Tempos de Mula Preta (3)
(Continuação)
NOS BECOS DA FANTASIA
A rede rangia nos caibros. Ia e vinha, cadenciada. Ele olhava para o telhado, olhos perdidos. De tempo em tempo, dava novo impulso à rede, um dos pés no chão. O rangido se fazia mais acelerado e áspero.
Grande tolice embalar-se numa rede, quando havia um mundo inteiro em correrias. Àquela hora, seria enorme o burburinho nas ruas. Podia estar em qualquer delas, indo e vindo, à toa. Uma ou outra mulher sorriria para ele. Daí, quem sabe, nasceria um novo amor. E adeus embalos na rede, sozinho.
Não, não se sentia mais cansado. Tudo mentira, aliás. Nem cansaço nem sono.
Súbito freou o balanço da rede e saltou para o meio do aposento. Queria uma toalha. A mãe se inquietou. Outro banho? Não, só barba.
Num minuto, encheu a cara de espuma. A mãe resmungava. Um ou dois pequenos cortes no queixo. Como sempre.
Tal pressa, tal ânsia. A noite o chamava. Olhou para um lado e outro. Aspirou a alfazema do ar. Na esquina, uma saia tremulava.
Cachorros passeavam, indolentes, calados e imprudentes pelas ruas. Televisores nas salas cheias de galãs luzidios e heroínas glamourosas.
A saia da esquina desapareceu. Talvez tivesse ido jantar. Uma voz rouca gritava dores e amores.
Entrou no bar. Uma cerveja a mais não o engordaria tanto. Além disso, tinha sede. Em questão de minutos secaria a garrafa. Nada de pressa, porém. A noite apenas começava.
Contou casos, inventou, relembrou. O homem atrás do balcão ouvia e ria. Outra cerveja. O cantor continuasse a gritar dores e amores. Até motivava a lembrança.
A sede desaparecia. Porém não havia pressa. Os galãs ainda beijavam as heroínas
Mais um caso pela metade, quando uma saia e um sorriso dobraram a esquina. Só podia ser ela. Sim, a dos seus sonhos. A esperada, a desejada. Daquela noite não escaparia.
Grande tolice embriagar-se num bar, quando havia um mundo inteiro de fantasias. E aquela moça escondida, medrosa, tão pura.
***
Nas primeiras noites, só promessas, beijinhos, afagos. Quando ia dormir, ela se retorcia na cama, mordia os lençóis, se arrepiava. Ele ia atrás de outras mulheres. Pagava e dormia em paz.
Depois, ela não mais se retorcia na cama, nem mordia os lençóis nem se arrepiava. Nem ele ia mais atrás de outras mulheres. Véu e grinalda ficavam para o futuro.
Passados meses e anos, vez por outra se encontravam. Ela ainda falava em véu e grinalda. Ele mudava de assunto, se aborrecia e ia atrás de outras mulheres. Ou voltava ao bar, para contar casos ao homem atrás do balcão e ouvir os gritos de amor e dor do cantorzinho.
***
No último carnaval, os dois brincaram juntos. Ele se fantasiou como pôde. Ela se vestiu de nudez. E foliaram, dançaram, pularam, como nunca. Ele bebia sem parar. Suava, cantava, cambaleava.
Súbito parou no meio do salão. E gritou: não queria mais aquela mulher. Quem quisesse, levasse.
Ela se pôs a chorar. Ele ria, gargalhava, abraçado a fogosas colombinas.
Ela saiu. Na rua, os cães latiam. Era madrugada.
Sozinha, a fantasia suada, ela caminhava pelos becos. Uma voz rouca gritava dores e amores.
Entrou no bar. Tinha sede. O homem atrás do balcão ria.
(26/04/88)
ESFINGE
Naquela tarde saímos a passeio, nós duas e papai. Divertimo-nos como nunca. Assim mesmo, não saciamos a fome de brincar.
Papai sempre nos deu muito carinho. Em certas ocasiões, no entanto, tratava-nos até com aspereza, como se fosse outro. Era quando conversava com seus amigos. A nós dedicava todos os seus momentos de folga, fins-de-semana, feriados, férias. Passeávamos, brincávamos, como se os três fôssemos crianças. Quando viajava, ficávamos tristes, porque mamãe não gostava de brincar conosco. Só me lembro dela a dormir, conversar com seus amigos e suas amigas, sair sozinha, a passeio.
Acostumamo-nos, desde cedo, à ausência dele. Viajava, frequentemente, de uma hora para outra. Não sabíamos para onde. E quase sempre demorava a regressar. Quando voltava, não o deixávamos em paz. Queríamos recuperar todo o tempo perdi¬do.
Ao regressarmos do passeio, mamãe conversava, na sala, com Roberta Correia e Ponciano Bravo. Já conhecíamos Roberta, então frequentadora assídua de nossa casa. Deslumbrava-nos seu aspecto sempre juvenil, rindo e falando animadamente. Sua presença jamais passava despercebida. Onde quer que estives¬se. Talvez porque falasse alto. Exaltava-se a todo instante. Parecia brigar. Era seu jeito natural de ser. Chamavam-na de irreverente, tagarela, bagunceira. Ao contrário de sua lite¬ratura, que não causa comoções. Pode ser definida como absurda, exótica, difícil.
Conhecemos Ponciano naquela tarde. Usava um enorme bigode e uns ócu1os horríveis. Pareceu-nos um homem sisudo. Como papai quando conversava com seus amigos.
Não nos interessamos pelo que diziam mamãe e seus dois amigos. Atraíam-nos os gestos, as feições, o exterior deles. Nos dias seguintes tornamos a vê-los reunidos. Não supomos ser Ponciano um homem dedicado à política. Papai e mamãe talvez soubessem disso. Sim ou não, dias depois ocorreria sua prisão.
Mamãe apresentou papai a Bravo. Papai não gostou de mamãe ter servido coca-cola e ofereceu uísque. Logo, falavam de uma revista dirigida pelos visitantes e na qual havia sido publicado um conto de mamãe. Entusiasmada, ela mostrou aos dois amigos outros trabalhos seus. Alguns deles saíram na tal revista, naquele mesmo ano. Ela vivia dedicada à litera¬tura. Escrevia muito. Até altas horas da noite. Papai recla¬mava, brigava.
Mamãe morreu quatro anos após a morte de papai. Parecia uma velha, apesar de ter apenas 36 anos! Como envelhecera nos últimos dez anos! Como desapareceram de repente tanta beleza e juventude!
Mamãe fumava em demasia. E escrevia a qualquer hora. E só escrevia fumando. Pegava papel, caneta, e fumava um cigarro atrás de outro. Ao longo das horas, muitas vezes, nada havia escrito. Sofríamos, embora não soubéssemos de sua doença. Por isso, sentimos muito mais sua morte do que a de papai.
Da revista passaram a livros de autores famosos, suas vidas, seus sucessos. Papai e Ponciano se calaram. Ocorreu-me a idéia de que aquilo fosse assunto exclusivo de mulheres. E eu podia ser também uma escritora, como mamãe e Roberta. Bravo e papai apenas balançavam a cabeça, riam, bebiam, fumavam.
A conversa, aos poucos, tomou outro rumo e os dois não se contiveram mais. Papai se pôs a falar e, em dado momento, se exaltou. De vez em quando, se levantava do sofá e gesticulava. Mamãe olhava para cima e pedia que se sentasse e falasse mais baixo. Ele se acalmava, tomava um gole e rea¬cendia o cachimbo.
