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A Guerra da Donzela (2)

(Continuação)

CAPÍTULO V


A banda espalhou acordes marciais do coreto da Praça de Santa Luzia e despertou os galos e o sino da Matriz. Ia ainda no primeiro dobrado quando chegou Thaumaturgo, calçado de botas, punhal à cintura, fuzil e bornal cheio de balas aos ombros e chapéu de palha enfiado na cabeça. Acompanhavam-no tenente Bezerra e seus comandados. A seguir, apareceu Sombra, maneiro de armas.
– Que veio fazer assim?
A resposta saiu medida e rimada, com louvores à manhã que raiava e à brisa fresca da madrugada.
A banda não parava de tocar hinos atrás de hinos. Nos quintais, os galos batiam as asas, abriam os bicos e esticavam os pescoços, calados e assustados.
Decretado feriado municipal, só as portas das residências se podiam abrir. Até as igrejas deviam permanecer de portas cerradas. Missa, se houvesse, que fosse no coreto, antes de a coluna partir. Para abençoar a cruzada. Padre Queiroz não inventasse rezaria prolongada.
Às quatro badaladas do relógio da Matriz, já todos os voluntários entravam em forma diante da banda, devidamente armados de espingardas, facas, facões, machados, martelos, cacetes, tesouras, navalhas, chicotes e baladeiras. As portas e janelas das casas escancaradas. Crianças amedrontadas, num berreiro dos diabos. Mulheres rezando por seus maridos, filhos e pais, ajoelhadas nas calçadas.
Perdigão, deitado no portão do Barracão, retorcia-se, abria e fechava os olhos e praguejava. Sentou-se, ajoelhou-se, ficou de pé, deu o primeiro passo e dirigiu-se, aos trambecões, na direção do coreto.
– Vá logo se armar, homem.
Ao ouvir a ordem, parou, bamboleou, olhou para as bodegas do Mercado e voltou.
– Vou buscar uma garrafa.
Maria da Cunha tremia e rezava diante das grandes portas fechadas da Matriz, toda enrolada num véu.
Dando voltas ao redor dos balaios cheios de pão quente, Joaquim amaldiçoava a cidade.
– Então, vou perder tudo isso?
Às cinco em ponto, chegaram ao coreto padre Queiroz e o sacristão, crucifixos gigantescos pendurados nos pescoços. Atravessando a praça, ia Xavier, fardado, de quepe, apito à boca e cacete à mão, sonolento. O prefeito o chamou.
– Você hoje vai ficar de guarda-diurno.
Clareava quando Thaumaturgo ordenou o início da marcha. E tomou a dianteira da banda, que saiu tocando o Desfile aos Heróis do Brasil. A força pública se misturava aos voluntários, enfileirados.
Por detrás do Barracão surgiu Manoel Perdigão, com uma garrafa entre os dentes, dando adeus.
Deixaram a rua e tomaram o caminho de Mulungu, em passo de ganso.
Dos casebres de taipa à beira da estrada de terra começaram a surgir moleques magros e nus, mulheres assanhadas, homens esmolambados, cachorros ossudos, que latiam em desordem.
O primeiro combate se deu com meia hora de caminhada. Da cidade só eram vistas as torres das igrejas. De repente o prefeito parou, pediu silêncio, sussurrou:
– Alguém correu no mato.
Alguns recuaram. Outros não conseguiram mais dar um passo sequer.
– Atirem.
Uns quatro tiros partiram na direção do mato. Ouviu-se um corpo tombar pesado.
– Pode ser uma armadilha.
Cautelosos, o delegado e os soldados se arrastaram no rumo dos tiros. Pararam. Entre bananeiras um corpo caído. Muito sangue inundava o verde. A vítima se debatia no chão.
– Uma burra!
Calados, decidiram seguir. A banda voltou a tocar. Do horizonte partiam umas faíscas avermelhadas. Uma galinha cortou o caminho toda arrepiada, seguida de um galo famoso.
– São eles.
