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Nilto Maciel

(1ª ed.1974, ed. do Autor,Fortaleza, CE; 2ª ed. 1990, Ed. Scortecci, São Paulo, SP)



ÍNDICE

Aqueles homens tristes
Jornal de domingo
Pode me chamar de anjo mau
O pião
Gaio e a solidão
Homens de negócios
O campeão
Anedota medieval
Um homem bom
O pecado de André Gide
O veneno da cobra
As irreversíveis lavas do Vesúvio
O ouro de um pobre-diabo
Joam, o sedutor

AQUELES HOMENS TRISTES

Deitou-se ao lado da mulher, como se se preparasse para morrer, sem uma palavra, um gesto de carícia, qualquer menção de repetir cotidianas cenas de brutalidade e desejo. Fechou os olhos e imobilizou-se. Queria apenas pensar, pensar ilimitadamente, desprender-se de todos os laços palpáveis de seu conhecimento, perder-se por corredores e labirintos, por horizontes e profundezas. Desordenar as coisas, as pessoas, o mundo. Fazer redondos os quadrados, aparar arestas, encrespar as formas planas, reduzir a minúsculos montículos as grandes montanhas, agigantar-se. Como em noites passadas.
Não conseguia compreender como e por que tudo se deformava e nunca teve coragem de contar nenhuma de suas descobertas a ninguém. A não ser as mentiras menos assombrosas: aquela porção de frutas amontoadas, a paulada na cabeça de fulano, a tempestade, os monstros. Umas já se haviam perdido no tempo ou tinham ocorrido com outras pessoas. Às vezes discutiam, se ameaçavam e até se matavam, raivosos, incapazes de ouvir tantos disparates, insultos, desafios.
E a mulher, os filhos, os companheiros de caça, o resto será que não saía, um pouquinho só, além dos limites da mesmice? Ou também sentiam medo de contar novidades?
De noite, depois de fechar os olhos, entregar-se ao invisível, tudo virava de cabeça para baixo, transformava-se, confundia-se. A mulher se fazia outra, os filhos morriam, sumiam, se batiam contra feras. Os bichos se devoravam, violentos, estraçalhavam-se, sangrentos. Muitas águas, muito fogo, ventanias de arrastar homens e animais. E nada era verdade, quando não era mentira. Sua mentira.
Não, talvez não fosse bem assim. De dia, os olhos viam o mundo e o mundo existia. De noite, os olhos de dentro viam o mundo, porém um outro mundo.
Abriu os olhos, levantou-se, suado e trêmulo, e olhou para as estrelas que piscavam no céu e para o fogo que ardia ao redor das cabanas. A mulher dormia, os filhos dormiam, todos dormiam. Deu dois passos, escutou o grito dos bichos e sentou-se numa pedra. Onde andavam as milhares de pessoas de minutos atrás? Onde estavam aquelas construções enormes, feito cabanas sobre cabanas? E os objetos que se locomoviam, feito tartarugas de rodas, a conduzir gente, às carreiras? E os outros que voavam, feito pássaros? O que fazia tanta gente ajoelhada, diante de imagens de barro e homens que falavam de “morada do céu”? E por que quase todos não paravam de suar, o dia todo a derrubar árvores, cavar o chão, semear a terra, bater ferros, sob as ordens de uns poucos? Que diabo significavam pedaços de papel coloridos e numerados que aqueles recebiam dos chefes e trocavam por comida, roupa, objetos variados de propriedade dos mesmos chefes?
O sol se anunciou vermelho e encantatório por detrás das montanhas. E se lá vivessem aqueles homens tristes?


JORNAL DE DOMINGO

Escondido atrás do jornal, o professor Luiz Vaz passava o domingo. E catava pedras preciosas, por puro deleite. Ou para exibi-las a seus alunos.
Fora-se o tempo de Virgílio, Camões, Bilac. Agora só queria os novos poetas. Nada de vertitur interea coelum*.
Olhos enfiados no chão da folha, Vaz sonhava. Nunca o chamariam velho. Antes, o eterno jovem. O mestre da língua viva. Polêmico, moderno, brasileiríssimo.
Súbita emoção. Arregalou os olhos. Um poema de Noto de Sissa! Leu o título. Uma beleza! O primeiro verso. Um primor!
Com sofreguidão, percorreu todo o poema. Voltou ao título, ao primeiro verso. Releu tudo, cheio de entusiasmo.
***
Na sala de aula, Luiz Vaz freou sua emoção. E amarrou a rubra língua no céu da boca. Queria um comentário escrito de cada aluno ao poema que copiava no quadro-de-giz.
***
Riu na cara dos alunos. Não aprendiam nada. Pareciam idiotas. Especialmente a "crítica" feita por Oton.
– Uma barbaridade!
E se pôs a falar os versos de Noto de Sissa. Pequena obra-prima da poesia épica.
A maioria dos jovens abriu a boca e queda ficou. Um, porém, não concordou com a análise do mestre. E defendeu com língua e dentes sua opinião.
Irritado com a presunção de Oton, o professor tratou de humilhá-lo. Não passava de um aluno, um fedelho. Longe ainda se achava de atingir os primeiros degraus do saber. Enquanto ele, Luiz Vaz, já alcançara o ápice da cultura literária. Ora, exercia a crítica e a cátedra há trinta anos. Escrevia para revistas estrangeiras. Correspondia-se com pessoas do tamanho de Barthes, Foucault, Jakobson.
Oton de Assis nada mais falou. Na verdade, não podia se comparar àquele homem.
E continuou anônimo entre os colegas. Seu lirismo, porém, ainda germinaria páginas tão belas como as publicadas no jornal daquele domingo.
* Entretanto o céu gira. Virgílio, Eneida, Livro II; 250.

