha à minha presença para dizer umas verdades sobre a vida. Não queria dizer porém que quisesse me ajudar. Primeiro porque eu já estava morto. Não passava de um estorvo. Ora, um homem herda uma porção de terras e imóveis e morre sem sepultura! E não adiantava tentar me zangar. Ficasse no meu cantinho, em cima da minha cama de masturbador, metido no meu quarto imundo.
Perguntou-me por que não arranjava mulher, não me casava, não me amancebava, não arrumava uma negra. Qualquer matutinha. E insultou-me: “Vocês, homens frágeis, ricos de nascença, são umas pulgas. E o pior é quando se metem a intelectuais, filósofos, poetas, essas merdas todas. Viram uns bonecos sem sangue, entregam-se às melancolias, ao lado escuro do espírito, fantasiam tudo.” Ele, não, sempre havia pensado pouco e vivido muito. E resumia: sempre pensei rápido. Seu negócio: ganhar o jogo no primeiro minuto. Inteligência era isso. Se percebia a derrota, abandonava o campo.
Quis saber se me lembrava do nosso negócio. E contou a história: como está na sua índole farejar a cidade, feito um cachorro faminto, num dos seus passeios encontrou o lixo da minha favela e tratou logo de abocanhar o seu pedaço de osso. “Sou ou não sou um sujeito esperto? Pois quem procurou você antes de mim para comprar o terreno? Ninguém teve essa iniciativa. E você, animal indolente, jumento velho, sentiu-se vitorioso, livre da carga. Agradeceu-me o grande favor de lhe tirar a propriedade do terreno das costas. Como se eu fosse um deus a remover montanhas. Posso imitar a sua literatura? Você era o solo raso e seu pai lhe botou em cima um monte de terras. Aquilo pesava, machucava, doía. E eu apareci com as minhas pás e aplainei a terra. Que alívio, hein!? Seu desgraçado, eu apenas servi de intermediário entre você e o comprador. E ganhei dos dois lados. Sim, cortei dos dois lados. Sou faca de dois gumes. Afiada, sem dó nem piedade. Está satisfeito agora? Não, pela sua cara sei que ainda vai pensar muito em mim e me convocar para novas falas. Estou pronto a servir ao burguês falido, ao intelectual retardado. Sou importante nesta história e voltarei, mesmo fora de hora. Deixe a porta aberta, sim? Adeus.”
Sua oração foi essa durante uma hora. Ia e vinha, me insultava, falava da favela, se elogiava, desprezava o espírito, fazia comparações, enaltecia o utilitarismo, se dizia inteligente, lembrava o terreno, me chamava disso e daquilo, vinha e ia pelos mesmos caminhos da sua fala porca, da sua gritaria, da sua ingresia. E eu me sentia tonto, rodopiava na sala, pena solta no turbilhão das palavras.
Todos os parênteses do presente não faziam parte do meu projeto de narrativa. No entanto não posso esquivar-me de mais uma vez falar da minha estada neste quarto.
Vem-me à lembrança a visita do doutor, horas atrás. Ora, nunca havia ele posto os pés na minha casa. E ousava ir além da sala, passar ao quarto, sem o meu convite, como se fosse irmão ou amigo. Apesar disso, não tive coragem de tratá-lo mal e meu ódio se voltou contra Josefina.
Imagino agora se tivesse agido de outra forma. Talvez agora me aplicassem choques.
Mas basta, estou salvo e escritor.
Retomo o relatório:
Sucederam-se as aparições. Nem bem uma desaparecia, outra surgia. Mal retirava-se um, entrava outro ao meu quarto. Como se estivessem todos em fila do lado de fora. Conluiados, irmanados pelo sentimento de me humilharem. Pois bastou que o corretor escapasse das minhas vistas, para apresentar-se a sua mulher. E nem deu bom-dia, boa-tarde ou boa-noite. Nem sequer explicou as razões da sua visita e da sua conversa. De chofre foi dizendo: “Toda vez que eu penso no senhor, quero dizer, quando ouço falar no senhor, pois meu marido vira e mexe está se referindo ao senhor, me vem a idéia de como é a sua vida. Pois um solteirão deve ter uma vida bem alegre, não é, Seu Cesário? Muita liberdade de sair de casa, passear, andar atrás de mulher. Estou certa ou não estou?”
