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A Guerra da Donzela (1)

Nilto Maciel

(Ed. Mercado Aberto, Porto Alegre, RS, 1ª ed. 1982; 2ª ed. 1984; 3ª ed. 1985)



Mas depois chegou o medo,
o medo maior que houve
que as negras velhas contavam:
era a mula sem cabeça,
era a cabra cabriola,
lobisomens, bestas-feras.
Jorge de Lima

Nego danado!
Se não tem coragem,
eu tenho;
vá dizer ao senhor
de engenho
que o cercado tá no chão.
Cantiga cariri

P R I M Ó R D I O S

O povo dizia: Mirtes se perdeu com um rapaz da cidade, bonitão, farrista, filho de gente rica. E zombava: quem mandou arreganhar os dentes para homem de posses? Outros se arriscavam:
– Qual nada, aquilo é raça de gente malvada.
O pai da desonrada virou fera. Queria dar fim à menina e ao sem-vergonha.
Mirtes ia ficando buchuda, triste, encabulada. O tempo todo internada dentro de casa, protegida pela mãe.
Os parentes cercavam o velho. Para evitar maiores desgraças, conter sua fúria, dar consolo. Entregasse o caso a Deus, sentado lá em cima, anotando tudo. Davam o rumo das coisas: fosse passar uns tempos em Quixeramobim. Tinham medo: o cachorro (olhavam para todos os lados, abaixavam a voz) era filho do coronel Colombo, o dono de quase todas aquelas terras, o manda-chuva da região. De família importante, espalhada por todo o Ceará. Gente valente, metida na política e na Igreja. Fazendeiros, doutores, padres. Até bispo e deputado. Não adiantava bancar o brabo. Pelo bem da família, donos de pequenos pedaços de terra, moradores sem eira nem beira. Pensasse nos irmãos, filhos, mulher, netos, sobrinhos, primos e aderentes. Deixasse a vingança de lado. Deus havera de castigar o pecador.
Arrumou a trouxa, montou a mula velha e saiu estrada a fora, mode retirante. Ou fugido da justiça. Para nunca mais ver a terra onde sempre viveu.
Pouco depois de nascer o novo neto, chegou a notícia: encontraram o corpo do pobre velho pendurado num juazeiro à beira de uma estrada no sertão de Quixeramobim.
A família debandou aos poucos: os filhos homens se casaram logo ou foram embora para bem longe e as moças terminaram nos cabarés de Palma. A mulher perdeu o juízo e um dia desapareceu. Só acharam o esqueleto no fundo de um poço.
Uma tia do velho, viúva, sem filhos, beirando os setenta anos, morava numa casa grande perdida no meio de mangueiras e bananeiras. Fez ouvidos de mercador às conversas do povo e levou Mirtes para debaixo de suas te¬lhas, onde a neta teve um menino, que se chamou Antonio.
O rapaz rico nunca apareceu. Andava metido na política, ajudando o pai na campanha, trepado nos palanques, varando os cafundós da Serra, comprando votos.
Antonio crescia, ficava sabido. Fazia perguntas estranhas à mãe e avó.
– Seu pai está no céu.
Ninguém triscava no passado, escondido detrás dos dentes, vigiado na janta e no pesadelo.
O menino, vivo e morto no meio das mangueiras e touceiras de bananeira, passava o tempo caçando preá, atirando pedra em passarinho, tomando banho em riacho, sol¬to na buraqueira. Catava pedaços de conversas e voltava para casa cada vez mais curioso.
– Coitado desse menino, o pai podre de rico e ele andando quase nu.
Mãe e avó com as histórias furadas de sempre.
– Morreu de mordida de cobra.
Andava pela casa dos dez anos quando Mirtes começou a sentir umas dores, a ficar empambada, a perder as carnes. Não durou muito. Mas, às portas da morte, chamou o filho e confessou o grande pecado de sua vida.
Do duplo choque, Antonio ficou meio zuruó. Só chorou até a hora do enterro. Deu para se refugiar no mato sozinho. A avó o procurava, chamava-o e nada de Antonio aparecer. Em vão os meninos o convidavam para brincar. Vivia calado, emburrado, escondido. Os dias se passavam e ele alheio a tudo. Nem parecia um menino. Brincava, mas, de repente, fugia dos parceiros e se encafuava no mato. Iam encontrá-lo falando só, feito um doido.
À avó, caduca, dia e noite arrastando-se pelos corredores, conversando com o fantasma de Mirtes, quase não dirigia a palavra. Mouca, falava sem parar, como se res¬pondesse perguntas do neto, alheia às indagações que ele fazia. E um dia foi dormir e não mais se interessou pela curiosidade de Antonio.
Levado para a casa de um tio, Antonio fez logo ami¬zade com o primo Luiz. Aos poucos, viraram unha e carne. Iam, juntos, deixando para trás o mundo das brincadeiras sem fim. Já então um desabafava, outro ouvia atento. An¬tonio relembrava a mãe, Luiz o consolava.
Tornavam-se rapazes, unidos nos planos, nos namoros, nos primeiros forrós, nas cachaças escondidas, nas mulheres da vida que iam tomando o lugar dos bichos.
Apesar disso, Antonio jamais falava do pai. Só se lembrava da mãe.
Um dia os dois saíram cedo para a farra. Preparavam-se para um forrobodó à tarde e uma noitada no cabaré de Ana Souto, em Palma. Entre uma talagada e outra, piadas e gaitadas, histórias de trancoso e casos de onça, nomes de namoradas e raparigas. Já xambregados, Antonio voltou a desenterrar defunto velho. Soltou a língua, perdeu o controle, revelou tudo. Luiz ouviu calado o segredo do primo. Toda a história proibida.
Desabafado e aos trambecões, virou-se para o bodegueiro e os fregueses e perguntou se algum deles sabia de quem ele era filho. Todos sabiam.
– Da finada Mirtes, que Deus a tenha.
Alguns se retiraram logo, outros ficaram calados. Na certa, todos conheciam a história e mais uma vez resolviam calar o bico, com medo.
Exaltado, Antonio gritou o nome do pai, enquanto abria a blusa e mostrava uma peixeira.
– Isso aqui e para castrar e sangrar o homem que desgraçou minha mãe.