Os soldados atiraram de novo. O casal sumiu no mato, cacarejando. Tenente Bezerra se aborreceu. Gastando munição à-toa! Sombra saiu em defesa de sua ordem e da atitude heróica dos atiradores. Havia tido uma revelação momentânea. Aqueles eram o raptor e a donzela raptada. Transformados em bichos de pena para os engabelar. Falava de olhos vidrados no sol, os outros paralizados, ouvindo-o.
O vento assobiava, as árvores tremiam. De repente fez-se um silêncio tão intenso que todos se puseram a rodopiar como carrapetas doidas, tontos. E buscaram todos o único ponto no espaço onde estariam livres do Mal. Uniram-se uns aos outros, aglomeraram-se, como se quisessem cair fora do espaço, numa nova dimensão. Diminuíram de tamanho e formaram um amontoado de carnes igual a de dois ou três homens. Bicho redondo, cheio de pernas, braços e cabeças, a encolher-se.
Mas eis que um urro estrondoso, como se o sol se espatifasse, estilhaçou o bloco e, num instante, todos jaziam estatelados no chão, ao redor de Thaumaturgo, que continuava urrando.
– Um homem! Um homem!
E, voltando a voz para o chão, gigante a soprar a vida ou a morte, parecia gargalhar.
– É um homem, não é um galo! É um homem chamado Antonio, seus abestados!
Os desmaiados se alertavam e erguiam do baixo chão. Apalpavam-se, alisavam as testas inchadas.
Tornados ao seu dever, aliciados pela marcha guerreira, retomaram a romaria. A poeira subia e os da retaguarda perdiam de vista os da frente. Não enxergavam nada. E deu-se que, em sentido contrário, vinham uns jumentos montados. O prefeito e os soldados estancaram e apontaram as armas para os opostos. A banda esbarrou nas costas dos comandantes e o grosso da tropa meteu a cara nos trombones surdos. Os jumentos no mesmo passo lerdo. Eram três e sobre seus lombos três homens velhos cochilavam.
– Parem!
Os cavaleiros sofrearam as montarias e soltaram bons-dias arrastados. Thaumaturgo, rifle à frente, olhou atentamente para os matutos.
– Conhecem um tal de Antonio Jucá?
Após a longa negativa, o tenente propôs que os velhos fossem amarrados aos pés dos animais e estes enxotados. Padre Queiroz pôs-se entre a tropa e os inimigos. A Santa Madre Igreja concedia aos condenados o direito à confissão. Nisso os jumentos se espantaram e desembestaram, derrubando de uma vez o vigário, o prefeito, o tenente, Sombra e Carlos Ramos. Os demais, que haviam se afastado para a beira do caminho, apenas ficaram olhando para o estrupício, apalermados.
Socorridos, os cinco custaram a limpar as roupas, apanhar as armas e o crucifixo e se equilibrar. A banda voltou a soprar e a marchar, arrastando os guerreiros entontecidos. Iam vagarosos, lerdos, como romeiros e retirantes.
O sol quase a pino, Sombra gritou:
– Uma ossada!
Num barranco rasteiro, do lado direito do caminho estreito e quase vertical. Lá embaixo, no meio de um roçado.
– Vamos descer.
Ninguém se atrevia a iniciar a descida. Olhavam uns para os outros e pendiam a cabeça na direção da ossada longínqüa. Matutavam, opinavam. Vai um primeiro. Vamos arrumar uma corda. Derruba a cerca.
Lá longe, umas reses pastavam, chocalhando, mansas. Foi quando notaram que se encontravam na parte mais alta do barranco e, à medida que andassem, a altura ia diminuindo, até quase desaparecer. Coisa de um pulinho, mais adiante.
– Vamos descer lá.
Caminharam e além passaram a cerca.
– Uns dez metros aqui.
Andaram mais e mais. A altura do barranco diminuindo. Voltava a aumentar.
– Vamos ter que descer é aqui mesmo.
Eram uns dois metros de altura. Prepararam-se para o pulo. Quem primeiro?
O voluntário dos voluntários foi Sombra, que caiu, bolou sobre a terra queimada e se ergueu, capengando. A seguir, pularam os soldados e Franco. Os demais escorregaram e foram amparados pelos primeiros.