A safada pegou-me, como sempre, desprevenido, sem respostas preparadas. Eu não sabia se devia responder sim ou não. Se dissesse sim, poderia parecer gabola, se não, seria confessar-me bobo. Mas antes de escolher a resposta, já ela retomava a palavra: Se fosse homem, não perdoava uma só mulher. Gostava de todas. E não ia querer se casar, se amarrar a uma só. Eu não entendia isso, logicamente – dizia. Talvez até eu a achasse leviana. Porém era mulher e casada. Não trocava o seu Esmeraldo por nenhum homem do mundo. Nem o mais rico, mais bonito e mais famoso. Além do mais, ele tinha suas posses e era bonito. Só faltava a fama. Mas isso de fama ficava para artista. No começo pensava muito em se casar com um cantor, artista de cinema, jogador de futebol. Teve um tempo até que andou apaixonada por Roberto Carlos, depois por Tarcísio Meira e até por Rivelino. Coisa de moça mesmo. Agora simpatizava com esses homens famosos, gostava de vê-los nas revistas, porém sem nenhuma intenção má. E pedia a minha compreensão. Deus a livrasse de enganar o seu marido. A mulher depois que se casa deve se dedicar só ao marido, de corpo e alma. O homem, não, esse pode ser mais livre. É natural. E se é solteiro, então, não tem freio. Imaginava as aventuras de um solteirão como eu. Hoje sai com fulana, amanhã conhece sicrana, ontem dormiu com beltrana. Faz coleção. Nunca está só. Minha cama que o dissesse.
Essa tagarelice durou bom tempo. Meia hora ou mais. Devo ter cochilado a partir do momento em que se pôs a falar de cama. Sempre me deu sono conversa de mulher. Por isso eu pedia sempre às mulheres para falarem pouco comigo. Do contrário, eu dormia logo. Virava neném, ninado por suas historinhas.
No cochilo, eu sonhava. Ou então ocorreu-me ser transportado em pensamento à casa dela, ou um delírio. Sim, não deve ter sido apenas sonho. De qualquer forma, Violeta se penteava, olhos grudados no marido. E pestanejava, mordia os lábios, sem sossego. Por fim, sussurrou meio monossílabo, trincou os dentes e com a escova coçou a cabeça.
Com o rabo do olho, Esmeraldo pegou-a nessa impaciência, largou o jornal em cima da mesinha e se ajeitou na poltrona.
– Desembucha, mulher.
Ela sorriu, abaixou o braço que segurava a escova e passeou na direção da mesinha.
– Isso era anúncio?
Admirou-se de ver Esmeraldo entregue à leitura do jornal, porque ele nunca lia nada, à exceção dos anúncios imobiliários. Até deixava de lado o resto dos cadernos, como se nada no mundo valesse uma casa posta à venda.
– Hoje tem assunto que me interessa.
Ela derreou-se sobre a outra poltrona e voltou a alisar os cabelos.
– A polícia invadiu a favela.
Agarrou de novo o jornal e mostrou-o a ela. Lesse a manchete.
– Ursa Maior ganha mais uma estrela.
Esmeraldo balançou a cabeça, deixasse de brincadeiras, daquele jeito se tornava impossível conversarem. Ela se amuou, fez menção de deixar a sala, não tinha comido carne de pavão para adivinhar a que manchete ele se referia. E se viu segura pelo braço dele.
– Veja se eu tenho cara de doido.
Um sujeito sério, preocupado com a realidade, a vida, como ele, ia lá se ocupar com estrelas!
– Ou você não presta atenção ao que digo?
Prestava, sim, e não só às suas palavras, como também aos seus movimentos, atos, afazeres.
– Quem passou meia hora plantada ali olhando para você?
– E não ouviu eu falar na invasão da favela? Por acaso polícia tem alguma relação com Ursa Maior e favela com estrela?
– Pensei que essa tal de ursa grande...
