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A Guerra da Donzela (3)

(Continuação)

CAPÍTULO IX


A carreira desenfreada do regimento virou história do arco-da-velha desde o seu primeiro momento. Narrou o capítulo inicial um cabrinha barrigudo, franzino, andado aí pela casa dos doze anos de idade, morador nas terras dos Jesuítas. Voltava para casa, capiongo, baladeira dependurada no pescoço. Ouviu para os lados da Gruta um estrupício como o de cavalos desembestados. Escondeu-se no meio de umas carnaúbas e assuntou. Partiam na sua direção. Espiou no rumo de onde vinha a zoada e quando viu foi aquele bicho danado de ligeiro a correr sobre um bocadão de patas e carregar em cima do lombo outra porção de cabeças, sistema de um embuá-gigante. Mais tarde lembrou-se das histórias contadas por sua avó e reconheceu o engano: a marmota tinha pauta com dragão e não com piolho-de-cobra sem tamanho. Espantava os bichos da noite e derrubava o mato por onde passava.
Diante do pai afobado, relho à mão, não vou criar filho lambanceiro, jurava pela gota-serena ser tudo verdade. Não estava tresvariando.
– Mulher, esse menino comeu manga com febre?
Quando os jesuítas contaram o segundo capítulo, passaram a dar ouvidos ao bichinho.
Descreveram os padres terem ouvido ao longe uma espécie de trovoada ou de avalanche, embora não fosse tempo de chuva grossa. Descrentes de superstições, em nenhum momento pensaram em assombração, mas unicamente em rebuliço da natureza, tal como tremor de terra, coisa já acontecida na Serra em tempos passados. Alertados, correram a acender todas as lâmpadas, para facilitar uma eventual fuga, em caso de desabamento do velho prédio. Benziam-se, rezavam, pediam a proteção de todos os santos do céu, trêmulos de pavor.
– Vamos sair daqui enquanto é tempo.
Nisso, um deles, postado a uma janela, gritou, alegre. Gente descia a serra. Ajuntaram-se todos ao que gritava e avistaram aquela fileira de homens na carreira. Pareceu-lhes irem uns no encalço de outros, o primeiro perseguido pelo segundo, este pelo terceiro, todos perseguidos e perseguidores. Ia à frente o mesmo que à tardinha andou em desavença com um gato dentro da Escola – afirmava um jovem religioso. Outro reconheceu logo na figura voadora que pisava os calcanhares do prefeito seu bruto interrogador.
Passado o susto, caíram em gargalhadas mal contidas, sem atinar com o motivo daquela estripulia. Na certa fugiam de alguma onça. Para uns, aqueles bárbaros não eram caçadores de bandido coisa nenhuma. Magote de malucos fugidos de algum asilo. Quanto a serem isto ou aquilo, estiveram quase de acordo. Briga feia surgiu ao tentarem descrever as figuras que lhes deixaram os corredores. Tudo começou quando um dos sacerdotes utilizou uma imagem confusa para expressar sua visão. Para ele os estranhos iam tão ligeiros que alguns pareciam percorrer o mesmo espaço ao mesmo tempo, cabeças, troncos e membros confundidos, como se fossem transparentes. Daí ser impossível determinar o número exato deles.
Acusaram o narrador de empregar a linguagem dos hereges. Depois, de pregar as idéias dos feiticeiros. Acalmados por um ex-professor de aritmética, voltaram-se para a segunda questão levantada pelo que se dizia incapacitado de afirmar a quantidade dos corredores. Caíram nos cálculos, lápis e papel à mão.
– Contei vinte, juro.
Vinha outro e dizia serem dezessete. Os palpites iam de vinte e quatro a dois. Um pilheriava e afirmava ter visto duzentos e dezenove dedos. O último a se manifestar disse ter visto apenas um animal monstruoso a correr ou flutuar, não sabia precisar.
– Então você concorda com a transparência das pessoas?
Não, não tinha visto uma multidão de homens, mas um único ser, espécie de polvo dos matos. Algum ente da mitologia cariri.
Inicialmente admoestado pelo superior para não se deixar levar pela fantasia, o clérigo terminou ameaçado de excomunhão por também difundir heresias.