PODE ME CHAMAR DE ANJO MAU

– Vamos, Gabriel, que a assembléia já deve ter começado.
– Sim, vamos logo, Rafael.
E saíram, quase a correr.
No salão, todos se voltaram para a porta principal, ao perceberem a chegada dos retardatários. Os da mesa também reprovaram, com olhos duros, o atraso dos dois congressistas, que sentaram-se nas últimas cadeiras e se puseram a ouvir o orador.
– Estranho! – murmurou Rafael.
– O orador ou o ambiente?
– Tudo. Você não percebeu nada, Gabriel? Para mim entramos pela porta errada, ou estou ficando louco.
O orador se inflamava, a platéia aplaudia, ficava de pé, enquanto Gabriel e Rafael cochichavam, sentados.
– Se isto não for a assembléia dos anjos maus, dou minha cara a bofete – dizia Rafael.
– Que anjos maus, que nada! Vamos ouvir a fala do orador.
Rafael irritava-se cada vez mais e só faltava gritar. Haviam sido enganados, sim senhor, ludibriados.
– Cala a boca – aconselhava Gabriel.
– Como calar a boca, seu idiota? Não vê a cara de todos, os gestos, as feições dessa gente? Ou está cego? Repare bem: são anjos maus. Sim, são diabos. Não tenho a menor dúvida.
– Que importam as feições, os gestos, as aparências, meu caro Rafael?
– Você se esquece de que o Belo independe dos nossos sentidos. Se analisarmos a fundo uma forma que à primeira vista nos parece bela ou feia, veremos quão débeis somos, quão pobre é nossa percepção. Seremos capazes então de encontrar a Verdade e descobrir o Belo naquilo que nos pareceu Feio, e vice-versa.
– Então está a concordar comigo: esses anjos são maus para você, que os vê apenas pelos sentidos, superficialmente...
Rafael sorriu, deu uma palmadinha na coxa do companheiro.
– Eu já esperava por essa conclusão sua. Porém cabe a mim mesmo concluir meu pensamento. Antes, quero dar meus parabéns a você. Muito inteligente! Seu raciocínio está corretíssimo.
Gabriel franziu a testa e olhou espantado para seu interlocutor.
– Dá-se que você inverteu tudo. Quem está se deixando levar pelas aparências não sou eu. Você ainda os vê como anjos bons porque não tem senso crítico ou se contaminou da primeira impressão ou da “certeza” trazida de casa de que estávamos entre anjos bons.
Entusiasmado com as próprias palavras, Rafael gesticulava, elevava o tom da voz, como se fosse ele quem devesse ser ouvido pela platéia. E já quase todos os congressistas se mostravam irritados, a reclamar, pedir silêncio. O próprio presidente da mesa interrompeu o orador e quis saber o que ocorria.
Rafael levantou-se e, cheio de gestos, pôs-se a bradar:
– Fomos enganados, vocês nos ludibriaram.
– Queira explicar-se, companheiro – pediu o presidente.
– Pois digo que caímos na arapuca e estamos entre os malditos anjos maus.
A platéia toda se agitou, aos gritos, apupos, vaias.
O presidente pediu calma. Desejava explicar aos presentes e especialmente aos retardatários um mal-entendido.
– Todos sabem, exceção talvez desses dois jovens, da realização deste congresso de anjos maus, como diz a propaganda oficial. Mas quem somos e o que fazemos? Somos aqueles que durante séculos e séculos vimos combatendo os tais anjos bons, os chamados anjos da guarda ou anjos custódios. Combatemos esses lobos vestidos de cordeiros e, até a sua total destruição, nossa luta permanecerá. Sim, temos garras em vez de mãos e braços fortes em vez de asinhas. Inventamos e usamos armas as mais terríveis. Porque a necessidade da guerra impôs-nos essa fisionomia e esse modo de agir. Somos os derrubadores de impérios e, por isso, anjos maus. E eles, os anjos bons, os de asinhas e rostos infantis, o que são? Andorinhas a voar no espaço da metafísica e aves de rapina que bicam e matam às escondidas seus semelhantes.
Rafael, caído na cadeira, espumava de ódio e viam-se as garras por detrás de suas asas apontadas para o pescoço de Gabriel, que aplaudia o presidente, cheio de sorrisos.
– Na essência, Rafael, não nos enganamos. Pode me chamar de anjo mau.

O PIÃO

O menino atirou à distância o pião e puxou o cordão. O objeto alcançou o chão, com violência, e se pôs a girar. E tão velozmente girava, que Us imaginou estar ele parado. No entanto fazia voltas no chão, num movimento de translação ao redor de um ponto imaginário.
Aos poucos, o giro se fazia mais lento e Us pôde perceber o movimento de rotação do pião.
Mais alguns giros, e o objeto perdeu o equilíbrio. Entrou em desordem, rolou deitado e foi repousar longe do lugar onde originalmente caíra.
O menino atirou-se em busca do brinquedo. Certamente enrolaria de novo o cordão ao redor do pião e reiniciaria a brincadeira. Us, porém, não esperou o novo espetáculo. Devia se sentir satisfeito. E correu para casa.
– Mãe, compra um pião pra mim.
A mulher resmungou sim ou não e mudou de assunto. Fosse o filho tomar banho. A hora do almoço não tardava. Se não se apressasse, ia chegar atrasado à escola.
Us tomou banho com o pião girando em sua cabeça. Durante o almoço falou do brinquedo. A caminho da escola repetiu o pedido à mãe.
Mal teve início a aula, a professora chamou a atenção de Us. Deixasse a conversa para a hora do recreio. Ele falava a um amiguinho sobre o pião que iria ganhar.
Para sua mãe, no entanto, aquilo parecia muito perigoso. Mas ele não via perigos, só via piões. E sonhava esquisitices. Um mundo de piões. Todos girando. Nas calçadas, nas ruas, nos telhados, nos ares. A Lua, um pião enorme e lindo. As estrelas, piões do céu, brinquedos dos anjos.
E se a Terra também fosse um pião gigante a rodopiar no espaço? Brinquedo de Deus, aquele ser poderoso das aulas de religião e das missas de domingo.
Mas como os sonhos durassem pouco, durante o dia Us não se continha e fugia de casa para o país dos rodopios. Es¬quecia-se do tempo, dos estudos, da mãe. Aprendia a soltar piões. Olhos atentos às mãos dos outros meninos. Daqueles felizardos. E pedia, humílimo, para ao menos enrolar o cordão. Negavam-lhe esse favor, essa caridade. Comprasse ou mandasse fazer um pião.
Ora, a mãe jamais lhe daria dinheiro para comprar tão perigoso brinquedo. De qualquer forma, iria ao carpinteiro. Talvez não custasse tanto um pequeno pião.
Não custou nada. O carpinteiro com certeza se apiedou do pobre Us.
E toda a felicidade humana se incorporou ao menino. Tão feliz se sentia, que não carecia de platéia nem de elenco para seu espetáculo. Só de palco, do pião e de si mesmo. E se isolava nos becos, nas pontas de rua, nos terrenos baldios.
Havia, porém, um espectador oculto a ver todo o seu sonho rodar no chão. Um velho escultor. Entalhava uma estátua de Deus-homem, e só lhe faltava o coração. Aquele pião talvez servisse.
O menino se assustou e agarrou o brinquedo. Não, não venderia nem daria seu pião. Custara-lhe caro. O homem sorriu. Via mentira nos olhos de Us. Contasse a verdade. Ele também tinha sua via-crucis para contar.
Fizeram-se amigos. E o pião de Us acabou incrustado no peito do Deus do velho escultor.