Ele riu, esperou pelo resto da frase, passou a mão no rosto e entregou o jornal a ela.
– Ontem a polícia resolveu limpar mesmo a Estaca Zero.
A escova aconchegou-se ao colo de Violeta, espetada de cabelinhos dourados.
Nem sempre Esmeraldo amanhecia disposto a levar o seu mundo para a cabecinha diariamente cheirosa de Violeta. A não ser quando não encontrava outro ombro onde pudesse deitar suas contrariedades e satisfações comerciais.
– Você nunca se interessou por essas coisas.
Fazia um tempão que Esmeraldo havia iniciado o negócio da compra e venda do meu terreno.
– Eu lhe falei dele.
Toda a cidade sabia da existência da favela. A imprensa não cansava de contar casos monstruosos, retratar bandidos, pintar misérias, tudo tirado da costela vegetal da Estaca Zero. Porém só um de seus cidadãos teve a sabedoria de descobrir-lhe as raízes possessórias.
– Fui eu, minha querida.
Vasculhou-a, mediu-a, mapeou-a e sentiu-lhe o melhor cheiro – o da vantagem econômica de arranjar comprador para o terreno. Antes, precisava saber a quem de direito pertencia. Correu ao cartório de registro imobiliário e falou de riquezas para o tabelião.
Serviram-se cafés, acenderam-se charutos, tudo em meio ao mais condicionado ar. Desenterraram defuntos velhos, abriram baús, citaram cartas régias, concessões de terras de sesmaria, logares, villas, actos, communicações, tudo como ditava El-Rei.
– A conversa está boa, mas vou indo, Doutor Vicente.
Apertos de mão, sorrisos, a casa é sua, vá tomar um uísque no meu escritório, passinhos, como é mesmo o seu nome? os documentos dão vida.
– Fazem a História, meu filho.
À saída, o favorzinho indispensável. Queria só saber em nome de quem estava registrado o terreno, não precisava pedir, mandasse, desse as ordens.
– Recomendações a Dona Dorotéia.
De posse do nome do proprietário das terras da Estaca Zero, o terceiro bote do corretor encontrou a presa desprevenida. Refiro-me a mim. E já contei o episódio da sua primeira visita à minha casa.
Eu tremia e fedia a cachaça, rabugem e mofo. Magro de fazer dó, feio de espantar caburé.
– Vamos tomar uma, Cesário.
No botequim falamos da Praia de lracema, de Getúlio, sobrados, coretos, bondes.
– A Praça Marquês de Herval.
Eu chorava, fungava, ria e furava os bolsos à cata de moedas.
– Essa é minha – adiantou-se.
Pedimos a saideira, e Esmeraldo despejou toda a sua na boca do santo, enquanto nem sequer fiz careta para o gole rápido.
– Realmente o terreno não vale um juá – terminei concordando.
Despedimo-nos do dono do bar, o corretor a amparar-me.
– Nunca encontrei um comprador – confessei.
Na soleira da porta de casa um rato festejava a minha chegada.
– Pois agora vai encontrar – penitenciou-me Esmeraldo, enquanto voltava a depreciar o terreno, alagadiço, favela, antro de marginais. Não se preocupasse, porém, com isso. Ia vendê-lo sem tardança e por bom dinheiro.
No outro dia obteve o menor preço para venda. E quase me embriaguei para não tremer no ato de assinatura da procuração.
– Agora pode beber à vontade, meu amigo – o desgraçado me disse.
Segui o seu conselho à risca e embriagava-me seguidamente, como se beber significasse a suprema felicidade. Bebia os últimos tostões dos aluguéis, sem nenhuma moderação, confiante no dinheirão que brevemente teria às mãos.
O negócio se fez sem maiores delongas e daí a um mês recebi o cheque. E mais me fiz perdulário.
Aquele dinheiro não durou nada, um ano ou pouco mais. Hoje estou na miséria, sem um tostão. Gastei-o todo na bebida. Só pode ter sido. Nos primeiros dias me senti rico, comprei roupa, sapato, visitei cabarés, andei com mulheres, conheci uma Ernestina e por um triz não me apaixonei. Ainda bem, porque ela só queria meu dinheiro e eu não percebia isso. Afastei-me dela num dia em que amanheci quase sem dinheiro na sua cama. Também não pedi nada de volta. Ficasse com tudo. E durante dias propaguei o fato pela cidade.