A discussão varou a noite, e de madrugada saíram pela estrada e seguiram os rastos deixados pelo suposto monstro. Além das marcas dos pés no chão, encontraram uma variedade de armas, molambos, clarins, trombones, calçados, gotas de sangue, dentaduras, cabelos, afora pedaços de coisas não identificadas.
Moradores da beira do caminho entre a Escola e Palma também contavam episódios dessa história. Um deles jantava quando ouviu um tropel na estrada. Assuntou e concluiu não ser bralha, nem galope nem trote. Nenhuma andadura de animal montado nem desmontado. Parecia passo de lobisomem. Mas não era sexta-feira. Pegou a lamparina e saiu ao terreiro. Nesse instante o homem ou bicho desequilibrou-se e foi de ventas ao chão. O matuto correu na intenção de adjutorar o vivente. Mas eis o coitado se levantou e desapareceu na escuridão.
– O que foi, Raimundo?
Debaixo do jirau, o homem contou à mulher que acabava de ter uma visagem.
– Se o esprito não me engana, era um padre de batina esmolambada ou quando muito uma mulher de luto.
A moradora fez o pelo-sinal três vezes seguidas, en¬quanto o homem voltava a meter a mão na cuia e a fazer conjecturas.
– Será o esprito do padre Redondo?
Porém quem tinha autoridade para contar a história tal como ela havia acontecido eram os seus protagonistas. Apesar disso, mesmo nas horas e dias seguintes muitos omitiram e até negaram alguns episódios. Assim, tenente Bezerra, que uma semana depois pediu transferência para uma cidadezinha do Maranhão e nunca mais deu a cor de si, relembrava: ao parar para descansar, nas proximidades do Poço da Moça, viu passar João Alencar montado num bode preto. Este, que talhou os punhos com uma faca de cortar couro, uns cinco meses depois, babava-se de raiva quando lhe perguntavam se tal havia sucedido. Amofinava-se aos poucos, amoitado numa rede, malacafento, resmunguento, a sapataria entregue às moscas. Tinha, porém, seu pedaço de história a contar também: o sacristão carregou no tuntum o vigário durante mais de meia hora.
Padre Queiroz regressou à cidade lá pela meia-noite. E até o momento de deixar a paróquia em completo abandono, três dias depois, sem sequer avisar aos seus paroquianos, não deu uma palavra, nem mesmo a Maria da Cunha, que não o largava nem por um minuto.
– Foi ser garimpeiro em Goiás.
O sacristão entregou-se à cachaça. Bebia no meio da rua com os bêbados mais conhecidos de Palma. Erguia o copo com as duas mãos, como se fosse um cálice de vinho, e misturava o latim decorado da missa com o mais baixo calão falado no cabaré de Ana Souto. Nos seus últimos dias de delírio passava o tempo todo a correr nu ao redor da Matriz, fugindo das aranhas gigantescas em que se transformou o vigário. Até que um dia o encontraram coberto de teias de aranha no patamar da igreja, a boca escancarada, num riso sinistro.
Lima dizia ter visto Luiz Caracas passar à altura das mangueiras, pendurado nas pernas de um urubu, e pedir socorro. Não podia ver uma dessas aves, corria no seu encalço, jogava pedras e gritava, como se o alfaiate estivesse sendo seqüestrado.
– Calma, Seu Luiz, eu vou salvar o senhor.
Mais um que desapareceu como por encanto, para nunca mais se ter dele notícias em Palma.
Corriam muitas e variadas histórias sem pé nem cabeça. De tudo resultaram discussões, pequenas brigas e até as verdadeiras guerras entre famílias.
Numa delas morreram cabo Jacó, então como delegado interino, e Franco Abreu, já rompido com Iracema. Dizia o estudante, fazendo mangofa, que o militar só conseguiu chegar à cidade porque se utilizou de umas pernas-de-pau. A molecada passou então a chamar o cabo de varapau, galalau, perna de légua-e-meia e outros tantos apelidos. Sabedor da origem do boato, foi tomar satisfações com o filho de Luiz Abreu. Conversa vai, conversa vem, amarraram as pontas das camisas de um na do outro e se esfaquearam até a morte.