GAIO E A SOLIDÃO

Na casa havia um papagaio. Gritava o dia todo. Insultava seres e coisas. Para alegria de todos.
Sua própria alegria, porém, ia silenciando, pouco a pouco. Se ainda gargalhava, imitando o dono da casa, o fazia por puro hábito. Quase sempre triste em sua prisão, vivia a cochilar, feito um velho doente. Sem a menor vontade de conversar.
A família se reuniu para diagnosticar o mal do pobre Gaio. Doenças aéreas, moléstias aladas, enfermidades penosas vieram à baila. E nada encontraram para causa real da tão drástica mudança no comportamento do animal. Não, só um especialista em papagaio saberia definir a desgraça da pequena ave.
– Eu sei – gritou Jeová, do alto de sua caçulice.
Dona Sara quis rir, mas fez cara feia. Seu José tentou mudar de assunto. A filharada, porém, achou sensato o juízo de Jeová. Sim, Gaio precisava de uma companheira.
***
Autorizados, os meninos vasculharam as redondezas do sítio, à cata de uma papagaia. Em vão. Ali não havia disso. O próprio Gaio viera de muito longe. Trouxeram-no ciganos ou mascates. Seu José comprou-o por uma bagatela, a um desconhecido que passava diante da porta. Puxava um burro repleto de mercadorias. Talvez roubadas.
– Era um cigano, pai? – quis saber Jeová.
– Não lembro mais. Talvez o cigano tenha me vendido um chapéu de feltro. Ou um cavalo velho.
Os filhos maiores foram mais longe. Vararam serras e sertões, buscaram as mais famosas e distantes feiras. E nada de papagaias.
***
A dolorosa melancolia de Gaio levou José e Sara a falar em novos filhos. Ela sorriu. Por acaso ele não sabia o significado de menopausa? Pois desde o nascimento de Jeová cessara nela o poder de procriar. Mais fácil terem netos.
E a idéia chegou aos ouvidos dos filhos. Sim, alguns já andavam na idade de casar. Onde, porém, encontrar moças e rapazes? Ora, nos sítios vizinhos. No de Seu Machado, por exemplo, vivia uma dezena de belas moças e fortes rapazes.
***
Num domingo, a caravana chefiada por José invadiu a casa de Machado. Alegria de ambos os lados pelo reencontro. Há tempos não se viam todos juntos. Como andavam crescidos os meninos! Que belas moças! Que bonitos rapazes!
– Jeová, então, está um homenzinho.
– E o papagaio?
Houve princípio de choro em alguns olhos. Coitadinho de Gaio! Talvez não durasse mais uma semana.
– Faz tanto tempo – observou José.
Os meninos já corriam para lá e para cá. As moças e os rapazes trocavam olhares e palavras tímidas.
– Por pouco não comprei o bichinho – ponderou Machado.
– Não me lembro mais de nada – lamentou-se José.
Na verdade, o papagaio fora vendido a Jeremias por ciganos ou mascates. Depois, aconteceu uma desgraça e o velho caiu na miséria. Perdeu quase tudo na enchente do rio. E se viu obrigado a vender até o papagaio.
Por acaso Machado e José chegaram juntos à casinha do pobre Jeremias. Exclusivamente para comprar o papagaio. Por insistência dos filhos.
E aconteceu uma espécie de leilão.
– Ofereci uma galinha e você uma cabra.
– E o velho cresceu os olhos.
– Ofereci uma vaca e você uma casa.
Lá fora os meninos brincavam, sem nenhuma preocupação com o passado. A um lado, os rapazes e as moças pareciam mais animados. Sara e a dona da casa falavam de namoros e casamentos.
– Precisamos unir mais nossas famílias – considerou José.
– Sim, meus filhos gostam muito dos seus – completou Machado.
Mais algumas horas de brincadeiras e conversas, e ninguém falou mais no papagaio.
Ao se despedirem, alguns acordos estavam selados. Mais visitas de uns a outros e autorização para fulano namorar sicrana ou beltrana.
Havia olhos e lábios para todos os gostos.

