ESTACA ZERO (2)
(Continuação)
Olhei para trás. A multidão, em duas filas, me seguia, contrita, a cantar, em procissão. E se estendia por muitos quilômetros.
Ao fim de uma ou duas horas de caminhada, cheguei, junto com os primeiros fiéis, a um campo, onde já se achavam outros. Ficamos todos a postos, enquanto Luiz Rolim mandava armar um pavilhão e dentro levantar um altar mui bem arranjado. Em questão de minutos o trabalho se concluiu e então cheguei ao altar, coloquei sobre ele o cálice, abri o missal, e disse: Em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo. Ouviu-se um estrondoso amém.
Acabada a missa, desvesti-me e subi a uma cadeira alta. Preguei então uma solene e proveitosa pregação, da história evangélica. A seguir tratei da vida daquele povo e da história da Estaca Zero.
Acabada a pregação, a multidão se retirou e pude constatar que me encontrava no quintal da minha casa. Galinhas corriam para lá e para cá, alvoroçadas, perseguidas por um galo. Dois ou três gatos passeavam em cima do muro. E eu, mais outras crianças, brincava de bola-de-meia. No meu time jogavam meus irmãos Augusto e Agamenon e, no outro, três meninos desconhecidos. Em dado momento eu tomava a bola do adversário, driblava os outros dois e chutava. Na alegria do gol, corria por todo o campo, aplaudido pelos companheiros e espectadores. Caía de joelhos e beijava a grama. E, ao me erguer, via toda a platéia, já muito mais numerosa, de pé, a gritar o meu nome, Emocionado, não conseguia despregar-me do chão e apenas sorria, mandava beijos para o povo, fazia mesuras. Ouvia vivas a outros nomes e percebia a presença de diversas pessoas sentadas ao redor de uma mesa. No chão não havia mais grama, não estávamos mais a céu aberto e a platéia e o palco haviam diminuído de tamanho. Representávamos num teatro, eu compreendia. À cabeceira da mesa, um homem baixo e gordo fazia o papel de Getúlio. Falava de crise, trabalhador, nacionalismo. Tratava-se de Pedro Celestino. Os demais personagens, ministros de Estado, eram interpretados por Seu Bernardo, Manuel Macumbeiro, João Correia, Carlito, parentes destes, Agamenon, Augusto e meu pai.
Getúlio, sorridente, me chamava pelo nome de Jango, para que me sentasse. Eu atendia o chamado, sentava-me e baixava a cabeça, cansado. As vozes se alteavam e eu levantava a cabeça. E já não via nem Getúlio nem os seus ministros. O ambiente também era outro. Parecia urna sala de julgamentos. Havia um juiz, o Dr. Anísio, um promotor, um advogado, o Dr. Carlos Marinho, que me acusava de ter planejado, maquiavelicamente, toda a tragédia (só depois de algum tempo eu compreendia que me julgavam pelo crime de ter mandado massacrar centenas de favelados), além de inúmeras testemunhas, jurados e curiosos. Minhas irmãs e mãe choravam, meus irmãos pareciam assustados e meu pai olhava para baixo. Uns aplaudiam o orador, outros riam e me insultavam. Chamavam-me de monstro, louco, tarado, fera.
No meio do discurso do advogado, o juiz tocou a sineta e pediu água.
Apresentaram-se garçons com bandejas cheias de copos. Dirigiram-se a todos com solicitude. Ofereceram-me uma bebida vermelha. Procurei saber se se tratava de vinho e o garçom me afirmou: – É vermute francês. Trocamos mais algumas palavras e fiquei sabendo que tudo corria por conta de Luiz Rolim, o ambiente era de festa e até as mulheres já estavam pagas. Indaguei onde nos achávamos e o rapaz sorriu, voltou-se para o salão e gritou: “Escutem, o Cesário está me dizendo que não conhece o cabaré da Dona Zita”. Todos gargalharam, abraçados a mulheres, uns já embriagados, outros ainda cheios de euforia. Olhei ao redor e reconheci muitas prostitutas: Ernestina, Aninha, Fátima, Danuza, Célia, Tereza, Ildona. Vi também Violeta e outras senhoras, todas muito pintadas, alegres, bem vestidas.
Chamei Ernestina e perguntei se podia me levar ao seu quarto. Deu-me o braço e me conduziu ao interior da casa. Atravessamos um corredor escuro e adiante ela abriu uma porta. Acendeu a luz, entramos num quarto e fechou novamente a porta. Falamos do calor, da bebida, do vozerio, enquanto ela se despia. Numa das paredes havia um quadro de uns dois metros de largura. Impressionei-me com a pintura e nem olhei mais para Ernestina. Mulheres nuas, lindas, perseguidas por faunos, centauros e outros monstros. Ao fundo, a boca de uma gruta, onde um velhinho brincava com morcegos. No alto, anjos seminus voejavam sobre as cabeças de escravos negros. Por toda a tela a vegetação se espalhava. Extasiei-me a olhar para o quadro e me espantei de ver as figuras movimentarem-se. As mulheres corriam de fato, assim como os bichos. Excitava-me a perseguição. Um dos faunos agarrou uma das mulheres pelas pernas, lançou-a ao solo, enlaçou-a. A cara medonha do animal, a agonia da presa. As figuras do casal tomaram toda a tela, como se se aproximassem de mim. Ocorria o coito às minhas vistas e eu também delirava de prazer.
