ESTACA ZERO (1)
Nilto Maciel
(São Paulo, SP, Edicon, 1987)
Romance
Para o Poeta
Adriano Spínola,
que escreveu
o auto do desabrigo nordestino
- Fala Favela
Há tempos (horas, minutos?) sentei-me diante deste caderno, a caneta indecisa entre os dedos. Não sei se para anotar uma frase feita ao longo destas ruminações, se para tentar um verso, como há muito não faço, se para desabafar de qualquer forma. Só sabia e sei de uma coisa: quero escrever tudo o que está escondido nas gavetas da consciência, porque de repente posso ficar sem razão. Antes disso, porém, tenho a pretensão de deixar o meu testemunho da história da Estaca Zero. Os fatos ocorridos na favela, minha participação neles, os personagens principais e secundários da tragédia, meu passado, meus pais, o começo, o meio e o fim de tudo, inclusive de mim mesmo.
Não, talvez não seja isto, talvez seja apenas minha loucura, minha visão das coisas através do prisma do delírio.
De qualquer forma, peço aos meus julgadores relevarem o fato de me repetir, se tal ocorrer. Porque não terei a preocupação de aparar arestas, usar métodos ou técnicas literárias. Outrossim, primeiro alinharei tudo, para só depois tirar isto ou aquilo, se de tempo dispuser, tendo mais a intenção de bem mostrar a substância que a formosa e guardada maneira de escrever.
Agora estou lúcido, apesar de emergir do fundo de uma crise. Embriaguei-me diariamente durante uns seis meses, até não agüentar mais e resolver parar. Pior para mim: passado o efeito da bebida, vi-me cercado de fantasmas, pois não poderiam ser pessoas de carne e osso as que me cercavam.
Um deles se parecia demasiadamente com o juiz-expulsor dos favelados da minha antiga propriedade. Apareceu inesperadamente aqui no meu quarto e se pôs logo a falar, como se nos conhecêssemos de longas datas. E eu conheço apenas a sua imagem, nos últimos dias estampada nos jornais e na televisão.
Chamava-me por meu nome, sem anteceder qualquer tratamento, de forma arrogante, além de não se apresentar, como se fosse minha obrigação conhecê-lo, recebê-lo e ouvi-lo. Pedia-me para não reparar no seu discurso, por vir carregado de grandes remorsos e sem ânimo para a coerência. Lembro-me bem desse intróito. Achei-o até bonito, literário, embora pedante.
Não reagi, talvez por respeito à sua autoridade. E me deixei a ouvir a sua fala forense: vinha para repartir pelo menos metade da sua carga comigo, por não ser justo só ele pagar pelo crime de todos. Compreendi logo a sua metáfora. Sentia-se o responsável pela desgraça da gente da Estaca Zero, quando havia entrado na história aí pelo terceiro ou quarto capítulo. Eu concordava com o seu raciocínio, porque a autor da ação judicial se chama Luiz Rolim. E antes disto estão os atos do corretor Esmeraldo e minha própria participação nos negócios da compra e venda do terreno.
Porém posso me defender com o argumento jurídico da causalidade, tão discutida nos meios forenses. Ora, se vendi a terra é porque alguém a comprou. Se tal fato se deu é porque a lei faculta esse tipo de transação. E quem elaborou a lei teve pai e mãe. E assim vamos chegar ao princípio da criação.
Essas coisas vêm-me à cabeça agora. Diante do doutor eu só ouvia, como se estivesse sendo julgado.
Após falar da injustiça de se sentir o réu principal do crime contra os favelados, chamava-me de “o fantasma da história, espécie de de cujos da demanda”. Eu arregalava os olhos e franzia a testa e ele me perguntava se não se expressava com clareza. Balancei horizontalmente a cabeça e ele riu e gritou: “Mas quem pode ser claro nessa escuridão?” E, sem esperar por resposta, voltou a me acusar: interrogou se eu me julgava iluminado e se tal ocorria por querer manipular os outros de longe com minha pretensa aptidão para a criação literária. Elevou o tom da voz e por duas vezes bradou, apontando-me o dedo: Vá à merda com a literatura!
Nunca me senti tão humilhado e ridicularizado. Nem nos piores momentos de miséria dos últimos tempos. Porque jamais me julguei um iluminado, um poeta, a não ser na juventude, quando rabisquei alguns versos. Mas disto nunca fiz alarde.
Ora, estou a me agastar à toa. Trata-se de alucinação tudo isto. O Dr. Anísio não me insultou, não me humilhou, não me ridicularizou. Seu fantasma, sim, quase me condenou.
Apesar de assim ser, vou prosseguir meu relato.
Após irritar-se, a aparição afirmava nunca se haver abeirado da literatura e devotar horror aos literatos.
Aquilo me deixava ao mesmo tempo cheio de ódio e vaidade. Ódio de ser afrontado e vaidade de ser chamado de pretenso literato. Para mim toda a sua fúria se devia ao fato de eu dispor do poder de manipular as pessoas. Basta-me, para tanto, escrever.
Acreditava-me capaz de reduzi-lo a um minúsculo boneco togado, embora dissesse o contrário. Ofendia-me, por temer-me.
Não lhe nego inteligência, porque, ao perceber minha vitória, retornou ao segundo tópico do seu discurso – a definição do meu papel na tragédia representada por nós dois e outros personagens. Riu e indagou se me interessava saber por que me denominava de fantasma. Surpreso, não tive tempo de responder e, pausadamente, explicou: se estivéssemos no tempo da colonização, os favelados seriam os indígenas expropriados das suas terras, Esmeraldo assumiria a função de bandeirista, Rolim faria o papel de sesmeiro e ele continuaria juiz. Eu, herdeiro do meu pai, seria o antepassado dos selvagens e, por isso, mais selvagem ainda. No entanto eu me situo ao lado dos civilizados e, em razão disto, nem me posso lembrar a lenda dos fenícios.