HOMENS DE NEGÓCIOS

A alta do dólar deixou Adão muito feliz. Aquilo merecia comemoração. E convidou sua mulher para jantarem fora. No Restaurante Business.
A felicidade do marido de pronto contagiou Cândida. Nem queria saber que mecanismos da economia haviam levado dinheiro aos bolsos de Adão. Importavam o presente e o futuro próximo: o jantar e mais jóias, vestidos, viagens...
Sentaram-se à mesa e trocavam idéias sobre o primeiro drinque. Ele preferia uísque. Ela pensava em champanhe, vinho ou licor.
Passava próximo à mesa deles o colunista social Patrício. E parou para cumprimentá-los.
– Já me falaram de sua vitória de hoje. Parabéns!
Adão sorriu e disse duas ou três palavras sem sentido aparente. O outro seguiu em frente.
– Não sei como ele vai conseguir ler aquele livro.
– Que livro?
– Você não viu?
Patrício conduzia um livro de título em inglês. Com certeza sobre economia.
Finalmente decidida pelo champanhe, Cândida voltou a sorrir. Os olhos de Adão não a viam, porém. Preferiam ver as pessoas em volta de outra mesa. Pareciam muito mais alegres que sua mulherzinha. Especialmente o colunista.
– Ele está falando de nós dois.
– Quem, meu bem?
Esvaziada sua taça, Adão perguntou se seria conveniente tomar outro uísque.
– E o jantar?
Ele nem percebeu o sentido da pergunta. Olhava para os movimentos de Patrício. Levantara-se, afastara a cadeira e caminhava no rumo deles.
– Ele está vindo para cá.
– Quem, meu bem?
O colunista queria apresentá-los a uns amigos. Ora, a noite devia ser de muita alegria. Por que não se juntarem todos?
– Vamos então para a mesa de vocês.
Cândida sorriu. Seu champanhe já devia estar morno. As grandes letras do livro de Patrício brilhavam: Galbraith ou Gallbrat?
Chegados à grande mesa, o colunista tratou de apresentar Adão e Cândida aos outros. Eram três senhores: Fausto, Celestino e Petrônio. Fumavam e bebiam. Uma garrafa de uísque quase vazia balançava no centro da mesa. O odor de cigarros fu¬mados infestava o ar. Os cinzeiros estavam repletos de pontas.
Não havia nenhum indício de que fossem jantar. O garçom não parava de servir bebidas. Das bocas dos homens os sons irrompiam feito lavas. Como se ninguém ouvisse ninguém. E ora riam, ora pareciam zangados.
– Vamos sair daqui, meu bem – murmurou Cândida. – Estou tão cansada...
Ao mesmo tempo, um dos homens dizia qualquer grande verdade. Pois os outros, calados, olhavam para ele.
– Se não for a alma, é o espírito – completou Fausto.
E todos gargalharam e fizeram um brinde à inteligência do médico. Exceto Cândida, que repetiu o apelo.
Adão, porém, parecia mais interessado na filosofice dos negócios. Aqueles senhores pertenciam ao seu mundo. O jantar ficaria para depois. Afinal, queria comemorar a alta do dólar. E nada mais oportuno para a ocasião do que um legítimo scotch.
Derrotada, Cândida sorriu e olhou para trás. E viu mesas, cadeiras e pessoas como aquelas de seu ambiente. Havia até um belo rapaz parecido com Adão. Apenas mais novo. E uma bonita moça parecida consigo. Talvez namorados ou noivos. Deviam se amar. Como ela e Adão se amaram. A primeira noite e o sonho romântico a desfazer-se. O amor não passava daquilo. Animalidade pura.
Quando se voltou para a frente, um olho malicioso piscava para ela. Buscou o marido, sua couraça. Ele gargalhava, como se tivesse uma convulsão. Um dos homens dava palmadas nas costas de outro.
– A do Armando é pior, meus amigos.
O olho malicioso deixou de piscar, Adão enxugou os seus e o homem das palmadas coçou as costas.
– Dizem que sustenta um pobretão de vinte e poucos anos.
Mais dois ou três comentários sobre a mulher de Armando, e Patrício aproximou a boca do ouvido de Fausto. Quase não disse nada. Ciciou apenas. Logo, porém, chegou aos ouvidos de Celestino uma versão das palavras do colunista social. Não tardou, até Cândida se inteirou do teor do cochicho.
Por último, Adão alcançou a ponta da maledicência. E, alegando cansaço e embriaguez, decidiu ir embora.
Com a retirada do casal, as gargalhadas voltaram à mesa.
– É mesmo verdade, Patrício?
– Ora, minhas informantes não mentem.
Mais uísque beberam, mais cigarros fumaram, mais palavras disseram. Fulano gostava de domésticas, sicrano de mocinhas, beltrano de rapazes.
– Você gosta de quê, Celestino?
Houve risadas e a expectativa da resposta terminou impondo silêncio.
– Não vai dizer? – insistiu Patrício.
Celestino engoliu dois dedos de bebida.
– Ele adora brincar com as filhinhas do Fausto.
– Mentira! Mentira, seu safado!
– Não, não é mentira. Mas não fique nervoso. Você não será levado à fogueira. Não estamos mais na Idade Média.
Enquanto o colunista falava, os outros bebiam sofregamente. Celestino, porém, não quis ouvir a lengalenga do companheiro. E retirou-se. No banheiro trancou-se. Olhou para o espelho. Aquele homem feio não precisava mais viver. Retirou o revólver do bolso e apontou para o ouvido.
O estampido chamou a atenção dos garçons e fregueses do Business. Houve correria, confusão.
Horas depois, Adão e Cândida acordaram assustados. Ao telefone, uma voz trôpega falava da morte de Celestino. E eles deveriam prestar declarações à polícia.

O CAMPEÃO

Terminada a competição, o repórter encontrou o campeão. Queria uma entrevista exclusiva. E pôs-se a fazer os mais levianos elogios ao vencedor. Comparou-o aos deuses da mitologia greco-romana. Chamou-o super-homem.
Para surpresa sua, no entanto, o campeão não só recusou os louvores, como tratou de depreciar o próprio feito. Tudo obra de truques.
O repórter sorriu, certo de estar ouvindo uma brincadeira de mau gosto. Afinal, estava no exercício de sua profissão. Porém o entrevistando fazia questão de estragar a festa, degradar a competição.
O jornalista mal sabia, no entanto, que realizava a mais importante entrevista de sua carreira.
– Minha vida está no fim.
Nada mais podia ser feito. Todos os exames denunciavam a doença mortal. Os mais eficazes remédios só adiariam a morte.
Questão de dias.
– E como você sente tudo isso?
– Eu me sinto como o viajante com hora marcada para partir. Todos nós vamos viajar um dia. A diferença entre uns e outros está em saberem ou não saberem o horário da partida.
Embasbacado, o repórter não fazia mais perguntas, enquan¬to o outro falava, sem parar.
– Quem compete se arrisca a trair, mentir, fraudar. E quem compete tem consciência disso. Muitas vezes os melhores não participam de competições. Preferem ser os melhores apenas para si mesmos. E para aqueles que não vão às arenas aplaudir os gladiadores. Assim, o melhor poeta não é o ganhador do Prêmio Nobel.
Com certeza o homem delirava ou enlouquecera. Talvez a emoção da vitória tivesse perturbado os mecanismos centrais de seu cérebro. Precisava repousar, dormir.
– Não quero falar da Igualdade, porque ela se confunde com a Utopia. No entanto posso continuar falando da mentira, da traição, da fraude. Posso dizer, por exemplo, que nas competições todos se igualam: competidores, julgadores e espectadores.
– Vá dormir, campeão.
– Há ainda a competição primordial, entre o ser e o não-ser. E esta é sem significado, completamente inútil.
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ANEDOTA MEDIEVAL

