Tempos de Mula Preta (2)
(Continuação)
HOMENS
— Isso se deu nos tempos antigos, muito antes de Lampião, muito antes do Imperador, muito antes da seca dos três sete. O dito coronel tinha uma data de terra ali pros lados do Mulungu e já estava meio velho, aí pela casa dos noventa. Pra lhe dizer como ele era rico basta citar as preciosidades que tinha em casa: um baú cheinho de pedras, sete papagaios que falavam francês, seis filhas donzelas que conservava debaixo de sete chaves para casar só com príncipes loiros, e uma porção de coisas outras de valor. Mas porém isso não vem ao caso. A lenda conta é que esse tal sesmeiro, depois que virou o cabo-da-boa esperança, passou a freqüentar as autoridades da província e das vilas: juizes, procuradores, alcaides, tabeliães, escrivães, vereadores, tesoureiros, vigários, militares...
À pequena distância do homem que falava e de outro, que estavam sentados em cadeiras de balanço, um defronte para o outro, uma criança, sentada no chão, tentava acionar o pinguelo de um revólver de plástico. Ao conseguir firmar numa mão o brinquedo, regozijou-se, rodopiou com a bunda assentada no chão de cimento liso e fez menção de atingir primeiro o homem que falava e em seguida o outro, gritando pô-pô-pô, seguidamente, durante quase um minuto. Os homens, entretanto, nem se assustaram nem demonstraram sequer ter percebido a presença do traquino, continuando um a falar, outro a olhar atentamente para uma figura que segurava firmemente com as mãos e que apresentava um soldado montado num cavalo, ambos de perfil. O militar era novo, trajava fardamento antigo e trazia a tiracolo uma espada longa. O animal era baio, muito grande e bonito e parecia cansado.
Sem dar ouvidos à desatenção do homem da figura, o que falava incessantemente dizia que o fazendeiro procurou então o vigário da freguesia, que se encontrava escrevendo uma carta para o vigário da Vila de Aquiraz, e passaram a conversar sobre terras, política e safadezas, até que o ricaço soltou uma frase curta mas que fez o reverendo trancar a cara. A tal frase dizia mais ou menos isto: Este jucá deve ser lá bem possante.
A criança, nesse momento, já de novo de costas para os dois, olhava para o alto da parede, de onde pendia um crucifixo de madeira de cerca de meio metro, ornamentado por um Cristo de prata, possivelmente. Para melhor se equilibrar, pôs as mãos para trás e esticou as canelas, encostando os pés sujos na parede azul.
O homem que falava dizia que o sesmeiro aproximou-se da estrebaria, onde cerca de vinte cavalos assediavam cerca de outro tanto de poldras, e pôs-se a olhar nervoso para a cena. Em seguida, chamou um dos cavalos pelo nome – Mimoso –, que se abeirou da cerca excitado e ergueu as patas, mostrando ao dono o maravilhoso membro enrijecido.
Por seu turno, o homem calado olhava uma segunda figura, do mesmo tamanho da anterior e figurativamente tão perfeita que tanto poderia ser uma fotografia quanto um desenho célebre. No entanto, estava desbotada e apenas dava a perceber um padre ajoelhado diante de uma imagem, possivelmente da Virgem Maria. Movimentando apenas as mãos, como que para não fazer ranger a cadeira, aproximou dos olhos a figura, mais exatamente o ângulo superior direito, onde estava fotografada ou desenhada a santa mãe de Deus, se era esta o que representava a imagem figurada.
Ainda totalmente alheia ao que dizia o homem, que falava quase gritando, como se o outro fosse surdo, a criança agora estava no outro extremo da sala, escanchada em uma sela encostada à parede, como se galopasse um cavalo. A sela rangia e a criança batia os pés no chão, imitando patas de cavalo, ao mesmo tempo que incitava o animal a trotar, fazendo com os lábios um ruído engraçado.
Infenso à zoada que fazia a criança, o homem dizia agora que o barão chamou um índio da Vila para irem ao rio e o índio mostrou-se esquivo. O velho sesmeiro trazia na algibeira um pão e, sorrindo, ofereceu-o ao selvagem. Seguiram em direção ao riacho, o barão apontando acolá, o índio dizendo dehêtsi (*), o branco afirmando perto, o vermelho perguntando dedé?, o civilizado tirando a roupa, o selvagem falando croné.
Já chovia quando o homem que nada falava olhou para uma terceira figura, a criança pôs-se a agitar nas mãos uma espécie de brinquedo bizarro e o outro continuou sua história, então dizendo que já era noite escura e chuvosa quando o fazendeiro, como último recurso, dirigiu-se à capela de taipa que se erguia num extremo da vila. Um clarão alumiou toda a sala e o homem viu perfeitamente que na foto ou desenho apareciam duas figuras de gente, enquanto a criança fazia grande algazarra, como se com medo ou alegria, e o outro dizia que o velho saiu correndo em meio aos trovões e ao ladrar dos cães vadios que o não reconheciam. A porta se escancarou à força da ventania e um frio de arrepiar penetrou na sala com fúria. A estampa quase voa da mão do homem, quando ele constatava que uma das figuras apresentava uma cara de incontida ira, enquanto na do outro um pavor de morte próxima reluzia. A criança, ou por temor à tempestade ou por se ver tomada de algum transe peculiar ao ritual que ensaiava, parecia dançar ou pular entre os dois homens, sem com eles se importar, como se não existissem ou não estivessem presentes. Um dos homens dizia que o velho alcançou a capela e divisou, a um relâmpago, as várias imagens sobre altares e mesinhas, inclusive a de um Menino Jesus deitado sobre palhas numa estrebaria. O vento continuou a açoitar as portas, a balançar as cadeiras, a agitar a figura nas mãos do homem, a sacudir a cabeleira da criança. E na estampa trêmula um homem vestido tinha o braço erguido a segurar uma longa espada. A criança agitava no ar o brinquedo. O outro falava do barão apalpando a imagem. Nos olhos do índio o espanto. O maracá rodopiando. O homem nu. A cabeça prestes a rolar. O maracá caindo. O barão assentando-se sobre a imagem de pau.
(*) Em língua cariri, dehêtsi significa acolá; dedé, perto e croné, nu.
Brasília, janeiro de 1979.