CAPÍTULO I

Palma acordou alarmada pela notícia ruim de que uma moça tinha sido raptada durante a noite. Como pé de vento, mal o povo tomava café com pão, a nova já corria a cidade de ponta a ponta. E subia e descia as ruas como a Maria Rosa, cada vez mais alarmante e misteriosa.
No cabaré de Ana Souto, palco suburbano de pequenas novidades noturnas, as mulheres acordaram sobressaltadas, irritadas com a dona falando alto.
– Vem bater aqui. Eu juro.
Na noite passada nenhuma confusão: o delegado fez a ronda, recebeu sua parte, brincou mais do que das outras vezes. Os freqüentadores habituais beberam, dançaram, se trancaram nos quartos com as mulheres. Até mesmo dois rapazes da Serra, Antonio e Luiz Jucá, que só foram embora de manhã.
Para os lados da matriz o zum-zum era o mesmo. Até dentro da igreja. As mulheres assistiram à missa das cinco menos contritas e saíram aos magotes, gesticulando. Às seis o templo já estava quase vazio. Afora Maria da Cunha, o sacristão e a zeladora, apenas os morcegos, que voejavam de lá para cá, de cá para lá, atônitos, tirando finas nos lampadários, nas velas, nos santos, desafiando os anjinhos de asas pregadas nas cúpulas encardidas. A beata debulhava o rosário, mexia os beiços, cabisbaixa, ajoelhada na primeira fila, e tossia. O eco repercutia como uma badalada e parecia não mais terminar. Joaquim arrumava o altar-mor, apressadinho, olhando para a rua, enquanto a zeladora espanava os bancos, morcegos e ecos perdidos na semiclaridade do templo.
– Joaquim.
O sussurro se espalhou e o nome inchou, como uma palavra sem fim. O homem tremeu e tapou os ouvidos, apavorado, e não percebeu Maria às suas costas. Ao sentir a mão gelada no braço, revirou os olhos e cambaleou. Seu nome já era um tinido de sino perfurando suas carnes. Um cheiro de vela, hóstia, vinho e alma inundava tudo.
– Você já sabe do que aconteceu?
Rumaram para a sacristia. Maria arrastava Joaquim, que despertou e desatou a fazer a única pergunta: o quê? o quê? o quê? A zeladora correu, curiosa, no encalço dos dois, espanando o templo.
Maria falava tão baixo que parecia apenas cansada, os dentes chocalhando, como se morresse de frio, os olhos descontrolados, saltitando dentro das caixas, transfigurada toda ela, igual visse o diabo em pessoa. A zeladora esticava tanto o pescoço, o espanador empunhado, que aos pés do sacristão e da beata desenhavam-se dois penachos e dois cabos parecidos em tudo.
– Roubaram uma moça.
Um grande morcego cego cortou o espaço estreito que separava Joaquim de Maria e desapareceu no teto. Cheios de pavor, as ventas abertas como crateras, as cabeças rodopiando doidas, os olhos pulando para o céu, os três se puseram a gritar cruz-credo, cruz-credo, cruz-credo.
***
Nos fundos da estação, Zé Lobo alisava sua Maria Rosa, cercado de ouvintes que esperavam o trem das oito. Começava a contar e lá chegava outro curioso. Recomeçava, obsequioso:
– Ora, você não sabe ainda?
Criava clima de suspense para a grande revelação. Olhava em redor e sussurrava:
– O caso da moça.
Arrodeado de carregadores, vendedores de frutas, bêbados, raparigas, meninos, fazia menção de olhar o motor do carro.
– Como foi mesmo, Seu Zé Lobo?
Chamava para a traseira do ônibus os impacientes. Com pouco, toda a pequena multidão puxava as orelhas, deixava escorrer baba da boca, fazia caretas diante da banguela do chofer.
O trem apitou longe.
***
No portão do cemitério, Patrício falava só. Lá den¬tro os mortos estariam revolvendo a terra. Que diabo! Gesticulava, ia e vinha, balbuciava orações truncadas: rou¬bar moça. Olhava para as torres da matriz, os casebres próximos, o casario da cidade, o apito do trem que cres¬cia. Cuidar dos mortos. Mexia os beiços e espantava os mosquitos da cara. Que diabo!