Mais uma vez me surpreendiam os seus argumentos. Ele me erigia à categoria de traidor. E brincava de ofender. Queria saber se eu aceitava ser o Rei Urgana ou algum dos seus descendentes caldeus. Rei brasileiro há 4000 anos antes de Cristo. Ria, ria e me dava o nome de Rei Urgana. O ódio fervia em mim e eu só desejava matá-lo.
Ao perceber o meu descontrole, mais me humilhou: ninguém vive tanto, eu me achava morto, como mortos estão os caldeus, os cários, os fenícios, os tupis, todos os índios do Brasil. E trocou o riso pelo grito: o quê eu fazia neste quarto, rodeado de solidão, mudo, feito múmia? Pretendia o quê? Restaurar o meu império perdido, reconquistar o Brasil, restabelecer a Ordem dos Magos de Caldéia? E, já se retirando: “Fale, seu monstro! Responda-me, micróbio humano!”
Até bem pouco tempo permaneci sem nada entender das palavras do Dr. Anísio. Agora, porém, vejo coerência na sua fala, como se ele soubesse da minha velha paixão pela história do Brasil. Há muitos anos andei cercado de livros curiosos e exóticos, antes da morte do meu pai. A causa disso foram Rousseau, Voltaire, Robinson Crusoé, As Viagens de Gulliver, a Utopia, além de outras maravilhas. Leituras de adolescente. Um dia o meu professor de História me viu sobre um desses livros, conversamos, tornamo-nos amigos. E me fez enlouquecer – emprestou-me um exemplar raro de uma loucura: Antiga História do Brasil – Tratado Histórico de Ludovico Schwennhagen. A seguir vieram Capistrano, Cardim, Gardner, Martius, Tomaz Pompeu, Antonio Bezerra, Gustavo Barroso, Rodolfo Teófilo e até Os Sertões.
Homem de fato inteligente, esse Dr. Anísio Tanlares, não fosse a sua incapacidade para escrever um tratado de Direito. Pois todo o fórum da cidade sabe da sua luta decenal contra o papel e o latim. Há duas ou três décadas anota, aponta, rabisca, redige e até hoje a obra não deixou o plano da vaidade. Porém se lhe falta tino para a jurisprudência, a sua visão da engrenagem social é límpida. Pois só ele fez aquela comparação entre as tragédias dos índios de ontem e dos pobres de agora. Enganou-se, entretanto, num aspecto: os índios não conheciam a propriedade privada da terra.
Hoje deve ser sexta-feira. Ou será sábado? Os calendários não têm nenhuma utilidade, quando perdemos a noção do tempo. As alucinações me lançaram fora do círculo e me sinto como um homem solto no cosmos.
Estranho a ausência de Josefina. Não ouço a sua voz, os seus resmungos, o barulho das suas chinelas acariciando o chão. E ela não pára de rezingar, maldizer-se, em eternos cochichos consigo mesma. Nem de ir e vir pela casa, ora a abrir e fechar janelas, ora a varrer penas de galinhas e pombos, ora a espanar cadeiras e mesas, quando não reza a todos os santos. Terá ido à igreja ou estará dormindo? Mas vem de muitas horas o seu silêncio.
Não pretendo fazer literatura com estes apontamentos. Assim, não vejam ficção em uma só palavra deste caderno. Nem memórias nem diário íntimo, embora eu bem pudesse redigir coisa de valor, se tivesse talento e experiência. Nunca escrevi nada, a não ser há muitos anos umas poucas palavras que se perderam no varre-varre da minha viciosa vida, da minha torpeza, entregando-me a essa vida vadia, vazia, suja, nojenta.
Poderia ser um bom poeta, se houvesse persistido nas leituras, nos rabiscos, nas tentativas. Porque esbocei versos algum dia. Palavrinhas à toa, coisa de aprendiz. Como estas:
“Aqui aportaram
náufragos
como se quisessem ficar
– neste subúrbio
lavra
dores da vida.”
Não sei se me referia a estrangeiros ou imigrantes, se ao Brasil, se à Estaca Zero. De qualquer modo, não fui adiante e preferi o nada, a leviandade, a linha reta do pensamento, para finalmente parar diante do muro ou do abismo, depois de ser mais um entre os vis.
Basta de realismo, no entanto. Nada do que fiz ou deixei de fazer. Interessa-me presentemente a fantasia, a imagem irreal das coisas, o simulacro de mim mesmo, o imaginário. Estou falando de fantasmas, visões, espectros.
Outras pessoas me apareceram anteontem, ontem, hoje, não sei quando, e ora tinham aspecto horrível de mendigos enraivecidos que me vinham pedir pedaços de terra onde pudessem morar, ora pareciam gente do mato, morenos, acaboclados, e não mais me pediam nada, mas me exigiam teres e haveres, acusavam-me de possuir tudo, terras e riquezas, terras improdutivas e riquezas em baús, tudo guardado e vigiado. Doutra feita (ou vêm-me à lembrança filmes e romances?), índios nus me cercavam e ameaçavam de morte, se não voltasse pelo mar, eu que nunca saí desta terra, e me exigiam deixá-los em paz nas suas terras.