SANTA SEKIKI
DO CENÁRIO
Sobre o verde das coisas e o sono das criaturas, caiacu* arrancava, faceira no meio das nuvens – canoa subindo rio, bucui correndo de encontro ao ataque. E no meio do verde compacto – semente na selva – sombria, Sekiki enegrecia o céu com seus olhos de tristeza. O resto, apenas um vozerio perdido na mata, que de quando em quando parecia afundar-se nos abismos de uma surdez infinita, para em seguida ressurgir assustador e tenebroso.
DA PRECE
Os olhos – negros, a luzir, faróis parados no tempo – paralisavam a lua na correnteza indomável do espaço e sussurravam saudades de quem só se ficou. E pediam ao astro grande da noite a volta do amante que se ausentara da serra. Canto mais parecido com choro, de tão triste.
DO AMANTE
Como seus irmãos, Murawó voara cingido de arcos e flechas e tinto de jenipapo. Partiram ao encontro dos caraí, que haviam erguido fortes na beira do mar e já invadiam os sertões e as serras, em busca de sangue, suor e mulher. Quiçá Murawó não voltasse e morto estivesse pelo trabuco inimigo.
DA ESTRATÉGIA
O plano, há muito traçado no oco da serra, dizia ser preciso arrasar Aquiraz, a natiá dos caraí. Seguissem os arcos das tribos mais diversas, das que não aceitassem a existência mortal do poderoso estrangeiro. E desta vez não ficasse um só deles vivo, nem deles uma só palha de pé a lembrar sua presença, como ensinara o Bisamu.
DO AMOR
Sekiki, olhos fitos em caiacu, parecia rezar. Que Murawó regressasse e deixasse, para repasto do jaguar das ribeiras, o cadáver de leite do vencido estrangeiro. Viesse mais forte e mais ágil, e mais belo e mais doce, e tão furioso de amar que não conseguisse dormir nem debaixo da lua nem debaixo do sol.
DO SUSTO
Feito jibóia gulosa engolindo um boi, uma nuvem enorme de mansa avançou para a lua e depressa engoliu-a, fazendo mais noite o mundo dormido. E, nem o engano desfez-se, uma fera pior pareceu se chegar. Eram uns passos macios lhe pisando os ouvidos, que a vontade melhor foi subir à palmeira mais próxima e refúgio buscar na protetora dos céus, já livre e mais bela. E os passos surgiam de entre a folhagem, mas já não feros, porém da negrura da noite.
DA APARIÇÃO
O negrume de umas vestes compridas empurrava à frente uma cruz de madeira. Há muito vinha falando de um deus criador do céu e da terra. Espadas não empunhava, nem fogo fazia sair facilmente das mãos. E, sorrindo, chegou-se e se pôs a falar da beleza da noite e da lua, e de todas as coisas do paraíso terreno, e mais, muito mais, da formosura das criaturas que habitam esta serra tão fresca...
DE OUTRAS PALAVRAS
Tu és a mais formosíssima das criaturas de Deus, e só o prazer de olhar-te já vale morrer trespassado pelo veneno de mil flechas. Este corpo sem cor que o pinte, e sem cheiro que o perfume, e sem forma que o modele, e sem razão que o exista. Teu corpo vale por todas as almas subidas aos céus...
DOS GESTOS AINDA SINGELOS
As mãos azuladas do solitário estrangeiro se tremiam de frio, não diria a floresta, e buscavam arfantes o colo despido, que só pensava em saudade do seu paiacu e agora sorria de ver o bom caraí procurar consolá-la.
DAS INDESCRITÍVEIS AÇÕES
E as mãos se foram enchendo de maiores desejos, já nem frias nem trêmulas, nem ardentes nem inertes, e se misturando à voz, como em ciladas noturnas. E o corpo se foi avantajando, como a nuvem a caminho da lua, qual cataclismo medonho.
DA FUGA
A assustada selvagem pensou de novo em subir à palmeira e desta à lua. E correu pela terra, como se subisse aos céus, deixando o cristão a tremer e gemer: não fuja, não fuja, malvada cunhã; me conceda um pedacinho de amor e me mande após destripar...
DA VISÃO
Pois da lua vê Sekiki vitorioso e armado chegar o amado, montado nas pernas e abanando as asas de um colorido cocar. E vem veloz e grande se faz, antes que outra nuvem lhe tolha o caminho.
DA DESCIDA
Na imensa alegria, Sekiki pára, abre os braços para infinito abraço e a boca risonha e linda para o beijo sem fim, esquecida das mãos e dos gritos do possesso varé. E Murawó se aproxima, já de arco empunhado, como se de tão longe visto tivesse a amada em perigo. E já corre o caminho estreito que a Canindé vai levar, os pés velozes como as patas do buqué.
DO DESFECHO
E estaca o guerreiro e se retesa no chão, a ira apontando a vingança terrível. Uma flecha dispara e assobia na serra e alisa os cabelos de Sekiki, que se volta ao grito de morte do padre caído.
Nota explicativa:
As palavras do glossário abaixo pertencem, foneticamente, à língua cariri, falada por tribos nordestinas extintas, mas achei por bem dar-lhes uma grafia aportuguesada. Na grafia original (entre parêntesis) constam do livro Os Cariris do Nordeste, de Baptista Siqueira, Editora Cátedra, Rio de Janeiro, 1978. Utilizei-as no sentido de dar ao conto uma dimensão regional e tribal, tendo em vista que comumente só se conhece o vocabulário tupi, amplamente absorvido pela língua oficial brasileira, por razões que não cabe aqui dizer.
Afora essa preocupação lingüística, procurei situar o conto no seguinte evento histórico: a cidade de Aquiraz, quando ainda vila, foi quase completamente destruída, a 18 de agosto de 1713, pelos índios chamados Jaguaribaras, Anacés, Paiacus, Jenipapos, Canindés e outros, confederados na luta contra os portugueses e seus descendentes brasileiros, tendo os poucos sobreviventes fugido para o Forte que deu origem à cidade de Fortaleza.
Glossário:
Caiacu (cayaku) = lua
Bucui (bucuy) = flecha de milho
Caraí (caraí) = branco (pessoa)
Natiá (natiá) = taba
Bisamu (bisamú) = feiticeiro
Varé (waré) = padre
Buqué (buké) = veado
TEMPOS DE MULA PRETA
Durante sua segunda vida, José Coité viveu rindo e falando. Brincava, tratando os filhos como se fossem os personagens homônimos: vem cá, filho de Sua. E nem podia imaginar que este, justamente o último da árvore, viria a desdizer toda a sua dedução, deixando cair por terra a semente tão fervorosamente plantada.