A princípio um ou outro acreditou em mim, mas logo viram que eu mentia, era um pobre coitado, um cachaceiro, e zombavam de mim.
Antes dessa conheci, há muitos anos, outras mulheres, menos interesseiras, umas até minhas amigas. Depois, quando me afundei mesmo na bebida, elas foram se afastando, riam de mim, até perder todas de vista. Havia a Aninha, mulher danada para me fazer gozar. Pegou doença ainda nova e todo mundo se afastou dela, como se foge do cão. Morreu cedo a coitada. Chamava-me de Cesá e tinha sido moça de família, estudante, desonrada por um namorado. Os pais a expulsaram de casa e ela terminou na Cinza. Eu gostava muito dela.
Conheci também a Fátima, que caiu na vida por causa de um primo meu. Antes, no seu tempo de mocinha, só faltei ficar doido por ela. Depois, já puta, encontramo-nos. Não tive coragem de falar de minha antiga paixão. Porque ela falava o tempo todo dos homens, não prestavam, não valiam nada, a não ser na cama. E eu, bêbado, falava todas as porcarias que ela pedia e me sentia um menino mole.
Outra se chamava Danuza. Tive muitas outras, de passar noites na sacanagem. Nesse tempo eu bebia só por diversão. Meu pai brigava comigo, me chamava de boêmio, farrista, moleque. Eu já não estudava, os livros para um canto, embora já tivesse lido tudo, tanto os do colégio como romances, muitos, de autores famosos e bons, românticos, realistas, naturalistas. De tanto ler, conheci a vida e o mundo desde os quinze anos. Mas não quis ser gente, talvez porque minha mãe tenha morrido logo e eu ficado solto na buraqueira. A seguir morreu meu pai e passei a tomar conta dos seus negócios, das casas, aluguéis, e a gastar tudo, noites e noites na farra.
Talvez as aparições não me tenham ocorrido na ordem até aqui apresentada. Porém já me vejo além da normalidade, só em conseguir gravar, ipsis litteris, quase todas as palavras dos meus fantasmas. Ora, não existe nenhum rito nesta loucura. Assim, lembro agora a figura do tabelião Vicente, magro, miúdo, encolhido, de camisa branca e gravata, ao lado de minha rede. Não sei se substituiu Violeta ou o advogado. Certeza tenho da sua súbita presença no meu quarto e do teor da sua alocução: “O senhor só pode ser Cesário Valverde. Já não digo por estar aqui. Qualquer investigador não teria nenhuma dúvida em gritar: achei o homem. Porque seus traços são os de um ser aniquilado. Este quarto diz tudo, e esta rede, e este ar de decadência, e este fluido que se espalha pelo ambiente. Aliás, conheço você desde muito tempo. Seu pai, o falecido Napoleão, me impressionou certa vez com a descrição que me fez do futuro herdeiro. Não me peça detalhes, porque não gosto de contar os pecados dos mortos. Falávamos de fisionomias. Se não me engano, no dia da lavratura da escritura daquele pedaço de terra – a famosa Estaca Zero. Aquela teoria de que toda pessoa humana lembra determinado bicho. Cesário é um rato perfeito, disse-me seu pai. E, olhando bem, ele tinha razão. O focinho pontudo, os olhinhos espertos. Diga-me: você gosta de roer? Como andam os seus molares? Quer experimentar a sola do meu sapato? É durinha. Ou prefere roer livros? Não negue, você já foi dado ao vício de lamber livros. Aliás, sua fama de rato de biblioteca andou espalhada pela cidade. Seu pai me falou também disso. Você buscava exemplares raros de compêndios de História. Pretendia formular uma nova teoria da raça brasileira. É verdade ou não é? E, ironia do sangue, hoje é o mais fiel exemplar do homo brasiliensis – perdulário, preguiçoso, permissivo, perrengue e pervertido. Não, não me olhe com esse olhar de rato diante do gato. Você não pode me acusar de nada, porque sou mais europeu que brasileiro. Se existir sangue indígena em minhas veias, será em pequena quantidade. Veja a minha cor, os meus olhos, as minhas feições. Daí por que sou tabelião. Não apenas por ofício, mas sobretudo por vocação. E herança. Meu pai, o velho Gil Vicente da Costa Pimpão, deixou-me o cartório. Meu avô se chamava Fidelino da Costa Pimpão, português de boa cepa. Minhas origens são históricas. Você, ao contrário, vem de um sertanejo sem precedentes, um caboclo. Seu avô não passava de filho de índio. Resultado, um Cesário incapaz de tudo, alcoólatra, preso pelas garras da demência. Agora é esperar pelo mau final, depois de passar a vida vendo o mundo péssimo. Tenho dito. Adeus.”