Já embaixo, rumaram de volta à ossada. Iam cansados, suados, capengando, praguejando, tropicando nos tocos. Chegaram. Ossos espalhados num raio de dois metros.
– É da moça mesmo.
Agachados, chorosos, acariciavam costelas, tíbias, fêmures.
– Assassino!
Sombra alteou-se, olhou para cima, para a beira do precipício de onde avistaram a ossada.
– Esta desventurada donzela, cujo nome não sabemos, depois de conspurcada em sua honradez, depois de servida à lascívia do celerado...
O prefeito dava explicações minuciosas: como ela não quis se entregar por bem, o tal Jucá, bandido pior do que Lampião, amarrou-a, serviu-se, como bem quis a sua tara, das carnes virgens da coitada e depois degolou-a.
– Vejam que a cabeça não está por aqui. Na certa foi fazer do crânio um caneco para beber cachaça.
– Por fim, esquartejou-a, como se faz a um boi.
Cada um tinha às mãos um osso, que examinavam como legistas experimentados. Carlos Ramos portava uma costela.
– Moça fornida.
E pôs-se a vasculhar o chão, os buracos, os tocos queimados, até que descobriu o crânio. Ergueu-o como a um troféu.
Um enorme crânio bovino.


CAPÍTULO VI


Andavam ao léu, perdidos dos caminhos, farejavam restos de virgem violada e rastros de violador desalmado. Catavam frutas podres, corriam atrás das próprias sombras, atiravam em visagens. Já não sabiam para onde seguiam nem onde se achavam. Pareciam um magote de bichos misteriosos. Thaumaturgo já não comandava nada, seu rifle nas mãos de Franco. Tenente Bezerra, de farda surrada, recebia ordens de Jacó, de Honorato, de Lima e de Arruda. O sacristão dava gritos em padre Queiroz. Sombra era uma figura apagada, sem eloqüência. Todos mandavam e ninguém obedecia.
– Por aqui.
E os outros seguiam por ali, cabeçudos, desobedientes, atrevidos. O que ordenava recuava e se ajuntava ao grupo, como mero acompanhante.
Iam nesse sem-rumo, quando João Alencar, que nunca via nada, não falava, nem seguia adiante, avistou uma cabana escondida no meio do bananeiral.
– Na certa estão lá fazendo sem-vergonhices.
Reuniram-se, calados, detrás de uma touceira, e gesticularam planos de assalto.
Dividiram-se em três grupos. Um devia entrar pela porta da frente: o delegado e seus subordinados. Outro pela dos fundos: Carlos Ramos, Franco, João Alencar e Vasconcelos. Os demais se encarregavam de cercar a choupana, por longe.
Saíram rastejando, como nos filmes de guerra. Padre Queiroz agarrava-se ao crucifixo, trêmulo. Sombra mal conseguia andar, roçando uma perna na outra. Thaumaturgo suava, olhava para trás, suspirava. O silêncio das horas derradeiras passeava pelas folhas do chão.
Na casinha, de cócoras, cochilando, dois velhos muito velhos pitavam cachimbos de barro.
Súbito um grito fez estremecer as paredes de taipa.
– Cadê o bandido?
Cercaram os velhinhos, armas apontadas, aos berros.
– Vamos, digam logo.
Falavam todos ao mesmo tempo, aos pulos. Onde andava Antonio Jucá, onde estava escondido? E a moça? Ou já havia sido trucidada? Tenente Bezerra mandou, voz grossa, que fossem todos vasculhar a casa. Ele ficava interrogando os coiteiros.
Carlos Ramos tomou conta da cozinha, remexia a trempe, espalhava as cinzas. Ranzinzava: os últimos vestígios da donzela se espalhavam a um soprinho de nada. Franco escancarava um velho baú tosco, imaginando anáguas maculadas em ceroulas encardidas. João Alencar vistoriava as fiangas armadas, ventas enfiadas na imundície.
Um cururu inchou e fitou demoradamente Vasconcelos, que meteu a cabeça dentro do pote.
– Valha-me, minha Nossa Senhora da Palma!