Maestro Permínio também esticou as canelas com pouco tempo. Nada contribuiu para a história da carreira. Chegou à cidade na madrugada seguinte, esbaforido e esfarrapado, foi direto à sua casa, onde encontrou a mulher e os filhos derretidos em choro. Perguntado sobre seu estado, nada disse. E nunca mais conseguiu falar, exceto no último dia. Deu um berro estupendo, retorceu-se na rede, grelou os olhos e finou-se. A palavra berrada foi pretoré, que uns estudiosos em visita a Palma disseram significar “mentiroso” na língua dos extintos índios cariris.
Tal como o vigário, Carlos Ramos também nada contou. Nem apareceu como personagem de nenhum episódio narrado. Ao regressar da atribulada andança, igualmente maltrapilho, ferido e morto de cansaço, tomou banho e foi dormir. De madrugada acordou com os novos incidentes e dirigiu-se à casa de Thaumaturgo, onde esperou que o dia raiasse. De lá mesmo foi embora, sem uma palavra à família e aos amigos.
– Foi para o Acre.
O capítulo mais delirante mostrava o aparecimento de Gorjala. O povo de Palma acreditava nesse trecho da história porque contado por quase todos os integrantes do Batalhão e não desmentido por nenhum. Mas o povo da Serra, sem se falar nos jesuítas, ria disso. Não podia ter acontecido, porque por lá nunca apareceram gigantes dessa natureza. Quando muito, caiporas, lobisomens e outras visagens de menor porte.
Quem primeiro o avistou foi tenente Bezerra e disso se pabulava. Ocorreu depois do caso do bode de João Alencar, quando novamente tomou a dianteira de todos. Não dizia se ao passar de novo pelo sapateiro este ainda ia montado. O certo é que viu aquele homão de cócoras, no meio do caminho. Parou, recuou, fez estacar um a um os que vinham na carreira. A Luiz Caracas teve que puxar pelo pé, senão o alfaiate ia virar assado nas mãos do gigante. Tal detalhe, assim narrado, enchia Lima de satisfação.
– Estão vendo como não minto!?
A cabo Jacó derrubou com uma rasteira, para evitar que o coitado fosse servir de repasto ao comilão. E assim, empregando a força bruta contra os companheiros desavisados, impediu uma carnificina. Pois o bicho devorou um boi, misturado com baião-de-dois, enquanto os guerreiros pastoravam de longe, sem coragem de seguir caminho.
– Vamos entrar no mato.
Mas estava escuro que nem breu e podiam se perder ou cair em algum barranco. Tinham que engabelar o gigante e escapar de mais aquele perigo. Enquanto cochichavam, o homão enchia a pança, metendo a mão no tachão de arroz-com-feijão e roendo os ossos do boi. Assim que levasse à boca o último bocado, deviam correr, passando às suas costas. Não ia se engasgar nem jogar fora a comida.
Dito e feito. Ao pressenti-los, porém, Gorjala ficou brabo, estendeu a mão livre e a coisa ficou preta para o lado dos batorés. Por sorte não foram esmigalhados. Em seguida, levantou-se e arremessou a cabeça do boi, que passou zoando sobre os fugitivos. Depois deu uma passada e o dedão do pé caiu pertinho de João Alencar, que ia na rabada.
– Escapou fedendo.
Deu outra, mas já não havia perigo.
Lá na frente pararam e não viram mais nem sinal de Gorjala.
– Um arigó!


CAPÍTULO X


Soaram oito badaladas no relógio da Matriz. Na calçada da ruazinha que continuava o caminho do Olho D’água uma e outra pessoa sentadas em cadeiras de balanço. Aqui e ali, meninos brincavam de manja no meio do calçamento de pedra bruta, corriam e gritavam. Sombra apareceu trambecando como um cachaceiro, perseguido por vira-latas barulhentos. Tudo escuro no quarteirão da Delegacia. Não encontrou vivalma ate chegar ao oitão do sobrado do doutor João Forte, a não ser um jumento que comia capim. Desceu pela XV de Novembro iluminada e mais movimentada. Ia cabano, vagaroso, nem parecia o Sombra espigaitado de todos os dias. Defronte da casa de Luiz Abreu, olhou de viés a sala vazia. De dentro vinha a fala afobada do comerciante. Seguiu rua abaixo, trôpego. Dobrou a esquina da Pharmacia Brazil e rumou na direção do Café Progresso. Uma figura estranha, molambuda, suja, irreconhecível.