Pouco a pouco, porém, a cena desapareceu, com a aproximação cada vez maior dos órgãos genitais do fauno e da mulher. A tela toda se encheu de uma cor indefinida, que se fez lentamente azul-celeste. Suspirei fundo e percebi ao meu lado direito Ernestina, sentada. Do outro, Aninha. À minha frente, Augusto, Agamenon, Lucrécia, Josefina, meus pais. Olhei para trás, para mais adiante, para os lados e descobri pessoas conhecidas: Esmeraldo, Violeta, Rolim, Marinho, o juiz, o psiquiatra. E, à frente de todos nós, imensa tela de cinema. Uma figura se engrandecia aos poucos. Um velho, barbudo, coberto de vestes, tomava todo o retângulo. Alguém cochichou: Deus! E se reduzia e ao seu lado apareciam homens e mulheres bem vestidos, robustos os primeiros, belas as segundas. Os santos do céu. Todos reunidos, em discussão. Ouvia-se a voz de Deus: “Mandem chamar Napoleão Valverde.” Meu pai se levantava, despedia-se da minha mãe, dos meus irmãos, dizia-me adeus e se encaminhava em direção à tela. E se infundiu nela. Parecia-nos ao mesmo tempo muito próximo e muito distante de nós. Podíamos até tocá-lo, se déssemos alguns passos. Apresentava-se em tamanho natural. E dava-nos adeuses, mandava-nos beijos, depois desaparecia.
Surgiram pessoas há muito mortas. Cumprimentavam Deus e os santos, olhavam para o salão, como se buscassem velhos amigos, parentes, conhecidos. Revi meu irmão Augusto ao lado de Garrincha. Minha mãe alisava os cabelos de Marylin Monroe. João Correia conversava com Rousseau. Antônio Pereira passeava ao lado de Getúlio e Cristo. Aninha e Iracema iam de mãos dadas.
A voz do narrador de repente fez-se grave e anunciou cenas do Inferno. Primeiro o fogo, vermelho, amarelão, por toda a tela. Ouviram-se gritinhos entre os espectadores. E surgiu a figura horrenda do Diabo, chifrudo, peludo, cheio de dentes pontiagudos, o rabo a sacudir-se.
Apareceram, a seguir, vários demônios. Um deles, todo vestido de vermelho e montado num cavalo cor de sangue, dizia chamar-se Berito. Suas feições me lembraram Luiz Rolim. A seu lado via-se um bode negro, acompanhado de inúmeras bruxas, que lhe beijavam o traseiro e gritavam o nome – Leonardo. Tudo nele lembrou-me o advogado Carlos Marinho. Outro, nomeado Samael, parecia-se demasiadamente com Esmeraldo. Já o dito Belfegor, uma jovem belíssima, assemelhava-se a Violeta. Não pude deixar de ver a cara do major Cordeiro no rosto de Asmodeu, sujeito coxo e mal comportado, o tempo todo a coçar as virilhas. O juiz Anísio foi-me lembrado por Bael e o tabelião Vicente por Astarote.
Desfilaram ainda Leviatã, Belial, Lúcifer, Pazuzu, Belzebu, Zabulou, Lilite, íncubos, súcubos e diversas entidades desconhecidas, porém em nenhum deles reconheci qualquer outra pessoa do meu convívio.
Senti terrível mal-estar e pensei em me retirar da sala de espetáculos. Antes disso, porém, acenderam a luz e pude verificar que não me encontrava num cinema e sim em minha própria casa. E mais ninguém, afora eu e Ernestina, se via na sala. Também não se tratava de tela de cinema e sim de televisor.
Decepcionado, perguntei a minha irmã por que havia acendido a luz. E ela apenas disse: Você vai ver de novo esse filme? Olhei para a tela. Aparecia o interior da terra: um barro solto, repleto de insetos, água, lama, matéria em decomposição. Cadáveres, ossadas, tudo em revolvimento contínuo. E eu reconhecia aqui e ali os enterrados: meu pai, minha mãe, Augusto, o favelado assassinado pela polícia, João Correia, Aninha.
Horrorizado, desliguei o aparelho e corri na direção do meu quarto. No meio do corredor, escorreguei e fui ao chão. E de fato me achava quase debaixo da cama.
Desde o princípio desta narrativa vem me importunando uma questão literária – como pode o memorialista se livrar do presente ou narrar o passado sem qualquer envolvimento com o tempo presente? Assim, apesar de me interessarem apenas fatos passados, não consigo me livrar da presença de Josefina nem me abstrair a ponto de não me situar dentro deste quarto. Além do mais, qualquer coisa relacionada com o médico tem me deixado agitado, desde as primeiras horas da manhã, muito antes da sua visita.
Descobri a causa da minha agitação: estes apontamentos não tiveram início por acaso. Dias atrás aconselhou-me o doutor a fazer um relatório da tragédia da Estaca Zero, especialmente o que se relacionasse de perto comigo. Lembro-me bem das suas palavras: Exponha tudo sem medo, como se se confessasse a Deus.
Sim, é isso.