Papai possuía vários cachimbos. Quando um esquentava, pedia outro a mim ou a Gizé. E assim ia soltando baforadas, fechando os olhos e ficando calado. Depois retirava o cachimbo do canto da boca, derramava as cinzas e voltava a falar.
Aquela conversa me impressionou muito. Os gestos, as feições de cada um. Os olhares de pavor, admiração, espanto. So¬bretudo de Roberta. O tempo todo voltada para papai. Ponciano, no entanto, quase não olhava para papai. De vez em quando, se voltava para mamãe, a seu lado, e procurava falar de literatura. “Como está seu romance?”, disse várias vezes. “Vou publicá-lo no início do ano”, respondia ela.
O tal romance foi publicado alguns meses depois daquele dia. Antes disso, teve contos e capítulos de romances nunca concluídos publicados em revistas e jornais. Tudo escrito nessa época, pois nos últimos dez anos de vida quase nada escre¬via.
Enquanto mamãe e Ponciano falavam e falavam de literatura, papai e Roberta se dedicavam à política. Trocavam informações, quando baixavam as vozes. Mamãe interferia. Contradizia papai sobre este ou aquele fato. Ele se aborrecia e mandava mamãe deixar de dar palpite sobre política. “Você entende muito de literatura, querida, mas de política nada.”
Só mais tarde, quando papai morreu, desapareceu ou via¬jou para não mais voltar, vim a pensar nessas suas advertências. Mesmo assim, não consigo decifrar certos enigmas daquela tarde.
A conversa se estendeu até altas horas. Estávamos com muito sono, eu e minha irmã. Nem vimos quando Ponciano Bravo e Roberta Correia foram embora.
A TRAGESTÓRIA DE GETÚLIO
O bigodão do gordo se mexeu, quando pedi a primeira dose. Ao beber, percebi que ele desconfiava de mim. Seus olhos pareciam lâminas a cortar meus lábios. No entanto, eu precisava beber. Engolir o veneno, o fel. Minhas vísceras, frágeis vertentes por onde desaguavam metais derretidos. Não quis cuspir ao pé do balcão e corri para a porta. Cuspi sobre o lombo do cachorro que lambia o traseiro de outro. Tentei acender, apressado, um cigarro. Uma baforada de ar frio entrou pelas narinas, pela garganta, pelas olhos. Voltei e pedi mais bebida. E mais, mais, mais.
— Acertei.
Ai! Estou caindo. Ai ai ai. Preciso me agarrar a esta parede lisa azul. O chão me arrasta, como correnteza. Tudo está caindo. Esta luz amarela parece o sol do meio-dia. Dói, feito areia nos olhos.
— Matei o safado.
Uma mesa? Um baú? Que cauda é esta crescendo e brilhando? Um animal estranho? Os livros estão dançando. Tela sem imagem. E aquela criança de orelhas enormes? Sofás de tantas cores! Devem ser macios demais para o sono de quem chega muito cansado.
— Meu Deus! Que fizeste, Rodolfo?!
A mulher grita, como se visse o diabo. Treme, chora. Agarra-se às costas do gordo corado alto que fala, gesticula e aponta o cano para a minha boca.
— Deve ter morrido.
Eles me pegaram, me bateram por muito tempo e me quebraram os dentes. Nunca fui a dentista. Os dentes apodreceram cedo e foram caindo, aos poucos. Como o avião que afundou na lagoa. Morreram todos e o povo fez festa. Eu não votei porque não pude. Não tinha documentos. Tirei a carteira de trabalho e saí à procura de emprego. Arranjei, mas nem precisava de carteira.
— Está vivo ainda.
Eles pensavam que eu já tivesse morrido. Bebi muito e dormi à porta do bar. Acordei só de cuecas. Rapazes dançavam, abraçados e sem camisa. Entrei na folia. Viva o Flamengo! Roubei uma camisa de listras pretas e vermelhas e fui embora.
— Estou querendo acabar de matar esse bicho.
O galo sangrava e não percebia as penas ensopadas do próprio sangue. Tive pena, mas sentia muita fome. Então decepei o pescoço ensangüentado com uma faca cega. Arranjei farinha com Seu João e assei o bicho.
— Chame a polícia, enquanto eu vigio.
Quando chegou, já era tarde. O criminoso já havia fugido e o pobre do Bira estava mortinho da silva. E bebemos mais ainda. Até a hora do enterro.
— Chame logo.
Não chamei. Ela não era minha mãe. Levei outra surra e fiquei todo ferido. O corpo doído, como se tivesse sido pisado por um elefante. Ah se eu fosse Tarzan! Saía pulando de galho em galho. Como a Chita. Tão inteligente! Já terá morrido?
— Ele já morreu?
Não sei. Fugi de casa no outro dia. Nunca mais ouvi falar dele. Deve ter morrido bêbado. Ou ainda deve estar no barraco com aquela égua e os meninos. Coitada de Lucinha! Naquele cabaré, bebendo, apanhando, passando fome. Dá até vontade de chorar ou morrer.
— Ouviu a sirena?
Madalena, se fosse mulher. Mas como é homem, será Getúlio. Que nome mais feio! Ora, o nome de um homem como esse não pode nunca ser feio. Estou prestando uma homenagem.
— Abra a porta.
O sol entra em meus olhos. Fechem a porta, não deixem essa bola de fogo invadir a casa.
— Ainda bem.
O mundo é quente e ruim. Como seria bom estar guardado em mamãe.
— Onde está o ladrão?
É um menino. Deus te dê muita saúde e felicidade.
A mãe está morrendo, doutor. Depressa, depressa!
— Parece que já morreu, Seu Delegado.
O CASO DE AMO
Eis que venho sem demora.
Ap. 22.7.
Mitologia
Gordo e corado carro parou no claro da esquina e dele saltou murmúrio suave de sereia, que penetrou as serenas ouças de bela menina. Sai dos escolhos destes velhos becos e vem provar o doce desta vida. Vem ver que eu tenho mais pra dar que pra tirar. O macio deste pássaro de ouro e o vôo aventureiro de meu pulso. Vem, flor mimosa, molhar teu cheiro na brisa desta noite.
E tanto o canto sibilou que a pobre flor sorriu e para o carro entrou.
Embriaguez
Num bar qualquer, um magro, pálido e triste obreiro bebia umas e outras doses de aguardente. Falava da vida e da morte e cuspia blasfêmias nas pontas de cigarro, como se as fomes que os seus olhos viam pudessem ser saciadas com sonhos e ausências suas.
Escolhos
Fugindo das luzes e dos olhos, o carro corria feito criança, em busca dos ermos das praias longínquas. E de tanto buscar, vela que a doçura da fala embalava, a lua os iluminou entre o cansaço e a luta. E lhes deu paz pra guerra entre o espinho e a flor. E os derrubou no sujo gozo dos corpos nus.
Viagem
Pelos vapores do copo ido, o pálido obreiro no seu barraco aportou. A porta espancou e o choro fino da mulher ouviu. Nossa virgem sumiu pra rua ou pra lua, encantada por moço galante ou leite galático.
Ato
O velho barco na escuridão penetrava as profundezas do mar, em viagem tão de fúria que os olhos da lua se anuviavam. As águas de frias ardentes se fizeram e de vermelho se tingiram. Um grito mudo o sátiro pançudo espantou e fê-lo correr pra longe das areias.
Procuras
Nas vizinhanças e chefaturas a triste mãe e o magro pai toda a noite consumiram, perguntas fazendo e dúvidas deixando, nada encontrando parecido com uns cabelos longos, olhos castanhos, pernas bonitas, sorriso de flor e vestidinho de organdi.