– Será o Zé do Cachimbo?
No batente da primeira porta do café arriou, sentou-se pesadamente.
– Olhem só quem é!
Curiosos acorreram em seu socorro. Pediram água, que logo trouxeram. E ajudaram Sombra a bebê-la, prestativos. Chegaram outros, perguntando se estava ferido.
– Morreu?
Melhorou, agradeceu e fez um esforço danado para se erguer.
– Não é nada, minha gente.
Aconselharam-no a permanecer no batente. Descansasse, ficasse quieto. Deram-lhe um conhaque. Era bom para o nervoso e a fadiga. Criava cor, se ajeitava, perdia a moleza. Carregaram-no para dentro do café. Puxaram uma cadeira, apressados.
– Arredem, o homem está agoniado.
Mensageiros se encarregaram de espalhar a notícia de sua chegada. Mais com pouco o café se enchia de gente. Queriam saber logo notícias dos demais componentes do Regimento, do resultado da caçada. Todo mundo fazia perguntas, no maior alvoroço.
– Pegaram o bandido?
Sombra apenas fazia gestos, indicando estar muito cansado e ainda não poder falar direito. O povo começava a se impacientar e a fazer caçoadas.
– Deixe de paleio, homem.
Chegava gente de toda parte, até quem nunca parava para tomar um cafezinho. Ana Souto, que mal aparecia em dia de feira, estava lá com todo o seu pessoal, todas muito pintadas e perfumadas. Tiravam prosa com um e com outro, riam pra lá e pra cá.
– Trouxeram a moça?
Perdigão tresvariava, perguntava se doutor João Forte era prefeito de novo.
Lutécio Freitas se misturava aos fumantes e às mulheres decotadas, queria saber das novidades mundanas.
Enquanto Sombra permanecia sentado e calado, a multidão falava em desgraça, tinha havido um fuzuê medonho, Sombra tinha sido o único a cair no bredo. Bem diziam que aquilo não ia dar certo, era melhor mexer em casa de maribondo, e isso mais aquilo.
De repente a multidão se alvoroçou, houve empurrões, gritos, nomes feios, todos querendo chegar mais perto de Sombra.
– Ele está contando.
O começo da história ninguém chegou a ouvir, tal a zoada e a fraqueza da voz do narrador. Logo, porém, todos silenciaram e se acomodaram em seus lugares, ao mesmo tempo em que Sombra alteava a voz, fortalecido pelo conhaque e pelo cheiro do povo. Aos ouvidos da multidão chegava o capítulo de quando os perseguidos inventaram de se meter numa caverna, enquanto o Batalhão do lado de fora mandava bala. Gastavam a munição à-toa – Jucá e seu bando estavam longe, sumidos den¬tro do buraco, feito tatus. Então Sombra passou ao comando da tropa e invadiu a loca. Uma escuridão de se meter dedo no olho. Um silêncio de se ouvir até as batidas do coração. E nem notícia dos encapetados. Parecia que haviam atravessado a terra no rumo do Japão. De repente uma chuva de pedras e flechas, acompanhada de uma gritaria dos infernos, caiu sobre os perseguidores do raptor. Grudaram-se todos às paredes de pedra, acostumaram as vistas à escuridão e distinguiram vultos.
Mais tarde, quando já viam tão bem como se estivessem debaixo do sol, notaram que os agressores estavam nus, pintados de jenipapo, e usavam arcos e flechas. O combate durou um bom tempo, sem baixas nem de um lado nem do outro. Houve uma trégua, só quebrada com o surgimento de uma enorme burra preta, que partiu para cima dos pracianos, dando patadas de fazer faísca nas pedras. Bicho igual àquele não existia em cima da terra. As balas batiam no couro da danada e deslizavam. A salvação foi o chiqueirador de Sombra. Com duas ou três lamboradas no focinho, saiu se torcendo, relinhando e escapuliu.