Pouco antes de receber o dinheiro, ainda fui cobrar os últimos aluguéis e não tive coragem de falar nada aos moradores, embora ninguém mais quisesse cumprir as suas obrigações. Fulano alegava que sicrano e beltrano não pagavam e por isso não ia pagar sozinho. Além do mais, o terreno havia se transformado em favela, as casas caíam de velhas, a sujeira tomava conta de tudo, não havia luz nem água. Eu culpava a prefeitura e queria de fina força receber o dinheiro. Caso contrário, ia cobrar na Justiça. Eles zombavam de mim, riam e até me ameaçavam. Enfim, aquilo só me dava dor de cabeça.
Quando papai morreu, as seis casinhas ainda se apresentavam pintadas, limpas e os moradores me pagavam, embora com atraso.
A imprensa local se voltou algumas vezes para a Estaca Zero, sobretudo nos últimos tempos e mais ainda nos dias seguintes à sua invasão pela polícia. Então se viu a favela em manchetes, editoriais, artigos, crônicas. Antes só lhe reservavam notícias nas páginas policiais.
Tenho comigo alguns desses recortes e vou entranhá-los neste relatório, para conceder-lhe mais fidedignidade. Ou arrefecer o seu caráter particularista. Ou ainda dar-lhe feitio de documento, valor sociológico e até histórico.
Seguem-se, sem qualquer ordem cronológica, algumas dessas matérias jornalísticas:
A ESTACA ARRANCADA
Antônio Sampaio
Já não existe a favela
Estaca Zero. O progresso matou-a. E de morte feia, a pauladas, picaretadas, pancadas aterradoras. Como se mata cobra venenosa. Agora a cidade está limpa, bonita, com ares de modernidade. Pois não se admite metrópole do porte da nossa carunchada de casebres em pleno coração. O que diriam os visitantes, os turistas, nossos patrícios de outras bandas e os estrangeiros de olhos azuis? Além do mais, quantos cruzeiros deixariam de ganhar incorporadores, loteadores, edificadores, se naquele chão ainda estivesse fincada a estaca do atraso? Bendita demolição!
Quem não gostou da brincadeira foi aquela gente humilde que habitava os seus casebres. Porque agora devem andar ao léu, pobres como sempre, ou à cata de caixotes e flandres e de um lugarzinho qualquer onde possam reconstruir suas moradas.
Desses, o único a nada reclamar é Antônio Pereira. Aquela bala doida o conduziu a outra morada, mais confortável, segundo as religiões. Ou apenas o expulsou de casa, para nunca mais habitar casa nenhuma, se prevalecer a idéia dos materialistas. Seja como for, livrou-se do encargo dos seus companheiros de infortúnio, e nem anda ao léu nem cata lixo.
Agora, onde antes se erguia uma favela, tratores operários amassam o barro, dia após dia, para sobre ele mãos e guindastes erguerem magnífico edifício. Moradia de gente mediana, ciosa de segurança, conforto, status. Ou apenas de um lugar para morar e viver.
Quem sabe, entre aqueles operários estarão alguns dos desterrados, pedreiros sem pedras, pedros, tiagos, mateus, lucas. Apóstolos da velha ordem da engenharia. Ou seus parentes de sangue e origem, lavradores expulsos da terra, filhos do latifúndio e da fome, netos da carnificina e da miséria.
E amanhã, quando o prédio estiver erguido e acabado, só lhes restará aguardar uma nova ordem de despejo e, no dia da invasão policial, furar o cerco e partir em busca de outra estaca zero.
Até que mude a ordem das coisas.
URBANIZAÇÃO E
CIVILIZAÇÃO
Não é de hoje a preocupação dos administradores com a reforma e o melhoramento das cidades. Reformar e melhorar no sentido de sanear o espaço urbano, torná-lo da melhor maneira habitável. E isto significa ainda embelezar e civilizar.
O urbanismo é hoje a ciência e a técnica dos administradores mais responsáveis e mais voltados para o
bem-estar da população. Porque quanto mais urbanizada for a cidade, mais conforto e segurança terão os indivíduos,
isoladamente, e as famílias.
Não se pode, pois, separar a administração urbana da política urbanística. O bom prefeito será sempre o bom urbanista, dando-se a este último termo significado mais amplo: o de adepto do urbanismo.
Afora o aspecto do bem-estar individual, familiar e comunitário que a urbanização traz consigo, torna-se imperioso falar-se aqui de beleza. Ora, o ser humano será sempre um devoto de formas, um cultor da harmonia. A estética estará
permanentemete em voga, por mais que mudem os conceitos de belo. E urbanizar é também embelezar, repita-se.
Uma cidade mal construída e mal cuidada, entregue ao deus-dará e nunca saneada, será vista por seus habitantes, por mais amor que lhe tenham, como expressão de fealdade. A influência do meio físico sobre as pessoas é sabida. Valores caros à civilização, como a higiene, o respeito, o comedimento, não podem prosperar numa cidade que se assenta sobre sujeiras.
E o que dizer dos cidadãos que a visitam? Quem desejará voltar a uma cidade onde impera o desmazelo, o lixo, a lama? Que turista ousará pôr os pés no chão de uma urbe selvagem, se for possível unir-se tão antagônicas palavras? E para encerrar o questionário, quem ainda duvida da importância
econômica do turismo?