As núpcias do arquiduque Filipe e da duquesa Isabel ensejaram dias e dias de festa no castelo. Instituiu-se até uma nova ordem – a do Velocino Dourado. Afinal, o senhor tornava-se mais poderoso. A moça trouxera algumas cidades como dotes.
Passada a lua-de-mel, Dom Filipe anunciou a primeira separação. Devia participar de uma cruzada. Nas longínquas terras dos infiéis.
Perdida no imenso castelo, cercada de condes, duques, marqueses, viscondes, barões – Isabel estaria por demais exposta ao pecado. E, na ausência de Filipe, quem a velaria? Quem a defenderia? Quem a vigiaria? Ora, um guarda. Sim, um bom e robusto vigia. Um eunuco.
E Platão se instalou no castelo, para defender, velar e vigiar a duquesa.
Longe do marido, Isabel sofria. Para onde ia, também ia o eunuco.
A beleza da senhora aturdia Platão. Dias e noites a mirá-la. No entanto ela mal olhava para ele. Além de plebeu, eunuco. A solidão, porém, aproximou um do outro. Conversavam e até riam. Ela fazia perguntas, ele contava episódios de sua vida. Não gostava do próprio nome. Muito menos de filosofia. Se pudesse, se chamava Plutão. Adorava mitologia.
Cada vez mais aturdido, o eunuco não continha palavras para satisfazer a curiosidade de Isabel. Trabalhara no palácio do sultão Abu Talib. Guardava as odaliscas. Mulheres fascinantes. Nenhuma, porém, mais formosa que ela, Isabel.
E descrevia cada centímetro do harém.
De Dom Filipe nem notícias. As batalhas se sucediam nas terras dos mouros e os mensageiros falavam apenas de morte e destruição.
Imune às dores do mundo, Platão só vivia para adorar Isabel. E morria de paixão. Amor impossível. Puramente platônico. Ora, ela casada e nobre, e ele um pobre eunuco. Não, jamais poderia possuí-la.
Cada vez mais triste, Platão descuidava-se de vigiar Isabel. Refugiava-se em seu quarto. Chorava, imaginava fugir, esquecer aquele amor absurdo. Matar-se, talvez.
Desesperado, decidiu revelar seus sentimentos à duquesa. Qual, porém, não foi sua surpresa! Ela também o amava.
Longe, muito longe do castelo, os cruzados do arquiduque enfrentavam os sarracenos. E matavam e morriam sem amor.
Apaixonados, Platão e Isabel ora riam, ora choravam. Riam porque amavam. Choravam ante a deformidade dele.
Noites e noites se passaram. E mais o amor dos dois se exacerbou. Porém como se consumar?
Platão se entregou de novo à tristeza. Passava horas e horas trancado em seu quarto, longe de Isabel. Um desgraçado! Melhor morrer.
Teve então um sonho. O Dr. Hipócrates, após complicada cirurgia, tornava-o um homem como outro qualquer.
Embora médico competente, o tal Hipócrates tinha seus defeitos. Assim, só aceitava um tipo de pagamento pelo seu trabalho: Platão se encarregaria da morte imediata de Filipe. Se a cruzada durasse muito tempo, o eunuco partiria para o oriente. E ele, Hipócrates, desposaria a viúva.
Ora, o cirurgião guardava o segredo de sua técnica. Nenhum outro médico no mundo conseguira ainda realizar, com êxito, aquele tipo de plástica.
Platão não aceitou de pronto a proposta. Teria de cometer um homicídio. Além disso, D. Filipe era um nobre. A vingança viria sem detença e cruel. Talvez mesmo antes do crime. Pois guerreiro, cruzado, emérito espadachim.
No entanto, para que viver, se não passava de um eunuco? Melhor selar o acordo com Hipócrates.
E partiu para as terras mouriscas.
Ao regressar, já a notícia da morte de Filipe parecia uma antiguidade. E os guardas não o deixaram transpor o portão. O arquiduque Hipócrates não gostava de cruzadas e nunca se ausentava do castelo. Isabel não carecia de eunucos.
D. Filipe, no entanto, deixara um testamento. O arquiducado passaria às mãos de quem contraísse novas núpcias com a duquesa e mantivesse Platão como “eunuco de Isabel, por toda sua vida”.
Embora cheio de defeitos, o médico acatava leis e cumpria contratos. E aceitou conversar com seu comparsa. Se o testamento garantisse a este o direito de vigiar Isabel, só restava a ele, Hipócrates, partir em defesa do cristianismo ameaçado.
E leu e releu as últimas vontades do falecido Filipe XX, o Aspado. Não havia dúvida: Platão não poderia mais exercer vigilância sobre a duquesa. Ora, deixara de ser eunuco.
Assim, porém, não pensava Platão. O testamento dizia claramente que ele seria eunuco (guardião) de Isabel “por toda sua vida”.
Por toda a vida de quem? De Platão ou de Isabel?
No calor da discussão, os dois acabaram sem razão. Enfureceram-se. De ofensas verbais passaram a agressões físicas.
Finda a luta, os corpos jaziam em poças de sangue.


UM HOMEM BOM

Imaginei algumas mortes para o gato que vivia conosco. Não, não desejei nenhuma delas. Aliás, nunca matei animais. Não passei por nenhuma fase de sadismo. Pelo contrário, sempre fui um menino bonzinho.
Nem sei explicar o porquê daqueles pensamentos macabros. Provavelmente meu apego ao animal me fez temer sua morte. Ora, quem nunca pensou na morte da mãe, do pai, de um filho?
A primeira morte de Breno se dava a pedrada. Um vagabundo passava pela calçada. Por esta ou aquela razão, o gato, que dormia junto ao muro, se espantava. Irritado (crianças e mulheres sempre evitavam passar perto dele), o mendigo atirava a primeira pedra. Atingido na cabeça, o animal morria.
A segunda morte parecia mais trágica. Batiam à porta da casa. Queriam falar comigo, sem demora. Eu corria e abria a porta. Um homem me agarrava, enquanto outro entrava. Num segundo imaginava incontáveis significações para aquilo: assalto, vingança, loucura... E ouvia um miado medonho, feito um grito de dor. Tentando desvencilhar-me do bruto, via a cabeça de Breno pendurada por uma das mãos assassinas. E um facão ensanguentado na outra.
– Ele andava comendo meus pombos – rosnava o mandante do crime.
A terceira morte de Dreno me deixava perplexo, e não furioso, indignado, como das outras vezes. Alguns vagabundos conversavam lorotas, diante de nossa casa. O gato dormia no peitoril da janela. E eu, na sala, fazia de conta que não via nada. Um dos vadios fazia a pergunta maligna: quem tinha coragem de enforcar o bichano. Uns pediam dinheiro, outros cachaça. Eu passeava pela sala os olhos atentos. Súbito o próprio autor da idéia de morte agarrava o pobre Breno pelo pescoço. Fazia força, o gato esperneava, miava, contorcia-se. E a vida lhe sumia.
Aparvalhado, eu permanecia mudo, a olhar para o morto e seu matador. E por que não reagira, não socorrera o gatinho?
A quarta morte de Breno não acontecia. Chegava-me a notícia de um suicídio. Eu me inquietava, queria saber o nome do morto. Pronunciavam o nome do gato, ou eu apenas supunha ouvi-lo. Porém não desesperava, nem saía do lugar. Perguntava como se dera a morte e quais os motivos dela. Falavam de tiro, queda, fogo. E eu imaginava essas mortes. Tiro no coração! Mas com que mão, se a minúscula pata de Breno mal conseguia empunhar um pequeno osso?
Na rua, lamentavam o fim de mais um vagabundo. Então não fora Breno?
– Você está ficando louco?
Breno morreu. Porém sua verdadeira morte nunca imaginei. Sou um homem bom.