Essas visões devem também se relacionar com a favela Estaca Zero, apesar de eu não conhecer a grande maioria dos seus moradores. Nos últimos meses nem sequer havia pisado naquele chão, a não ser às vésperas do desfecho da questão. Cheguei a andar pelas suas ruelas, sem no entanto me identificar. Queria apenas botar os pés pela última vez na antiga terra do meu pai, sentir o gosto de dizer para mim mesmo – isto é meu, é minha herança. Ou talvez lavar as mãos, dizer àquele povo: “Não tenho culpa de nada”, apesar de o crime ainda estar por ser perpetrado. Demorei-me no passeio, sozinho, calado, sem puxar conversa com ninguém, para não ser nunca reconhecido. Cheguei a virar o rosto a este ou àquele, a fugir de uns olhos tristes ou revoltados, a tapar os ouvidos às palavras ásperas dos bêbados e vagabundos. Procurei as seis casinhas da velha Vila Estaca Zero e não tive tempo de descobri-las no meio daquela Canudos. Porque tudo, na verdade, já se havia transformado em favela. Eram casinhas de madeira, ferro velho, cobertas de palha, todas de um só espaço, sem repartição alguma. Nos seus interiores viam-se redes atadas, onde dormiam mulheres magras e homens amarelos. Cada casa tinha duas portas pequenas, uma numa extremidade e outra na oposta. E diziam que em cada uma delas se recolhiam dez ou mais pessoas.
Assustava-me a miséria. E não tive mais ânimo de ver nada e fugi. O medo me expulsava dos meus antigos domínios.
Não consigo seguir a linha reta das recordações, tão preocupado estou com este momento. Além do absoluto silêncio na casa, como se minha irmã não estivesse aqui, noto modificações na ordem dos móveis do meu quarto. Para mim a mesinha ficava à esquerda e o guarda-roupa à direita da janela. Ou não? Ou eu sempre os via da janela para a porta? Provavelmente Josefina resolveu trocar tudo de lugar. Esquisitice de maluca! Como, se já não tem forças para arrastar sequer uma cadeira? Poderá ter se valido do auxílio de algum vizinho. Ou de mim mesmo. Não, nem estou em condições de pegar no pesado nem me lembro de ter sequer visto semelhante arrumação.
Percebo ainda a falta da minha rede, sempre armada. Talvez estivesse muito suja e Josefina, como de costume, a tenha mandado para a lavadeira.
Minha cabeça parece um caldeirão. O vento da solidão se juntou ao vendaval das inquietações mais várias e o fogo agora calcina, de maneira infernal, as idéias. Tudo em mim é turbilhão – o morto puxa a alma, esta arrasta o invólucro, e os três se mesclam em dança indecifrável. É a esfinge que me faz escrever – ordenar palavras. No entanto da própria ordem surge a desordem. Daí esses contínuos vaivéns – ora sou dos fantasmas, ora sou o fantasma; ora mergulho as camadas soterradas do tempo, ora piso o chão mais atual. Assim, agora voluteio e vem-me à lembrança a figura marcial do major Cordeiro. Não consigo vê-lo anunciar-se. Descobri-o já ao pé da minha rede, carrancudo, imperioso, a me ordenar que pulasse fora da “pocilga”, para ouvi-lo. E tratava-me por vagabundo, enquanto mais se aproximava de mim: “Ou você está pensando que sou um dos seus?” Assustado, obedeci-lhe, calado. Sua figura monstruosa me causava medo. Toda figura militar sempre me atemorizou, inclusive as de estampa.
Já de pé, tive de ouvir o seu sermão: apresentava-se a mim para ordenar-me que deixasse de citar o seu nome em vão. Tentei defender-me da acusação, porém ele não me deixou falar. Eu pensava nos freqüentadores de bares, nos donos de botequins, nos vagabundos com quem diariamente me encontrava. Desconfiava de todos, até de Josefina.
A seguir, aconselhava-me a ocupar o tempo com serviço mais digno de homem, em vez de me dedicar a escrever besteiras. E só então eu percebia como a sua fala me confundia. Como sabia deste relato?
Não me deixava sequer pensar. Discursava sem parar, dizendo o diabo da literatura. Para ele nem os feitos militares precisavam de palavras escritas.
Acusava-me ainda de me isolar dos participantes do episódio da favela, quando talvez fosse a figura número um. Pois o terreno havia sido meu e por incapacidade minha a vila virara favela. Se eu tivesse sido homem, não teria permitido o desenvolvimento daquele tumor. E aos berros: “Por que não cortou o mal pela raiz?” E explicava: bastava ter desalojado o primeiro invasor. Podia ter pedido auxílio policial. O proprietário não pode esquecer o seu primeiro dever, o qual se confunde com o seu direito mais sagrado — a defesa da propriedade. Se todos agirem assim, logo teremos entre nós a anarquia, o coletivismo. Então a polícia não dará mais jeito e até perderá a sua função. E eu sabia disso, ou devia saber. E concluiu, dizendo-se a encarnação da polícia: “Olhe para mim: sou ou não sou um símbolo?”
E evaporou-se, sem deixar rastro.
Ao se preparar para a morte, meu pai me chamou e me pôs a par de nossa situação patrimonial. Deixava o terreno da vila com seis casas, a casa onde morávamos, grande, bem localizada, mais oito casas, todas alugadas, e algum dinheiro no banco. Eu devia cuidar de tudo, assumir o papel de chefe da família. Não fôssemos os filhos brigar por dinheiro. Fizéssemos a partilha em paz.
Não me culpo de nada, porque os meus irmãos me abandonaram e me deixaram à mercê da vida. Se tivessem estado ao meu lado, na salvaguarda da nossa herança, hoje certamente a Estaca Zero seria uma vila rica, pomposa, uma cidadezinha. Poderíamos até rebatizá-la em homenagem ao nosso pai: Vila Napoleão Valverde.
Como não nos foi possível isto, quero preiteá-lo neste escrito. Contar a gênese do seu feito. Como se ele fosse um deus, um criador de mundos. Na verdade, a Vila era um pequeno mundo que cresceu e degenerou. Porém no princípio, o chão ainda vazio, tudo parecia propício a um belo empreendimento. Seria o núcleo de um novo bairro. E realmente hoje o local está bem povoado, com casas modernas e bonitas, prédios de apartamentos, refúgio da mais besta gente. E pensar que tudo começou por obra e graça do meu pai!