Cochilando ou dormindo, arreganhava os dentes e repetia trechos de salmos, parábolas e provérbios de Salomão: “Grita na rua a sabedoria, nas praças levanta a sua voz, do alto dos muros clama”. Convencia-se a si mesmo de que o finado José Coité pecador não merecia ser lembrado. O calado que só abria a boca para blasfemar e insultar, nos dias de embriaguez. Corria os bares, os cabarés, as ruas e os caminhos montado na mula preta, feito um capeta.
Diante dos filhos, da mulher, dos companheiros de crença e dos infiéis falava enquanto ria. Dizia: minha vida foi uma e é esta. A que era fez-se de pecados, sem sentido, besta, perdida. Queimada. A que é, vejam – Jesus me salvou. Sigo, alerta. Roçado. É inverno sem fim. Não enxergavam todos o sulco divisório, nítido?
Vissem, sem maldade: José Maria, o primeiro filho, não se criou. De início, bem querido, gordinho, sadio, sabido, sapeca. Mas, fruto de tempo ruim, de pai danado, seu destino estava traçado: pecador, fadado ao fogo, ovelha negra. Chamuscada. Melhor morrer cedo, antes dos sete anos. E emagreceu, encheu-se de mazelas, apalermou-se, tornou-se malquerido. Chorão, sujo, feio. Definhava a cada versículo.
— Para que viver?
E esticou as canelas, não sabe a cidade como nem de que.
— Doença de menino?
Sinal de que tudo do tempo do pecado deveria desaparecer.
Essa lógica só se desfez no roçado, num dia de cobras apavoradas. E as beatas da cidade resmungaram:
— Foi-se o bode velho.
Onan contava então cinco anos de idade e já carregava a mania de andar só, de fugir dos irmãos, de desaparecer, de se encantar.
— Onde anda esse menino?
Nada de mal, dizia o velho às queixas de Maria. Esquisitices de caçula. É de boa cepa, vai dar um varão. Como os outros, nascidos da vida regrada e devotada ao Pai, a segunda, a autêntica.
A prole, numerosamente bíblica, se espalhava pela casa em harmonia de tempos de paz na tribo: Rute, Samuel, Esdras, Ester, Josué, Isaías, Daniel, Joel, Jonas, Zacarias e Malaquias. Noutro tempo seriam reis e defensores da lei de Deus. Hoje prósperos cidadãos. Conceituados, cheios de vida e filhos, bem postos nas salas, cumprimentados e olhados com admiração.
Vigiados por José e Maria, nunca um deles escorregou numa casca de banana nem roubou frutas nos quintais vizinhos. E brincavam uns com os outros, amigos e mansos. Menos Onan, sempre arredio, jeito de doido. Vivia pelos cantos, escondendo-se, cheio de sestros. E a mãe de olho grelado, espiando, pisando macio, felina. Se Onan corria ao quintal, lá gritava ela. E o menino, assustado, voltava aos pulos, segurando as calças. Se se metia detrás dos móveis, apavorava-se com os berros de Maria. Na hora do banho ou das necessidades, um olho atento furava a fechadura da porta rústica.
— Menino sem-vergonha.
Crescia, estudava, lia, escrevia, triste, mudo. Deu para escrever diários, diabruras cuspidas nos cadernos escolares. E depois sonetos amorosos e amargurados. Indolências, dizia a viúva.
Muito mais tarde, descobriram-lhe versos sem pé nem cabeça:
Teço a rede
onde adormeço
sede de projetar-me
para o matar-me.
E outras sinuosidades a que um pesquisador deu valor e publicação.
Os irmãos gargalharam, mas deram respostas a todas as indagações do estranho.
— Nunca teve namoradas.
Apaixonou-se repetidas vezes por mocinhas de todos os feitios. Por uma tal Rosana perdeu a noção até da língua. Vivia falando asneiras em estrangeiro: tes yeux sont la citerne où boivent mes ennuis. Não conseguia dormir direito, os armadores gemendo em sonhos genesíacos.
— Vai dormir, Onan.
Chegada a fase da barba, teve uma ou outra namorada, passageira, furtiva. Ainda assim, dormia muito, feito um gato velho, lia e escrevia como um poeta, inventava caçadas e banhos de rio demorados, perdido pelos becos e ruelas mais afastadas.
— Possuía desenvolvimento mental incompleto – disseram as notícias policiais, após ouvidos os irmãos.
Tinha 38 anos quando saltou da torre da igreja, ímpio como o pai nos tempos da mula preta.
26 de maio de 1980.
O FILHO DA SOLITÁRIA
Quando ele voltou, isto é, quando o trouxeram de volta, não o reconheci. Talvez eu já estivesse ficando cega, caduca, velha demais, como diziam. Não, meu filho parecia mesmo outro. Certamente haviam passado muitos anos desde sua partida, pois ele também não me reconheceu. E nem ainda me reconhece.
Com as quatro patas assentadas no chão frio, vive mudo pelos cantos. Eu o aconselho a cantar, de vez que não quer falar. E a correr, já que não deseja andar. Porém ele apenas coaxa e pula, de quando em quando. Como se tivesse medo de estar livre. Resolvo então espantá-lo com a vassoura. Se assim não fizer, a casa pode virar um monturo, cheia de sapos, ratos, bichos de toda espécie. Paro e vejo: ele me olha com resignada profundidade. Depois dá um pulo, outro, mais outro e foge para o quintal. Se me descuido ou quando é noite, está ele novamente no mesmo cantinho, encolhido, os olhos esbugalhados.
No quintal, mete-se na água suja que escorre da lavanderia, na lama formada ao pé do mamoeiro ou no lixo onde se amontoam os restos de comida reservados ao bacorim desaparecido.
Dia desses, a vizinha da direita, ao ouvir aquele remexido na água, pôs a cabeça sobre o muro e perguntou se me haviam devolvido o porco. Enquanto imaginava a resposta, perguntei-lhe se do lado de lá o muro era baixo. Fui buscar um tamborete, porque julguei ter ouvido roncos de porco, explicou-me. A seguir, arregalou os olhos e perguntou: de quem é este sapão? Você está criando ele para engolir cobras? João olhou para a cabeça que falava e deu uns três pulinhos dentro da água. Tive vontade de dizer um desaforo qualquer. Terminei fazendo graça. Eu o queria para apagar brasas. A safada sorriu e disse: deixe de mentira! Ninguém usa mais fogão a lenha nem fogareiro a carvão. E desapareceu. Fiquei apalermada, a olhar para cima do muro. E ainda ouvi a voz risonha e sumida da vizinha gritar: jogue água salgada nas costas dele.