Em seu lugar apareceu um casal de bicho de pena, um galo e uma galinha do tope de uma ema cada um. O macho tinha uma crista que dava para fazer um almoço. O bicão parecia uma tesoura de aparar benjamim. Acertou uma bicorada no chão que abriu um buraco do tamanho de uma cacimba. Até minou água. Cada esporão assim como um facão. Chegou a rachar pedras, como se fosse faca cortando queijo. Dava cada cucurico de fazer a terra estremecer.
A diaba da galinha, uma pedrês bonitona, não ficava para trás. Ajudava o marido na anarquia, cacarejava feito uma doida, batia as asas para provocar ventania, queria bicar os olhos dos infelizes. Porém estes se batiam como pracinhas, sem ligar para regulamentos de guerra, dente por dente, olho por olho. José Sampaio tacava a tesoura e voava pena para todos os lados. O Batalhão inteiro empenhado na briga.
Quando o casal de galiformes viu que não podia mesmo com a força humana, apelou para a covardia e saiu com presepada de moleque. A pedrês abriu as pernas, se abaixou e pôs um ovão do tamanho de uma jaca, que rolou, rolou e foi se quebrar aos pés dos guerreiros. E pelo chão se espalhou aquela baba branca misturada a uma pasta amarela. Os pracianos tentavam não se sujar, pulavam, recuavam, mas em vão, porque às suas costas se erguiam as rochas. Corriam e terminavam escorregando e se esborrachavam no chão tornado liso, como matutos pisando em mosaico encerado. O prefeito foi o primeiro a ficar todo lambuzado de clara e gema, pintado aqui de branco, ali de amarelo. Foi ainda o último a deixar de patinar no chão, na tentativa de se levantar e buscar refúgio detrás das pedras. Assim mesmo, nem sequer saiu ferido das flechas, que batiam em seu corpo e deslizavam. O tiro saía pela culatra – o ovo servia de couraça. E Thaumaturgo de cobaia. Pois logo os demais caíram de propósito na lama colorida, feito porcos. A inhaca que impregnou seus corpos, porém, era de matar gambá de vergonha.
Descoberto o estratagema do inimigo, mandaram os habitantes da caverna três jumentos partir para cima dos invasores, então igualmente pintados, embora não de jenipapo. Os tais asnos eram umas feras de danados, semelhavam a burra preta do começo da peleja. Davam patadas de arrancar xaboque das pedras, pulavam feito macacos da moléstia.
A salvação do Regimento foi ainda o ovo da galinha, que prestou também para dar umas quedas nos jumentos. Aproveitaram-se da situação os perseguidores de Antonio Jucá – montaram nos bichos, cinco em cada um, e galoparam para os fundos da gruta, em perseguição aos selvagens, que correram entupigaitados.
Não durou muito a cavalgada porque os fugitivos se encantaram enquanto o diabo esfregava o olho. Difícil foi sofrear os jumentos. Não queriam mais parar, embarafustavam-se pelos corredores. E só pararam porque deram com os focinhos numa pedra, em região mais escura do que a escuridão.
Os cavaleiros se desapearam e pegaram olhar para ver se descobriam o caminho de volta. Saíram tateando e mais com pouco enxergaram o buraco pardo da entrada. De índio nem sinal. Aquele silêncio danado. Aquela calma besta. Sombra pôs-se a fazer pagode, dizia que aquilo era brincadeira de menina feme. Porém mal fechou a boca, lá apareceram dois gigantes de barba branca. Primeiro deram uma risada de estrondar. Depois partiram para cima dos pererecas, que se meteram entre as pernonas. Franco teve então a idéia de enfiar uma agulha de costurar saco no tendão de Aquiles de um deles. Foi tiro e queda. O bichão deu um berro tremendo e se envergou. O outro, enquanto tentava ajudar o companheiro, levou uns dez tiros nos olhos e saiu gritando, feito um doido, a cara toda vermelha, dizendo ai meus olhos, ai meus olhos.