Pois nossa mui querida cidade, apesar de suas famosas e belas praias, dos seus suntuosos palácios episcopais, das suas largas e arborizadas avenidas, dos seus bairros elegantes, guarda em seu vasto corpo mazelas enormes. São favelas e mais favelas, algumas às vistas claras, outras mais escondidas. Autênticos cartões-postais às avessas. Borrões na tela exposta aos visitantes. Cancro de onde emanam doenças de ordem pública. Uma delas chamam de Estaca Zero, tristemente célebre por ser o celeiro de nossa mais castiça delinquência.
É hora, embora já tarde, de os administradores voltarem os olhos para estes problemas, abrirem a cartilha do urbanismo e decidirem curar o corpo enfermo da cidade que governam.
Erradicar favelas é urbanizar.
E civilizar.
versa com um grupo de políticos nesta capital, que se o deputado capixaba não desmentir o “boato”, a Mesa da Câmara tomará as necessárias providências.
Disse mais que suas relações com o Governador nunca foram cortadas, tendo em vista, sobretudo, sua luta
A RÚSSIA E SEUS
SATÉLITES
O Império Romano alcançou seu apogeu no século II d.C., quando já dominava quase toda a Europa, Norte da África e América. Durante o governo de Trajano ocorreram as anexações da Mesopôtamia, Dácia e Armênia, correspondentes ao atual Oriente Médio, e países da URSS, respectivamente. Para os historiadores, o Império de Júlio César e Nero se caracterizava, so
tória se repete. O Império Russo, depois de se alastrar por quase toda a Europa, invadiu a Ásia, África e América. E os tentáculos do Polvo Vermelho buscam sempre novas vítimas, insaciável, dominador, arrogante, tal o Império Romano dos Césares.
Por sua extensão e riqueza, o Brasil é a presa mais cobiçada do monstro euro-asiático, que tudo tem
BANDIDO SÓ QUER
OURO FINO
Maria das Dores procurou a polícia para se queixar do roubo de suas jóias, ocorrido nas proximidades de sua residência. Regressava da casa de amigas, quando se viu abordada por um desconhecido, que lhe tomou um relógio de pulso, cordão, pulseiras, correntes e anéis, tudo de ouro de 18 quilates, como fez questão de frisar.
O assaltante se valeu de uma faca para intimidar a vítima, a quem ameaçou de degolação. E ainda prometeu voltar para matá-la, se constatasse que o ouro não era de boa qualidade, razão pela qual a indigitada senhora pediu garantias de vida.
Segundo os policiais, o bandido será preso nas próximas horas, não necessitando, assim, Maria das Dores de proteção policial. Para os agentes da lei, o marginal há muito está em sua mira. Trata-se de Prateado, cujo nome de batismo é Pedro Pereira de Farias, perigoso malfeitor que se oculta em algum recanto da favela Estaca Zero, berço e coito de inúmeros fora-da-lei.
MORTO A MARRETADAS
Agentes da 13 ª DP efetuaram ontem a prisão do açougueiro Luiz Carlos Leitão, de 24 anos, que sábado da semana passada, numa briga no Bar do Neco, na favela Estaca Zero, atingiu com uma paulada a cabeça de João Batista da Silveira, de 28 anos, o qual veio a falecer em consequência da agressão.
O assassino foi preso no interior do seu açougue e mostrou-se surpreso ao saber da morte de seu desafeto.
Segundo Luiz, a morte se deu porque João, acompanhado do soldado da P.M. Augusto da Silva Borges, queria obrigá-lo a pagar duas cachaças que haviam bebido. Na tentativa de evitar confusão, retirou-se do bar. Os dois recalcitrantes saíram em sua perseguição e começaram a agredi-lo. Para se defender, apanhou um pedaço de pau, marretou a cabeça de João e, sem esperar pelo resultado, fugiu do local.
ROLIM SE ISENTA DE CULPA
AINDA O CASO ESTACA ZERO
Nossa reportagem esteve no escritório do incorporador e construtor Luiz Rolim, proprietário do terreno onde se erguia a favela Estaca Zero, recentemente destruída, depois do desalojamento dos favelados, episódio sangrento que resultou na morte do operário Antônio Pereira. Ouvimos a sua versão dos fatos, as suas opiniões, que a seguir transcrevemos.
Jornal – Como começou essa história toda?
Rolim – Eu entro nessa história como Herodes, porque na verdade peguei o bonde andando. Não fui eu que construí a favela, não mandei ninguém derrubar nada, não autorizei nenhuma violência.
Jornal – O senhor quando adquiriu o terreno sabia que nele moravam centenas de famílias?
Rolim – Sou um homem de negócios, aliás de grandes negócios, como todos sabem. Viajo constantemente para São Paulo, Rio, Estados Unidos. Meu escritório central aqui é apenas um dentre muitos outros de que me sirvo para realizar transações. Compro terrenos, imóveis e só sei onde se localizam quando meus assessores me apresentam mapas. Acredito em meus empregados, confio neles. Dou-lhes carta branca para tudo.
Jornal – A ação judicial movida contra os favelados também foi proposta sem o seu prévio consentimento?
Rolim – Meus advogados são pagos para me representarem. Dou-lhes procuração quase ilimitada.
Jornal – Entre a data da decretação do despejo e o dia da ação policial decorreu um longo período, durante o qual toda a cidade se voltou para o drama dos favelados. O senhor nunca soube de nada?