Dias depois, minha vizinha da esquerda veio me perguntar se, na verdade, eu havia resolvido criar batráquios. Ora, que diabo são batráquios? Quando tiver alguma jia grande me avise. Adoro jias.
Hoje me contaram tudo: meu filho esteve numa solitária, acocorado durante não sei quanto tempo.
(26/5/77)
LEGENDA
De pé, José Cristiano, silaque, calça frouxa. Cigarro pela metade no canto esquerdo da boca, sorriso morrendo nos lábios e nos olhos negros. Cabelo meio assanhado, diferentemente dos demais personagens. Bigode a Estaline e as primeiras rugas identificando muito cansaço para tão pouca vida. Contava então 28 anos de idade, por mais que se queira ou se presuma.
Sentada, pernas estiradas e juntas, Maria Virgínia. Vestido decotado e cheio de voltas, espalhado pelo capim, como uma enorme dália. Não completara ainda 23 anos de idade. Sorriso de meio palmo no rosto belo, como se fosse grande demais a felicidade. No entanto, no dia seguinte foi recolhida a um manicômio, em estado de completa loucura, após a morte do marido.
Aninhado nas coxas grossas de Maria, o pequeno César também sorri. Morreria aos 22 anos de idade, ao participar de uma rixa entre marginais num bar. Sua mãe, ao tomar conhecimento do crime, tornou-se santa. Falam da produção de uma bela imagem sua, a ser adorada pelos cristãos da cidade: os Moretis.
Na fotografia, o menino mostra um ar de estupenda admiração. Olha fixamente para a câmera. Veste calça curta azul-turquesa e blusinha justa de gola larga. Os cabelos longos espalhados pela testa e sobre as orelhas, que não se vêem. Calça botinhas pretas e novas, pelo estado.
Depois da morte do pai e da loucura da mãe, César passou aos cuidados de seus avós maternos, por decisão judicial. Apesar da luta dos avós paternos, que alegaram ter sido Maria a causadora direta da morte de Cristiano. Surgiu então a célebre guerra entre Nascimentos e Moretis, de que resultou até agora a morte de mais de vinte pessoas, inclusive mulheres e crianças. A última vítima, provavelmente assassinada por um Nascimento, foi Maria. Aconteceu em agosto do corrente ano, nas dependências do manicômio onde vivia.
César viveu desde criança de rusgas nas ruas. Vez por outra, sua mãe conseguia burlar a vigilância dos carcereiros e saía a procurá-lo pelas ruas e ruelas da cidade. Um dia se encontraram. Ela já velha, feia, desdentada, suja, magra. Ele violento, robusto, entre a adolescência e a velhice. Abraçaram-se e choraram.
— És tu, meu adorado César Augusto?
— Sim, mãe amada.
— E que fazes no mundo?
— Atiro pedras em monumentos, igrejas, cemitérios...
— Por que não atiras nos homens?
— É verdade! Por que não atirar pedras nos homens?
— São os melhores alvos.
— E tu onde estás?
— Estou presa por loucos.
— E por que não foges para mim?
— Não temos para onde ir. Nosso lugar era meu marido e teu pai.
— E para onde ele foi?
— Para o paraíso.
— É verdade?
— Sim, foi para o paraíso, onde habitam as serpentes.
— Irei procurá-lo.
E se despediram, alegres, como nos velhos tempos de mocidade, infância e felicidade.
Ao fundo, a antiga Igreja do Sagrado Coração de Jesus, com suas largas portas abertas. Alguns fiéis voltam para suas casas. Duas velhas de mãos dadas (talvez irmãs), um velho com uma bengala cabo de cabeça de cascavel e outros rostos ainda no interior do templo. No patamar, um carrinho de fazer e vender pipocas e o provável pipoqueiro a coçar o queixo.
Entre as torres, um céu azul como pano de fundo. Nuvens brancas dão idéia de um crocodilo em perseguição a um carneirinho, um elefante e outras diversas figuras decorativas.
Após desembolsar a bagatela de trinta mil réis, José satisfez as insistências de Maria e apareceram na coluna "Society Braziliense", assinada por Miharbi, do jornal “A República”.
Publicada na edição do dia seguinte, 23 de agosto de 1954; traz a seguinte legenda: “Na foto o Sr. José Cristiano do Nascimento, sua digníssima consorte, D. Maria Virgínia Moreti do Nascimento, que comemoraram ontem mais um aniversário de matrimônio, o terceiro do feliz enlace, e o lindíssimo garotinho César Augusto, filho do casal. O jovem par é muito benquisto em nosso grand monde, razão pela qual foi efusivamente cumprimentado durante todo o dia que passou, em sua mansion, localizada no elegante e fidalgo bairro das Flores”.
No dia 24, José, sem nada pagar, foi notícia em diversos jornais. Desta feita, na primeira página e em letras quase descomunais: SUICIDA-SE CRISTIANO DO NASCIMENTO.
(24/08/76)
A LENTA METAMORFOSE DE MENITO BONINO
Menita Bonina habita as ruas, não tem razão nem memória, come lixo, às vezes ri, às vezes chora. Serve de palhaço aos mais divertidos, tem por companheiros cães vadios e perdidos, é motivo de reportagens escandalosas.
— Quantos anos você tem, Menita?
— Não sei, não. Me deixe em paz. Vou dormir e tomar banho. Mamãe está me chamando.
— Você veio de onde? Nasceu aqui mesmo?
— A cegonha me trouxe do céu.
— Você vive nessa vida desde quando?
— É a primeira vez que converso assim. Eu gostava muito de homens e bebida. Agora dei para conversar.
Menita carrega um mundo de doenças. Bebe álcool, fuma, cheira cola. Sobretudo passa muita fome. E sonha com fantasmas. Pai, mãe, irmãos, lobisomens, cegonhas, satanases, deuses, sereias.
Bonina era ainda um botão quando caiu na vida. Entregava-se a todos os tipos de homens: jovens e velhos, magros e gordos, solteiros e casados, gentlemans e brutamontes, sádicos e masoquistas, ébrios e sóbrios, perfumados e fedorentos, ricos e pobres... Nos bordéis construiu sua existência, seus sonhos esfarrapados, suas quimeras impossíveis, seus dias amargos.