Os heróicos caçadores de Jucá ficaram de molho um tempão. Riam da presepada, sentados em cima do gigante morto.
Quando menos esperavam, viram um cururuzão que vinha pulando no rumo deles. E a tropa, em tempo de causar um desmantelo maior, empurrava a parede de pedra com as costas. Vendo que estavam encantoados, sem ter para onde fugir, o sapo parou, inchou, parecia que ia estourar, arregalou os olhos e deu uma mijada que inundou tudo. Os homens ficaram nadando, até que conseguiram subir a umas pedras. Quando cuidaram, o cururu se debatia na lama. O aguaceiro tinha descido para o interior da gruta. Como, então, iam pular da pedra, o chão lá embaixo? Porém o inimigo principal não se encontra¬va na altura. Decidiram cuidar logo do animal, que podia até provocar um dilúvio. Sendo bicho de se dar com água, ia até achar graça daquilo. Mas antes que preparasse outra mijada, os pracianos sapecaram bala no couro do desgraçado, que estourou de uma vez. Foi pedaço de cururu para tudo quanto era lado. Uma catinga espritada se espalhou pela caverna.
Porém pode não ter saído do sapo. E pode ter sido também uma mistura de duas catingas, pois mal as balas partiram lá apareceu uma onça. Daquele tamanho só nas lorotas do povo antigo. Um despotismo de onça. A desgraça dela, no entanto, foi ver carne em demasia. Os tiros dados no sapo ecoavam e já os palmenses varavam o couro da pintada, que deu um rugido de estrondar na Serra toda. Morta ou não, pularam de uma vez sobre a bicha, que lhes amorteceu a queda. Sem perda de tempo, a pedido de João Alencar, tiraram o couro precioso, que dava para fazer sapatos para toda Palma. O serviço ficou pela metade porque apareceu um porcão preto, aos roncos, e levou tudo de roldão. Mas, como os pracianos se achavam de sangue quente, foi fácil derrubá-lo. Em seguida, o sangraram e se puseram a esquartejá-lo. Diziam tratar-se de um porco encantado que escapuliu do chiqueiro dos Jesuítas e se agigantou pelo convívio com os outros monstros da gruta. Mas os da criação dos padres não chegavam a dois metros de altura. E a janta não passou de desejo.
De água na boca, tiveram que dar combate a uma praga de formigas pretas que surgiam das locas atraídas pelo sangueirão que ensopava o chão. Fossem formigas de roça, os combatentes tinham se empanzinado com carne de porco. O diabo é que pareciam preás. O Batalhão inteiro suou para dar fim ao formigueiro, que valia por um exército. Era facãozada de fazer cabeça rolar. E carne para encher a pança de mil gulosos de paçoca.
Acabada a brincadeira dos bichos, voltaram os donos da gruta e a guerra de verdade começou. À frente vinha Antonio Jucá, um cabra mal-encarado, xabouqueirão, topetudo. Os outros todos do mesmo naipe. Umas cobras de chifre. Mandavam flechadas de lá e os palmenses respondiam com bala.
– Quem morreu dos nossos?
Sombra não notava a presença do povo, nem lhe dava ouvidos. Continuava discursando, os olhos faiscando, a voz esquisita, contando detalhes de uma carnificina. A multidão pôs-se então a gritar, exigia o fim da história: quem havia morrido, quem havia saído ferido, quem havia escapado... O orador, ameaçado, despertou e interrompeu a epopéia para dizer que, em dado momento da batalha, se viu cercado por um magote de selvagens irados e por um triz escapuliu e não teve mais notícias dos companheiros.
– Covarde!
De repente, como se estivesse surdo às ameaças e aos insultos, Sombra voltou ao princípio da história. A multidão se calou, embasbacada. O homem não dava explicações para sua atitude covarde e ainda tinha a petulância de começar tudo de novo – aquela história para boi dormir.
– Parece que ficou zuruó.
Mais de nove horas da noite e Sombra trepado à mesa, contando de novo a história. O povo começava a ir embora, atordoado, cochichando.