Ora, mandou ele erigir seis casas sobre o terreno e aquele chão deserto passou a ser a Vila Estaca Zero, porque antes havia ele mesmo plantado uma estaca. E a seguir alugou uma a uma a velhos conhecidos vindos do interior à procura de vida menos difícil na capital.
Aos fundos das casas meu pai fez plantar árvores frutíferas, laranjeiras, mamoeiros, coqueiros, bananeiras, verdadeiro jardim do Éden, e aos inquilinos disse: De toda árvore comereis livremente, exceto daquela estaca. Brincava, porque nunca uma estaca daria frutos.
Contava-nos sempre a mesma história, nos momentos de alegria, a demonstrar sabedoria e bom humor. À estaca zero do seu chão chamava de árvore do conhecimento. Aquele que comesse dos seus frutos morreria.
Que frutos seriam estes? Os aluguéis? Pois eu os comi, devorei, esbanjei, e não morri. Ou estou morto?
Não, em vez de censurar a meus irmãos, devo é pensar nos seus destinos. Porque o mais velho morreu muito cedo. A outra nem sei se ainda vive. Sua última notícia falava de decadência, metida em São Paulo com o marido e os filhos. O terceiro, coitado, a própria razão o esqueceu há anos. Só Josefina permaneceu ao meu lado, caridosa, paciente, santa. E eu, irmão ingrato, nunca a ouvi.
E por que não me casei, não arranjei mulher, não construí um lar? Qualquer Ernestina servia, mesmo para me roubar e trair. Qualquer Aninha me aninharia em seu colo, mesmo para me deixar viúvo e cheio de filhos sifilíticos. Ou aquela Fátima jogada na lama.
Ó tempo, como passaste ligeiro por mim! E eu nada fiz, a não ser nada. Besteira, o que não morreu não merece choro.
Eu escrevia justamente sobre isso, quando o Dr. José Monte se anunciou. Causou-me surpresa a sua visita, primeiro porque nos conhecemos apenas como médico e paciente. Não me ocorreu uma ou duas vezes ter sido internado na Casa de Saúde. E Josefina, mais uns vizinhos antigos, cuidavam disso.
Conversamos pouco e procurei esconder o meu espanto e falar o estritamente necessário. Assim, não perguntei qual a razão do seu aparecimento e nem sequer mencionei a profundidade da minha crise.
Só existe uma explicação para o Dr. Monte vir à minha casa – Josefina deve ter ouvido as minhas asneirices e pedido o comparecimento dele. Admira-me é a sua disposição de sair por aí, de ônibus ou a pé.
Reforça esta minha crença o fato de o psiquiatra haver perguntado pelo caderno. Ora, a única pessoa que deve saber dele é Josefina. Aliás, isto é mais um mistério desta manhã. Como pôde ela descobrir a existência deste relato, se só deixei o quarto para ir ao banheiro, antes mesmo de me sentar à mesa e escrever a primeira palavra?
Estou sendo demasiadamente simplista, porque a irmã velha pode ter visto o caderno à distância. Distraído como ando, possivelmente não a vi à porta.
Como já disse, quase não abri a boca para o médico. Sobre o caderno falei quase nada. Apenas um “‘vai indo”.
E por que não me inquiriu mais? Poderia ter perguntado se se tratava de poesia ou diário, quantas folhas já havia escrito, etc. Terminei não entendendo o motivo da sua visita. Ora, vir de tão longe para quase nada!
O pior de tudo, porém, é ter se retirado sem qualquer explicação ou despedida. Havíamos silenciado e dirigi-me à janela. Talvez assim aflorassem as palavras, como de fato afloraram em mim. Voltei-me para dizer-lhe que ia pedir um café a Josefina e não mais o vi.
Nos primeiros tempos da morte de meu pai, cuidei de ir mensalmente à vila e fazer a cobrança dos aluguéis. Apresentava-me, expunha os recibos, recebia o dinheirinho e de lá saía para a fuzarca. Josefina não via nem sequer a cor do dinheiro. Os outros já andavam sumidos no mundo.
Da mesma forma em relação às outras oito casas.
Aos poucos, apareceram algumas casinhas ao redor da vila e para elas estipulei uma locação. Se não pagassem, eu mandava derrubá-las. Uns pagavam em dia, outros com atraso. O dinheiro, pouco, mal dava para a bebida, gastar nos cabarés, coisa que eu fazia sempre, antigamente. Depois fui perdendo o ânimo pelas mulheres e só fazia beber, como até recentemente.
A vida que levei me roubou toda a vontade, a ponto de me transformar num boneco. O termo é adequado – deixei-me movimentar por outras mãos e não tive olhos para enxergar a vida ao meu redor. O capítulo do meu primeiro encontro com Esmeraldo é bem uma prova da minha cegueira. Naquele dia, Josefina, como sempre, devia estar no quarto, a debulhar um rosário velho, ajoelhada diante da imagem de Cristo nu e ensangüentado. As moscas da tarde voejavam sossegadas feito aviões em acrobacias. Pousavam nas chagas do mártir, nos lábios inquietos da minha irmã, fugiam do fogo das velas, harmoniosas.
No seu êxtase, ela, com toda a certeza, não ouviu as pancadas na porta da rua, longínquas, suaves, educadíssimas. Nem o “ôi de casa” gritado.