O pai de Menita filosofava. Admiravam-no vizinhos, parentes, amigos, companheiros de trabalho. E dizia para sua filha: “cuidado, muito cuidado, com os homens, minha filhinha. Não se aproxime deles. São uns falcões. Fique sempre em casa e estará livre deles”. Bonina nada dizia, nada perguntava, nada contestava. Tinha medo, muito medo. Aprendera a ouvir apenas, a não falar, a não perguntar nunca.
— Minha filha, não faça isso, vá se sentar, vá brincar. Não precisa trabalhar. Menina não precisa trabalhar. Trabalho é para homem.
O professor perguntou ao filósofo se a menina não iria estudar. “Não. Mulher não precisa estudar. Mulher é para viver em casa. Depois casa. E continua em casa”.
Menita nada fazia sozinha. Banhava-a o pai. Vestia-a a babá. Alimentava-a a mãe. Sempre ajudada ou assistida pelo pai, pela mãe, pela babá, pelas tias... “Mãe, ‘tá na hora de me banhar?” “Pai, vem me vestir”.
Assim até sair de casa.
— Fora, imediatamente, cadela, puta, sem-vergonha. Antes que eu te mate. Rua! Rua!
— Mas, pai, não fiz nada demais.
Apesar de tudo, inquietava-se:
— Mãe, como nasci?
— A cegonha trouxe você no bico.
Conselhos não lhe faltavam:
— Minha filha, ande sempre vestida. Nunca fique nua. O diabo pega menina que anda nua. Menos no banheiro. Assim mesmo, longe dos olhos dos outros. Mas enquanto você for pequena, nós podemos ver você nua. Só nós.
Ainda brincava com bonecas, quando conheceu o príncipe encantado.
— Meu anjinho, minha rosa, minha menina bonita, eu te amo muito. Vem, sem medo. Vou ser teu primeiro e único homem.
O berço de Bonina era um luxo. Feito com exclusividade, custou uma fortuna ao filósofo.
— Qual o nome do nosso filho, querido?
— Menito Bonino.
— E se for mulher, que Deus nos livre?!!!
– Não há de ser. Se for, será um castigo. Prefiro que nasça morta.
— Não será pecado isso?
— Pecado será se não nascer menino. De mim só há de sair filho macho.
O BESTIAL CARLOS BAYMA
"Por que muitos que som leterados nom sabem trelladar bem de latim em linguagem, pensei escrever estes avisamentos pera ello necessarios.
Primeiro, conhecer bem a sentença do que há de tornar e poê-la enteiramente, nom mudando, acrecentando, nem minguando algua cousa do que está scripto."
Dom Duarte, Leal Conselheiro
"Se também um homem se ajuntar com animal, será morto; e matarás o animal."
Moisés, Levítico 20.15
Para Umberto, o motor da tragédia de Carlos Bayma foi o livro A Vida Sexual dos Cães, escrito por Alphonse Bragadin, demonólogo francês, tão famoso quanto Jean Bodin, Papus e Joahannes Heidelberg. Sustentava, porém, que a obra, no original, se intitulava La Vie Sexuel des Diables e fora pessimamente traduzida pelo prestigiado tradutor brasileiro Afonso Braga. Mas apesar dos grosseiros erros de tradução, dizia, era fácil concluir que o cão do livro era o demônio, a começar pela frase: "A genitália do cão mede, quando erecta, 66 centímetros, em média". Ora, deduzia, é sabido que o pênis de um cachorro, por mais gigantesco que seja este, com exceção dos mitológicos, não chega a tanto. Por outro lado, ensinava, existe aí uma estranha coincidência numérica, pois 66 é o número total de letras do triângulo cabalístico.
Quando Dionisio relacionou os 18 títulos encontrados na estante da casa de Carlos, Umberto gargalhou e afirmou que o citado número representa, no jogo do bicho, o porco, sendo sabido que a feiticeira Circe transformou em porcos os companheiros de Ulisses, o que demonstra a preocupação do possuidor dos livros com a feitiçaria.
Um destes 18 livros intitulava-se Enciclopédia do Cão, de autoria do demonólogo Zedéquias, homônimo do célebre cabalista que aterrorizou o reino de Pepino, o Breve, ao fazer aparecerem em público alguns regimentos de Silfos.
Não era por acaso que Carlos também tivesse em casa o Iracema – a protagonista da lenda de Alencar era uma feiticeira tupi, uma espécie de Medéia brasílica.
Outro livro que explicava o demonismo de Carlos era o grosso volume Os Dálmatas e a Música, valioso estudo sobre a utilização da música pelos povos primitivos da Dalmácia. Não seria um simples criador de vira-latas, chasqueava, que iria ler um livro desses. A música tem um caráter encantatório e hipnotizador, daí porque o Diabo tem-lhe verdadeiro horror.
Às vezes parecia que Umberto estava esquecendo o livro sobre a vida sexual dos cães. No entanto, nada disso ocorria. Assim, quando a discussão recaiu sobre os sete cachorros de Carlos, perguntou se os mesmos eram chamados Baleia, Tubarão, Piaba e outros nomes comuns entre a população nordestina. Não, chamavam-se Astarote, Samael, Leonarda, Asmodeu, Belial, Lusbela e Berita, todos nomes de demônios, embora três deles feminizados. Tais nomes foram dados após a aquisição do livro, e não é provável, dizia, que um manual de sexologia canina divulgue nomes de demônios. Além do mais, para que maior clareza do que a do trecho: "O diabo Albert Artisson, que aparecia transfigurado ora em homem, ora em gato, ora em cão, mantinha relações sexuais com Alice Kyteler"? E grifava as palavras diabo e cão, dizendo que o tradutor só não confundia demônio com cachorro, a ambos chamando de cão, quando os dois apareciam na mesma frase, como no exemplo dado.
Dionisio, para contestar o rival, servia-se também do livro, citando trechos e mais trechos, como este: "Aubry Nicole, uma menina de 16 anos, quando visitava a tumba de seu pai, foi estuprada por um cão." E perguntava, indignado, como o demônio, que é espírito, segundo dizem, pode estuprar uma mulher, se o estupro é um ato puramente carnal. Umberto ria e chamava Dionisio de maquiavélico. Explicava que os demônios são realmente espíritos, mas que, para travar relações com os animais, têm que se apresentar sob formas animais. Que meditasse sobre esta frase: "O cão que representa a desordem, a pederastia e o vício chama-se Belial e apresenta-se sob forma de um formosíssimo mancebo." Não apenas adquiriam formas semelhantes às dos seres de carne e osso mas até superiores: formosíssimos mancebos e não feíssimos velhotes.