Da sala e do quartinho correram os demais, armas enfiadas no oco do pote. Vasconcelos, arrepiado, paralisado, boca aberta, olhos arregalados, tinha um braço esticado para a frente, a mão espalmada, como a defender-se de um poderoso inimigo pronto a saltar-lhe ao pescoço.
Detrás de si, os demais, enfileirados, sem fala.
– Atirem.
E o pote se esbandalhou e a água foi se esparramando pelo chão pisado, devagar. Os invasores pulavam, como se a água fosse um monstro que os devorasse pelos pés, gritavam, pediam socorro, escorregavam, agarravam-se uns aos outros, amparavam-se nas paredes de taipa, que chiavam. Vasconcelos, desequilibrando-se e não encontrando mais apoio nos braços do delegado, deslizou no rumo dos fundos, como se patinasse.
No canto, o cururu imenso se agigantava, olhava para os inimigos, corajoso.
– Atirem.
Uma saraivada de balas estourou o pobre animal.
Na sala, os velhinhos, assustados, tentavam despregar os olhos, levavam as mãos trementes aos ouvidos murchos, esticavam os pescoços ao léu.
Os de fora se aproximaram, atordoados, amedrontados com os próprios passos.
– Mataram?
Juntaram-se todos na sala. O delegado enchia-se de novo de autoridade, contava, zangado, o caso do cururu, apontava para o sacristão todo sujo de barro.
– E não me venha o Seu Sombra com histórias de homem virado cururu.
Voltou-se para os donos da casa, apontou-lhes a arma, ameaçador.
– E contem logo a verdade, seus coiteiros de uma figa.
Padre Queiroz pedia calma, encorajava-se, rompendo o cerco.
– Deixem os velhos comigo, que estou mais acostumado a esses casos de confissão.
Abaixou-se e o grande crucifixo reluziu diante dos olhos apagados dos matutos. Baixinho, perguntou pelo pecador que havia raptado a moça. Não tivessem medo de falar. Estava ali como representante de Deus, para ajudar a justiça dos homens.
Nenhuma resposta. Só olhinhos perdidos entre as rugas. Só cachimbadas vagarosas.
– Padre, pergunte se são moucos.
O vigário encostou a boca no ouvido mais próximo e gritou, silabando:
– Moça. Roubada.
O velho tentou arregalar os olhos, cachimbou, voltou-se para o outro, resmungou.
Os visitantes se aglomeraram ao seu redor. A voz fina, sumida, pausada pôs-se a contar a história do massacre de uns índios paiacus. Na era dos antigos. Um bando de soldados veio das bandas do mar e assaltou a aldeia. Só escaparam uma cunhã, por fugir, e outra, levada amarrada.
– Como é o nome dela, compadre?
– Mymycá, que virou escrava e amante do Capitão.
Thaumaturgo levantou-se, chegou ao terreiro, chamou padre Queiroz.
– Mande acabar logo essa história. Queremos saber é do bandido, padre.
O vigário voltou e falou de novo ao ouvido do velho, que se calou, pitou o cachimbo, desacocorou-se devagar e saiu capengando até o fundo da casa. Seguiram-no todos.
No terreiro, apontou para o alto da serra. Do meio do verde destacava-se um retângulo branco.
– Os Jesuítas!
Alvoroçaram-se os caçadores, alegres, orientados. Enfim, sabiam onde estavam. O velhinho apontava e mexia os lábios ainda.
– A Gruta dos Morcegos.
O prefeito, mão no ombro do ancião, sorria e fazia novas perguntas. Quer dizer que foram para lá? É um só ou é um bando? Andam armados como cangaceiros ou estão só na bandalhice? Levaram a moça ou a deixaram em alguma cabana? O velho apertava os olhos, apontava para o alto e falava numa gruta, perto dos Jesuítas.


CAPÍTULO VII


O casarão crescia, se agigantava, se elevava acima do verde da serra, se expandia horizontalmente.
– Parece mesmo um castelo antigo.
A comitiva avançava compacta, arrasando as hortas, qual praga de lagartas. Os moradores se embasbacavam, paralisados no meio dos tomates, dos pimentões, das couves.