E sumiu, feito um demônio.
O último dos fantasmas se chamava Rolim e apareceu-me após o cochilo ou o delírio que me conduziu à casa de Esmeraldo e Violeta. Apresentou-se arrogante, como se minha casa fosse pública ou dele. Primeiro quis saber de Josefina e do gato, como se fôssemos todos criados seus ou animais domésticos desprezados. A seguir e abruptamente mudou o rumo da conversa e pôs-se a falar de empreendimentos imobiliários e já me tratava como a um assessor ou amigo: sua intenção era construir no terreno um conjunto de apartamentos. Investir muitos cruzeiros e transformar aquele lamaçal num cartão-postal da cidade. Ora, uma cidade como a nossa, a quinta do país, merecia isso. E eu também seria responsável por essa obra magnífica. Além de sair lucrando com o negócio.
Luiz Rolim olhava ao redor e falava da casa, do meu quarto, “essas mobílias ricas, coloniais”. Perguntava se eu as herdara e elogiava meu bom gosto. Chamava-me de inteligente por me ter livrado da favela. “Uma dor de cabeça, não era? E preservou este casarão antigo.” Era de opinião de que nem tudo deve ser preservado. Chamava de malucos e inimigos do progresso aos partidários de tombamentos. Para que servia uma cidade do século passado? Quem ia comprar uma igreja de duzentos, trezentos anos? Só ele. Para demoli-la. O espaço cada vez mais se reduz e é preciso aproveitá-lo ao máximo. Assim, comprou a favela, me tirou da miséria e ainda ia servir à cidade. Era ou não era um homem de bom coração e de civismo? Minha resposta, porém, não lhe interessava. Nem a de ninguém. Muito menos a dos favelados. Olhasse como são criaturas desprezíveis, espécie de animais sujos, selvagens. Para ele não existe maior semelhança do que a dos miseráveis com os índios. Até suas habitações se parecem. Comparou os casebres com as cabanas indígenas, as ruelas com as aldeias dos seus antepassados. Os favelados têm cara de índios. São do mesmo sangue. Tudo continua como antes. Ele, vencedor e poderoso, limpo e gordo, no lugar de seus avós, vencedores e poderosos, limpos e gordos, e os pobres, vencidos e fracos, sujos e magros, no mesmo lugar de seus avôs vencidos e fracos, sujos e magros, selvagens todos.
Após o desaparecimento do último dos meus algozes, tranqüilizei-me e pude compreender que tudo não passava de alucinação. Para chegar a tal entendimento, porém, levei algum tempo. Sobretudo porque via alargarem-se diante de mim os caminhos da loucura. Cheguei a apavorar-me e segurava a cabeça com as mãos, como se assim pudesse agarrar a razão e impedir-lhe a fuga. Meu cérebro zumbia feito uma caixa de abelhas. Sinfonia alucinante que me agoniava e entorpecia. Sons indistintos, perdidos, vibrantes. Meus ouvidos resistiam àquela avalanche de finíssimos ruídos, setas da mais imensurável agudeza. E pouco a pouco eu distinguia o ritmo da marcha e já ouvia vozes em cantoria. Sim, cantavam à distância um cântico. Certo hino conhecido, de louvor à bandeira, à pátria ou à república, não sabia ainda. Os primeiros versos diziam:
Nós somos a cabeça da lança,
a bala que escapou lá detrás,
nós somos o fiel da balança,
o eixo-suporte-base da paz.