Além do mais, antes de terem tais nomes, os vira-latas eram chamados Faraó, Jubileu, Gaza, Onã, Zorosbabel, Salma e Zera, todos nomes bíblicos, o que evidenciava ter sido Carlos Bayma um homem versado em altos estudos.
Dionisio, por sua vez, dizia que o livro, no original, intitulava-se La Vie Sexuel des Chiens, tendo sido o autor até mesmo Presidente do Kennel Club de Paris. Tratasse a obra de diabos, para que a frase: “Os malefícios são vários, destacando-se o da prática do coito com cães, segundo Jean Bodin”?
Que malefícios eram estes, perguntava Umberto. Logicamente que os malefícios causados ao homem pelo sexo, respondia Dionisio. O outro, porém, explicava que malefício é um ato produzido por voz mágica, não cogitando o autor de simples doença, uma vez que fora um estudioso da magia, além de jurisconsulto. E provava, mostrando seu livro Demonomania dos Feiticeiros. Não pensasse, no entanto, que quisesse dizer que o vocábulo cães da frase tivesse sido maltraduzido. Pelo contrário: fora uma das raras vezes em que Afonso Braga acertara.
Dionisio contava a seu favor o fato de Carlos, homem do sertão cearense, pela origem, embora tendo vivido no Rio de Janeiro, onde a cultura se transforma constantemente, mal conhecedor de assuntos metafísicos, católico romano apenas por tradição, ter fundado sua cultura literária basicamente em manuais caninos (sic), citando-se entre eles a Enciclopédia do Cão, de autoria de um zoólogo de nome nada semelhante a Zedéquias – José da Guia –, e O Cão Em Nossa Casa. Dizia mais que, dos 18 livros encontrados na casa do velho, apenas não se referiam a cães uma Bíblia, o livro mais lido no mundo, até pelos não-cristãos, um Iracema, leitura obrigatória de todo cearense e, por que não dizer, de todo brasileiro, um Mon Livre de Français, que pertencera a seu filho Luís, o qual estudara até a 3a. série ginasial, livro que o motivara a adquirir a Histoire des Chiens, de Rivoil, que pretendia traduzir, valendo-se do pequeno vocabulário francês-português constante de suas páginas finais. O último livro não identificado com o assunto canino era o curioso Os Dálmatas e a Música, para cuja aquisição havia uma explicação: Carlos Bayma sabia da existência da raça de cachorros dálmatas e imaginara tratar o livro, provavelmente, da utilização da música na educação dos dálmatas cães, uma vez que, como o próprio Umberto dizia, até os animais brutos são sensíveis à música. De certo, Carlos tencionava um dia criar cães dálmatas.
Valia-se ainda Dionisio, para provar que Carlos nada tinha com a feitiçaria ou a demonologia, não passando de um lascivo criador de cachorros, do fato de ele domesticar sete exemplares de tal espécie. Ninguém duvide, dizia, de que tanto há mulheres que criam cães para com eles praticar atos libidinosos, como há cães que perseguem mulheres. O próprio livro trata deste tema: “Acusada de manter relações sexuais com um dos vários cães que costumam abusar das mulheres durante o sono, Françoise Bos foi queimada viva no dia 30 de julho de 1607”. Porém, mais uma vez voltava Umberto a vituperar a tradução, dizendo que Dionisio se deixara enganar por ela, pois é fato notório que só um demônio pode manter relação sexual com uma mulher sem que ela acorde, e tais fatos eram corriqueiros na Idade Média.
Havia ainda um grupo formado por Tarcísio, Quincas, Cincinato e Seixas que tinha o livro como mero adereço de toda a história, embora não lhe negassem a existência. Para eles, o tal objeto era peça secundária e até desnecessária para a explicação do fenômeno Carlos Bayma. Devia-se, isto sim, buscar nos cachorros, ou como quisessem chamar aos animais de estimação do velho, a causa motriz do triste acontecimento. Sem eles, explicavam os quatro, o personagem ainda seria um insignificante velho aposentado à espera da morte sem estardalhaço. Diziam ser fútil e vã a polêmica que travavam Umberto e Dionisio. Nada significava ser o livro cabalístico ou canino. Fosse o que fosse, não passava de um inútil alfarrábio carcomido pela traça que servia de deleite a um anônimo criador de cães. Até aí estavam os quatro de pleno acordo. Quando passaram à explicação da tese que defendiam, pareceram inimigos entre si. É que Tarcísio via nos cachorros indefesas vítimas da bestialidade de Carlos. Para ele, o velho fazia de seus sete cães, quer machos, quer fêmeas, objetos de sua tara. Qualificava o personagem de estuprador de cães. Com esta última afirmativa não concordava seu parceiro Quincas, que via no velho apenas um sedutor de cães. Na verdade, explicava este, Carlos enganava os animais com falsas promessas de boa comida e ainda se aproveitava de sua condição de ser superior. E mais: abusava da confiança que os sete quadrúpedes nele depositavam para ludibriá-los.
De quase tudo isso discordavam Cincinato e Seixas. O velho era um tarado, um bestial, um homossexual, um monstro. Mas não era um estuprador. Dizia Cincinato que Carlos Bayma era, pelo contrário, uma espécie de vítima da fúria sexual do cães, que dele se aproveitavam, transformando-o em cachorra. Mísera cadela de rua, diziam. Neste caso as fêmeas agiam como simples espectadoras. Criminosas eram também porque nada faziam para impedir o crime. Bem que poderiam seduzir os de sua espécie, evitando, assim, o aviltamento da humana e da canina.
Seixas arrepiava-se em face de tão horríveis especulações. Não acreditava em bestialidade desse quilate. Acreditava, sim, no amor, que pode ser uma espécie do gênero bestialidade. Carlos Bayma amava desesperadamente os sete cães, assim como estes o amavam acima de tudo. Mas tal amor não ia além da alma. Era platonismo puro. O homem e os cachorros jamais se aviltaram pela carne. Contentavam-se com olhares lânguidos, com suspiros românticos, com frases francesas.