– Olhem Palma.
Lá de cima a cidade menor que um vilarejo, amontoado de casinhas, tira comprida ponteada de torres.
Maestro Permínio meteu o clarim na boca e assoprou uma nota viril. O prefeito teve um arrepio e quase desabou barranco abaixo. Engasgou-se. Não era hora de mexer com aquilo.
– Vamos ao trabalho.
À frente ia o vigário, batina esfiapada e suja, o crucifixo refletindo a luz do sol nas paredes robustas da velha Escola Apostólica.
Na portaria, um jovem franzia a testa. A tropa se aproximava ligeira, chutando pedras, pisando as plantinhas.
Padre Queiroz, dirigindo-se ao porteiro parado, explicava que procuravam um criminoso, raptor de uma moça na cidade, escondido na Serra. Pararam diante do jovem, que tomava a porta. Tenente Bezerra aborreceu-se com o silêncio do porteiro, passou à frente do padre.
– Não temos tempo a perder.
Estavam no cumprimento do dever, no combate ao crime, na defesa da sociedade. Além do mais, muito cansados. Varavam estes cafundós desde a madrugada. E avançou, levando de roldão o jesuíta. O resto da tropa formou fila e marchou corredores a dentro. Pisava forte, chutava barros, cutucava estátuas, abria portas, falava alto. Os ecos rodopiavam entre as paredes, medonhos. De todos os cantos surgiam jesuítas atarantados, como baratas corridas, que fugiam pelos corredores. De repente não havia mais nenhum à vista dos invasores.
No final do corredor em que estavam, um deles subia pela parede, escorregava, voltava, tentava abrir uma porta.
– Vamos pegar aquele.
E todos correram na direção do jesuíta.
– Pode ser o bandido.
Cercaram-no sob a ameaça das armas. O delegado aberturou-o, furioso. O homem tremia, mudava de cor, gaguejava, pregado ao chão.
– Diga logo seu nome.
Salvou-o Thaumaturgo, depois de andar metido debaixo de um catre, em perseguição a um gato. Na escuridão, viu só as duas chamas dos olhos do bichano. Cutucou-o com o fuzil. O bicho escapuliu, correu, chegou à porta e saltou sobre o magote que cercava o jesuíta no corredor.
– Um gato voador.
O bando abaixou-se de uma vez e o gato desapareceu. O prefeito, suado, saiu do quarto, brandindo o rifle.
– Pegaram?
Ao ver o religioso arriado, enfureceu-se mais ainda. Deixassem o loyola. em paz, o criminoso era um sujeito corpulento, pardo, mal-encarado. Não estavam vendo que um bandido não ia ter aquelas feições? Explicaram que estavam só querendo saber se o reverendo conhecia o malfazejo.
– Conhece?
Liberado, o padre permaneceu no chão, semidesmaiado.
Vasculhado o térreo, passaram aos outros andares e às outras alas. Só encontraram jesuítas nervosos que tudo negavam, balançando a cabeça tristemente. Nenhum sabia de nada. Muito menos do rapto.
– Vamos agora para Caridade.
De novo no mato, seguia a tropa em fila, puxada por padre Queiroz. A banda se arriscou a tocar, sem mais contra-ordens de Thaumaturgo.
Caminho estreito e repleto de formigas pretas. Aos poucos, a subida se tornava quase vertical. Suados, sedentos, sem fôlego, se maldiziam e anunciavam desmaios. Os da banda lamentavam carregar os instrumentos. Paravam de instante a instante para aspirar o ventinho frio que corria e escutar os passarinhos nos galhos.
– Lá está Caridade.
No alto, aparecia a velha casa de retiros. Aligeiraram-se, rindo. A subida desverticalizava-se.
– Todos de arma na mão.
Lá de cima, voltaram-se para o lado de Palma. Nem parecia uma cidade. Apenas um montículo de tijolos alinhados. A Escola Apostólica, uma casa como outra qualquer. Do fundo do abismo que se projetava diante do casarão se alevantavam babaçus gigantescas, cujos ápices iam até a altura da amurada a separar o abismo da casa.