Rolim – Apesar das minhas inúmeras ocupações e das viagens rotineiras, sou um homem bem informado, quer por ler diariamente os jornais, quer por ser bem assessorado.
Jornal – Os favelados pediram sempre o apoio da comunidade, organizaram-se na defesa dos seus direitos e chegaram a prever uma carnificina. O senhor teve notícia disso?
Rolim – Sou católico praticante, mas não me venham com essa história de direitos. Ora, o terreno era e é meu, adquirido que foi legalmente. Portanto, os favelados queriam permanecer naquilo que não lhes pertencia. Queriam é maneira de dizer, porque por trás deles estavam os eternos inimigos da paz social, os agitadores de sempre, os comunistas.
Jornal – O senhor então não admite nenhum direito aos favelados?
Rolim – O direito de um termina onde começa o do outro. Este é um princípio básico. Se o terreno é meu, posso e devo dele me apossar. Aos estranhos cabe apenas se retirar. Como decidiu o juiz, com justiça.
Jornal – Mesmo com uso de violência, com a morte de uma pessoa?
Rolim – Já disse, não mandei ninguém bater em ninguém e muito menos matar. Não sou polícia. Quem bateu e matou foi a polícia. Aliás, no cumprimento do dever, obedientes à ordem judicial. Portanto, não devo nada, sou inocente.
POLÍCIA INVADE FAVELA
UM MORTO E VÁRIOS FERIDOS – CHORO,
DESESPERO, PANCADARIA, TIROTEIO
DURANTE MAIS DE CINCO HORAS
A cidade viveu ontem um dia de guerra. Um efetivo policial de 150 soldados, comandados pelo Major Cordeiro Matos e fortemente armados, cercou e invadiu a favela Estaca Zero, onde viviam mais de mil pessoas. Houve resistência e, após uma tarde de avanços e recuos, de violências e pequenas batalhas, os favelados se renderam. Ao fim da operação, mais de uma centena de feridos, de ambos os lados, foram conduzidos aos hospitais, alguns com ferimentos graves, e pelo menos um seguiu direto para o necrotério – o operário Antônio Pereira, baleado na cabeça.
O cerco teve início por volta de 14 horas e já era noite quando o último reduto da defesa se entregou. Ninguém sabe quem atirou primeiro. O Major Cordeiro, comandante da operação, afirma que, mal sua tropa se aproximou do local, uma saraivada de pedras caiu sobre os seus soldados. Os favelados acusam os militares de terem jogado bombas sobre algumas pessoas que se aglomeraram na entrada principal da favela, no intuito de retardar a invasão e permitir a fuga de crianças, mulheres e velhos.
ANTECEDENTES
O episódio de ontem é o desfecho de uma história iniciada há mais de um ano. O terreno onde ocorreu a tragédia é de propriedade de Luiz Rolim, que o adquiriu de Cesário Valverde. Alguns dos moradores dos casebres, por sua vez, haviam sido há muitos anos inquilinos do antigo proprietário, quando Estaca Zero se compunha de umas poucas casinhas que formavam uma pacata vila de subúrbio. Aos poucos, porém, gente vinda de todas as partes, especialmente do sertão, invadiu o local e, às ocultas de Cesário, construiu casebres de madeira, onde passou a viver. E assim nasceu a favela.
Ao comprar o terreno, Luiz Rolim herdou um campo minado. A favela se estendia por todo o chão negociado, quase sem espaço desocupado. Dezenas e dezenas de famílias se amontoavam em choupanas miseráveis e mesmo assim não abandonariam suas “casas” facilmente. A Rolim cabia o remédio da ação judicial, no sentido de ver garantido o seu direito de posse. E a Justiça confirmou-lhe o pedido. Apesar disso, os réus da demanda se negaram a obedecer a ordem legal e buscaram a simpatia da opinião pública para a sua causa. Diversos setores da sociedade prestaram apoio aos favelados, como entidades estudantis, sindicatos de trabalhadores, igrejas, políticos e até a imprensa.
Tudo em vão, porque ontem a polícia fez cumprir a decisão da Justiça.
E AGORA?
Os favelados perambulam pela cidade, à procura de um lugar onde possam morar. São homens e mulheres carregados de crianças famintas que de repente se viram ao léu, sem se falar nos muitos feridos e no morto. E, do lado oposto, os soldados machucados.
As autoridades se negam a comentar os lamentáveis fatos, que adquiriram proporções de tragédia social. E a história não termina aqui, de vez que a simples ação policial não resolveu o problema. A população não acatou a forma como se tentou equacionar a lide (veja matéria na página 5), de vez que se cometeram atos de barbárie, inclusive contra velhos, mulheres e crianças, e se descobriu um santo para cobrir outro, como diz o povo.