Vagamundo
Girando no escuro da noite, o carro viu a cidade estertorar de cansada e rasgar os lençóis do sonho. Viu as fugas em fugas ligeiras e as estrelas mudar de cor. E disse graças a Deus quando o sol piscou o olho entre as brancuras edificadas.
Alerta
Quando os galos suburbanos cantaram, os pais da menina perdida anunciaram aos filhos dormidos que procurassem debaixo das malas a irmãzinha escondida, pois nas ruas não havia nenhuma com ela parecida.
Primeiro
Antes que o porteiro chegasse, Amo abriu as portas do escritório. O vigia experimentou uma sensação de dormência muito mais forte que a sentida no decorrer do noturno serviço. Refestelou-se o patrão no gabinete e ordenou a si mesmo que não pensasse em nada, a não ser em dinheiro.
E se viu rajá, rodeado de moedas. Coroa de rei e cara de mulher. Caras que se alongavam, rindo e chorando a um tempo, rindo do rei rajá amo de todos, chorando do estupor ante o poder daquele que as mirava com avidez.
Último
Muito tarde foi chegar o operário Valdevino, alegando estar vivendo um momento de terrível aflição, por ter sua filha sido raptada ou fugido na noitada passada. Tal desculpa não quis o gerente ouvir, dizendo simplesmente vá-se embora.
Rixa
Revoltado com o dito, Valdevino procurou o gabinete do patrão, pra contar a mesma história e dizer mal do puxa-saco. Seu Amo não aceitou a desculpa e gritou-lhe vá-se embora. Valdevino, enraivecido, levantou o punho forte e derrubou o patrão.
Prisão
Alertados pela barulheira, guarda-costas de Amo tomaram o gabinete e desancaram o malcriado. E, por ordem patronal, a polícia chegou e levou acorrentado o coitado Valdevino.
Sonho
Na cela pequena, o operário se enroscou e olhou o mais que pôde para dentro de si. E viu sua filha voltando nos braços-silvas dos anjos, pisando a cabeça grande do dragão-amo-patrão, que tombava desfalecido na cadeira confortável.
Fim
No gabinete, Amo pensou uma vez mais na menina morta e sentiu uma agonia apoderar-se de seu corpo. Agarrou-se ao espaldar da cadeira que girava, como se agarrasse a vida, que fugia, fugia.
O CASTIGO DE DEUS
Olhei para o chão. Uma sombra deslizava, corria. Respirei e senti cheiro de coisa queimada. Mormaço insuportável. Olhei para o céu, na esperança de ver alguma nuvem de chuva. O sol, pardacento, quase me cegou. Levei as mãos à testa e corri para junto de mamãe, que lavava roupa junto ao tanque cheio de água. Ela nem deu resposta à minha inquietação. Antes, quis saber a causa de tanta tropelia. Fosse brincar na sala e não lhe desse mais sustos. Terminava me batendo.
Assustado, corri, atravessei o corredor e alcancei a porta da rua. Às janelas, mulheres debruçavam os olhos para as bandas do céu. E mexericavam medos antigos de fogos vindos do alto para castigar os pecadores. Nas calçadas, esquecidas pelos meninos, castanhas de caju se assavam. Pés descalços não suportavam a quentura do chão. Evolava-se dele uma fumaça espessa.
— Incêndio, minha gente, incêndio!
O homenzinho parecia aflito, suava muito e fedia a cachaça. Talvez fugisse para a serra. O jumento, no entanto, mostrava-se manso, sem a mínima vontade de andar. Com certeza, se sentia cansado de carregar carga tão pesada de bugigangas nos caçuás. Nem olhava para trás nem para o alto.
— Incêndio, meu povo, incêndio!
À falta de ouvintes para sua notícia, o homem vibrava o chicote no ar, como para alertar o animal. O fogo devorava a fábrica do Seu Cordeiro. E ninguém ia apagar as chamas? O jumentinho dava um passo, catava capim, resfolegava. Aproximava-se deles outro curioso, olhos fitos na fumaça cinzenta que passeava sobre todas as coisas. Ninguém ia apagar o fogo?
Medo redobrado, voltei ao quintal e acocorei-me ao pé das bananeiras, onde sempre fazia frio. A terra úmida molhava meus pés e me confortava. No alto, porém, a fumaça corria e, de vez em quando, fazia sombra. Parecia até nuvem de chuva. O homem e seu jumento talvez já tivessem ido embora. Fui até junto ao muro. Não fossem os cacos de vidro, eu poderia ver as ruas, a fábrica do Seu Cordeiro, o incêndio. Línguas vermelhas a lamber o céu azul. E as casas, toda a cidade. Sim, o fogo devoraria tudo, coisas e pessoas. A menos que fôssemos todos para o meio da rua, as praças. Ou para a igreja matriz. Lá o fogo não entraria. Na casa de Deus a salvação. Quando o mar invadisse a terra, no dilúvio do fim do mundo, quem quisesse se salvar, buscasse abrigo no interior da igreja. As águas não passariam dos degraus do patamar, enquanto o mundo estaria alagado.
— O mundo vai se acabar.
E, se não fosse pela água, seria pelo fogo. Por que então não corríamos todos para a matriz?
— Vamos, mãe.
Fazer o quê na igreja àquela hora do dia? Deixasse de besteiras, fosse brincar.
Obediente, atravessei de novo a casa, aos pulos. Da janela avistei o jumentinho, a comer o capim da rua, conformado com sua carga, manso como antes. O homem, suado, no entanto, falava mais alto e gesticulava muito, cercado de curiosos. No céu, a fumaça negra fazia sombras enormes no chão.
Aflito, busquei refúgio no quarto de dormir e me ajoelhei diante do santuário. Deus nos protegeria. Olhei para o teto: a telha de vidro servia de clarabóia. No entanto, a luz do sol quase não penetrava no quarto. E papai, onde estaria? Corri mais uma vez para perto de mamãe. Ela saberia me dizer. Nem tive tempo de abrir a boca. Fosse logo tomar banho.
— Seu pai está para chegar.
Precisava ter certeza daquilo e, numa carreira medonha, atravessei a cozinha, a sala de janta, o corredor, e cheguei à sala.
— O que é isso, meu filho?
Ele tirou o chapéu e se dirigiu aos fundos da casa. Estava salvo.
Mais longe, o jumento não parava de comer capim. Onde andaria o homenzinho suado? Estiquei o pescoço – o desgraçado apareceu à porta da bodega de Seu Quincas e cuspiu.
— Venha tomar banho logo, menino mal-ouvido.
(18/11/87)
IMPOSSÍVEL CONTAR A HISTÓRIA DE PALMA
Ao regressar de Palma, passou Martinando dias e dias aborrecido. Não o incomodava ter visto os primos ainda ameninados e o tio quase igual a antes, como sempre tinha sido. Admirava-se da prodigalidade mansa daqueles adolescentes, como se o pai fosse muito rico. Todo o povo sabia da avareza do velho Augusto: até dormia na bodega, com medo de ser roubado. Nunca permitiu a presença demorada dos filhos no pequeno estabelecimento. Não fossem chupar os bombons expostos à venda. Tudo medido e pesado, para que pudessem estudar e ser gente na vida. Talvez doutores.
Depois de satisfazer a ânsia de redescoberta da terra natal, Martinando procurou o tio. Sobre a mesinha, onde guardava o dinheiro, duas carteiras de cigarro abertas, como se o tio não tivesse deixado de fumar, depois de ter ido parar num hospital, acometido pela bronquite secular. “Vim só comprar cigarro”, apressou-se a dizer, abanando a cédula na direção do comerciante.