Aproveitando-se das idéias de Seixas, alguém de nome Setembrino ousava dizer que tal amor não era tão platônico assim. Acreditava que o velho bestial se despia e punha-se a desfilar diante dos olhares concupiscentes dos cães, que gemiam e se babavam. Já Oto recriava a cena de outra maneira: o velho não se despia nem desfilava. Pelo contrário, era muito respeitador. Até demais. Pois nem sequer mijava diante dos animais. Desde criança aprendera a virtude do pudor, que chegava a ser excessivo. Assim, fechava os olhos quando se despia para o banho ou quando abria a braguilha para urinar. Acreditava, porém, que nenhum pecado havia no despudor dos outros. Os cães que trepavam no meio das ruas, os casais que se beijavam em público, nada o envergonhava. Seu crime, no caso presente, era permanecer horas a fio olhando os sete cães praticando toda a sorte de sacanagens, numa perfeita sodomia canina. Bem que poderia evitar que os bichos se masturbassem, praticassem atos de pederastia, se ferissem nas práticas sádicas etc. Era, assim, mero espectador.
Nonato não se misturava aos demais nas discussões. Para ele bastava culpar a tudo e a todos da tragédia que feriu os brios de toda a nação. Assim, eram culpados os que aposentaram o velho funcionário, pois se ainda permanecesse na repartição, mesmo cochilando, jamais teria procurado refúgio em casa e, por conseguinte, nos cachorros e no famigerado livro. Culpado também era o próprio Carlos Bayma, que requereu a aposentadoria, aceitou criar a cadela Clara, que viria a ser mãe dos sete cães bestiais, e adquiriu o livro pernicioso. O sexo era outro culpado, o maior de todos, pois sem ele Carlos não teria conspurcado a natureza, ferindo a dignidade das espécies humana e canina, ao misturar seu sangue pensante ao sangue dos sem-razão. Bestial! clamava aos quatro ventos.
O HOMENZINHO ALADO E SUAS LUCUBRAÇÕES
Transformado em pássaro, o homenzinho não conseguia lembrar exatamente o momento em que lhe nasceram asas. E ora repousava nos galhos mais grossos das árvores, ora aproveitava o dia para voar ao lado da passarada miúda.
Decididamente, sua memória não andava em ordem. Talvez em conseqüência da grave transformação física sofrida. Não se lembrava até mesmo se percebera logo a novidade, se sentira medo, alegria ou desespero, se experimentara voar imediatamente após se sentir alado. Recordava apenas de se ter perguntado onde se achavam seus braços, até se convencer da simples conversão deles em asas.
Não conseguia esquecer, no entanto, o momento em que sobrevoava um extenso parque, em vôos rasantes e lentos, como um planador, deliciado com o panorama visto do alto. Avistava uma clareira e sentia vontade de repousar, voltar à terra, pousar no chão. Além do mais, duas figuras minúsculas, talvez presas fáceis para aves de rapina, se mantinham entretidas uma com a outra, sentadas à borda de uma grande pedra.
Feito um bem-te-vi, o homenzinho sustentou-se acima das cabeças das duas criaturas terrestres e, a muito custo, conseguiu reconhecê-las. Sim, podiam ser Eduardo e Batista, dois de seus melhores amigos, companheiros inseparáveis de idéias e ações.
Os dois rapazes conversavam e conversavam, e nem se davam conta da presença daquela figura maiúscula sobre suas cabeças, como uma ameaça. Nada percebiam e nada perceberam, nem mesmo quando o homenzinho alado pousou diante deles e recolheu as asas. Com certeza, não o viam, pois nem sequer se assustaram, nem sequer interromperam a conversa.
Por um minuto, o homem de asas imaginou estarem cegos seus ex-amigos. Sim, talvez não enxergassem mais e só se comunicassem pela fala. E resolveu dirigir-lhes a palavra: "Vocês me viram voando?" Nenhuma resposta. “E como estão vocês aqui na terra?” Nada ouviam, além das próprias vozes. A conversa entre os dois não tinha fim. Falavam de transformações sociais.
O homenzinho não perdeu a paciência. Eduardo e Batista teriam ficado surdos. Não, não podia ser isto. Ora, se fossem surdos, não conversariam um com outro. Mais provavelmente não conseguiam ouvir a sua voz de pássaro humano, talvez baixa demais, talvez excessivamente alta. Sim, os ouvidos deles ouviriam outros sons. Como o bater de asas. Sobretudo asas grandes, como as suas. E pôs-se a bater as asas, como um galo a cantar. Nada cantou, porém. E nem os rapazes notaram o seu esforço.
Decepcionado, dirigiu-se de novo a seus antigos companheiros, agora aos gritos: "Vocês estão perdendo tempo." Encheu os pulmões e voltou a gritar: "Isto não leva a nada, meus amigos." E era como se ninguém estivesse diante deles, como se um micróbio declamasse versos latinos.
Com certeza, Eduardo e Batista não tomavam conhecimento da presença de seu ex-amigo. Ou os ausentes seriam eles? E se os dois não acreditassem na sua existência? Sim, corria um boato segundo o qual ele fora morto. Ou os inexistentes, os mortos seriam os outros dois?
O homenzinho se afastou, a passos lentos, dos rapazes. Continuassem a conversa. Transformassem o mundo, tudo. E não acreditassem nunca na possibilidade da existência de um homem alado. Esquecessem todas as lendas, todos os mitos estudados na escola.
E alçou vôo, deixando para trás o bosque, os antigos amigos, a cidade, e foi pousar num matagal distante, depois de longas horas de vadiação pelo céu. Feito um animal lendário, mitológico.
TRAGÉDIA NO LUPANAR
Cena 1
Mada Madaleva senta-se à mesa, pede coca-cola e se põe a pensar. Aspira o próprio perfume, colorida como uma imensa borboleta. Circunvaga num mundo de esperas inúteis, recorda a infância, a família extinta, o antigo palco onde vivera heroínas de amores trágicos. E faz pose, a imitar moças de revistas. Assim, os homens gostarão tanto dela que serão capazes até de cometer desatinos e crimes terrivelmente passionais.
Cena 2
A mesma Madaleva junto à mesma mesa. Bebe a mesma coca-cola e, lânguida, posa para o doce Miguel Ângelo. Pincéis lambuzam a tela, tintas salpicam o chão infecto. A mão felina do pintor reproduz a saia curta godê, os seios ainda belos, os lábios carnudos, a fronte cismadora, a cachoeira negra dos cabelos ondulados. (Miguel buscara o prostíbulo não para pecar, mas para pintar.)