O PECADO DE ANDRÉ GIDE

Bomfim fechou a porta e parou na calçada. Olhou para um lado, para outro e tirou a sorte: esquerda ou direita? Acendeu um cigarro, ergueu os olhos para o céu e seguiu. Nem os cachorros da noite davam sinal de vida e a luz fraca das lâmpadas dos postes se derramava sonolenta pelo chão. Sua sombra ia e vinha, a crescer e desaparecer, como num filme de terror.
Não havia nenhuma pressa em seus pés, nem sequer algum desígnio em seus olhos. Bastava andar, acompanhar o desenho dos próprios passos, para cansar-se e poder dormir. Em casa os ratos brincavam de esconde-esconde, enquanto o gato morria de emoção no canto da parede. Os livros se espremiam na estante, Proust a empurrar Gide para lá, Thomas Mann a sufocar Hermann Hesse. Na sala o alcatrão e a nicotina se misturavam à alfazema do desejo. A cama esparramava-se pelo quarto, desajeitada, fria, feia, feito mulher indesejável – coberta de mofo, de lodo, de todos os cheiros ruins da solidão.
Na ponta da rua, uma nesga de luz cortava o chão da calçada de um amarelo claro e projetava a imagem retorcida e tosca de um fantasma. Que rugia, ou blasfemava, ou ameaçava. E Bomfim conteve mais a maciez dos passos e outra vez tirou a sorte: seguir ou voltar? Em seus olhos brilhou o último desígnio – o medo. E não voltou.
A figura se contorcia no chão, aureolada de ouro, poderosa, fascinante, a boca a espumar de desespero – insanamente.
Bomfim desviou-se para a ponta da calçada, quase apressado, um olho na réstia, outro em casa. Os ratos escalavam as paredes, o gato miava de prazer. Uma voz se colava aos seus calcanhares. Gide tombava, Hesse gemia.
Súbito o braço agudo irrompeu de dentro da luz e Bomfim correu. E saltou pedras, chutou barros e espantou burros. Até desequilibrar-se e ir ao chão.
No corre-corre, o outro também tombou, deixando cair um punhal às mãos de Bomfim, que o agarrou e cravou na goela traiçoeira.
De volta à casa, encontrou tudo como antes – os ratos riam do gato, Proust empurrava Gide, a sala fedia a nicotina e o mofo inundava o quarto. Nem esperou pelo sono e caiu desajeitado no meio da cama – feito um homem repugnante.
E dormiu, muito, como nunca, a noite inteira, sem um sonho para contar. Amarguradamente só.
De manhã correu aos jornais: o monstro havia voltado, o louco sanguinário, a fera noturna tinha feito mais uma vítima.
O mesmo processo: punhaladas no pescoço. A cidade alarmada, a caça infrutífera, a violência urbana, o descalabro social.
Bomfim deu meia volta, abriu a porta de casa, aspirou a nicotina da sala, chamou os ratinhos de safados, alisou a lombada de Proust, abraçou-se a Gide e sentou-se na beira da cama. E se fosse à polícia contar tudo? Não, só se fosse muito ingênuo. Para virar monstro, louco, fera?
Abriu, ao acaso, seu Gide: “Nathanael, não acredito mais no pecado.”




O VENENO DA COBRA

A morte do sábio Salomão. Ou João Paulo, Juan Pablo, Jean-Paul. Charles, Karl ou Carlos Magno. Joseph ou José de Anchieta. Alejandro, Alexandre, Alexander. Ignora-se seu nome verdadeiro, sua nacionalidade. Pode ter nascido russo, Alexey Maykov, Konstantin Ostrovsky, Fiodor Saltikov. Francês, inglês, chinês, brasileiro. Ninguém faz caso disso. Vale contar sua morte. Há algum tempo, porém, não se conta a morte de heróis, mitos, eminências. Quando muito, se a noticia. Virou moda esse medo da morte. Não do fato, mas da sua metafísica.
No entanto, Salomão (?) não é um homem da moda. É raro. Antigo como os deuses e novo como os astronautas, sem nunca ter sido de ontem e sem ser de hoje. Se é do futuro, ninguém sabe.
Não importa, ele é morto.
Segundo os cronistas mais famosos, tão imprevisível era que, se tivesse escrito versos, seria o maior de todos os poetas; se tivesse se dedicado à conquista amorosa, não se falaria mais em donjuanismo; se houvesse tomado a dianteira de algum partido ou grupo, agora o poder brilharia em suas mãos. Nada disso fez, porém. Jamais se interessou por poesia, sexo e política. Nem sequer escreveu versos de amor aos 15 anos. Não se casou, não teve amantes, nunca frequentou o infindável abismo do prazer. Um dia leu Marx e toda a nata de pensadores burgueses. Apenas. Não levantou uma palha pelos operários, nem tirou o chapéu para os banqueiros. Manteve-se sempre longe de tudo. Ou perto, à sua maneira.
Ninguém o chamou de menino prodígio, a não ser alguns biógrafos de meia tigela.
Às vésperas de morrer, revelou sua grande descoberta: as fórmulas da vida e da morte, os componentes de seus vírus.
Nas universidades, academias, parlamentos expôs suas conclusões. Chamaram-no de feiticeiro, embusteiro, louco. As igrejas o condenaram. Certa imprensa o promoveu a semideus. Pagavam-lhe a fábula do ouro por um programa dominical. Grupos extremistas sequestraram-no e exigiram como resgate milhões de dólares. Ninguém deu ouvidos a nada. Se o matassem, seriam perdoados por todos os seus atos pretéritos e futuros. As editoras propuseram-lhe contratos escandalosos pela publicação de sua obra. Mil impostores escreveram porcarias em seu nome.
Esteve fugido pelos quatro cantos do mundo, até morrer quase anonimamente. Ao lado do cadáver encontraram seu único escrito:
“O vírus da morte é o antídoto do vírus da vida. Os dois existem na natureza infinitamente. Em constante luta. Em condições normais, o vírus da vida vence seu inimigo durante determinado tempo. Aos poucos, porém, um e outro ocupam o mesmo “espaço” e finalmente o da morte sai vencedor.
Um animal qualquer é picado por cobra venenosa. Como explicar isso? É simples: o vírus da morte contido no animal conduziu-o à serpente. Num átimo de segundo esse vírus se desenvolveu de forma progressiva no interior do corpo da vítima. Poderia ter ocorrido uma reviravolta, uma brusca reação do vírus da vida e o animal passar a um centímetro da cobra sem ser picado. Ou dar meia volta e regressar. Ou conseguir matar a serpente.
Se conseguirmos produzir o vírus da vida e injetá-lo nos seres vivos, chegaremos a retardar a morte e até a eliminá-la. E não seria um trabalho eterno, porque, à medida que as pessoas e os animais se enriquecessem de vírus de vida, conseguiriam transmiti-lo a seus contemporâneos e descendentes. Algumas gerações depois teríamos reduzido a zero o vírus letal da face da terra.
Porém cometi um erro fatal. Não, cometer não é o verbo exato. Talvez fosse melhor dizer que não me afastei da tentação de desconfiar de minha própria descoberta. Se tivesse me injetado uma poção que fosse do vírus da vida, agora não estaria diante da morte. Mas nem sequer o produzi, dedicado que permaneci a divulgar minhas teorias. Ao chamado instinto de conservação sobrepunha-se em mim o vedetismo. A morte vencia a vida.
A partir daí, o vírus letal se apoderou do meu ser: frequentei universidades, academias, parlamentos; me apavorei diante da morte; fugi dos homens. Até que – cheio de dúvidas – me fiz solitário e pus-me a imaginar o meu fim. E eu me indagava: se tudo fosse diferente, se eu não estivesse aqui, se eu não fosse esse homem desprotegido...
Quando decidi deixar uma palavra escrita aos homens, esse anúncio de morte, já não havia como retroceder e o abismo se cavava diante de mim, inevitável.
Vou morrer.”