Na verdade, Martinando se sentia cansado de tanto andar. Preferia descansar os pés, embora para ouvir as perguntas de sempre: “Como vai o Carlos? Você já se formou? E a comadre Clarice?” Havia andado muito, subindo e descendo ladeiras, no meio dos matos, percorrendo as velhas ruas, onde brincara de bola-de-meia. Tudo diferente do que tinha imaginado. Parecia uma terra estranha, tantos montes, tantos rios, tanta floresta. Nunca um passeio por aqueles campos. Sempre entre as paredes das casas da cidade. Quando muito, antes de se mudar para a capital, pequenas viagens aos sítios de parentes e aderentes situados do lado direito de quem entrava na cidade. Via tudo com olhos novos, com interesse de pesquisador. Como um médico legista diante do cadáver da própria mãe. Não, não uma visão assim tão trágica. Sentia até umas pontadas de nativismo nos olhos. Os primos nunca haviam saído de lá e faziam papel de cicerones. Davam indicações, explicavam nomes e apelidos, sérios e preocupados em servir ao primo viajado.
Martinando encontrou o livro por acaso. Porque esperava colher informações sobre a história de Palma nas pessoas mais velhas e nas construções antigas. Acompanhado de alguns primos, vasculhou grotas para saber os nomes dos sítios, dos rios e das árvores. Depois dispensou a companhia deles e andou só pela cidade. Ora, conhecia Palma tanto quanto eles. Diante de cada prédio de aparência antiga, sobrados e casarões, parava, olhos de turista, caderno e caneta à mão.
Da fachada de um sobrado copiou o ano de 1912; na parede da frente de um casarão leu a inscrição “Solar do Capitão Pedro Vasconcelos – 1915”; e assim por diante. Aquelas informações serviriam para contar parte da história de Palma. Ultimamente não parava de sonhar com a velha cidade. Agora acreditava nos sonhos. Porque os sonhos não surgiam do acaso, mas de uma exigência objetiva do intelecto. Ora, como sonhar com aqueles prédios e aquelas inscrições, se seu intelecto não exigisse a história de Palma?
Cansado de procurar inscrições, entrou numa bodega, à toa, como poderia ter ficado num banco de praça. O bodegueiro não lhe parecia estranho, como a maioria das pessoas da cidade. Porém não lhe sabia o nome. Aquele rosto envelhecido habitava a memória de Martinando. Aborreceu-se de novo. Não, não se sentia aborrecido com o incidente público provocado pelo bodegueiro ao avistar Caetano e gritar: “Diga a Madalena que venha pagar os quarenta cruzeiros que me deve.” Apenas desapontado. O comerciante teria feito aquilo para insultar toda a sua família. Cobrar aos gritos uma continha de nada, ora essa! Como se gritasse: “Olhe, sua família, tão numerosa e tão conceituada, compra fiado e não paga porque não pode.”
Caetano parou e se voltou para dizer: “Mamãe não tem dinheiro nenhum.” Talvez até quisesse dar melhores explicações, mas, vendo o primo, continuou a caminhada. “Então diga a ela que arranje dinheiro hoje à noite com os machos.”
Martinando teve ímpetos de se retirar e abandonar o livro. No entanto, continuou a acariciá-lo, folheá-lo, desejá-lo. Onde encontraria aquela obra raríssima, senão ali? Permaneceu. E era a lembrança desse incidente que o aborrecia. Por que não comprou o livro? Tivesse perdido a cerimônia, pedido dinheiro emprestado ao tio, e pronto. Um livro velho destinado a enrolar sabão e fumo numa bodega de interior, transformado em raridade de antiquário! E se tivesse roubado o objeto? Ora, o nome da família iria para onde com mais essa? Por que não pediu o livro ao comerciante, se se tratava apenas de papel para enrolar sabão?
Martinando se aborrecia com o destino. Por que parou naquela bodega e não noutra? Ou em todas havia livros importantes sobre o balcão, destinados a embrulhar sabão, fumo?
Pelo hábito de querer saber de que tratam os livros, folheou aquele pedaço da história de Palma, sem saber como se comportar diante de tamanho achado. Aquele livro teria respostas a todas as suas indagações históricas. Desde os primórdios de Palma. A aldeia indígena transformada em vila, depois em cidade. Tudo em detalhes. A primeira cabana, a primeira capela, o primeiro sobrado. “É para vender?” Não devia ter demonstrado tanto interesse pelo livro. O papel velho virou mercadoria de valor. Surgia o ato mercantil. “Oitenta cruzeiros. É o último exemplar.”
Numa foto, a Praça da Matriz vista de longe e do alto. Talvez de outra igreja ou de um avião. Formando um triângulo, viam-se três igrejas. Martinando não se lembrava da existência de duas delas. “Demoliram estas duas, ficou só a matriz,” explicou o bodegueiro. “Livro raro. Toda a história de Palma.”
(Brasília, 5 de abril de 1978)
MARACANÃS
No meio daquelas mulheres tão coloridas e belas demais para seus olhos turvos, a tontura o empurrou para os cantos, barata chutada com nojo. A alegria geral cresceu em ondas avassaladoras, afogando-o. Ele escapulia, cheio de culpa, fugindo dos olhos que o não olhavam. Pião perdendo a velocidade, prestes a rolar descontrolado, a ponta para todos os lados. Equilibrou-se, voltou à mesa. Suava, arfava. Iria embora, para a rua, a praia, os matos longínquos? Não, restava-lhe ver e sentir. E beber, por não lhe ser possível o amor de tantas mulheres. Mais uma cerveja. Já que pular também não podia. Acendeu um cigarro. De seu canto, veria tudo. Estaria, de certa forma, mais perto de todas as folionas. Daquelas calcinhas verdes e daquelas meias pretas, daqueles óculos vermelhos e daqueles penachos cinzas, que cantavam feito maracanãs fogosas à beira da lagoa. Rodopiavam e riam já dentro de seus olhos arregalados e famintos. Beleza demais para a sua feiúra de lobo solitário. Mas quem privatizou a natureza, o sexo? Não, era tempo de brincar. Com certeza, milhares de homens mais tristes gritavam por detrás de máscaras. Umas até femininas. Criou coragem, bebeu um gole, ergueu-se. E correu para o meio do salão, esquecido de suas pobres cores. Cercou-se de passos e harmonias e gritou um grito de vencido. Tão próximo de tudo, perdeu a noção do sonho e mergulhou noutro. Mais antigo e terrível para o seu corpo raquítico de comedor de açúcar. Ao seu redor, já não bailavam mocinhas. Nem as aves do livro de zoologia. Eram guerreiras em pé de guerra. Amazonas. Maracás medonhos matraqueavam no ar repleto de fumaça. Dentro das cuias, pedras preciosas em revolução. Fora, penas de guarás agitados, como numa tempestade. Guarás ferozes, brancos, pretos e vermelhos, que esvoaçavam ao seu redor. Abelhas mortíferas, a querer ferroá-lo, queimá-lo. Iria tombar feito um cobarde caraíba? Parou, como se fosse possível frear o medo que galopa dentro dos olhos. Estranho, espécie de sonho. Ou o delírio de quem bebe para dormir? Voltaram as maracanãs enlouquecidas, rindo daquela cara de cera, múmia fugida da frigidez do tempo. Mergulhavam harmoniosamente no espelho das águas. Dois bandos a sapatear exatamente um nos pés do outro. Balé perfeito. Fascinado, não viu aproximarem-se dois imensos soldados. Agarraram-no pelos sovacos, como se o fossem depenar. As folionas reuniram-se numa só, caladas, estáticas. Conduziram-no, espantado. Maestro daquela ópera. Vá embora, se não quiser ser jogado por cima do muro. Do rochedo que apaziguava o mar. Aquele jaguar a bufar lá fora. Deixou-se levar como um cordeiro para o horto. O mar gritava, o samba fugia, a lua rolava, o frio zunia. Caiu para sentar-se. E logo dormiu e teve um sonho. Quando o sol lhe queimou os olhos, um riso esquisito abria-lhe a boca de lado a lado.