Deitado na rede, a roncar e remexer-me, eu também não dava ouvido ao baticum impertinente. Sonhava um sonho curioso. E certamente se faria mais interessante, se não tivesse sido acordado. Ocorreu-me, porém, permanecer a sonhar, enquanto os meus sentidos me comunicavam que na calçada alguém insistia nas palmas, nos chamados, nas pancadas. E insultava o sol, a mouquidão das pessoas, suado e queimado.
Lembro-me de ter ouvido uma voz perguntar se eu me encontrava em casa. Porém queria sonhar mais. Impossível, porque os gritos já pareciam dentro de casa. Assim mesmo, continuei deitado, a recordar o sonho. Não podia esquecê-lo. E mais tarde, após a saída da impertinente visita, meti-me de novo na rede e consegui lembrar-me de tudo:
Eu e papai, seguidos de outras pessoas, caminhávamos pelas ruas da favela. Se não me engano, no exercício de altas funções administrativas. O velho seria prefeito ou governador, eu um dos seus secretários ou assessores e aquele lugar um bairro pobre. Os moradores se haviam postado às portas e janelas das casas e nos saudavam com acenos, gestos e palavras. Meu pai dizia – veja como sou popular – e respondia com sorrisos às saudações públicas. Não sei quanto tempo durava aquele passeio, como se as ruas não tivessem fim. E eu reclamava, alegava cansaço e dores nas pernas. Então pare, sente-se e, quando se sentir descansado, corra no meu encalço – aconselhou o prefeito ou governador. Agradeci a anuência e deixei-os seguir. Porém pus-me a persegui-los com a vista, até se tornarem minúsculas figuras e se apagarem. Tudo no intervalo de minutos. E logo punha-me a caminhar por ruela diagonal à rua por onde os outros rumaram. Já não via ninguém e as casas, poucas, apresentavam aspectos mais pobres. Por fim, ia dar num aglomerado de casebres e já nenhuma lembrança guardava de papai-prefeito e sua comitiva. Encontrava-me, de repente, num terreiro cercado de choupanas. No meio de um tumulto. Rapazes riam, gesticulavam e conversavam, como se se preparassem para uma festa, crianças brincavam, moças, mulheres, velhos, todos muito alegres, andavam para lá e para cá.
Cada um dos rapazes conduzia às mãos uma cabaça toda furada e eu imaginava que fossem apanhar água no rio. Um deles, vendo-me embasbacado, assegurou não servirem as cabaças para transportar água, mas pensamentos. Daí os furinhos. Passeei os olhos pelas caras dos outros, atrás de descobrir um só gesto de reprovação àquela explicação, porém nenhum deles demonstrava qualquer interesse por mim. E o rapaz me olhava, calado, como se esperasse por novo atrevimento do meu pensamento. Pedi um esclarecimento certo daquilo. Para que aquela arrumação? Ele então cobriu o rosto com a cabaça e pôs-se a me espiar pelos buracos. Fazia gestos feios com a língua e os lábios. Em seguida, ergueu os braços e os sacudiu no ar. Parecia um monstro. Espantado, eu tremia e imaginava como fugir. Nisso, os outros, às gargalhadas, imitaram o engraçadinho. Senti-me insultado e procurei refúgio nos fundos das cabanas. E quase atropelava um deles. Ora, limpava um osso, de cócoras, num cantinho. Tentei recuar e ele sorriu e, com acenos, me chamou. Tranqüilizei-me, enquanto ele levava a flauta aos lábios e a soprava. Os sons, de tão bonitos, pareciam cantos de passarinhos. “O que é isso?” Continuou a soprar, como se quisesse dizer: Não vê que é uma flauta? Encabulei-me e, querendo mostrar mais inteligência, indaguei-lhe a origem do osso. Pareceu compreender minha curiosidade e exclamou: Carcará! E voltou a polir a flauta, sem mais me dar atenção.
Esquecido das cabaças, voltei ao terreiro e quase todos, antes já parecidos entre si, tinham cobertas as cabeças com cabaças, de modo que não pude mais distinguir um do outro. Isso, no entanto, não me importava mais. Tudo não havia passado de um susto idiota. Busquei com os olhos novas curiosidades e descobri a uma distância de uns cinqüenta metros um grupo de moças e rapazes sentados, como se trocassem carícias. Arregalei os olhos. As moças movimentavam os braços e as mãos no sentido dos rapazes. Aproximei-me devagar, receoso de espiar cenas de amor. Enganei-me. Elas simplesmente pintavam os corpos deles. Reparei bem e vi cuias no chão. Nos seus bojos, líquidos de cores negras, umas, e vermelhas, outras. Alguns rapazes se apresentavam completamente desfigurados, parecendo serpentes listradas. Noutros se via uma ou outra lista nas costas ou nos peitos. Não me olharam, como se eu fosse um deles. Criei coragem e fui ao seu encontro. Perguntei-lhes de que era feita aquela tinta. Certamente não me ouviram, pois nada me responderam. Repeti a pergunta por tantas vezes que quase me dei por vencido. Uma das moças, muito bonita, enfeitada de penas coloridas, olhou para o alto, enfiou os olhos muito negros e brilhantes nos meus, sorriu, mostrando uns lábios vermelhos como a tinta da cuia entre as pernas, e falou: Esta é de urucu, e aquela de jenipapo. Tive ciúmes e me veio à boca pedir-lhe que me pintasse. Por algum tempo não despreguei os olhos dela, extasiado, as pernas trêmulas, sem fôlego. Controlei-me e mudei a vista. Para quê? Todos os rapazes olhavam para mim com cara feia. Teriam percebido minhas sensações, meus pensamentos? Mais uma vez tremi e pensei em ir embora, meter-me no mato, correr. Sosseguei – um deles me sorriu, mostrou-me plumas coloridas de aves e ergueu-se de um salto; acompanhado da sua companheira. Talvez quisesse se mostrar. Sorri, como para dizer-lhe: Você está muito bem pintado e bonito. Só isso. A seguir, não me deram mais importância e se retiraram. Certamente iam se amar. Mas pintados daquele jeito! opus-me. E esqueci-os.