***
Subindo a ladeira no velho ônibus, os passageiros se alarmavam.
– Aqui não havia disso.
Relatavam casos e casos de moças roubadas, defloradas, perdidas lá na capital.
A Maria Rosa resfolegava, cansada, pesada de tan¬to espanto, e Zé Lobo suava, contava tudo de novo, dava marcha.
– É o fim do mundo.
Todos já sabiam a história de cor e salteado.
***
Na Casa Paroquial, contrito, padre Queiroz comia à mesa com as Filhas de Maria, que se benziam e tremelicavam.
– Uma ovelha desgarrada.
Pregava contra a luxúria, os olhos grudados nas moças, que arfavam e se lambuzavam de manteiga.
Um galo retardatário cantava galinhas no quintal.
– Pecadores!
O assunto se esparramava sobre a mesa farta, sujava de café a toalha branquinha, com cheiro de rosa. Tema para sermão de domingo.
***
Batendo pregos, João Alencar perguntava à mulher como se chamava a pobre moça.
À porta deram bom-dia e mostraram um embrulho mal-feito. Era Francisco Sombra, às vésperas da Proclamação.
Nu da cintura para cima, calças sujas e remendadas, o sapateiro estendeu as mãos para o cumprimento.
– A cidade anda alvoroçada de novo, hein, Seu João?
Desfez o pacote com pressa e deixou cair sobre pedaços de sola dois sapatos rotos.
– Estão precisando de uma boa reforma.
A mulher veio lá de dentro com dois canecos, derre¬tendo-se em bons-dias.
– O senhor já sabe quem foi a moça?
João Alencar desencorcovou-se de um salto, gritou pelas filhas e ficou a soprar o café fumegante.
– Isso é que é café.
A mulher sorria, mão na boca, recostada à parede.
Três moças apresentaram-se, espantadas.
***
Mal pegou no sono, Raimundo Xavier despertou com um vozerio dentro de casa. A mulher varria a calçada e tagarelava com vizinhas assanhadas. Botou as pernas fora da rede e praguejou:
– Diabo de dia para passar mais ligeiro.
Dirigiu-se ao tanque dágua do banheiro, lavou a cara com espalhafato, molhando as calças. Ergueu o focinho para o céu:
– Ainda mais essa: está tudo pelo avesso.
Na porta da rua, a mesma poeira. Uma moça bonita, estudiosa, caseira ...
Voltou ao quarto e pôs-se a vestir a farda.
– Mulher, vem botar minha janta que já está empardecendo.
Nervosa, a mulher correu e perguntou se o marido estava doido.
***
Ao saber da novidade, José Castello subiu a rua, às pressas, chocou-se numa esquina com Manuel Perdigão, que cambaleou, quase foi ao chão e, até continuar avistando o dentista, rogou pragas e mais pragas:
– Cachaceiro lerdo duma figa.
Escancarou a porta, pisou no rabo do gato e caiu de mãos dentro do baú. Vasculhou, remexeu, espremeu uma barata e retirou cinco batistérios cheios de traça. Assoprou, blasfemou e dirigiu-se à cozinha. Pigarreou, abotoou a camisa e leu, com voz de vigário, os documentos, obrigando as filhas a dizer presente.
Aos trinta dias do mês de janeiro de mil novecentos e quarenta e cinco, batizei e dei os Santos Óleos a Ma¬ria, filha legítima de José Castello de Oliveira e Ana Joaquina ...
***
A caminho do Colégio dos Padres, os ginasianos, aos bandos, esverdeavam a rua. Gargalhavam, vaiavam, corriam.
– Tua irmã amanheceu em casa?
Tolhiam o caminho da Maria Rosa, que subia e ge¬mia como uma burra cansada. Zé Lobo esporeava com pena, a língua no canto da boca.
O delegado passou abanando as fuças de maestro Permínio, que assobiava e olhava a rua.
– Fugiu algum...
Na carreira, espatifou a informação. Coisa pior. Moça roubada e...
– Ora essa!
Vinha da casa do prefeito e desapareceu na esquina da pracinha.
O maestro esticou o pescoço para fora, na tentativa de ver da sua a casa do edil. Janelas e portas abertas, como em dia de eleição. Cantarolou: Desde Pedro Cabral que a esta terra..
***.
No hotel, a balbúrdia começou cedo. Uns hóspedes nem esperaram pelo café. Caixeiros-viajantes, pesados de pastas, empaletozados, falantes, entravam e saíam.
– Ontem não olhei para uma saia.
Na sala de espera, Victorino fazia suposições:
– Pelo que dizem, é filha de João Alencar.
***
Lutécio lia a Bíblia, semideitado numa espreguiçadeira. A empregada entrou abraçada a pães e notícias quentes:
– A rua está numa confusão, seu Freitas.
E foi de casa a dentro, quase gritando, sacudindo-se toda.
– Quem, todavia, poderá conter as palavras?
***
Diante do bule, doutor Augusto fazia caretas e ex¬plicava:
– Artigo 219.
A mulher arrotava perguntas idiotas enquanto se empanturrava de café com pão. O filho mais velho engasgava-se com a lição de latim: nemo, nullius, nemini ... O papagaio beliscava miolos de pão e misturava tudo: nullo augusto.