MISTÉRIO DOLOROSO
1 - DESGRACEIRA
Ora se isso tem cabimento! Se fosse ao menos outra! E por que ele não fez uma carta dessas pro Mundico? Todo mundo sabe que aquele é corno no duro. Mas escrever pro prefeito, que até meu amigo é! Eu nunca esperava uma coisa dessas. Logo agora que eu estava me aprumando na vida! Só pode ser caiporismo. Como tem gente ruim neste mundo. É, ele queria que o prefeito se intrigasse comigo e deixasse de empreitar meus serviços. Assim, ele fica com o bolo inteiro. Ganância, pura ganância. Mas ele vai me pagar. Vou mostrar com quantos paus se faz uma canoa. Meto uma bala na cara lá dele e acabo com tudo. Gente ruim não merece viver.
E se eu for embora? Evito uma desgraça. Vou tentar a vida longe daqui. Começar tudo de novo. Outra cidade, outras amizades. Não, assim ele vai ficar se pabulando, me chamando de cabra safado e covarde. Não, aqui é o meu lugar. Aqui comecei, aqui vou ficar. Fico e tiro aquele trambolho do meu caminho. Desce daí, filho de quenga. Vem, que eu quero mostrar quem é o covarde. Pei, bufo. Aí fujo pros cafundós de judas, deixo a mulher, os filhos, os cafiotes, me desgraço de uma vez. Desgraça pouca pra mim é tiquinho. Ou vou logo pra cadeia ou me matam por aí.
Não, não vou fazer nada disso. O prefeito já deve saber a verdade. O melhor é deixar a coisa como está. Agüentar tudo calado. Mas aí vem uma bala doida e... adeus vidinha. Não, essa não. Vamos, homem, deixa de paleio. Decide logo a porcaria dessa atitude. Acaba com aquele loroteiro de uma figa e foge pro oco do mundo. Você vai sofrer que só couro de pisar fumo, mas homem nasceu foi pra sofrer mesmo. Você não é mais menino. Conheceu a vida, constituiu família, fez de tudo. Até demais. Elegeu até um prefeito. Não fosse esse cabo-eleitoral-velho-de-guerra aqui, a situação hoje seria bem diferente.
Pensando bem, é melhor deixar tudo como está. Quem mexe em casa de maribondo... Eu nunca fui de fazer confusão. Nunca mesmo. Homem pacífico, ordeiro, respeitador está aqui. Porém aquele sujeito precisa aprender a respeitar homem. Pensa que sou o quê? Vagabundo, velhaco, vadio? Vou mostrar quem sou. Vai ser uma desgraceira danada, eu sei, mas tem que ser assim. Ele vai aprender comigo a não mexer com quem está queto. Meto uma bala no meio da testa lá dele, e pronto. Depois fujo, sou preso, a família vai passar dificuldades. É o jeito. O povo já sabe da futrica toda. Se eu não fizer nada, vão me chamar de covarde e acreditar nessa história furada.
E se eu metesse o relho-cru nos lombos daquele futriqueiro, nas vistas de todo mundo, pra ele deixar de ser sem-vergonha? Não, não ia dar certo. É melhor mesmo acabar logo com essa história, porque o safado não vale um tostão furado. E se eu errar o tiro? Ele me mata em cima das buchas. Não, minha pontaria não falha nunca. Vou. Me deu na veneta, agora vou mesmo. Se não, ele vai ficar fazendo mangofa de mim. Chego lá, não quero conversa, mando ele descer do andaime, se estiver trepado. Ou mando se virar, se estiver de costas. Porque homem não mata nem cachorro a traição. Vim mostrar a carta que você escreveu em meu nome, bandido. Digo assim mesmo, porque escrever carta falsa é coisa de bandido. De bandido não, de cachorro. Faça o pelo-sinal, cachorro. Não, cachorro não faz pelo-sinal. Faça o pelo-sinal, seu mequetrefe, pra não morrer feito bicho. Eu vou mandar você pra terra dos pés juntos. Atiro dentro da boca lá dele, sem dó nem piedade. Ele cai que nem um passarinho, fica estrebuchando no chão. O povo quer me agarrar, corro, pra não ser linchado. Os cabras dele vão se meter na briga. Nunca fugi, mas dessa vez vai ser o jeito. Os coitados dos meus barrigudos vão ficar ao deus-dará. A pobre da Bastiana vai chorar pelo resto da vida, ficar sozinha no mundo, sem nada, sem homem. Prometo um dia voltar e continuar a vida. Vamos pras bandas da Bahia, no rumo de São Paulo. Se não der certo, se eu for preso aqui, vai ser até melhor. Pelo menos, ela e eles vão poder me ver, de vez em quando, e ter paciência de esperar.
Lá está ele, trepado. Já me viu. Será que está armado? Fala com os outros. Vai descer. Desça logo daí, seu filho de puta. Venha aprender a ser homem. E vem mesmo. Preciso atirar logo. Assim que ele chegar perto de mim. Não, vou primeiro dizer umas verdades e esperar a reação dele. Quando ele se peneirar, mando bala. Ai, filho duma égua. Vou te matar, bandido. A carta. Pura covardia. Queria me ver na merda. Mato, mato, mato. Olha os outros. Vão se meter na briga. Matei. Aposto que matei. Caiu. Está estrebuchando. Cachorros! Vou matar vocês também. Afastem-se. Cambada de cachorros! Ou mato ou eles me matam. Atiro e corro por aquele beco. Ganho as brenhas, corro feito bicho acossado, até a noite chegar. Vão me esfolar vivo, a mulher vai ficar doida, os meninos vão chorar. Eles são capazes de se vingar nela e neles, os malvados. E eu não vou poder fazer nada. Um dia, porém, vou me vingar, matar um a um. Não, é melhor me entregar logo, correr pra delegacia. Lá vêm os soldados e o delegado. Me deixem em paz, bando de covardes, sou só um contra vocês. Eles querem me matar, Seu delegado. Eu matei aquele bandido pra mostrar... Me soltem, filhos de puta. Me levem daqui, senão eles me matam. Prendam, afastem eles de mim .Magote de urubus! Quase morto e eles me batendo. Se não fosse a polícia... Também, não presta pra nada. Mas desta vez me salvou. Talvez até me mate de peia, como fizeram com Zeca Mariano. Coitado! Deram uma surra danada no pobre. Morreu todo quebrado e ensangüentado. Uns malvados! Só porque o desgraçado bebeu-bebeu e não pôde pagar a despesa. Precisava disso? Não precisa quebrar meus braços, não, seus cachorros.