Refeitos da escalada, passaram diante da capela e foram ter aos fundos. Um menino brincava entre as galinhas, que se espantaram com a chegada dos caçadores.
– Cadê seu pai?
O moleque assustou-se, ficou um bom tempo vidrado nos homens, embasbacado. Depois correu, chorando, e entrou por uma porta. À janela surgiu meio corpo de mulher.
– Queremos água.
A tropa acercava-se da casa, espantava as galinhas que ciscavam no terreiro.
A mulher trouxe uma quartinha e um caneco de alumínio amassado.
– Tem algum de comer aí, dona?
A senhora, muda, apontou para a imensidão de mangueiras, laranjeiras, jaqueiras e mamoeiros ao longo do terreiro. Tenente Bezerra correu a derrubar uma jaca. Puxou a peixeira e de um golpe esfolou-a. Uma chuva de mãos caiu sobre o ventre fendido da fruta. Sombra engasgou-se com um caroço. Metia a mão na goela, suava, enchia os olhos de lágrimas. Os outros nem viam o desgraçado.
– Socorro.
O delegado sapecou-lhe um murro nas costas e o caroço gosmento saltou longe.
João Alencar escalou uma laranjeira e lá de cima jogava bagaços. Cada um tomou conta de uma árvore. O chão se enchia de cascas e caroços. Os porcos fuçavam, grunhiam, brigavam.
– E o bandido?
À lembrança, os galhos das fruteiras se paralisaram. Ouvia-se apenas o roncar dos porcos.
– Dona, o bandido está por aí?
Não havia bandido nenhum pelas redondezas. Aquilo era terra abençoada, graças a Deus.
Os comilões voltaram a roer nos galhos. Zoada irritante de praga de lagartas.
– Vamos, pessoal.
Thaumaturgo escorregou redondo pelo tronco de uma mangueira. Caiu montado num porco, para, mais adiante, esborrachar-se na lama
Saltaram um a um, dando gargalhadas, lambuzados, preguentos. Pediram água à mulher. O menino olhava-os, espantado.
– Que tal um porquinho desses?
Sem esperar por resposta ou anuência da mulher espavorida, Carlos Ramos agarrou um porco pela perna e o sangrou incontinenti. Esquartejado, o bicho foi assado às pressas no terreiro.
– Está bom.
O sangue jorrava pelas carnes mal lavadas. Devoraram-no quase cru e cheio de pêlos.
Saciados, recostaram-se à parede, sonolentos. Thaumaturgo e padre Queiroz roncavam, as barrigas estufadas. Vasconcelos sugeriu ficarem arranchados ali mesmo, pois já pardejava. Sombra arregalou a boca, trepou à janela e, no sistema de comício, pôs-se a bradar que nem era bom pensar naquilo. Enquanto dormiam, o raptor continuava o seu crime nefando, talvez homiziado na gruta, como disse o velhinho da tapera. O dever do Regimento era capturar o malfeitor. Não descansariam enquanto não dessem por realizada a tarefa heróica. Os que dormiam foram acordando devagar e rindo. A banda saiu de dobrado. As galinhas cacarejavam, corriam para os poleiros. Os porcos roncavam e fugiam para o interior do mato. A mulher chamou o filho e trancou as portas.



CAPÍTULO VIII


O séquito seguia silencioso. Pisava macio, escutava o chiar das formigas nos gravetos e folhas do chão, espiava o vento que se despejava no abismo. Lá embaixo, o matagal perdido na escuridão. Em cima, a parede subia, pregada de mato. No caminho estreito, degrau derradeiro para as profundas, galhos quebrados – armadilhas naturais para puxar pelo pé o passante descuidado. Adiante, as grandes pedras amontoadas da gruta.
Padre Queiroz de novo à frente da procissão, crucifixo erguido para se escudar dos capetas soltos nas brenhas.
– O Pai-Nosso em silêncio.
Diante das pedras pararam e se ajuntaram, abismados. A boca negra da gruta uivava no alto. Tudo uma só penumbra friorenta. Aves noturnas agouravam em derredor, invisíveis.
– Apontar as armas.