O juiz derramava café na xícara e latim na mesa:
– Cui prodest scelus, is fecit.
***
Na Pharmacia Brazil, Sombra gesticulava e discursa¬va sobre a imoralidade e o crime. Citava frases de alma¬naque e confundia gregos e troianos:
– Indefesa donzela ...
João Dias cochilava e lia bulas nas suas barbas:
– Proteus mirabilis, Proteus vulgaris.
Chegou um freguês chorando e esmurrando o queixo. Queria remédio para dor de dente.
– Um celerado, inimigo público da moral.
O farmacêutico matutava, o freguês gemia, o discur¬so fazia tremer nas prateleiras os frascos.
– É como a cárie que corrói a dentadura.
***
Escanchada na velha máquina Singer, Dona Amélia pedalava e balbuciava. O marido perguntava, aborrecido, pelo nome da moça, onde morava, de quem era filha.
– Amordaçou a pobrezinha.
Só faltava fazer a máquina chorar, num tremelique sem fim.
Zé Sampaio, diante da penteadeira, arrumava o bigode, dilatava as ventas, puxava o chapéu para a testa, posava de galã. Como se chamava a mocinha?
A mulher pedalava e falava. História alinhavada a pés e mãos.
– Saiu a galope.
***
Debruçada à janela, Iracema, cabelos negros esvoaçantes, contava a Franco, na calçada, o romance de uma moça chamada Maria do Carmo que engravidou do próprio pai adotivo, chamado João Maciel.
– De que você está rindo?
O rapaz pediu desculpas pela brincadeira. Não pensou nem sonhou nada. A moça roubada devia ser uma mariazinha lá dos becos do Labirinto.
***
O barbeiro amarrou o pano na nuca de Luiz Abreu, olhou para o espelho e viu os olhos mortiços do comerciante. Fez menção de dizer alguma coisa e terminou de ajei¬tar a cadeira.
– Alguma novidade, Zé Sampaio?
Na rua, um cachorro ganiu e saiu correndo com o ra¬bo entre as pernas.
– Só esse boato da moça.
Quase uma hora preparando navalhas para barbear o primeiro freguês do dia e ainda arrumava o pano no pescoço do homem. Foi até a porta da rua. Um moleque amassava uma pedra nas mãos.
– Você sabe quem foi?
Voltou no passo manso, esfregando as mãos nas calças, e se recostou à mesinha, onde a catrevage se espalhava desordenada.
– Parece que foi moça daqui mesmo.
O comerciante fechava os olhos, gemia, afrouxava o nó debaixo do queixo.
Zé Sampaio abriu a navalha e pôs-se a limpá-la num pano sujo, demoradamente, sem olhar para o homem semideitado na cadeira de pau.
– Que história de moça é essa?
O cão apedrejado chegou-se à porta, ainda capengan¬do, e farejou. O barbeiro expulsou-o aos gritos e sapateios.
– Roubaram.
O comerciante riu. Tinha pressa, esperava a chegada de uns fardos de algodão, fizesse logo o serviço.
– Isso vai dar casório.
– O quê? O sujeito nem se sabe quem seja.
À porta assomou a figura do cabo Jacó. Deu bons-dias.
– Vá se abancando.
Só queria ajeitar o bigode. Não tinha muito tempo, estava em diligência.
A espuma tomava conta da cara larga de Luiz Abreu. Parecia um papai-noel. Zé Sampaio espremia a língua branca entre as gengivas podres, compenetrado.
– Cabo, me diga, uma coisa: quem foi a moça roubada?
O militar sentou-se no tamborete, tirou o chapéu e acendeu um cigarro. Olhou para o espelho e deu de cara com os olhinhos pretos do freguês parados na sua direção.
– Sabe, Seu Zé, da história sei pouca coisa e é por isso que ando investigando. O delegado anda por aí também e não tarda vem bater aqui.
Metade da cara do comerciante pelada, a outra coberta de espuma.
– Estou com pressa, mas depois volto para saber da história direito.
***
No Barracão, moscas zuniam e esvoaçavam. Facões erguidos, prontos a rasgar o vento.
– Será filha do Caracas?
Aproveitando o pasmo geral, as moscas pousavam nas carnes, para, em seguida, voar assustadas.
– Um quilo de chã.
De repente todos se calaram e se voltaram para o portão que dava para a praça e por onde entrava Luiz Ca¬racas. As moscas como que passaram a gritar desesperadamente. Um zunido de ensurdecer tudo.
O alfaiate parou, assustado, à distância dos outros. Os facões reluziam nas mãos dos magarefes.
– O que foi?
Carlos Ramos, sério, varou o ar com o facão para espantar as moscas.
– Como vai a família, Seu Luiz?
Magarefes e fregueses cercaram o recém-chegado.
– Bem. Por quê?
Olhou em volta. Pares de olhos furavam-lhe a cara, a roupa, o corpo. Começou a tremer. Buscou uma brecha por onde pudesse escapulir.
– E as moças?
Braços se entrelaçavam formando cerca de arame far¬pado, olhos medonhos soltavam labaredas, gigantes espremiam seu corpo desarmado de tesouras e agulhas.