Cena 3
Passos no tablado do velho casarão. Súbito um pontapé escancara a porta. Madaleva desfaz o sorriso estudado e mostra cara de pavor. Uma nesga de sol tinge o chão. Entra Teófilo, assolado por incontrolável ciúme ou masculina inveja. E faz chover enxofre e fogo sobre o jovem pintor. Tomam conta do ambiente sulfuroso odor e compacta fumaça, como a fumarada de uma fornalha.
Cena 4
O modelo, num exemplo de débil sensibilidade, conversa animadamente com o terrível alquimista, esquecidos da tela, do pintor e do crime. Repetem-se os primeiros momentos da cena anterior. Passos no tablado do velho casarão. Súbito um pontapé escancara a porta. Mada desfaz o sorriso estudado. Nervoso, irado, revólver em punho, assoma ao prostíbulo corpanzil tatuado de sereias, marroquinas e peixes alados. Vasculha toda a casa, urrando.
Madaleva – (Sussurrando) Meu irmão!
Teófilo – (Perplexo) Que quer ele?
Madaleva – Procura o homem que me roubou a virgindade.
Cena 5
O tatuado se aproxima de sua irmã, cospe-lhe no rosto, dá-lhe murros e põe-se a gritar: “Fala a verdade, cadela.”
Enquanto isto, traiçoeiro punhal reluzente penetra-lhe as costas largas. Jorram vermelhos rios das escamas das sereias, dos seios das marroquinas e das barbatasas dos peixes.
Cena 6
Madaleva – Por que assassinaste meu irmão?
Narciso – Agi em legítima defesa.
E abraçam-se, abrasam-se, beijam-se avidamente.
Cena 7
A porta do lupanar abre-se languidamente e uma figura de alta linhagem – imagem fiel de Oscar Wilde – desfaz o idílio, com pausada voz:
– É no cérebro, somente no cérebro, que se cometem os grandes pecados do mundo.
Apagam-se as luzes.
AS CONTAS DE SETIDON
Ao aparecer à porta, Setidon sorria cinicamente, como o fazia sempre. Um olhar de relance apenas, o suficiente para perceber sua presença. Sua inútil e insignificante presença. Logo perceberia nossa indiferença por sua pessoa e se retira ria. Com seu eterno sorriso imotivado. Tal não ocorreu, no entanto. E pior: lançou na direção de nossos pés uma porção de continhas. Jogou e riu ainda mais. O terço, ou rosário, (imaginamos que o estranho objeto fosse um desses instrumentos) deslizou mansamente pelo assoalho e quase parou ao pé da mesa. Tivemos a clara impressão de que iria enganchar-se ali. E a brincadeira de Setidon teria um fim sem graça.
Porém as contas não pararam, foram adiante, umas pela esquerda do pé da mesa, outras pela direita. Logo, o rosário (ou o terço) se partira em dois pedaços. Talvez ao se chocar contra o pé da mesa. Talvez muito antes, noutra brincadeira de Setidon. Ora, nem a cruz havia mais.
Com certeza, Setidon queria fazer raiva a sua mãe, destruindo-lhe o instrumento das rezas repetidas. Ou então nos dar um bom susto, na sua ingenuidade de idiota.
Além de parecer dividido em duas partes e de lhe faltar o crucifixo, o rosário não parava de se mover, arrastava-se pelo chão como um réptil, dando voltas ao redor da mesa e de nos. E só então compreendemos a verdadeira natureza das con¬tas. Não, não se tratava de um rosário de contas, de um objeto, mas de um ser vivo.
Apavorados, olhamos para Setidon. Seu sorriso parecia perverso no seu rosto de idiota. E se pôs a dar gargalhadas. Sim, ele sabia a verdade. Sabia também de nosso imenso pavor.
Depois de dançar a valsa macabra por toda a sala, o bicho de contas se aproximou de nossos pés. Instintivamente, os levantamos. Setidon só faltava morrer de rir. Quando cuidei, as contas subiam por uma das pernas de minha cadeira. Dei um grito e corri. E o mesmo fez Posesa.
Corríamos em círculo pela pequena sala, a tropeçar nos móveis, bater nas paredes, tontos. Atrás de nós corria o bicho. Parecia uma enorme aranha, feita de partículas redondas como as contas negras de um terço.
Passados alguns minutos, o animal parou a um canto, possivelmente cansado da correria. Aproveitamos o intervalo (ele voltaria a nos perseguir, com certeza) para exigir explicações de Setidon. Afinal, aquilo era um ser vivo ou apenas um objeto animado? Deixasse de brincadeiras de mau gosto. O idiota, no entanto, não parava de rir, postado à porta, e na¬da dizia.
Enquanto eu procurava dialogar com o inimigo, Posesa sentou-se à janela e, num átimo, desapareceu, para logo rea¬parecer, de vassoura em punho. Setidon ainda tentou impedir o gesto fatal de Posesa. De um só golpe, ela espalhou as contas por toda a sala.
Liberto do medo, apressei-me a colher uma das continhas. O bicho não mais existia, desmanchara-se.
Armada, Posesa postou-se frente a Setidon. Ousasse enfrentá-la, reunir as contas. Fosse homem. Ele recuou, os olhos fitos nas partículas negras espalhadas pelo chão.
De posse de uma continha, examinei-a com os cinco sentidos. Nada de vida, de matéria orgânica. Uma simples conta de rosário. E me pus a rir, a pisar as bolinhas negras, vitorioso. Setidon, então, se deu conta do desastre e caiu em lamentações: vocês mataram minhas contas, vocês mataram minhas continhas! Exasperei-me. Como podíamos matar um simples objeto, um amontoado de partículas sem vida? Criasse juízo, deixasse de idiotices.
Posesa varria as contas para fora da sala, despreocupa¬da, a cantarolar uma canção antiga. Precisava limpar a casa. Ao varrê-las, no entanto, as reunia, inconsciente. E, ao reuni-las, dava-lhes de novo vida. Sim, juntas as continhas fugiram ao controle da vassoura e rapidamente deslizaram, co¬mo um réptil. “Mate o bicho”, gritei, mais uma vez apavorado, enquanto subia a uma cadeira.
Setidon voltou a sorrir e depois a gargalhar. E, não fosse a coragem de Posesa, seu riso idiota nos dominaria. Uma segunda vassourada espalhou pela sala as continhas.
(06/02/76 e 10/11/87)
(Continua)