– Aqui pra nós, mas parece que ele não está girando bem, não.


CAPÍTULO XI


A história fabulosa da guerra subterrânea foi tida logo como produto de tresvario de Sombra. Segundo a estimativa feita pelo Dr. Osvaldo de Menezes, contaram-na seis vezes seguidas, só naquela primeira noite. O médico fazia o diagnóstico da doença mental que tinha se abatido sobre Sombra, citava Freud a torto e a direito, manuseava a patologia ao seu bel-prazer, fazia uma salada de termos que iam de abulia a paranóia. Depois, à medida que desapareceram alguns personagens, a história adquiriu foros de verdade incontestável, o povo cada vez dava mais crença a Sombra, apesar de sua visível alienação. Assim, ao desaparecer o primeiro, morto em combate, segundo a história, o povo passou a dizer que quem apareceu foi sua alma. Tal idéia recebeu, de pronto, o repúdio da mulher do desaparecido. Possessa, saía às ruas para esculhambar o povo por se deixar levar pelas maluquices de Sombra.
Mais tarde, com o desaparecimento de padre Queiroz, de tenente Bezerra e de Lima, a mulher do açougueiro se juntou ao resto da cidade na crença em Sombra.
– Homem que não mente está aí.
E Sombra continuava de tramela solta, falando à-toa, repetindo a história dia e noite.
Como explicar, porém, que uma alma se suicide, outra fique muda e duas mais se esfaqueiem no meio da rua? Para Som¬bra não havia explicação a dar. Se lhe faziam tais perguntas, respondia com a ladainha de sempre: então os fugitivos inventaram de se meter numa caverna...
O médico voltava a ser consultado, cheio de sabedoria, para cima e para baixo com uma vida de Sigmund Freud debaixo do sovaco. O povo queria saber o que induz uma alma ao suicídio. Dr. Osvaldo socava os óculos na cara, fungava, abria a vida do mestre e sapecava psicanálise de pé de pote nos ouvidos do povo embasbacado. Inventava teorias escalafobéticas para falar do suicídio das almas.
Palma se enchia de curiosos. Queriam ver de perto a comunidade inteira que, de uma hora para outra, havia enlouquecido, segundo espalhavam pelo mundo jornais escandalosos. Revistas do Rio e de São Paulo e até do estrangeiro publicavam extensas e ilustradas reportagens sobre a loucura coletiva que tomou conta da cidade. Elevaram Sombra à categoria de apóstolo de uma horrorosa seita, comparado a Antonio Ferreira, Conselheiro, padre Cícero e beato Lourenço. Colocaram no mesmo nível Palma, Pedra Bonita, Canudos, Juazeiro e Caldeirão.
Quiseram saber da boca de Sombra o caso do gigante Gorjala. Mas disso ele nunca falou, sempre fiel ao texto original de sua história. Decerto, gigante de tamanho porte não cabia dentro da gruta. Perguntado sobre a questão, desatava a contar tintim por tintim o que todos já sabiam de cor e salteado.
Quando cabo Jacó e Franco Abreu se mataram, a cidade inteira se voltou contra Sombra. Acusado de ser o causador desta e de outras desgraças, tornou-se herege, pior do que Lutécio e todos os bodes do mundo, por ter expulsado o vigário da cidade; inimigo da música, por ter emudecido para sempre maestro Permínio; desordeiro, por ter destruído a força pública. Diziam cobras e lagartos daquele que ajudou muito vereador a ser prefeito, muito prefeito a ser deputado. Salvou-o do linchamento o Dr. Osvaldo de Menezes, que o internou no Asilo de Parangaba.
Na mesma época, foi nomeado um interventor para a cidade, cujo primeiro ato foi proibir que se pronunciassem certas palavras, como Sombra, guerra, batalhão, regimento, donzela, rapto, gruta, monstro, todas, enfim, que relembrassem o passado.
O povo, por muito tempo, viveu em paz e esquecido da língua.



CAPÍTULO XII


A barra do dia ainda não tinha clareado e já uma multidão de aglomerava entre as praças do Rosário e do Correio.