Os olhos negros da primeira moça me faiscaram de novo e me petrificaram. Não sei se ria ou me sentia ausente do resto do mundo e de mim mesmo. A vida me pareceu uma eternidade de prazeres e sensações nunca vividas. Despertei, horrivelmente assustado com uma algazarra. Dei meia volta, rápido, e vi saírem do mato, por uma vereda, cerca de vinte homens musculosos, armados e carregados de animais mortos. À primeira vista, supus tratar-se de uma invasão, embora reconhecesse nas feições dos caçadores as mesmas dos namorados. Ora, vi surgirem primeiro dois ou três homens com arcos e flechas, para em seguida os demais com as caças. Saudaram-se com gritos e gestos. Aproximei-me, cauteloso, apenas para ver de perto os animais mortos, que de longe me pareceram porcos. Olhei, olhei. Não, aqueles bichos me eram estranhos.
Já me sentia tratado sem qualquer animosidade, apesar do incidente da máscara, e até com amor, como pela moça dos olhos de faíscas, pensei. Não corria perigo nenhum e mesmo as minhas tolas perguntas nunca significariam barreiras entre nós. Perdi a encabulação e, como se não tivesse juízo, meti-me no meio deles, aproximei-me dos porcos e gritei: Que bicho é esse? Maldita pergunta. Os selvagens se assustaram e fizeram menção de correr, não sei se do meu grito ou por verem os porcos se levantar e, como se acordados de sono profundo, rodopiar, atarantados, entre as pernas dos homens e das mulheres. Morto de medo, eu não sabia o que fazer – se fugir, se ficar para ser devorado.
Felizmente a paz voltou logo – os porcos se acalmaram e passaram a se roçar nas pernas dos selvagens, que, aos risos, tranqüilizados, como se não tivesse ocorrido nada de fantástico, passaram a conversar animadamente, sem dar atenção nem aos porcos nem a mim.
Súbito descobri: ocorrera-me algo assim como um sonho, espécie de tempo não passado, não sei explicar. Acreditei nisso e esqueci ou dei por não acontecidos os casos da cabaça, dos olhos da moça, da flauta de carcará, da chegada dos caçadores e, como para iniciar tudo de novo, perguntei, sem gritar – Que bicho é esse? Eles interromperam as conversas e, olhos fixos nos animais que passeavam mansos por entre as suas pernas, disseram uma palavra tão áspera, porque dita a um só tempo por todos, que os bichos correram espantados e imaginei recomeçar todo o pesadelo, para terminar na morte dos animais.
Na língua deles o porco-do-mato tinha um nome que doía nos ouvidos. Para verem como reagiam, porém, gritei: Caititus! Apenas me olharam e riram. E ainda riam quando do mato chegou outro grupo a carregar folhas de aricuri. Para mim o mato andava para junto da gente. Além das folhas, traziam frutos do aricuri, que amontoaram num canto. Os caititus então passaram a morder os frutos com danação. Queriam comer tudo, enquanto os homens os enxotavam a pesadas, pauladas, pedradas. Os bichos não arredavam o pé de cima do aricuri. Sem me sentir, dei outro grito. A bicharada enfiou o rabo entre as pernas, feito cachorro sem-vergonha, e se voltou contra mim.
Não adiantava correr nem reagir. Apenas olhei para os índios. E esse olhar durou um segundo. E nesse segundo vi tanta coisa que nem num romance dá para contar. Nesse segundo tão comprido eu me vi longe dali, metido nos tempos passados. E sucedeu o milagre. Pois quando voltei à realidade, cadê caititu? Nem sonho deles. Apenas os rapazes arrumavam os galhos, separavam as frutas, como se não tivesse acontecido nada. E as mulheres levavam numas peneiras as frutas. Iam e voltavam. Serviço de não acabar mais, porque quanto mais carregavam mais apareciam frutas. Para mim só faziam que levavam ou levavam e traziam de novo. Ou os caititus haviam virado fruta de aricuri? Não indaguei por que as mulheres não saíram mais de dentro das cabanas.
Voltei-me para os rapazes. Dirigiam-se por uma veredinha, carregados de folhas de aricuri. Segui-os numa dessas viagens. E dei noutro terreiro limpo, onde construíam uma cabana enorme.
E acordei.
Nunca dei grande importância a sonho, apesar de conhecer as mais variadas teorias sobre o seu mecanismo. Aliás o assunto me interessou durante algum tempo, levando-me primeiro a Freud, depois a inúmeros outros escritores. Um deles afirmava o seguinte: o sonho está para o espírito da mesma forma que as fezes, a urina, o suor e o esperma estão para o corpo. Referia-se a uma relação muito mais estreita: a ejaculação noturna, por exemplo, seria uma necessidade vital. Enquanto o homem conseguisse a polução, estaria gerando energia e, portanto, longe da morte natural.
Se se aplicar ao meu caso esta teoria, podem preparar o meu caixão.
Não estou seguro da inocência de Josefina. Se realmente tiver lido este relato, já saberá parte da tragédia. E estará cheia de curiosidade, doida para ler mais. Mas não, não terá lido mais de um parágrafo, primeiro por enxergar pouco, depois porque minha viagem ao banheiro não durou cinco minutos.
De qualquer maneira, preciso me precaver contra as bisbilhotices dela. Se possível, esconder o caderno e escrever a portas fechadas. E não dormir antes de copiar a última palavra.