Todo mundo olhando, parece que nunca viram cabra macho. Pois é, não engulo desaforo. Matei e está matado. Agora o safado está pra lá das profundas. Quem mandou ele arranjar encrenca? Agora estou com o sangue frio. Fiz o que devia fazer. Vou sofrer nas unhas desses outros urubus, mas um dia me solto. Lavei minha honra e a da mulher do prefeito. Ninguém vai mais acreditar naquela história. Vão me chamar de criminoso, é certo. Só porque matei aquele peste. Todo mundo vai ficar com pena dele. É assim o mundo. Só tem valor quem não presta. Defendi minha honra e meus direitos. Lavei com sangue. Não é direito, eu sei, mas não havia outro jeito. Ele escreveu a carta, inventou tudo, feito rapariga. Merecia mesmo morrer. E eu inocente, sem saber das tramóias do cabra. Eu nunca imaginei uma safadeza dessas. Esperava tudo, menos uma baixeza dessas. Esperava até que ele tentasse me matar. Atitude de homem. Se a carta não desse certo, se eu não fosse embora daqui, fugido como um covarde, ele me matava. Cabra ruim! Ou talvez não tivesse coragem. Covarde não tem coragem de matar ninguém. Manda matar. Ou arranja um meio de não mandar, como o sistema da carta.
O prefeito chegou a abrir meus olhos: olhe, ele vai mandar uma carta dessas pro Valdomiro. E com este não tem conversa. Mesmo sendo mentira. Eu ia morrer inocentemente. Desgraçado! Mas já está morto e não adianta mais pensar no caso. Agora é esperar pelo resto da desgraça. Quem nasceu pra penar, não adianta procurar felicidade. Desgracei minha vida, virei barata doida, bala zunindo nas oiças. Está tudo rodando que nem pião. Tudo uma desgraceira só.
2 - DOIDEIRA
Não pára de chover. Como nos invernos passados. E os presos trabalhando ao relento. Balaio de bosta de gado na cabeça. Líquido podre e fedorento escorria por minha cara suada, suja e endurecida. Eu e outros, desgraçados penitentes, açoitados pelos carcereiros malvados. Gritavam impropérios, como se fôssemos bestas de carga e devêssemos pagar os pecados de toda a humanidade. Ou limpar toda a sujeira do mundo. Quase todos inocentes. Quando muito, pecadores por necessidade. Eu, por exemplo, agi em legítima defesa. Aquele cabra mereceu a morte.
Vai ficar tudo molhado, vai virar tudo um rio, um grande rio barrento. E eu vou ser levado feito graveto. Assim, me lava o crime. Apenas uma vingança, porque aquela carta foi uma calúnia. Mais do que uma calúnia, uma emboscada. Com a carta nas mãos, o prefeito, antes meu amigo, se tornaria meu desafeto e me mataria. E sem eu de nada saber, inocente. Como eu iria corneá-lo, se lhe devia favores, se ele me dera a fazer serviços? Embora ele também me devesse favores. Elas por elas. Uma mão lava a outra. Sim, fui seu cabo eleitoral, arranjei-lhe votos e mais votos, de parentes e aderentes. Além disso, nunca me apeteceu sua mulher, mesmo sendo ela ainda bonita, nova e fogosa. Não nego: cometi mil desatinos, me meti em muitas fuzarcas, me embriaguei em demasia, em bares e cabarés. Tive cunhãs e muitos filhos deixei pelo mundo. Nunca, porém, me atrevi a mexer com moça-donzela e muito menos olhar para aquela mulher com olhos pecaminosos. Nem uma vez sequer lhe disse palavras de desrespeito. Quando com ela falava, era só: como vai a senhora? Bom dia. Boa tarde. Boa noite. Ela também (embora não saiba eu do coração de ninguém, porque, como diz o povo, coração é terra que ninguém pisa), ela nunca olhou para mim com intenções de traição. Seus olhares para mim eram sombrios. Nunca como os relâmpagos, que tudo alumiam e apavoram. E fazem da noite mais escura dia bem claro. E se sucedem os trovões, que assustam a natureza, rasgam o céu com estampidos e me amedrontam, como se eu fosse um pobre animal indefeso, perdido nesses ermos alagados e frios.
Tomei um susto medonho quando o prefeito me veio com a carta na mão, nervoso e enraivecido, as feições endurecidas, gaguejando. Fiquei também nervoso. Antes de ler o papel, pensei logo naquele lambanceiro de uma figa. Reconheci-lhe a letra, não tive dúvida nenhuma. Sosseguei, no entanto, quando o prefeito disse acreditar em mim. Logo, porém, me deixou apreensivo. “Tome cuidado então. Carta idêntica a esta vai chegar às mãos do vice-prefeito. E ele é valente como uma onça, mata sem conversa.” Virei o diabo na hora e pensei logo em matar aquele safado. Quando saiu o resultado do exame do manuscrito, criei coragem e mais raiva. Fui direto procurar o traiçoeiro. E fui armado. "Desça daí, seu escrivão, venha ver pela última vez sua carta de puta ruim." Ele desceu, atrevido, e foi me esbofeteando. Como se não bastasse o que já havia feito. Atirado sobre tábuas e pregos, vi tudo muito claro diante de meus olhos. Puxei a arma e dei um só tiro certeiro no peito esquerdo dele. Depois não vi mais nada, tudo escureceu. Como agora, com essa chuva grossa.
Eu vivia com medo de tudo, menino com medo de bacurau. Passados seis anos de prisão, convivendo com o cansaço, a tristeza, a dor, embriaguei-me mais ainda. Não via motivos para vestir as roupas nem falar as falas dos meus semelhantes. Desejo de fugir, sumir. Antes, porém, veio o indulto. Voltei para casa, enfim. Mas que liberdade era aquela, se eu não me sentia liberto? Tinha medo até de gato em cima do telhado. Um dia uma zoada nas telhas fez meu filho acordar e acender o lampião. Vendo a luz nas paredes e nos cantos do telhado, pôs-se a gritar. Via estrelas no céu. Corri, apavorado. Para mim, o safado, ressurgido do cemitério, havia destampado minha casa, para vingar sua morte.
Não tenho mais sossego. É tempestade dentro de mim, é tempestade lá fora. É mata caindo aqui, é boi correndo maluco. É rio que vai enchendo, é lama por toda parte. É perdição de quem se perdeu, é tristeza que não tem fim. É a vida virando perau, é rio cheio e barulhento. É lama, ribanceira derrubada, levada pras lonjuras. E esta doideira de correr, estando parado, porque não sei se sou eu ou o rio quem corre. Se sou eu que corro maluco, dentro da treva e da tempestade. Se é o mundo que gira doido, com medo de babau, jaguara e caipora.