Não havia mais dúvida: cantavam a música do Hino à Bandeira, com outra letra.
Veio então o estribilho:
Somos conquistadores da terra,
bandeirantes do novo Brasil,
mensageiros de um tempo sem guerra,
sacerdotes da ordem civil.
A segunda estrofe dizia:
Nosso afã é queimar essas matas,
soterrar esse imenso paul,
transformar essas muitas cascatas,
acabar com essa cor tão azul.
De novo o refrão e a seguir outra estrofe:
É deixar a miséria de lado,
a feiúra geral desfazer,
erigir da Beleza o reinado,
a carta do Progresso escrever.
A última proclamava:
Nós somos da nação brasileira
o lado mais viril, de vigor,
somos da vanguarda a dianteira
a força geratriz, o motor.
Completamente alucinado, não conseguia abrir os olhos, cabeça enfiada na rede. Que demônios agora me invadiam o quarto? E por que cantavam aquele hino? Chorei, desesperado. Então tudo silenciou e preparei-me para a paz. Ergui-me da rede e saltei para o meio do quarto. Horrível visão! À porta, pequena multidão me aguardava. Reconheci primeiro Esmeraldo. Olhei para os outros: Violeta, Rolim, Carlos Marinho, major Cordeiro, doutor Anísio e o tabelião. Quis recuar, fugir pela janela. Porém uma força estranha me grudava ao chão. Talvez o aspecto dos visitantes: Esmeraldo trajava roupas de bandeirante, o major se apresentava como capitão-do-mato, o advogado vestia-se de preto, o juiz trazia vistosa toga, Violeta usava vestes portuguesas e o tabelião cobria-se mais modestamente.
Feito espectador solitário de drama improvisado, sentei-me à rede e o espetáculo teve início.
Para melhor entendimento do doutor, não farei qualquer comentário durante a encenação, transcrevendo apenas as falas dos personagens e antecipando-lhes os nomes, como se segue:
Advogado – Advogado da Corte,
defensor da cortesia,
eis-me aqui sem fantasia
Juiz – Começaste mal, doutor
pois te vestes de batina
feito um pobre curador
das almas atormentadas.
Tabelião – Data venia, seu juiz,
mas padre se chama cura
não porque pela raiz
corte o mal da criatura.
Major – Quero ordem neste campo,
pouca fala, muita ação,
do contrário a boca tampo
de juiz, tabelião,
de qualquer advogado,
de padre, de sacristão.
Esmeraldo – Com Licença, seu major,
me permita, seu Marinho,
responder pelo maior,
o juiz de nossa causa.
Juiz – Não te dei procuração,
seu maldito corretor,
para falares por mim.
Esconde tua oração
dentro daquele setor,
no recesso do teu fim.
Violeta – Nunca ouvi tanta sujeira
da boca de um magistrado,
isto parece uma feira
de tanto palavreado.
Rolim – É chegada a minha vez
de dizer umas verdades:
levante a mão quem já fez
a limpeza destas partes,
tanto faz as dianteiras
como as partes traseiras.
Advogado – Como sou muito cortês,
respondo polidamente:
estudei o bom francês
e falo decentemente.
Sou versado em latinês,
em toda língua de gente.
Aprendi no fabulário,
de Esopo e La Fontaine.
Juiz – Corto o teu vocabulário,
antes que salte Verlaine
de tua língua comprida,
seu doutor Carlos Marinho
– desgraça de nossa vida.
Rolim – Pois eu com todo o carinho
cozo a palavra versada
do nobre doutor Chacina
e finalizo a charada
– em conversa de latrina
não entra conto de fada.
Advogado – Gostei muito da sextilha
do rico Luiz Rolim,
só me deixou uma pilha
ser chamado bacorim.
Major – Mais uma vez vou gritar:
basta de tantas palavras,
de bobamente versar,
senão lhes ponho aldravas
nas bocas, nos pés, nas mãos.