Mais uma vez devo pedir aos leitores, se estas palavras chegarem um dia ao prelo, que esqueçam a forma e vejam apenas o fundo. Não sou nem pretendo ser um literato. Desconheço teorias e regras, apesar de já ter sido um bom leitor. Além disso, meu estado não me permite sequer ser lógico. Daí os vaivéns dos assuntos.
Linhas atrás eu narrava a primeira visita de Esmeraldo a minha casa. Interrompi a narrativa para contar um sonho. Agora volto àquele fato.
Eu dormia no meu quarto, enquanto o corretor gritava e batia à porta da rua. E só consegui acordar depois de bem meia hora de insistência dele. Logo, não posso ter visto e ouvido nada. Mesmo assim, não estou inventando. Tudo ocorreu tal qual vai aqui narrado. Parte me foi contada por Josefina, outra pressentida por mim.
Após as palmas e os chamados, Esmeraldo encostou a cara na tábua da porta e fechou um olho. No piso de madeira uma barata passeava, volumosa, tranqüila. Na parede a barba imperial do meu avô olhava para o lado da rua, cheia de rugas, solene. Mais ao lado, um Deus soprava nuvens e fúrias, ancião poderoso e terrível.
Às costas do curioso, um homem sujo empurrava um carrinho e oferecia picolés. Esmeraldo afastou-se da porta e sorriu. O vendedor deu outros gritos e desapareceu. E de novo ouvi me chamarem.
Pulei da rede, a tremer, olhos esbugalhados, e me encostei à parede, as mãos erguidas, como a pedir clemência.
No outro quarto, Josefina apascentava moscas e cuspia ave-marias.
Esmeraldo perfilou-se diante da porta, esfregou o lenço na testa, penteou o cabelo, sorriu. E se apresentou como amigo, portador de boas propostas, abrisse a porta sem receio. Meti o olho no buraco da fechadura, prendi a respiração, tremi mais. Havia uma pasta preta, um corpo robusto, uma cara estranha. Virei a chave. O homem deu boa-tarde.
Numa rapidez sem medida, a língua de sol lambeu metro e pouco do chão da sala e queimou os meus pés imundos. Entrasse, não fizesse cerimônia.
O velho pregado na parede fitou bem os olhos de Esmeraldo, até obrigá-lo a se encabular. Convidei-o a sentar-se, abaixou-se devagar, para não afundar nos abismos do sofá de palha. Perguntei de quem se tratava.
Equilibrou-se no assento, afastou a pasta sobre as coxas, alisou o rosto e apresentou-se com vinte palavras. Eu olhava para o chão, tremia, suava. A voz grossa de Esmeraldo retumbava entre as paredes, pausadas, medidas. A princípio, não percebi a natureza daquela visita, talvez porque o sono ainda não tivesse de todo fugido dos meus olhos, talvez porque o álcool pesasse sobre minha consciência. Mesmo quando disse: Eu soube que o senhor é o dono daquele terreno.
Pela segunda vez olhei para os olhos de Esmeraldo e ainda nada disse. Apenas cocei o queixo e balancei as pernas. As palavras giravam em espiral ao meu redor, como se me enlaçassem, feito corda de amarrar e enforcar. E engolia a saliva dos sins, engasgava-me com os sim, senhor, desapertava da garganta a terceira mão que nascia do meu peito.
Depois de muito lero-lero, quis saber se eu queria vender o terreno. Sorri, tossi, esfreguei as mãos, sem atinar no que dizer. Insistiu na pergunta.
O não do hábito escondeu-se no fundo da memória, o sim arrancado do desejo de renascer enterrou-se nos ares, o talvez de todo segundo misturou-se à palavra inexistente e arranjei meu próprio labirinto para fugir à resposta. Disse-lhe ter saído de um sonho e não saber nem se havia acordado direito. O corretor olhou espantado para mim e abriu a pasta, remexeu papéis, rabiscou números e nomes e retomou o fio da meada do discurso. Não precisava dar logo resposta, pensasse bem na grandeza do negócio, mas proposta como aquela ia custar a aparecer. E pediu um copo com água.
Levantei-me, sunguei as calças, pigarreei e gritei por Josefina. Trouxesse água para a sede do doutor Esmeraldo. Ela é meio mouca, expliquei.
Um gato apareceu na entrada do corredor, sonolento, cheio de bigodes, espantado. O visitante chamou-o de bichano e brincou. Repeti o pedido de água, com novo grito. O bichano escapuliu aos pulos para o interior da casa. Esmeraldo riu, quase gargalhou e pôs-se a falar de animais domésticos. Uns chinelos chiaram nas tábuas do corredor, resmunguentos, lentos, repletos de fantasia e horror. E Josefina pequenina, menina antiga, apareceu à entrada da sala, feito fantasma, a carregar uma gota d’água num mundo de alumínio. Apresentei-a ao corretor.
A barata da tarde escorregou pelo canto da parede, sorrateira, para morrer aos meus pés. Falamos os dois de praga, cúmplices.
E começava a minha rendição. Maldita barata!
Minha irmã persignou-se, chamou-me de herege e saiu a arrastar-se pelo caminho do gato. Não reparasse, ela caducava, expliquei, e mais me fiz rendido ao canto do corretor.
Josefina não sabe ainda de nada. Para ela nem favela existiu. Nunca tive coragem de lhe falar do estado da vila, da degeneração da coisa. Acredita que gasto o dinheiro dos aluguéis. Repreende-me diariamente: “Não esbanje nossa herança, Cesário”. Coitadinha, se souber do fim de tudo, é capaz de morrer. Mas não serei eu o causador da sua morte. Que viva a sua velhice inocentemente, entregue às rezas e às lembranças!