AS IRREVERSÍVEIS LAVAS DO VESÚVIO

Nunca consegui esquecer essa mulher que se grudou em meus olhos feito uma cegueira e tomou o lugar de todas as outras. De minha mãe, das santas de papel e gesso, das mocinhas fugidias, das heroínas dos compêndios de História, das personagens de romances, das vedetes do cinema, das cantoras mortas, daquela com quem vivi quase uma vida. Dentro de mim, essa mulher ora me acalanta, ora me espreita, ora me sufoca. Doutras feitas ora se mostra engrandecida, ora se faz sofrida, ora se enche de vida. Mais além é mero fulgor de sons, quando não me reclama ou não me espanta.
Depois de tanto tempo, agora, é como se eu e ela fôssemos o mito eterno e incriado de uma dor indefinível frente ao desespero ilimitado. No sonho, na vigília, na dimensão incompreendida da recriação.
Examinei-lhe o cadáver e persiste ainda em mim a vaga noção de tê-la viva – a mesma criatura daquele único, passageiro e casual encontro. Como se nos víssemos para além da vida e da morte – mitificados.
Seu corpo desfigurado pelo fogo me apavorou sempre, naquele dia, depois, agora. A mim, acostumado a conviver com mortos vindos das mais variadas formas de morrer. Não por reencontrá-la defunta, semicarbonizada, mas por tê-la conhecido.
Desvendei-lhe a vida do embrião à sepultura, numa investigação de celerado. Como se chamava, onde e com quem vivia, o que fazia e deixava de fazer, seus brinquedos, suas manias, seu jeito. Anos e anos dedicado a uma criatura sem biografia. E nada daquilo importava, a não ser para rebuscá-la inutilmente. Qual a importância de seu relacionamento com aqueles cabeludos que vagavam por ruas e estradas? Que significado tem a sua pouca fala sobre paz e amor, os hindus, Sidarta?
De tudo, talvez só o seu diário valha a pena ser preservado. E para mim, hoje, quem sabe apenas a última anotação:
“Não sei onde anda o meu amigo, nem onde dormiu. Pode estar morto a estas horas, ou preso mais uma vez.”
Sua derradeira referência ao rapaz com quem andava, seu irmão de solidão, de quem eu nunca soube o paradeiro.
“De manhã vendi meu isqueiro a um desconhecido. Toquei-lhe o braço e fiz a oferta. Disse-me que não fumava e tratou de desvencilhar-se de mim. Tive ódio e comigo mesma chamei-o de porco, cachorro, miserável. Procurava com os olhos alguém que me ajudasse, quando ele voltou e perguntou por que eu queria vender o isqueiro. Olhava para mim com curiosidade, como se eu fosse um bicho estranho. Durou alguns minutos nossa conversa e pude observar como se vestia bem, todo de branco, parecendo ser médico ou enfermeiro. Roupa limpa, corpo limpo, cheiroso. Senti desejo de abraçá-lo, beijá-lo. E ri de mim mesma, de minha tolice.
Falei de minha fome, da necessidade de dinheiro para comprar comida. Não pensasse besteiras, podia confiar em mim, o isqueiro me pertencia de verdade, não costumava roubar. Meu lema era só paz e amor. Disse ainda uma porção de coisas, enquanto ele apenas ouvia, metia as mãos nos bolsos, perguntava quanto eu queria pelo isqueiro. Notei sua pressa e tratei de fechar o negócio. Pedi muito, esperando uma reação dele. Para minha surpresa, no entanto, ele me passou o dinheiro pedido, recebeu o isqueiro, disse adeus e retirou-se.
Ainda agora estou pensando no desconhecido. E também no dinheiro que ele trocou por um isqueiro. Nada mais me restou, porque o dinheiro eu o dei aos mendigos. E a fome passou. Quero só pensar em mim mesma.”
Termina aí o diário. E não há qualquer explicação para o suicídio, ocorrido ao escurecer.
Cabe a mim completar a história – essa pequena história vivida por ela e por mim.
Ao deixá-la, guardei o isqueiro no bolso e, enquanto caminhava para o carro, por uns dois minutos ainda me lembrei dela.
Ao chegar ao instituto, desfiz-me do maldito isqueiro. Ofereci-o a uma colega. Um mal-estar qualquer me indicava ser preciso apagar do espírito as imagens daquela menina.
Depois de jantar, informaram-me que me aguardava “um caso estúpido”. Lembro-me de ter perguntado se havia algum caso delicado naquela porcaria. “Uma garota se matou, tocou fogo às roupas”, completaram. Nem me passou pela cabeça a moça do isqueiro. Porém ao ver o cadáver, tomei um susto. Seu rosto, sua cara apavorada, parecia me dizer: “Cidadão, quer comprar este isqueiro?”
Enquanto examinava a defunta, recordei o encontro da manhã. Eu me havia compadecido daquela pobre criatura e em nenhum momento olhei para ela com olhos de cupidez. Pareceu-me muito infeliz, não por andar suja, despenteada, faminta, mas por vender um isqueiro, como se vendesse o próprio corpo, para matar a fome.
Não tive palavras de conforto, de ajuda, de socorro, embora haja pensado em falar das injustiças sociais, do desamparo à infância, à juventude, às pessoas em geral, fazer um discurso ético e político. Depois achei por bem apenas ouvi-la e aceitar a sua oferta.
Em determinados momentos senti que ela desejava uma aproximação maior, vender-me seu corpo, em vez do isqueiro, tal como está no diário. Ou simplesmente oferecê-lo de graça, tanta me pareceu sua solidão. Seu olhar transmitia isso. Eu, no entanto, nenhum desejo senti, não por repugnância ao estado de seu corpo ou qualquer outro escrúpulo, mas por estar cheio de outros sentimentos.
Ao constatar o vazio de seu estômago, tive ímpetos de chorar, gritar, acordá-la, dar-lhe vida. E me senti impotente, inútil, frágil, como se eu mesmo estivesse morto.
A partir daquele dia, ela não mais me deixou e, onde quer que eu esteja, ela me acompanha, minuto a minuto, hora a hora, dia a dia. Aquele último dia dela cai sobre mim feito o Vesúvio – lavas irreversíveis.