Quero falar ainda da vila, esquecer por um momento a favela. Recordo as seis casinhas e os inquilinos do meu pai. Lembro-me deles como se fosse hoje. Seu Bernardo, o sapateiro, corcunda de tanto bater sola, alugava a primeira. Morreu algum tempo depois, ficando a viúva responsável pelo aluguel da casa. O outro se chamava João Correia. Não, este morava na segunda casa de lá para cá. O segundo tinha por nome Pedro Celestino, dono de um botequim, que depois virou bar e lugar onde os marginais se reuniam para jogar sinuca, beber e brigar. E zombar do velho Pedro. Quando morresse, rolaria dentro de um pneu até o cemitério. O coitado já estava curvo, recurvo, mas ainda imune à bengala protetora e doutra era. Apesar disso, apregoava namoradas e amantes jovens que à noite se embalavam em uma rede suja. E sonhava viagens curtas. A Canindé, para pagar promessas e rever parentes mortos. À Serra de Maranguape, ao lugarejo onde havia nascido. Queria voltar à taba nunca esquecida, à tapera dos seus avós. Para lá morrer, longe dos filhos ingratos, gente sem princípios, corrompida pela cidade. Alugaria um carro ou iria de ônibus. Porém não queria ir só. Tinha medo dos carros, da loucura do asfalto. Medo de não alcançar Maranguape, de não mais ver o Pirapora, mesmo seco, de cair esfacelado no meio do caminho. Convocaria um daqueles vagabundos obedientes que lhe bebiam a cachaça e lhe enchiam os ouvidos de lorotas. Partiriam de madrugada para não dar nas vistas de ninguém. E o outro devia voltar no mesmo pé, cego e mudo. Jurasse não dizer a ninguém o seu destino.
Ele me segredava os seus sobressaltos. Vigiavam-no pelo buraco da fechadura, destelhavam o quarto. Não podia ser obra de gatos, bichos curiosos, mas nem tanto. Desconfiava do filho mais velho, que queria vê-lo estirado na tipóia, mortinho da silva. Então um gato pode afastar uma telha daquele jeito? –perguntava-me.
Eu nomeava os primeiros moradores da vila e acabei tropeçando no velho Celestino. Prossigo, pois, a nomeação, pela ordem das casas, para ser lógico.
O terceiro, chamado Manuel Macumbeiro, vivia me ludibriando e meu pai já me falava muito mal dele. A quarta, Dona Zita, havia sido puta noutras eras, tanto no interior como na capital. Transformou-se em madame e fez da casa um cabaré. O quinto, João Correia, metido a valente, quando bebia ameaçava todo mundo. Morreu há muito tempo, baleado. O último chamavam de Carlito, negro feirante, o melhor pagador até antes da coisa virar favela.
Esses seis, mais um magote de gente, na certa seus filhos, mulheres e netos, noras e genros, uma mistura doida, que aquilo mais parecia uma babel, esses seis me apareceram na visão mais tormentosa. Como cabeça da tropa surgia Seu Bernardo. E me custava a acreditar nisso. Ora, justamente ele me parecia o mais cordial de todos os inquilinos. Nunca me destratou, jamais veio com desaforos para o meu lado. Pois pulava à minha frente, armado de uma faca, e se punha a me insultar, feito um possesso, quase aos gritos: “Com esta faca de cortar couro eu bem podia arrancar tuas tripas, Cesário, rasgar tua rede, cortar teu colchão, espetar estes livros, riscar estes móveis, porém prefiro te ferir na consciência com minhas palavras. Podes ficar sossegado, deitadinho, que não sou covarde. Nunca ofendi um homem desarmado e principalmente acabado. Sim, tu és um pobre diabo, um alcoólatra. Tens medo da vida, do mundo, da realidade. Nunca tiveste coragem de viver, porque viver não é correr atrás de dinheiro nem gastá-lo à toa. Se tivesses nascido pobre como eu, talvez hoje não fosses esse trapo sem cor nem houvesses cometido a covardia que cometeste. Admiras-te de mim, de minhas palavras? Pois um sapateiro também sabe falar, escolher palavras. Um favelado também pensa e vê o mundo como ele realmente é. Sou um analfabeto, sim, nunca estudei, nunca li, porém existi e existo. Vivi muita vida, quase cem anos de miséria, de latifúndio e favela, quase um século de fome, injustiça e ódio. Tudo isto eu conheço e todas estas palavras me são antigas. Ou pensas que a simples palavra dor só existe nos livros? Ela é velha e coletiva, está nos ossos de todos nós, feito doença ruim. Assim como sangue, morte, desespero. Ninguém descobriu as palavras, elas foram inventadas por necessidade. Podes copiar-me, é um direito teu. Poderás até virar poeta. Eu, no entanto, favelado e sapateiro, bisneto de índios e filho de caboclo, serei sempre o que guardou a faca que deveria arrancar as tripas do burguês, para intentar mais um chinelo e abrir a boca para os insultos necessários. E eu falo por meus irmãos de favela, por esta favela prestes a ser demolida, por estas ruelas sujas, enlameadas, sem traçado. Eu represento tudo isto. Daí por que mais uma vez guardo a faca predestinada ao crime, porque usá-la seria rasgar nossas fiangas apodrecidas, cortar nossos colchões de segunda mão, espetar os livros dos nossos filhos e netos, comprados a prestação e usados. Prefiro rasgar a garganta neste discurso desesperado, para que este chão favelado guarde minha palavra certeira. E, quando aqui se erguerem os edifícios da pequena burguesia, minha voz ainda se fará ouvir e talvez surja nossa história escrita pela mão de algum escritor de verdade.”