Devo, a bem da verdade, rever o meu relato. Acabo de me lembrar de uns sonhos ou alucinações ocorridas na madrugada de hoje. E na abertura deste caderno me comprometi a narrar visões tidas logo após a fase de bebedeira, possivelmente ontem, anteontem ou mesmo antes. Não quero, no entanto, deixar esquecidas as mais recentes. Sobretudo porque este relatório é para mim uma confissão, uma análise, a porta por onde poderei escapar da loucura. Sim, não pode um homem ser ou estar mentalmente são, se lhe ocorrem contínuas e incessantes visões, delírios, alucinações, sonhos esquisitos, fantasias conscientes, ou sei lá o que sejam. Decididamente não ando bem da bola. Por outro lado, essa insanidade deve ser fora do comum, de vez que consigo relembrar com nitidez todas as situações supostamente vividas, como se tivessem sido reais, apesar da sua complexidade e quantidade.
Quero referir-me especificamente à cadeia de alucinações desta madrugada, suportadas durante longas horas. Digo alucinações, mas não rejeito a hipótese de sonhos. De qualquer forma, trata-se de uma série de aparições, pequenos episódios, cenas curtas, não sei como dizer.
Primeiramente conversávamos, na sala, eu e Josefina. Perguntava-me onde se encontrava nosso pai. Deve andar pela favela, eu dizia. Minha irmã saltava da cadeira, espantada, e se punha a chorar, desesperada. Eu não entendia a sua atitude e pedia-lhe explicações. Ele está morto, Cesário, e com certeza mora no céu, gritava Josefina. Era a vez do meu espanto. Chamava-a de agourenta e filha ingrata. Desejava a morte do nosso pai, só podia ser. Nesse momento ele apareceu à porta da rua e parou, como se aguardasse convite para entrar. Compreendi a sua vontade e o convidei a entrar. Deixasse de cerimônia, fizesse de conta que ainda morava conosco. E só aí dei razão a Josefina.
Depois de se acomodar a uma cadeira, o velho se pôs a pedir informações: como andavam os negócios, se tínhamos notícia de Lucrécia, se Augusto havia melhorado, se mamãe nos visitava, e muitas outras relativas à família. E queria saber de tudo pela boca de nós dois, talvez porque tivéssemos versões diferentes dos mesmos fatos. Assim, falei com otimismo dos negócios, enquanto Fina me acusou de não me importar com nada, de nunca visitar a vila e viver na vagabundagem.
Eu me irritava com aquelas mentiras e me retirava para a rua. Andava, andava e dava de cara com um desfile carnavalesco. Bloco de maracatu. Todo mundo enfeitado, alegre, a cantar e pular. Reconhecia alguns dos foliões: Seu Bernardo, Pedro Celestino, Manuel Macumbeiro, João Correia, Carlito, Antonio Pereira, Dona Zita e suas putas, muita gente da favela. Agarravam-me e arrastavam-me para o meio da rua. Tentei ainda fugir, porém me cercaram e lambuzaram de colorau, talco, maizena. E me passaram uma garrafa de cachaça. Bebesse no gargalo, me alegrasse – gritavam. Com pouco me senti afogueado e também me pus a pular e cantar.
As fantasias se misturavam e havia de tudo. Diabos chifrudos, com grandes garfos, faziam caretas para o povo da calçada. Anjos de cara rosada, cheios de asas, saltitavam para cá e para lá. Negros acorrentados se contorciam em esgares, açoitados por feitores. Índios e índias se requebravam ao som de maracás.
Já seduzido pela folia, desgarrei-me do bloco de favelados e busquei outras companhias. Atraiu-me uma Iracema. Belisquei-a levemente e ela sorriu. Reconheci nela Violeta, a mulher do corretor Esmeraldo. Porém já nada me importava e nem me interessava saber coisa alguma da vida real. Esmeraldo está por aí – ela exclamou. Fantasiado de Marco Polo – completou. Por curiosidade, pus-me a procurá-lo. Mas como distinguir um Marco Polo no meio de tanta gente esquisita? É aquele? – apontei um sujeito de vestes antigas. Não, aquele é Rolim, fantasiado de Cabral – explicou-me E enquanto pulava, coberta de penas, quase nua, identificava alguns personagens famosos. Carlos Marinho imitava Pero Vaz de Caminha, o tabelião Vicente Pimpão vestia-se à maneira de Moisés, o juiz Anísio Tanlares fantasiava-se de Jesus Cristo, o major Cordeiro arremedava Napoleão Bonaparte, fulano macaqueava Nero, sicrano enfeitava-se de Getúlio, beltrano trajava-se de Hitler. E havia ainda Perón, Rei Artur, Maurício de Nassau, Lampião, Tiradentes, São Jorge, Diana, Apolo, Marylin Monroe e um sem número de heróis e heroínas, mártires e santos, reis e ditadores, mitos e personagens históricas.
Eu me sentia cada vez mais preso à minha companheira de folia e não largava a sua cintura suada e lisa. E de vez em quando um calafrio de prazer percorria o meu corpo e me agitava. Ela ria e mais se sacudia. Chamava-me de Martin e me arrastava pelas ruas. Aos poucos, porém, impus minhas vontades e tomei a dianteira do desfile. Ordenei aos tocadores mudarem o ritmo das pancadas e já se ouviam sons mais suaves. Mandei buscar os instrumentos de blocos e escolas de samba, reuni-os aos percussionistas do maracatu e iniciei uma cantoria religiosa. Trouxeram-me batina e paramentos. Deram vivas a Padre Cícero e segui em frente. Ao meu lado Violeta havia se vestido dos pés à cabeça e chamaram-na de Beata Maria de Araújo. De longe chegava aos meus ouvidos um cântico, que logo tomou conta da multidão:
Da nossa fé, ó virgem,
O brado abençoai:
Queremos Deus,
que é nosso Rei!
Queremos Deus,
que é nosso Pai!
(Continua)