CAPÍTULO II


Às oito horas, a Delegacia começou a se encher de gen¬te. A primeira aparição se deu em forma de sacristão. Apre¬sentou-se ao tenente Bezerra em prantos, gago de não se fa¬zer entender.
– Deixe desse choro besta, homem de Deus.
Retirou o lenço sujo do bolso da calça, esfregou-o nos olhos.
– Raptaram minha Lurdinha.
E voltou a ganir.
– O senhor tem certeza disso?
Tinha, daí o seu desespero. Logo a Lurdinha, a caçula, a mais sabida, a mais bonita.
O delegado pediu que descrevesse os traços fisionômicos da moça, para facilitar a busca a ser iniciada imediatamente.
– Bonita...
O tenente não queria saber disso. Assim não dava. Fornecesse pistas, ajudasse. Indicasse elementos para o esboço do retrato falado da vítima.
– Nem alta nem baixa.
Reclamava mais detalhes. Algum sinal. Sobretudo qual a roupa que vestia, ao ser arrebatada para a garupa do cavalo. O sacristão benzia-se e berrava. Então, levaram sua querida Lurdinha na garupa de um cavalo, ela que morria de medo de andar montada?
– Vamos, fale da roupa.
Não, não sabia, pois desde a semana passada não via a filha. Foi passar férias no sítio de um compadre, no Mulungu.
O tenente deu uma gaitada na cara de Joaquim.
– A moça chupando manga na serra e o senhor aqui com besteiras.
O caso era recente, quentinho.
– No mais tardar de madrugadinha, Seu Sacristão.
Joaquim parou de chorar, riu, agradeceu ao delegado, apertou-lhe a mão.
Chegaram José Sampaio e sua mulher, falando alto e chorando.
– Roubaram nossa filha.
Pelos traços descritos pelo povo, só podia ser ela: alta, morena, bonita. O tenente suplicava calma, falasse um de cada vez, parassem o berreiro.
– O senhor e a senhora viram o homem chegar montado no cavalo?
Queria então saber se era um alazão ou um baio, se o cavaleiro tinha jeito de matuto ou de praciano e, sobretudo, com que roupa a moça estava vestida. Não viram nada. Nem sabiam se havia um cavalo na história. No referente à roupa da Lurdinha nada podiam esclarecer.
– Levou todas as roupas, inclusive algumas das irmãs.
– Então queria mesmo ser raptada.
Dona Amélia ficou amarela e foi amunhecando.
Valei-me minha Nossa Senhora da Palma, gritava o marido.
O tenente pegou a quartinha e deu um copo-dágua para a mulher. E voltou à inquirição. Se sabiam para onde tinha rumado o casal.
– Que casal, seu delegado?
Refez a pergunta, pediu desculpas. A moça levou as roupas para onde? Esclareceram: foi passar férias na capital, na casa de uns tios. Aí tenente Bezerra se aborreceu e deitou sabedoria: se a moça estava na capital era porque não estava em Palma.
– Se não estava em Palma então não foi raptada.
Deixassem de potoca. Voltasse ele a alisar a cara dos homens e ela a pedalar a Singer.
Atordoados, o barbeiro e a mulher, ao pisarem a solei¬ra da porta, se viram impedidos de sair por uma multidão que invadia a Delegacia. À frente vinham João Alencar e Raimundo Xavier. A seguir, uma récua de mulheres, moças e crianças.
Sentado à mesa, o tenente fumava, nervoso. Ao ver o povo, tremeu. Se era o caso da moça, falasse um de cada vez.
A sala ficou lotada, todos falando ao mesmo tempo. O sapateiro chorava, gesticulava, gritava. Era o pai da moça, que se chamava Joana. O guarda-noturno afirmava quase a mesma coisa: a raptada se chamava Joana, sim, mas era sua fi¬lha. E provava.
– Está aqui o batistério.
João Alencar abriu a boca e partiu para estraçalhar o papel. Atingiu os peitos da mulher de Xavier.
– Vá mamar na jumenta.
Puxado pelos cabelos, desequilibrou-se e caiu de pernas abertas, levando de roldão a agressora. Formou-se um bolo, uns por cima dos outros.
Ao chegarem os reforços – cabo Jacó e soldado Honorato – não havia mais briga a apartar: o delegado de cabeça rachada, a cara uma máscara de urucu, Raimundo Xavier debaixo da mesa desacordado, uma mulher nua estendida no meio da sala. João Alencar e os demais estavam longe.
O relógio da Matriz batia nove vezes quando Francisco Sombra, horrorizado, tropeçou na nudez esparramada da mulher do sapateiro. Jacó e Honorato cuidavam da cabeça do tenente.
– Meritíssimo Senhor Delegado, na qualidade de cidadão de bem desta comarca, venho prestar meus prestimosos auxílios à Justiça.
Já discursava por mais de cinco minutos, quando a mulher e o guarda-noturno acordaram. Acabava de desvendar o misterioso caso da donzela arrebatada pelos tentáculos de um vilão. A vítima não era outra senão a dileta irmã de Perdigão, chamada Clara. E desandou a falar, entremeando o jargão policial de retórica acadêmica.
Ao cabo de meia hora de discurseira, Raimundo Xavier, como se esquecido do fuzuê recente, lembrou que a citada moça havia morrido de choque elétrico.
– Isso faz mais de dois anos.
A menos que tivesse ressurgido dos mortos.
Recuperado, o delegado ordenava: a mulher de João Alencar se arrumasse logo e desse o paradeiro do marido, verdadeiro pivô da ocorrência que resultou em tão malfadado escândalo. Perdoava o guarda-noturno pelo serviço que acaba¬va de prestar. A Sombra intimava a correr a tramela da boca para não estorvar as diligências. E furioso: ninguém mais botasse os pés nem na calçada da Delegacia para falar de moça roubada.
– Assunto encerrado.
Entre seus cabelos uma tirinha vermelha dava-lhe ares de mocinha de quermesse.