3 – PRAGA DE URUBU
Você caiu, enfim. Agora vai apodrecer debaixo desse aguaceiro. Queimado pelos raios, açoitado pelos ventos, levado nas ribanceiras, feito boi morto na enchente. Vai bater no fim das águas. No fundo do mar, lá onde moram as grandes serpentes. Nem por encanto você será salvo. Nem por milagre. E não adianta se valer de seus santos. Olhe o céu clareando, os trovões assustando a natureza. Olhe como a chuva está grossa, seu valentão. Agora trema de frio e medo. Agora agüente as conseqüências de seu crime. Quem não pode com o pote, não pega na rodilha. Quem mandou você fazer aquilo? Quem lhe deu o direito de tirar a vida de um pobre vivente? Quem mandou tirar a vida daquele coitado? Ele só queria ganhar dinheiro como você ganhava, para sustentar a família, tão grande quanto a sua e a de tantos outros. Quem mandou, heim? Você não tinha o direito de fazer uma desgraceira daquelas. Por que só você queria construir prédios e ganhar dinheiro? Por acaso ele não era tão bom artífice, tão pai de família, tão humano como você? Se escreveu a carta, foi por necessidade de salvar a pele. Por que um crime maior para vingar um crime tão curto? Matar por causa de uma simples carta! Você tem mesmo certeza de que não namorava, pelo menos com os olhos ou apenas com o desejo, a mulher do prefeito? Você nunca foi flor que se cheirasse. Lembra-se daquela sua vizinha? E da irmã de sua própria mulher? E da filha da velha broeira? E de tantas e tantas outras? Ou já está broco? Não sabe mais o que fez? Bote o quengo pra funcionar. Não se faça de mouco pra melhor passar. Você nega, por acaso, ter engabelado aquela moça da Serra? Aquela a quem você disse ser solteiro e rico fazendeiro da Paraíba. Sua conversa fiada iludia qualquer mulher. Você era sonso, sempre foi sonso. Todo o seu tempo de prisão não passou de uma grande sonsice. Até granjear fama de cabra trabalhador e conseguir livrar-se da bosta na cabeça. Mas pra quê? Pra viver se embriagando, desrespeitando as famílias, humilhando a mulher, envergonhando os filhos? Lembra-se de uma vez ter saído nu, bêbado, facão em punho, derrubando cocos dos coqueiros públicos, só por malinagem? De você não se podia esperar coisa boa. Você já nasceu malfeitor. Instinto perverso. Matava animais só pra ver quantas tripas eles tinham. Malvado! E a pisa dada em seu filho, com o chiqueirador? Saiu sangue das costelas do miserável. E você urrava de ódio, animal doido, como se batesse num inimigo ou numa pedra. Você sempre foi ruim. Não vale o que a gata enterra. Lembra-se de ter jogado fora o escapulário que sua mãe lhe deu quando a Santa Missão visitou o interior? Agora precisa de ajuda. Mas ninguém virá socorrê-lo. Todos o abandonaram, como se você estivesse atacado da peste. Agora vai morrer sozinho, feito leproso, cão sem dono. E só não lhe atiram pedras porque já bastam as que caem do céu. Castigo, castigo, seu danado! Agora se ate sozinho. Sua vida virou uma doideira. Agüente o rojão. Matar não é nada, ruim é essa doideira dentro da cabeça e esse castigo da natureza. Lembra-se da mulher do finado, gemendo e chorando? E você dizia: matei e está matado. Pois ela, pra se vingar, desejou a você a pior de todas as mortes. Você não acreditou e ainda disse: praga de urubu não mata cavalo. Agora agüente, filho de uma égua. O morto talvez esteja em melhor situação. Morreu sem pensar na morte e você vai morrer se agarrando aos últimos galhos da vida. Agora não chame a vida de tirana. Não adianta se encostar nos troncos das árvores, se esconder detrás das moitas. Onde estiver, a desgraça irá buscá-lo. É o destino. A desgraça mora até nos cafundós de judas. O fundo das grutas. Não tem por onde escapulir. Olhe pro céu e veja a vingança vindo do alto. As nuvens vão se despencar, as estrelas vão cair sobre a terra. Tudo vai virar mar, como predisse o Bom Jesus Conselheiro. Não adianta se lamentar, nem botar a culpa nisso ou naquilo. Você vai pagar caro pelo seu crime. Por todos os seus crimes. A morte daquele homem foi apenas desembocadura do grande rio de seus erros. Você se lembra das aves mortas por sua baladeira? Não, não se tratava de brincadeira. Você matava por malvadeza. Quem via a sua frieza, nem imaginava que você só faltava se cagar de medo de babau, caipora e jaguara. E o medo dos coitadinhos dos bichos? E não é só isso. O rosário é grande. As galinhas esfoladas, como se não bastassem os animais maiores. Jumentas, cabras, novilhas. Você, capiau sem eira nem beira, maculava a natureza. E as meninas que você obrigava a se despir no meio do mato, detrás das bananeiras, nas beiras dos rios? E já frangote, as saias que você arribava por pura sem-vergonhice?
Você vai pagar caro por tudo. Vai apodrecer feito fruta na lama e se encher de bicheira. Os urubus vão bicar seus restos, quando a chuva passar. Se antes seu corpo não for levado pelas grotas, pelos rios, para o fundo do mar. Porque aquela prisãozinha não significou nada, não valeu nada. Não deu pra pagar seus pecados. Agora, sim, é que vem castigo. Você vai virar molambo. Se assim não fosse, você muito ainda iria andar ao léu. Ovelha desgarrada. Retirante. Carcaça arrastada pelas onças. Fuçada pelos porcos. Esquecida na lama. Pior, muito pior. Você vai ficar inteiro, cururu inchado. Cascabulho. Muito pior.
TIL ANANIAS E SEUS POLICARPOS
Afagado pela língua de um cão, Policarpo misturava nos olhos imagens antigas ao furor do patrão. Por acaso estais duvidando da fama de Til Ananias, autor de autos e farsas, relações e epopéias, e mil outras maneiras de inventar a vida de sanchos como tu? Como ousas afirmar a negação? Incompetente, cego e maneta, como é possível não me encontrares neste cosmos gutenberguiano?
Policarpo recordava os primeiros passos em busca do afamado autor. Depois a angústia maior. Na calçada, meninos brincavam, surdos às palmas tímidas e frias. Talvez não houvesse ninguém no casarão do velho Ananias. Batia e escutava o eco das palmas cantadas. E, quando ia bater novas palmas, uma bola de meia atingiu-lhe o rosto. Ao mesmo tempo, um rosto de bola abria meia porta, devagarinho e assustado.
— Que deseja?
Atarantado, Policarpo não sabia se devia se voltar para os moleques ou fugir daquela voz de mofo e sono. Preferiu fechar os ouvidos às molecagens da rua. E pôs-se a gaguejar. Um escritor muito atarefado, acho que é este o endereço, a cabeça muito cheia de pesadelos, andava perdido no meio das letras de hebdomadários e resenhas, as mãos trôpegas, colunas sociais e lingüisticas, necessita de um ledor, digo, de um secretário, ativo, inteligente, que saiba ler as cento e tantas, não sei, línguas faladas e escritas, para recortar o seu nome, deixe ver, Til Ananias, escritor famoso, autor de pasquins e outras inutilidades.
Os moleques ouviram, calados e tristes, a bola esquecida entre as patas de um cão sonolento, o tímido falar de Policarpo.
Quando o sono desembolou-se das patas do cão, os dois senhores entraram a tratar dos detalhes do ofício de recortar periódicos.
Uma hora depois, a mesma fatídica bola de meia molhada acertou a outra face de Policarpo. Mais uma vez nada reclamou. Já contratado, precisava ir logo à banca de jornais.
Ainda aturdido, Policarpo regressou ao casarão. Sobraçava alguns quilos de jornais e revistas. Na calçada, os garotos riam e gargalhavam. Um homenzinho amarelo batia palmas diante do portão de Til Ananias.
— Palmas para o campeão das palmas! – conclamava um dos moleques.
A rua inteira se encheu de sons de palmas. Mulheres de todos os gêneros acorreram às janelas, aflitas. E gritavam: parem com isso!
A porta se abriu e o velho meteu a língua no ouvido esquerdo do novo Policarpo. Não precisava mais do primeiro. Fosse atrás de outro emprego.
— Trouxe o anúncio?
O rapaz estendeu a senha amassada.
— Comece a pesquisa a partir de 31 de março de 1917.
O novo empregado não se assustou, mas teve a ousadia de fazer uma pergunta.
— Porque esta é a data de meu nascimento.