Terminado o sermão, os outros bateram palmas. Tentei sorrir, crente de ter vivido uma encenação. Enfureceram-se mais ainda e passaram a me chamar de ladrão, criminoso, perseguidor da pobreza. Defendi-me: não era ladrão, mas dono do que o meu pai me havia deixado e nunca matei ninguém. Acusei então o major e os seus soldados de serem os matadores do favelado e invasores da favela. Acusei ainda outras pessoas. Como um tal de Marinho, advogado do comprador do terreno. E, mal pronunciei o seu nome, vi-o diante de mim. Não sei como, a sua aparição fez desaparecerem os favelados. Senti-me aliviado. Cheguei a agradecer-lhe a chegada e, para ser mais gentil, ofereci-lhe o assento da minha cama. O desgraçado saiu-se com as maiores grosserias: um homem não se servia da cama de outro. Agradecia e preferia a cadeira de palha.
Fez uma pausa e perguntou como eu havia conseguido preservar tantas antigüidades. “O Rolim não mentia.”
Em que o Rolim não mentia? eu quis saber. Ora, ele lhe falara muito bem de mim. E nem poderia ser de outra maneira – concluiu.
Olhou para os móveis e acrescentou que parolava, porém me visitava com outro fim.
Aquele intróito me deixou nervoso. Tive vontade de chorar, correr, sumir. Mas ele abaixou a voz. Pediu-me que não me atormentasse. Não era advogado do diabo nem inquisidor. Tinha verdadeiro horror às inquisições. Não queria saber do meu passado, da minha vida, do meu íntimo. Contentava-se com ver o meu quarto e a mim, com “esse jeito de pintor flamengo”. E perguntou se eu conhecia Hooch, especificamente o “Pátio da casa holandesa”.
Não sei de onde ele tirava aquelas idéias. Por que me achava com jeito de pintor flamengo? E falava como um intelectual. De qualquer forma, aquilo me tranqüilizava. Talvez quisesse apenas medir até onde ia o meu conhecimento de pintura. Aceitei o seu jogo e falei do sombrio na arte de Hooch. Não aceitou a minha opinião porque, segundo ele, há até muita luz no “Pátio”. E aproveitou para dizer que minha casa era cinzenta. Nem parecia um ambiente litorâneo e cearense.
Compreendi tarde as suas intenções e apenas balbuciei em defesa do último reduto de nossa família. Concordou comigo. Sabia que era uma construção antiga, talvez do fim do século passado. E falei de nobreza, das origens da família Valverde e de outras baboseiras genealógicas. Única forma de me mostrar superior.
Aquele casarão devia contar uns duzentos anos. Meu avô, o Barão Valverde, etcetera e tal. Ele nem sequer se abalou. Falou do meu pai, herdeiro do barão. E de mim. Se eu queria viver aqui mesmo. Confessou que o seu gosto era diverso do meu. Gostava de casas modernas. Tinha pavor dos casarões antigos, aqueles sobrados soturnos, escadas e andar superior de madeira. Lembravam-lhe os romances de horror.
Quis saber se eu havia lido histórias de assombração. Arrepiava-se. Ainda hoje não gostava de certo tipo de filmes. Aliás, não tinha mais tempo para essas coisas. E via que eu ainda gostava de literatura. Olhou para os meus livros e perguntou se se encontravam aqui há muito tempo. Chamou-me de homem feliz, rico, sem preocupações, só e voltado para as letras. Incentivou-me. Quem sabe, iríamos ter um novo romancista. Um novo Alencar. E mostrou conhecer rudimentos de história da literatura, mesmo apresentando dúvidas. Indagou, por exemplo, se José de Alencar se situava de fato entre os primeiros romancistas brasileiros. Até brincou com as palavras: “Então ele fincou a estaca zero da nossa literatura!” E logo voltou-se para mim de novo: “Confesse que escreve, tem originais na gaveta. Olhe, não vá me fazer personagem. Acho-me destituído de qualquer interesse psicológico.” Levava uma vida áspera, o dia todo debruçado sobre os códigos, a redigir petições, freqüentar o foro. Fora disso, um uisquezinho, jantares, a família, uma preocupação danada com o futuro. Não era rico. Apenas remediado. E não podia parar nem por um dia. Compromissos e compromissos. Como a maioria.
E arranjou umas rimas: “Se eu me chamasse Cesário, como seria outro o meu rosário! Ou Luiz Rolim, ai de mim! Ou até Esmeraldo, um qualquer Geraldo!” No entanto não podia mudar de nome e seria sempre Carlos Marinho.
Conheci-o há muitos anos. Conheci não, tive notícias dele. O conhecimento mesmo é recente e relaciona-se com a favela. De qualquer modo, no seu tempo de estudante andou metido em badernas políticas. Se não me engano, esteve preso em 64 ou 65. Os jornais noticiaram alguma coisa nesse sentido. Talvez até tenham estampado a sua cara nas primeiras páginas. Chefe, dirigente, cabeça de grupo, parece-me. Não sei como conseguiu bacharelar-se. Possivelmente delatou os companheiros. Termina deputado.