CAPÍTULO III


Tão logo baixou o galo nascido no cocuruto por obra da pancada que o fez desabar debaixo da mesa, tenente Bezerra mandou cabo Jacó reunir a tropa. Não precisou falar muito – do caso até os defuntos do cemitério já sabiam. Com meia dúzia de gritos expôs o plano.
Vamos revirar a cidade à procura do casal.
Deixou Honorato de plantão, instruído para não dar ouvidos a boatos e trancafiar quem insistisse em falar da mo¬ça roubada. Determinou a diligência: Cabo Jacó vasculhasse o Potiú e adjacências; soldado Arruda do Monturão ao cemitério. Ele, por sua vez, se encarregava da outra banda da ci¬dade. Ao meio-dia deviam estar de volta, caso não encontrassem antes nada da moça e seu ladrão.
Saiu cada um para seu lado.
Entre começar pelo lixo ou pelos mortos, Arruda preferiu o primeiro. Chegou valentão, praguejando e enxotando a urubuzada que se refestelava na podridão. Farejava pedaços de donzela maculada, olho aceso afundando no montão de lixo. Lá no meio um corpo escangalhado parecia vítima recente. Caminhou atraído pela catinga, todo urubu nojento. E estancou diante do cadáver estraçalhado de um cachorro. Maldisse o céu e a terra. Ao retirar-se pelo mato na direção do cemitério, ouviu a risada dos urubus de volta à carniça.
Para começar de casa, Lima deixou que todos se retirassem. Precisava refrescar a garganta na quartinha. E rumou para o quintal.
Um gato afiava as unhas numa bananeira. Pendurou-se no muro, olhou para o quintal vizinho e desencadeou uma gritaria de galos, galinhas, capotes, perus e porcos. Deu um salto para o muro seguinte, perseguido pela bicharada. E saiu a pular muros. Chegou aos que eram puro caco de vidro. Desistiu do risco, já todo sujo de lama, bicorado, azunhado. Inventou de vistoriar as casas com a licença dos donos. Ba¬teu palmas à janela da primeira.
– É para procurar o ladrão da moça e a moça roubada.
Aí as coisas se complicaram. Explicava que era ordem do delegado, a pessoa se enfurecia, que não era coiteiro de cabra safado, e isso mais aquilo. Noutra investida foi insultado por um papagaio.
– Macaco.
Começou a pensar em desistir de tudo, até da farda.
– Ivan, vá num pé e volte noutro e diga a seu pai que careço da presença dele aqui ja-já.
Daí a pouco apareceu Luiz Abreu. Que diabo era aquilo de soldado na sua porta. Lima enrolou a língua, gaguejou e terminou levando recado grosseiro para seu superior.
Para as bandas do Potiú as coisas não iam melhor. Cabo Jacó começou debaixo da ponte. Escorregou na ribanceira e tomou banho com farda e tudo. Foi secar no cabaré de Ana Souto, rido de tudo quanto era lado. Inquiriu todas as raparigas e nada de resposta séria. Aconselharam-no a sair no encalço do trem. Mas tomasse muito cuidado.
– Quando o sol esquenta os trilhos viram brasa de as¬sar macaco.
Sol a pino, voltaram todos de mãos abanando e encontraram Honorato de olhos grudados nos pés do prefeito.
– Onde já se viu isso?
Tenente Bezerra balançava a cabeça: sim, senhor, sim, senhor, seguido pelos demais. Raimundo Thaumaturgo dava carão aos berros.
– Só na sua cabeça, tenente, procurar o cabra dentro da cidade.
E abanava o focinho do delegado, vermelhão, tiririca. Estavam ali servindo de palhaços, ouvindo as lambanças do povo, perdendo tempo. E, no mesmo ritmo: olhassem no mato, depressa como quem furta. Pegassem vivo ou morto o cabrinha, fossem buscá-lo até no inferno. Rumassem para as bandas do Pacoti. E, baixando a voz de sabedoria: dizem que é um caboclo daquelas bandas.
Passado o primeiro rompante, pôs-se a passear dentro da sala, dando trégua à garganta.
– Estou apenas querendo ajudar.
Ia e vinha, esperando a fala do tenente, que não dava um pio.
– Que tal uns voluntários?
O delegado abriu a carranca, aplaudiu a idéia, falou em caso complicado. E mandou a tropa ir almoçar ligeiro, enquanto traçava o plano com o prefeito.
– Um batalhão civil, tenente.
Caíram em segredos militares sobre a mesinha, a rabiscar mapas, anotar nomes. Já o delegado, mais sossegado, dava opiniões, criava autoridade. O prefeito sorria, na sua cor de sempre.
Mais com pouco, os praças regressavam, palitando os dentes, às ordens.
– Fiquem todos aqui. Vamos formar o batalhão agora.
Saíram Bezerra e Thaumaturgo rua a fora, passos largos, farejando voluntários. Na XV de Novembro avistaram o primeiro.