O OURO DE UM POBRE-DIABO

Passei toda minha longa vida imaginando riquezas, sonhando tesouros e prêmios lotéricos. Vivia numa pobreza de causar dó. Trabalhava feito um desgraçado. Cometi mil pequenos erros, de tanto querer escapar à má sorte. Embriagava-me, jogava dados, batia na mulher e nos filhos. Terminei por abandoná-los. Vagueei pelas ruas, por vilas e cidades, sempre em busca de dinheiro, muito dinheiro, fortuna.
Já velho, cansado, doente, resolvi parar. O destino não me queria rico. Restava trabalhar, pedir, roubar migalhas. E esperar a morte. A mais miserável morte.
Uma noite, deitado numa esteira, eu fazia um balanço de minha vida. E olhava para um buraco no teto. Talvez visse estrelas e seu brilho distante, infinito.
Absorto, senti cair sobre meu peito um pequeno objeto. Assustado, ergui-me. A coisa rolou para um lado. E tiniu. Parecia uma moeda. Dei um bote, agarrei-a. Trêmulo, aproximei dos olhos o brilho encantador do ouro. Sim, era moeda de ouro.
Ainda encantado, ouvi outro tinido no quarto. Arregalei os olhos, para não perder de vista um só instante do trajeto daquele maná. A rodinha rodopiou no chão e parou junto à parede. Ia eu apanhá-la, quando novo baque sucedeu. Olhei para o teto. Não vi mais estrelas. Em compensação, o buraco parecia entupido de moedas, que caíam lentamente, uma a uma.
Primeiro enchi os bolsos, a seguir sacos e sacolas. Cheguei a esvaziar a mala de roupas e pequenos objetos de uso pessoal. Imaginava fugir dali, tão logo caíssem todas as moedas. Com certeza haviam sido roubadas e escondidas no telhado da casa.
Porém não consegui fugir. Pois, abarrotados bolsos, sacos e mala, continuaram a cair moedas. E cada vez com mais inten¬sidade. Decidi, então, sentar-me a um canto e simplesmente observar o espetáculo.
Acumulavam-se moedas no chão. E eu maravilhado, sem mais nenhum pensamento, a não ser o de estar finalmente rico.
No meio da noite, já todo o chão se cobrira de moedas. E eu passeava, sonolento, de um lado para outro, a pisar, orgulhoso, minha incalculável riqueza. Olhava de vez em quando para cima. O buraco expelia ouro, sem parar.
Pela madrugada, senti sono e cansaço, e recostei-me à porta. Acordei já de manhã. Um peso enorme parecia me sufocar. Eu devia estar sentado. As moedas chegavam à altura do pescoço e todo o quarto cheirava a ouro e brilhava como um sol.
Tentei desenterrar-me. Nem sequer consegui arrancar as mãos do monte de moedas. E do teto mais e mais ouro escorria.
Apavorei-me. Se aquilo não parasse logo, eu poderia morrer sufocado. Pus-me a gritar, ao mesmo tempo que fazia força para me soerguer.
Quando conseguiram entrar no quarto, minha alma já havia sumido.


JOAM, O SEDUTOR

Eu não morro de amores,
eu vivo de amor.
Anônimo.

Dom Joam não chegou a conhecer Hugo Capeto nem o imperador Óton. Não lhe interessavam monarcas, fossem francos ou saxões. Muito menos bizantinos. Sua vida toda dedicou a amar mulheres.
A primeira delas – ua fermosa senhora – chamou-se Maria. Sua própria mãe. E esta paixam durou alguns anos.
Nasceu Joam pleno de virtudes. Sua beleza física deixava pasmadas as mulheres. Cedo aprendeu a falar. E a falar galantemente. Num minuto convencia a mais empedernida virgem a entregar-se-lhe. No mais das vezes, valendo-se da poesia. Pois também fazia versos. Vilancetes, coplas, cantigas de amor.
Muitas mulheres o amaram. Algumas chegaram a assumir publicamente o adultério. As solteiras acabaram nos prostíbulos. Outras se envenenaram.
Porém muito ódio andou à volta de Joam. Principalmente por parte dos maridos enganados. Mas também dos invejosos. E dos esposos de mulheres belas.
Logo, porém, sua fama de dom-juan chegou aos ouvidos d’El Rei, assim como do papa de plantão. Acusado de destruir a família cristã, criminoso e pecador mortal.
O julgamento trouxe a público cenas escandalosas. Os mais poderosos fidalgos choravam de indignação.
Indefeso, Joam recebeu a pena da eterna prisão.
Adendo: Apesar de preso, Joam continuou o mesmo. Ignorava os reis de Bizâncio ou do Sacro Império. E, livre como sempre, amava cada vez mais as mulheres. E as seduzia – em sonho, nos seus ou nos delas. Ou talvez por teleplastia.