Parecia dia de feira, a cidade se enchia de gente vinda dos arrabaldes e dos sítios dos arredores. No miolo estavam os habitantes das ruas centrais e informavam aos que chegavam detalhes do acontecido. E todos queriam, aos empurrões, se aproximar mais da casa do morto, onde a viúva e os filhos davam berros escandalosos.
Corria de boca em boca a história seguinte: lá pelas três da madrugada, quando os galos ainda nem sonhavam cantar, todas as luzes da cidade se apagaram. Fosse só por isso, Palma ainda estava embiocada nas redes, com exceção de Xavier, Sombra e Perdigão. Informava o guarda-noturno: dirigia-se à Praça da Matriz, passando pela calçada do sobrado de Dr. João Forte, e então tudo escureceu. Sombra recontava a majestosa luta entre palmenses e monstros, imune às perguntas feitas pelas mulheres estarrecidas. Iracema, por exemplo, queria saber se Franco também escorregou no ovo. O terceiro dizia estar sentado num banco da Praça do Rosário, pensando na demência de Sombra, no momento em que a treva caiu sobre Palma.
Em seguida ouviu-se um tropel de cavalos vindo dos lados do Olho Dágua. Pisou a Rua da Delegacia, cruzou a Praça do Rosário e seguiu pela 7 de Setembro.
Porém havia contradição em um trecho da história: para os policiais esse tropel era provocado por uma cavalaria composta de uns vinte cavalos montados em pêlo por elegantes cavaleiros nus enfeitados de arcos e flechas.
Tal versão sofria pequenas modificações nas bocas de Franco e José Castello: em vez de nus, os selvagens mais pareciam bichos de pena, enfeitados de todas as cores. Já outros, como o Dr. João Forte, o Dr. Osvaldo de Menezes, Maria da Cunha, Patrício, Luiz Abreu, Perdigão e Xavier, mencionavam animais de sela cavalgados por uns dez homens vestidos à moda de cangaceiros.
O dentista defendia com entusiasmo a tese indígena. Referia-se a gritos, atraindo para si todas as atenções. Combatia-o, com igual ardor, o médico. Dizia ser impossível a existência de índios no Ceará.
– Isso aqui não é o Amazonas, não.
José Castello fundamentava sua retórica com informações históricas e antropológicas.
– Vocês já ouviram falar dos paiacus?
E ensinava: outrora os tais selvagens habitavam o espaço geográfico compreendido entre os rios Choró e Pirangi e na rebelião de 1713 se comportaram como os mais terríveis inimigos dos brancos.
– Lá vem você com suas pré-histórias.
Dr. Osvaldo, assessorado por Luiz Abreu, rebatia a hipótese do dentista e relembrava Lampião.
O povo se acercava dos debatedores e a notícia da refrega chegava aos extremos da multidão alarmada.
– Lampião voltou?!
Logo os dois partidos se insultavam. Alegava um que falava e provava, pois esteve na boca da gruta onde habitavam os remanescentes das antigas tribos.
– Enquanto vocês morriam de medo em casa.
O outro revidava, chocalhava e se referia à história de Sombra.
– De que tamanho era o cururu mesmo?
Na casa do morto, a viúva contava, entre soluços, detalhes da tragédia, enquanto aguardavam o caixão e o padre.
Primeiro foram leves pancadas na porta da rua, que acordariam o casal e os filhos. Fora, cavalos resfolgavam e pisoteavam o calçamento. Logo, uma voz desconhecida dizia: “Abra a porta, papai." O dono da casa despertou de todo, armou-se de um revólver, mandou que a mulher e os filhos permanecessem deitados e dirigiu-se à sala. De fora a mesma voz impunha: “Abra a porta, papai.” Pelo buraco da fechadu¬ra o homem viu a rua e atirou. No mesmo instante a porta se escancarou, a casa foi invadida por um bando de homens armados e um grito medonho se misturou a um vozerio de pragas. A mulher e os filhos correram à sala e só encontraram o corpo do dono da casa estendido no chão, coberto de sangue, a trouxa encarnada metida na boca.
– Coitado do Thaumaturgo!
Brasília, 1979.