– Espera aí, Sombra.
Esperou, voltou-se, arregalou os olhos, tremeu, olhou para os lados, ficou paralisado. Viu-se ladeado e, gaguejando, não conseguia passar do eu... eu... eu...
– A conversa é de patriotismo, Seu Sombra.
Calou-se, foi se firmando no chão, apaziguando os olhos, à medida que ouvia a explanação do prefeito. E logo voltou ao que naturalmente era, cheio de gestos e palavras. Cresceu, encheu os pulmões, deitou sermão contra os maus costumes, a bandalheira, o crime. E lá seguiu o trio, a conselho de Sombra, no rumo dos cafés.
– Convocação pública, senhor prefeito.
Chegados ao Café Progresso, Sombra bateu palmas, chamou todo mundo. O prefeito queria falar a todos de uma vez, para ganhar tempo, sobre questão urgente de interesse da coletividade.
Thaumaturgo se aprumou, arregaçou as mangas da camisa suada, pigarreou e começou a falar do caso do roubo da mo¬ça, da dificuldade que a polícia estava encontrando para desvendar o mistério, do plano do batalhão civil.
– Idéia formidável.
Os que o integrassem seriam beneficiados, de uma forma ou de outra, pela Prefeitura. Coisa de prêmio em dinheiro, empregos para as normalistas. A seguir, alardeou cora¬gem.
– Sou o primeiro voluntário.
Pedia vingança. A cidade havia sido ultrajada por um cabra-de-peia dos matos, um bugre qualquer, uma moça de família maculada em sua honra, a paz ferida. E prometia agir com braço de ferro, como legítimo defensor da cidade.
Sombra trouxe de dentro do café uma cadeira e engendrou um palanque na calçada. Trepado, fez comício. O pequeno ajuntamento de gente virou multidão de tempo de eleição. Os voluntários se alistavam, aos gritos.
– Pode contar comigo, seu prefeito.
Acabada a discurseira, o delegado ordenou que os voluntários o acompanhassem para a explicação detalhada do plano.
– Só os voluntários.
Padre Queiroz aproximava-se, curioso. Inteirado dos preparativos guerreiros, argumentou que o caso era da alçada da polícia e da Igreja. O povo voltasse aos seus quefazeres. Não se estava em tempo de guerra. O prefeito e o delegado não lhe deram ouvidos e o bando seguiu rua acima.
Na Delegacia, Sombra voltou a discursar: um forastei¬ro maculou a honra de uma pobre donzela, estudiosa, católica fervorosa, devota de Santa Luzia, filha de Maria, moça recatada, bondosa, caridosa e formosa. Fez sonetos nas pontas dos dedos, rimando donzela com procela, tudo pesado e medido.
Os valentões ofereciam suas armas para a prática da justiça. Luiz Caracas cortou o ar com uma tesoura, fazendo gestos de cortar a trouxa do criminoso. José Sampaio abriu uma navalha, eufórico.
– Arranco pelo tronco.
João Alencar, de martelo em punho, prometia crucificar o violador da moça. Carlos Ramos e demais magarefes afiavam os pesados facões no cimento do chão. João Dias mostrava venenos mortíferos em pequenos frascos. Perdigão trambecava, garrafa de cachaça à mão. Doutor João Fortes olhava de uma janela de seu sobradão de cem janelas a algazarra e semeava moedas antigas na rua.
– Pobre povo.
Maestro Permínio, bochechudo, soprava o clarim e se oferecia para seguir à frente do batalhão tocando hinos marciais. Zé Lobo subia e descia a rua na Maria Rosa, levando o povo de baixo para a Delegacia.
A cidade, em reboliço, parecia casa de marimbondo cutucada. No cabaré de Ana Souto a pagodeira comia solta. A dona gritava na porta da rua, gargalhando de vez em quando. Dava de graça, durante um mês, todo o material da casa a quem trouxesse de volta a moça violada.
– Tragam pra cá.
No hotel, Victorino pedia aos hóspedes para não se misturarem à canalha. A coisa estava preta e ia dar em morte.
Iracema se enroscava ao pescoço de Franco, suplicante:
– Vamos ficar lendo o romance.
Sossego mesmo só na matriz e no gabinete do juiz. Perto do altar-mor, ajoelhada, Maria da Cunha rezava orações em cima de orações. Ó Maria puríssima, cuja pureza intemerata foi já outrora figurada naquela mestiça sarça, que, rodeada de chamas, permanecia ilesa, por piedade extingui em nós o fogo da maldita concupiscência, pela qual muitas almas vão arder miseramente nas chamas do inferno. E desfiava terços e rosários em meio a jaculatórias, salmos, matinas, laudes, vésperas e completas, alheia ao tempo. Doutor Augusto lia e relia o Código Penal, suando às bicas, longe da zoada da rua.
– Artigo 219.