Esmeraldo – Pois se deseja o Cordeiro
em vez de versos os vãos
gestos, que aja primeiro.
Tabelião – E deponha neste chão
o crânio do favelado.
Juiz – Mostre na palma da mão
o olho do condenado.
Rolim – E o coitado coração
do homem assassinado.
Advogado –Aquele micro tendão
do menino esquartejado.
Esmeraldo – O vestido de fustão
da mulher do aleijado.
Violeta – O centavo e o tostão
do mendigo enforcado.
Major – Muito bem, meus camaradas,
minhas boas companhias,
desde as muitas ossadas
até as fotografias,
eu trago tudo comigo.
Faço entrega dos troféus
como manda a lei do amigo.
Este crânio envolto em véus
presenteio a Seu Rolim,
por ser dele o terreno.
Este olho de cetim
passa de direito pleno
à testa do Seu Juiz,
para que veja legal.
O coração por um triz
não doei para seu mal
ao nobre procurador,
porém pode recebê-lo
nosso belo corretor.
Este tendão posso vê-lo
no corpo do advogado
como paga merecida
por tanto ter trabalhado,
com sua escrita bem lida
no fórum e na justiça.
O vestido só podia
servir a dama roliça,
figura de simpatia
como dona Violeta.
As moedas valiosas
peço ao Vicente que meta
em suas calças mimosas.
Para mim eu guardo a fama
de ter feito a invasão
da favela que se chama
Estaca Zero do Cão.
Ao final, todos se deram as mãos e, em ciranda, se puseram a dançar e cantar ao meu redor. Deram meia-volta e se retiraram.
Quero deixar claro que os versos da farsa, bem como os do hino, copiei-os às pressas. Tal se deu hoje de madrugada, antes mesmo de dar início a esta narrativa.
Devo também outra explicação: este caderno não tem nenhuma relação com qualquer psiquiatra. Tenho-o comigo desde muito tempo. Ele e outros. Um deles serviu para acolher os versos recopiados linhas atrás.
Acredito agora que foram os tais versos os motivadores desta narrativa. Sim, ninguém me aconselhou a escrever.
Mais importante, porém, é esclarecer a autoria dos versos, assim como das falas em prosa, transcritos nestas folhas. Não inventei nada, porque me falta talento para inventar. Tudo não passou de ditado dos fantasmas.
Pode-se ainda falar de inspiração. Ou de exercício literário. Poderão dizer: Cesário é um poeta, um romancista, um escritor. Negarei, no entanto, a inspiração, porque nunca a tive e não seria agora, justamente num momento tão crítico da minha vida mental, que iria me sentir inspirado. Também não possuo talento para escrever sequer um bom esboço de romance. E, por último, jamais tentei rabiscar um livro. Quando muito, poeminhas, há muitos anos. Logo, tudo é obra dos fantasmas.
Ou eu os criei nestes dias de loucura?
Deito de novo a atenção neste quarto, na paisagem do quintal e confesso meu engano: aqui é realmente o quarto de minha casa. O sol se põe e a sombra já invadiu o chão. Reconheço cada palmo do cimento, as casinhas das aranhas, a mancha na parede, as árvores do quintal, o muro de onde as lagartixas me espreitam.
Aos poucos desperto pata a realidade, saído de mais uma alucinação. Enquanto pensava e escrevia, o delírio tomava conta do meu espírito. Nada mudou nesta casa e em mim. Sou o mesmo Cesário de ontem, de dias atrás. Não me visitou nenhum Dr. José Monte. Nem o conheço. Possivelmente nem existe. Escrevo por vontade própria, na tentativa de não perder a razão. Josefina andará pela cozinha a conversar com o gato, ou rezará a centésima ave-maria de hoje, sem sequer desconfiar da minha crueldade.
Agora estou mais tranqüilo, ninguém me importuna. Olho para os lados, as portas, os cantos da casa, o telhado, e não pressinto a chegada de nenhum fantasma. Posso escrever sossegadamente, relembrar tudo, realidade e fantasia, e segurar os braços da loucura que tenta me asfixiar. Resisto à custa das palavras. Isto me salvará.
(FIM)