E meteram-se os dois entre os jornais.
— Já encontrou alguma coisa?
— Nada, senhor escritor.
E se enfurnaram tempo a fundo. Til Ananias pelas edições futuras, Policarpo pelas passadas – útero letrado.
— Em que data você está?
— 30 de janeiro de 1945.
De repente, um grito. Policarpo tremeu e parou. Ameaçavam-no garras homicidas de manchetes. Sufocavam-no mãos negras de notícias terríveis. Desmaiou e, inconsciente, se viu caminhando de encontro ao velho escritor.
— Senhor, achei uma mentira.
Til Ananias iniciava o século XXI, carregado de cãs e suores, pendurado num caibro podre.
— Diz que faleceu hoje, vítima de um choque elétrico, o fracassado escritor...
— Continue.
— Til Ananias.
Sufocado pela fumaça que vinha da sala onde estavam depositados os jornais da década de 20, o novo Policarpo acordou. Buscou fugir do passado. O fogo devorava, célere, os anos, reduzindo-os a cinza. Apavorado, o rapaz correu e, pisando as letras, alcançou a rua. Diante de si, o primeiro Policarpo ainda chorava o emprego perdido, alheio aos moleques que gritavam: vamos chamar os bombeiros para apagar a História. E mais gritaram quando viram o milagre acontecer — a fusão dos dois Policarpos.
ELES TÊM OLHOS AZUIS?
Para Carlos Studart Filho
Eu lia Jorge Garstman, quando ouvi gritos vindos da rua. Preocupado, fechei o livro e, enquanto me dirigia à janela, repetia o nome de Jacó Rabbi, como se do outro lado da parede ele estivesse sendo assassinado. O doido Manuel açoitava o tempo com os braços, pregando à pequena multidão de moleques e vagabundos do bairro.
— Os holandeses vão chegar. Já estão nas proximidades de Jacaúna – bradava o orador.
Vaias estrondavam em meio a estridentes. O pregoeiro ria um riso de satisfação, olhos além da platéia, do casario, como se alcançasse a praia distante, escondida pela cidade. Decerto orgulhava-se de ser o primeiro a dar a notícia.
Ao me avistar, aproximando em zum os olhos para pouco além do foco dos canalhas, avançou em minha direção, rompendo o cerco caçoista.
— Você é filho do Clemente?
Disse sim e o convidei a entrar. Não me importava estivesse em dia de insânia. Ele sabia mais do que todos aqueles cegos que só viam guerras nos cinemas e o mar aos domingos. E eu nutria uma admiração estranha por aquele sábio menosprezado e insultado, aquele irmão vindo não sei de onde, talvez neto de cariris, de adoradores do Boi Santo, ensandecido por herança. Imagino seus ancestrais dizimados a ferro frio pelos Amaro Maciel Parente e caterva.
Dirigiu-se à porta, que fui abrir, apressado, como se atendesse ordem sua. A multidão acercava-se da casa, sequiosa de novo espetáculo, saudosa do palhaço fugitivo. Fechei porta e janela, ciumento daqueles olhos de esquina, daquelas bocas impiedosas.
Já sob a sombra de minhas telhas, o homem era outro. Transfigurara-se, branco feito vela, trêmulo como chama, nem louco nem Manuel.
— Marina, traz um copo com água para este senhor – gritei.
Indiquei-lhe a cadeira, retirando o livro do assento, enquanto tentava copiar-lhe todas as feições. Enganara-me, de fato – não se tratava do maluco do bairro, a alegria dos que dormiam na coxia e se embriagavam de música todo santo dia.
Marina trazia em uma bandeja um copo com água quente e, oferecendo-o a Manuel, cochichou ao meu ouvido:
— Quero ver se ele é doido mesmo. Eu estava ouvindo a lengalenga dele lá da cozinha.
Não recebeu o copo. Deixasse sobre a mesinha. Apanhou meu livro, abriu-o e dirigiu-se a mim:
— Quero ver se ela não esfria hoje.
Veio-me à cabeça, de imediato, a figura acesa de minha mulher, que logo apaguei, olhos na água.
Pôs-se a ler, em voz alta: "Os nativos dessa zona solicitaram ao Conde Maurício e ao Conselho que tomassem o forte português lá existente a fim de libertá-los da opressão em que viviam."
Eu quis dizer a Marina que ela estava enganada. Fosse buscar água gelada, deixasse de rir daquele jeito de moleca. Porém, ao olhar novamente para o homem, reconheci nele o doido Manuel. Para tirar as dúvidas, interrompi-lhe a leitura:
— Não serão os alemães?
— Holandeses – gritou, ferindo-me com seus olhos de mensageiro.
— Mas eles não vêm pelo ar?
Não me deu segunda resposta e continuou a ler e rir. Voltei-me para Marina e pensei em lhe pedir desculpas. Não, não estava enganada, deixasse a água quente ali mesmo, esquecesse a geladeira, risse à vontade, assobiasse, vaiasse, molecamente.
— Acho que vêm de Recife – respondeu-me, por fim.
Em tom de brincadeira e para forçá-lo a dizer de que estava falando, imaginei um hippie nordestino:
— Na certa, são cangaceiros de cabelos oxigenados.
Pareceu não ouvir ou não aceitar minha provocação. E, como se desse por encerrada a conversa e se tratasse de velho amigo nosso, freqüentador habitual de nossa mesa, parente muito próximo, levantou-se e dirigiu-se ao corredor, sempre a ler. Tropicou na mesinha, o copo rolou e espatifou-se ao chão, enchendo a sala de água. Nem sequer olhou para o estrago e muito menos pediu desculpas.
Marina levou as mãos à cabeça e ajoelhou-se, irritada. Queria impedir que os cacos de vidro se estilhaçassem ainda mais e a água inundasse toda a sala. Conteve-se e, olhos em mim, como a pedir perdão por ter agido ao primeiro impulso, falou em ir buscar uma estopa à cozinha.
Seguimos os três pelo corredor, ele à frente, seguido dela.
— Aqui está a notícia por inteiro – gritou o visitante, já pisando a sala de jantar. – “Fundeará amanhã na enseada do Mucuripe o navio Nieuw Nederlandt, trazendo índios pernambucanos, cuja missão será a de preparar o terreno para a tomada do Siará pelos batavos.”
Não tive mais dúvidas: estávamos com um louco dentro de casa. E, pior, na cozinha, perto do fogo e das facas. Pensei em pedir socorro a Marina, mas ela voltara à sala e, ajoelhada junto aos cacos de vidro, cantarolava, mirando-se na água, que não esfriava. Talvez fosse possível esconder facas, garfos e fósforos, e convencer Manuel a publicar sua notícia caduca na esquina.
Odiei-me, chamei-me ingênuo, apiedei-me de minha piedade por aquele pobre diabo, aquele maníaco que transformava bulas em tratados de teologia. Amaldiçoei meu cristianismo tantas vezes negado da boca para fora. Desesperado, desejei a invasão imediata de minha terra por tropas estrangeiras. De preferência, holandesas. Se possível, nazistas. E seu primeiro ato de brutalidade atingisse Manuel.
Assim pensando, não ouvi quando me pediu água gelada. E, como não lhe atendesse, escancarou a porta da geladeira e despejou goela a dentro todo o conteúdo de uma garrafa, em tempo de a engolir.
Só alertei com o vozeirão do louco, livro aberto no rumo das bananeiras do quintal, biquinho, a recitar: “Monsieur le major Garsman, ci-devant commandant de la milice à Siara...”
FIM