CAPÍTULO IV


Já o sol esfriava e a assembléia ainda pegava fogo na Delegacia. O prefeito não conseguia fazer valer sua autoridade civil nem o delegado impunha ordem militar. Uma verdadeira fuzarca. A única decisão tomada dizia que a marcha devia subir a Serra na caça ao criminoso – plano que só o vigário ousava denegrir. Mas quando partir? E por que ca¬minho?
Do meio da multidão alvoroçada uma figura espalhafatosa se destacou, abrindo brechas.
– Data venia.
Era a voz estrondosa de Sombra na direção do delegado. Subiu à mesa, ergueu os braços e, cheio de euforia, opinou que deixassem para partir depois de os galos cantarem. Não era hora de se meterem nas brenhas, de se arriscarem a cair em armadilhas. Não era causa de sangria desata¬da. Aclamado por muitos, logo voltou ao chão, assustado pelos berros de Carlos Ramos.
Molenga, se queria mijar fora do caco, corresse logo para a fianga.
– De noite é que é hora de se caçar bicho-do-mato.
Quem tivesse medo de assombração nem era bom se alistar no Regimento. Guerra ficou foi pra macho. Os maricas ficassem cuidando das panelas para receber os guerreiros cobertos de glória. E cuspia fraseados de caserna debaixo das telhas da Delegacia.
Instigado, Sombra voltou à tona, retirou do bolso sapiências mais antigas. A estratégia era filha da cautela. O Grande Imperador Napoleão Bonaparte, por exemplo... Novamente teve voltados para si todos os ouvidos. Patriotas de Palma! Propôs um desfile majestoso pelas ruas, para primeiro mostrar ao povo que o caso era de muito patriotismo. A nação palmense esperava heroísmos de seus bravos filhos, mas não queria sacrificá-los à sanha da besta dos matos.
Não pôde mais fechar a boca, inventando adjetivos em frases intermináveis, em que perdia o fôlego e parecia prestes a estender os braços e voar.
O grupo batia palmas, muito bem, apoiado, isso é que é tino. O orador perdia a noção da realidade e enchia o novo plano de galas e cores mirabolantes.
– Esmagaremos a serpente mitológica que seviciou as deusas no altar esotérico do supremo criador.
Chamassem a banda, o prefeito mandasse buscar as bandeiras do Brasil e de Palma.
Mais com pouco, maestro Permínio soprava com vigor o clarim, fazendo estremecer as grades da cela vazia, e um hino antigo arrepiava até as paredes da velha casa.
Já todos pisoteavam a calçada, quando surgiram os pavilhões. Sombra apoderou-se do de Palma, desfraldou-o e tomou a dianteira. Com o da Pátria abraçou-se o prefeito. E os dois, dando início à marcha, saíram a passos lentos, seguidos da banda, a tocar forte o Hino Nacional, dos demais voluntários e da força pública. Iam de peitos estufa¬dos, mãos sobre os corações, cantando. Unidos pelo movimento.
Diante do sobradão pararam. João Forte, de fraque preto, bengala à mão, cachimbo no canto da boca, posição de estátua, impunha respeito.
– Guerra aos paraguaios!
Saudaram-no alguns. O velho resmungava, solene, or¬dens do tempo do bumba. Falava em súditos do Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil.
– Está caducando.
Irritado, Thaumaturgo fez o cortejo seguir. Ao alcançar a XV de Novembro, engrossou mais e cresceu. Na cauda, mais vinte adeptos, incluídos a Primeira Dama e um papagaio. Na dianteira, os porta-estandartes só faltavam subir aos céus – ora o prefeito à esquerda, ora à direita de Sombra. Mas sempre ombreados.
À altura da alfaiataria de Luiz Caracas, as portas das bodegas do Mercado se foram fechando, tal como quando da passagem das procissões, e nova leva de voluntários ampliou o Batalhão.
Marcha marcial ribombou na direção da Praça de Santa Luzia. E aconteceu que Sombra, trambecando, suado, arfando, tropicou numa pedra mal-assentada do calçamento e, aos trancos e barrancos, se esborrachou no chão. As fileiras rápido se desfizeram e a multidão cercou-o para erguê-lo. Zuruó, só se reanimou após um copo de conhaque de alcatrão de São João da Barra.
Um jumento relinchou junto às paredes do Barracão fechado. A banda voltou a tocar. Reiniciou-se o séquito. Mas já alguma coisa não era igual a antes – o estandarte palmense desfigurado por uns respingos vermelhos, embora ainda conduzido por Sombra, que marchava mais lento.
Ao pisarem a calçada da praça, a banda de novo tocava, maestro Permínio às vésperas de estourar. E, como se obedecendo todos a um só impulso, dirigiram-se ao coreto, lotaram-no e cercaram-no. A um banco subiu Sombra e, pondo-se entre dois reluzentes trombones e bradando em voz rouca apelos formidáveis, dirigiu-se aos que olhavam das janelas pa¬ra o aglomerado. Seguiu-se a lengalenga do prefeito, que tudo repetiu. Depois a banda atacou de ásperos dobrados. Por fim, chegou padre Queiroz.
– Agora o vigário vai pregar.
Ladeado por Sombra e Thaumaturgo, o padre estimulava a procissão, falando do inferno com garganta abrasada.
Após, seguiram adiante, acrescido o préstito de algumas senhoras e senhoritas. Desciam a Avenida Dom Bosco ao toque de hinos cívicos. Ao passarem diante dos Salesianos, os sinos repicaram solenes e outras senhoras e senhoritas deixaram as janelas e se foram juntar aos que marchavam, véus à cabeça, terços e missais à mão, louvando Jesus, Maria e José.
A velha ponte estremeceu ao peso da tropa e correu um zunzum de medo pelos vestidos. Embaixo o fio d’água corria manso sobre a areia branca. Sapos coaxavam ao compasso do hino: Ouviram do Ipiranga ...
Na calçada da Estação novo comício, de que resultou a adesão das famílias dos ferroviários e das quengas de Ana Souto. Falaram Sombra, Thaumaturgo e padre Queiroz. Queriam falar também tenente Bezerra, José Sampaio, João Alencar, Carlos Ramos, Franco Abreu e outros. Mas a coluna já regressava, o vigário puxando pelo braço o prefeito. Sombra se apressou a compor o trio, tomou o outro braço de Thaumaturgo. Padre Queiroz pôs-se a cantar, seguido pelos demais:
O teu corpo sacrossanto
Seja o doce companheiro
Que ao descanso derradeiro
Me conduza sem temor.
O desfile era então um misto de batalhão e procissão. À frente seguiam os porta-estandartes mais o padre, seguidos da banda. Atrás, três colunas de homens armados de facões, facas, navalhas, tesouras, cacetes e outras armas menores. No final, duas fileiras de mulheres, portando rosários, terços, missais, escapulários, fitas, crucifixos e velas acesas. Os armados acompanhavam ufanos o hino marcial da banda. As mulheres cantavam hinos sacros.
Na 7 de Setembro, ao passarem diante da casa de Lutécio Freitas, que, sentado numa cadeira de balanço na calça¬da, lia a Bíblia, a confusão se fez. Uma das beatas havia sibilado:
– Olha o bode.
De repente a marcha harmônica se desfez e avançou na direção do protestante, que, de um pulo, entrou na casa, deixando cair ao chão o livro. A tropa pôs-se a esmurrar a porta e as janelas já fechadas, urrando em desvario.
– Bode! Bode!
Outros pisoteavam o livro e quebravam a cadeira. Para conter a desordem furiosa da multidão, o prefeito e o padre bradaram que deixassem daquilo e abriram os braços em defesa da casa ameaçada. A banda principiou um hino cívico, ca¬minhou e arrastou consigo a turba.
Nas proximidades da Igreja do Rosário, o vigário tomou o comando da coluna, fazendo com que todos cantassem hinos religiosos:
Meu Deus, piedade
Da Pátria estremecida:
Nós o pedimos
Em férvida oração.
Seguindo pela Avenida Proença, a procissão alcançou a Praça da Matriz. Com pouco, a igreja ficou lotada e padre Queiroz fez sermão. Com sua voz estrangeira, falou durante meia hora contra a luxúria, soltando labaredas infernais na direção do raptor da donzela. No final, rezou pelo sucesso da caçada e exortou os fiéis a irem dormir cedo para de madrugada partirem em busca do pecador e da virgem maculada.