Sombra, armado de cipó, açoitou o tempo, rodopiou e se abraçou à pedra pregada ao chão. O resto da tropa punha-se em tocaia, às costas de Thaumaturgo, que apontava o rifle para a entrada da gruta.
– Saia da frente, bandido.
Dado o sinal, desataram a atirar e a gritar porcarias e ameaças.
– Jucá de merda.
As balas batiam nas pedras do alto e voltavam perdidas para o abismo. Os outros, sem armas de fogo, se esgoelavam, escavacavam o chão e feriam a pedra com seus instrumentos.
A tesoura de Luiz Caracas perdeu as pontas, a navalha de José Sampaio não cortava mais nem urtiga, a faquinha de João Alencar degolava formigas, o facão de Carlos Ramos tirava faíscas do monólito. O Cristo do crucifixo de padre Queiroz só faltava pular da cruz.
– Vamos buscar o covarde.
Parou tudo: a artilharia, a gritaria, a escavacação. Só Sombra continuava aos rodopios com seu cipó, em tempo de desequilibrar-se e voar abismo abaixo.
– Pare com isso, homem.
Como continuasse a cipoar o vento, cego e mouco, o delegado tomou-lhe a arma e derrubou-o ao chão, ao pé da pedra. Ao voltar a si, os olhos parados nas órbitas, os lábios a tremer, suava, branco de fazer dó.
– Suba, para melhorar.
Tentou o primeiro passo na pedra lisa. Escorregou, arranhou-se nos cotovelos. Jacó passou à dianteira e, quase de um salto, chegou ao topo. Subiam um a um, os mais moles ajudados pelos primeiros.
– Vamos invadir sua loca, bandido!
Para alcançar a boca da gruta, deviam passar entre outras duas enormes pedras e arrastar-se sobre uma delas.
– Quem vai na frente?
Calados, ficaram olhando para as próprias barrigas, que cresciam desmesuradamente.
– Os magros.
A pança do prefeito inchou. A de Carlos Ramos havia nascido na Caridade. O crucifixo do vigário despontou sob a batina, magicamente. Maestro Permínio fez-se todo bochechas infladas. Sombra procurava o cipó, atarantado.
Tenente Bezerra tomou o comando da operação, mandou os soldados rastejarem.
– Os civis sigam os militares, conforme manda o regulamento da guerra.
Lima deitou-se, meteu a cabeça entre as pernas e saiu a arrastar-se sobre a poeira negra.
– Depressa!
Novamente no chão, Thaumaturgo, padre Queiroz, Carlos Ramos e maestro Permínio alisavam as panças.
Diante da gruta, Lima tentava erguer-se, mas sobre si havia outra pedra. Primeiro encolheu as pernas, ficou de cócoras e, mãos ainda na pedra de baixo, procurava levantar-se. Deu com as costas e a cabeça no teto duro.
– Avistou o cabra?
Meteu a cabeça dentro do buraco, um morcego partiu do interior da gruta e passou rente à sua orelha. Um ui espantoso despencou do alto da pedra, como um rebolo.
Honorato, que já se arrastava entre as pedras, parou. O rifle caiu das mãos do prefeito. O vigário ergueu o crucifixo diante dos olhos, que se fecharam. Maestro Permínio secou. Carlos Ramos comprimiu a barriga, numa careta de dor. Os de cima da pedra se amontoaram uns sobre os outros, encolhidos.
À beira do abismo, Lima abria os olhos sonolentos. No alto, as estrelas começavam a piscar. Invisíveis, os grilos cantavam. Ao redor, tudo era só pedra bruta. De repente o soldado saltou sobre o crucifixo e pôs-se a tremer e a falar de uma multidão de bichos que dançavam bêbados dentro da noite mais escura do mundo.
Antes de todos, Sombra pulou. Olhos esbugalhados, cabelos de espeta-caju, boca escangalhada, babava, apontava para a gruta.
– Estamos cercados.
A caverna repleta de índios. Iam ser comidos vivos.
O primeiro a correr foi Thaumaturgo. Deixou o fuzil no chão e voou pela beira do abismo.

(Continua)