Antes da sua aparição, estivemos juntos no escritório do Rolim. No dia seguinte à invasão da favela. Tudo por acaso. Porque não havia mais nada a ser tratado. Escritura passada, dinheiro recebido. Tomei um porre daqueles e nem sei por onde andei. Não me lembro de ter dormido. De repente me vi diante do prédio do Rolim. Coisa de oito horas da manhã. O elevador subiu, fiquei tonto. Queria falar com Luiz Rolim. A moça quis ser gentil. Fui grosseiro: sou o dono do terreno que o seu patrão mandou a polícia invadir. Num segundo me vi afundando numa poltrona macia. Nisso, Carlos Marinho, armado de um jornal, empurrou a porta e cumprimentou Rolim.
Pendiam das paredes fotografias de edifícios do tamanho da cara de um homem.
– Veja aqui. A operação contou com a participação de mais de cem soldados – leu em voz alta.
O construtor ajeitou os óculos sobre o nariz, espichou o pescoço, abriu a boca, estirou a mão para o jornal e pouco a pouco conseguiu tirá-lo das mãos do advogado.
Os olhos do Dr. Carlos Marinho vigiavam as grandes pupilas de vidro de Rolim e a sua boca ensaiava o sorriso da satisfação.
O jornal deslizava cada vez mais sobre a mesa, feito um réptil manhoso, e fugia das vistas grossas do visitante, mansamente.
– A imprensa faz tempestade num copo.
No entanto os fatos se deram de forma muito mais dramática, segundo me contaram testemunhas oculares da invasão. A gente da polícia não se contentou com invadir a favela, mas, seguindo a vitória, estruiu tudo. Os favelados procuravam fugir, uns, enquanto os mais valentes resistiam.
Não assisti a nada, porque não tive coragem de sair de casa. Ou não fui tão vil. Mesmo assim, sei da tormenta naquele mar de casebres, dos tantos danos causados e da morte tantas vezes intentada. E onde se podiam acolher as crianças e mulheres, onde teriam seguras suas curtas vidas?
Para ser verdadeiro, não tenho sido claro até aqui no trecho em que relato a minha visita ao escritório do Rolim. Quando, por exemplo, me situo sem voz, sem gestos, apático, como um objeto ou uma estatueta. Porém naquele momento eu me sentia exatamente uma coisa, um verme e é impossível lembrar-me de mim. Talvez tenha permanecido mudo, imóvel naquele sofá macio. E ignorado pelo construtor e pelo advogado. Por que não gritei, não reagi, não os insultei? Minha primeira intenção tinha sido a de vomitar todo o meu nojo na cara de Rolim, chamá-lo de burguês, explorador, desumano, cafajeste. Provavelmente cochilei ou me senti entorpecido. E apenas os ouvia e via. Comentavam as informações do jornal, como se lessem a página esportiva, a coluna social, os anúncios.
De posse das notícias, Luiz Rolim só faltava lamber as sílabas, a língua vermelha a dançar entre os lábios.
– Um verdadeiro arsenal nas mãos dos favelados, você viu?
Com gestos e trejeitos próprios do construtor, o advogado se respondia, como se representasse um boneco. E até se regozijava de obter sempre a concordância do outro. Em questão de direito, então, Rolim nem mugia nem fugia. A palavra sábia do Dr. Carlos tinha força de lei para ele.
Apesar de não carecer do assessoramento do causídico em suas transações imobiliárias, Luiz Rolim manteve sempre ao seu lado a figura eloqüente de Carlos, desde as primeiras conversas com Esmeraldo. Delegou-lhe missões capitais, como consultar tabelas, portarias, certidões, farejar erros, ilegalidades, sujeiras nos papéis do corretor. E o advogado consertava uns, grifava outras, passava a unha para remover larvas de moscas, sempre a consultar o vade-mécum.
– Dá para construir uns dez prédios.
Os olhos de Rolim cresciam, abarcavam os mapas e croquis de Esmeraldo, desenhavam cifras, números, rabiscavam edifícios, arranhavam céus. E caíam por fim em cima dos cigarros do corretor.
– Tem fósforo?
E conversavam e fumavam, conversavam e não riam, conversavam e mendigavam tostões, conversavam e encarregou o construtor o seu advogado de minutar o contrato.
Esmeraldo sabia de detalhes e me contava tudo. Queria me fazer co-participante de toda a trama. E também injetava em mim o ódio ao comprador das terras. Rolim teria perguntado com desdém:
– Então aquilo é desse Cesário?
Carlos Marinho levantou a cabeça, abandonou a papelada e arrastou a cadeira para perto do chefe. Se não se enganava, na turma de bacharéis de 1970 havia um tal de Cesário.
Minha pessoa servia de assunto. E dela passaram ao meu pai.
– O velho Napoleão era homem direito e de posses.
Esmeraldo fumava, fazia perguntas, respeitoso.
Rolim desceu aos bondes, ao latim, aos cajueiros da meninice, ao Estado Novo, aprimorado pelo advogado. Quod restat, o getulismo é morto, uma cachacinha no metrô.
– O coitado morreu cedo.
Queria saber o corretor mais da vida do meu pai e cutucava a memória do construtor, com a varinha de sua língua. Se mantinha outra mulher o defunto, se o de cujus, é assim, doutor, que se diz?
O comprador do terreno metia-se pelos corredores do passado, saltava para a rua de hoje e terminou dizendo cobras e lagartos dos sucessores do falecido.
– Gostava muito da mulher do próximo.
Benzeram-se todos e se deram por bem e fielmente desempenhados das suas missões.
(Continua)